domingo, 20 de julho de 2014

A Doutrina Reformada da Predestinação - Livro 5 [02/06]


Calvinismo Na História

7. CALVINISMO NA AMÉRICA

Quando passamos a estudar a influência do Calvinismo como uma força política na história dos Estados Unidos da América, deparamo-nos com uma das páginas mais brilhantes de toda a história Calvinista. O Calvinismo chegou à América no navio "Mayflower"; e Bancroft, o maior dos historiadores Americanos, proclama os Peregrinos Pais "Calvinistas na sua fé de acordo com o sistema mais reto." 18 John Endicott, o primeiro governador da Colônia da Baía de Massachusetts; John Winthrop, o segundo governador daquela Colônia; Thomas Hooker, o fundador de Connecticut; John Davenport, o fundador da Colônia de New Haven; e Roger Williams, o fundador da Colônia de Rhode Island, eram todos Calvinistas. William Pen era discípulo dos Huguenotes. Estima-se que dos três milhões de Americanos à época da Revolução Americana, novecentos mil deles eram de origem Escocesa ou Escocesa-Irlandesa, seiscentos mil eram Ingleses Puritanos; e quatrocentos mil eram Alemães ou Holandeses Reformados. Adicionalmente a este fato, os Episcopais tinham uma confissão Calvinista nos seus 'Trinta e Nove Artigos'; e muitos Franceses Huguenotes também tinham vindo para este mundo setentrional. Assim, vemos que aproximadamente dois terços da população colonial havia sido treinada na escola de Calvino. Nunca na história do mundo uma nação havia sido fundada por pessoas tais como estas. Ademais, esta gente veio para a América não primariamente em busca de ganhos ou vantagens comerciais, mas por causa de profundas convicções religiosas. Parece que as perseguições religiosas em vários países Europeus tinham sido providencialmente usadas para selecionar os mais instruídos e mais progressivos, para a colonização da América. Qualquer que seja a proporção, é geralmente admitido que os Ingleses, Escoceses, Alemães e Holandeses foram os povos mais dominantes na Europa. Lembre-se que os Puritanos, que formavam a grande maioria de colonizadores em New England, trouxeram consigo um Protestantismo Calvinista, que eram inteiramente devotados às doutrinas dos grandes Reformadores, que tinham aversão ao formalismo e à opressão na Igreja ou no Estado; e que naquela colônia o Calvinismo permaneceu como a teologia governante durante todo o período colonial.

Com este pano de fundo, não devemos nos surpreender ao ver que os Presbiterianos tomaram parte muito proeminente na Revolução Americana. Nosso historiador Bancroft diz: "A Revolução de 1776, tanto quanto foi afetada pela religião, foi uma medida Presbiteriana. Foi a conseqüência natural dos princípios legados pelo Presbiterianismo do Mundo Antigo aos seus filhos, os Ingleses Puritanos, os Escoceses Pactuantes, os Franceses Huguenotes, os Holandeses Calvinistas, e os Presbiterianos do Ulster." Tão intensos, universais e agressivos eram os Presbiterianos no seu zelo pela liberdade que falava-se da guerra na Inglaterra, como "A Rebelião Presbiteriana". Um colono, ardente partidário do Rei George III, escreveu a parentes na Inglaterra: "Eu ponho toda a culpa por estes procedimentos extraordinários nos Presbiterianos. Eles têm sido os chefes e os instrumentos principais de todos estes atos inflamatórios. Eles sempre agem e sempre agirão contra o governo, a partir daquele espírito incansável, turbulento e anti-monárquico o qual os tem distinguido em qualquer lugar." 19 Quando as novas "destes extraordinários procedimentos" alcançaram a Inglaterra, o Primeiro Ministro Horace Walpole discursou no Parlamento, "A prima América fugiu com um pastor Presbiteriano" (John Witherspoon, presidente de Princeton, signatário da Declaração da Independência).

A história é eloqüente ao declarar que a democracia Americana nasceu do Cristianismo; e que tal Cristianismo era o Calvinismo. O grande conflito Revolucionário que resultou na formação da nação Americana, foi levado a cabo principalmente por Calvinistas, muitos dos quais haviam sido treinados na rígida Faculdade Presbiteriana em Princeton, e que esta nação é o seu presente a todos os povos amantes da liberdade.

J. R. Sizoo nos diz: "Quando Cornwallis foi acossado à última batalha e rendição em Yorktown, todos os coronéis do Exército Colonial eram à uma anciãos Presbiterianos. Mais da metade de todos os soldados e oficiais do Exército Americano durante a Revolução eram Presbiterianos." 20

O testemunho de Emilio Castelar, o famoso estadista Espanhol, orador e catedrático, é valioso e interessante. Castelar havia sido professor de Filosofia na Universidade de Madri antes que enveredasse pela política; e foi feito presidente da república estabelecida pelos Liberais em 1873. Como Católico Romano, ele detestava Calvino e o Calvinismo. Diz ele: "Foi necessário para o movimento republicano que devesse existir um moralismo mais austera que o de Lutero, o moralismo de Calvino; e uma Igreja mais democrática que a Alemã, a Igreja de Genebra. A democracia Anglo-Saxônica tem, por sua ascendência, um livro de uma sociedade primitiva -- a Bíblia. É o produto de uma teologia severa, aprendida pelos poucos Cristãos fugitivos das obscuras cidades da Holanda e da Suíça, por onde ainda vagueia a sombra melancólica de Calvino . . . E ela permanece serenamente em sua magnificência, formando a porção mais iluminada e mais moral da raça humana." 21

Diz Motley: "Na Inglaterra, as sementes de liberdade, embaladas no Calvinismo e acumuladas através de muitos anos de tentativas, seguiram afinal, através de mar e terra; destinadas a propiciar as maiores ceifas de liberdade moderada para grandes comunidades que ainda não nascidas. 22 "Os Calvinistas fundaram as comunidades da Inglaterra, da Holanda e da América." E de novo, "Aos Calvinistas mais que a qualquer outra classe de homens, são devidas as liberdades políticas da Inglaterra, da Holanda e da América." 23

O testemunho de outro historiador famoso, o Francês Taine, que não professava nenhuma fé religiosa, é digno de consideração. Com relação aos Calvinistas ele disse: "Estes homens são verdadeiros heróis da Inglaterra. Eles fundaram a Inglaterra, apesar da corrupção dos Stuarts, pelo exercício da tarefa, pela prática da justiça, pelo trabalho obstinado, pela vindicação de direito, pela resistência à opressão , pela conquista da liberdade, pela repressão do vício. Eles fundaram a Escócia; eles fundaram os Estados Unidos; e hoje eles, através dos seus descendentes, estão fundando a Austrália e colonizando o mundo." 24

No seu livro "O Credo dos Presbiterianos", E. W. Smith questiona com relação aos colonos Americanos, "Onde eles aprenderam aqueles princípios imortais dos direitos do homem, da liberdade humana, da igualdade e do auto-governo, nos quais eles basearam a sua República; e os quais formam hoje a glória distintiva da nossa civilização americana ? Na escola de Calvino eles os aprenderam. Lá o mundo moderno os aprendeu. Assim a história ensina," (p.121).

Passaremos agora a considerar a influência que a Igreja Presbiteriana, como Igreja, exerceu na formação da República. "A Igreja Presbiteriana", diz o Dr. W. H. Roberts num discurso perante a Assembléia Geral, "foi por três quartos de um século, a única representante neste continente, de um governo republicano como agora organizado na nação." E ele então continua: "Desde 1706 até o início da luta revolucionária o único corpo existente que resistiu pela nossa presente organização política foi o Sínodo Geral da Igreja Presbiteriana Americana. Ela sozinha exerceu a autoridade entre as organizações eclesiásticas e político coloniais, derivada dos próprios colonos, sobre os corpos de Americanos espalhados em todas as colônias, desde Nova Inglaterra até a Geórgia. As colônias nos séculos dezessete e dezoito, deve ser lembrado, enquanto dependiam todas da Grã Bretanha, eram independentes umas das outras. Uma organização tal como o Congresso Continental não existiu até 1774. A condição religiosa do país era similar à condição política. As Igrejas Congregacionais da Nova Inglaterra não tinham nenhuma conexão entre si; e tinham poder algum, fora o do governo civil. A Igreja Episcopal não era organizada nas colônias, dependia da ajuda e de um ministro da Igreja Estabelecida da Inglaterra; e era cheia com uma lealdade intensa para com a monarquia Britânica. A Igreja Reformada Holandesa não se tornou uma organização independente antes de 1771; e a Igreja Reformada Alemã não alcançou tal condição antes de 1793. As Igrejas Batistas eram organizações separadas, os Metodistas eram praticamente desconhecidos; e os Quakers não eram combatentes."

Os delegados reuniam-se anualmente no Sínodo Geral; e como o Dr. Roberts nos diz, a Igreja tornou-se "um elo de união e de correspondência entre grandes elementos na população das colônias divididas". "É de se admirar", ele continua, "que sob uma influência incentivadora, os sentimentos de verdadeira liberdade, tanto quanto as doutrinas de um evangelho sólido, fossem pregados em todo o território desde Long Island até a Carolina do Sul; e que acima de tudo, um sentimento de unidade entre as Colônias começasse vagarosa mas certamente a estabelecer-se? Não se pode por muita ênfase, com relação à origem da nação, na influência daquela república eclesiástica, a qual desde 1706 e até 1774 era a única representante neste continente, de instituições republicanas federais inteiramente desenvolvidas. Os Estados Unidos da América devem muito àquelas Repúblicas Americanas mas antigas, a Igreja Presbiteriana." 25

É claro que não se alega que a Igreja Presbiteriana fosse a única fonte da qual verteram os princípios sobre os quais a república está fundamentada, mas é reclamado que os princípios fundados nos Padrões de Westminster foram a base principal para a república, e que "A Igreja Presbiteriana ensinou, praticou e manteve por inteiro, primeiro nesta terra, aquela forma de governo de acordo com a qual a República foi organizada." (Roberts).

A abertura da luta Revolucionária encontrou as igrejas e os ministros Presbiterianos solidamente alinhados do lado dos colonos; e Bancroft credita-lhes haverem feito o primeiro movimento importante em direção à independência. 26 O Sínodo que reuniu-se na Filadélfia em 1775 foi o primeiro organismo religioso a declarar aberta e publicamente por uma separação da Inglaterra. Aquele organismo urgiu o povo sob a sua jurisdição a não deixar de fazer nada que pudesse promover o objetivo em vista, e conclamou-os todos a orar pelo Congresso que estava, então, em sessão.

A Igreja Episcopal uniu-se então à Igreja da Inglaterra; e opôs-se à Revolução. Um número considerável de cidadãos dentro daquela Igreja, no entanto, labutaram com afinco pela independência e deram toda a sua riqueza e influência para assegurá-la. Deve ser lembrado também que o Comandante em Chefe dos Exércitos Americanos, "o pai do nosso país", era um membro daquela comunidade. O próprio Washington comparecia; e ordenava a todos os seus homens que comparecessem aos cultos celebrados pelos seus capelães, que eram clérigos de várias igrejas. Ele doou quarenta mil dólares para o estabelecimento de uma Faculdade Presbiteriana no seu estado natal, o qual levou o seu nome em honra à doação, tornando-se a Faculdade Washington.

N. S. McFetridge jogou luz sobre outro desenvolvimento maior do Período Revolucionário. De modo que permaneça acurado e completo, temos o privilégio de repetir suas palavras, de maneira tanto quanto extensa. "Um outro fator importante no movimento independente", diz ele, "foi o que é conhecido como a 'Declaração de Mecklenburg', proclamada pelos Presbiterianos Escoceses-Irlandeses da Carolina do Norte em 20 de maio de 1775, mais de um ano antes da Declaração (da Independência) do Congresso. Aquilo foi o cumprimento novo, de coração, dos Escoceses e Irlandeses aos seus irmãos combatentes no Norte, e seu desafio maior ao poder da Inglaterra. Eles haviam observado atentamente o progresso da luta entre as colônias e a Coroa; e quando eles ouviram sobre o discurso proferido pelo Congresso ao Rei, declarando que as colônias encontravam-se realmente em rebelião, eles consideraram chegada a hora de os patriotas falarem. De conformidade, eles convocaram em reunião um corpo de representantes em Charlotte, Carolina do Norte, o qual por resolução unânime declarou o povo livre e independente, e que todas as leis e comissionamentos do rei tornavam-se a partir de então nulos e cancelados. Na sua Declaração constavam resoluções tais como estas: 'A partir de agora nós dissolvemos os laços políticos que nos conectavam à pátria-mãe; e a partir de agora isentamo-nos de toda a obrigação de lealdade para com a coroa Britânica' ..... 'Nós doravante nos declaramos uma nação livre e independente; somos, e de direito devemos ser, uma associação soberana e auto-governante, sob o controle de poder algum a não ser o do nosso Deus e o do governo geral do Congresso; à manutenção do qual nós solenemente confiamos uns aos outros as nossas vidas e a nossa mútua cooperação, nossos bens e a nossa honra mais sagrada.' ..... Aquela assembléia foi composta de vinte e sete Calvinistas comprometidos, apenas um terço dos quais eram anciãos na ativa na Igreja Presbiteriana, incluindo o presidente e o secretário; e um era um clérigo Presbiteriano. O homem que redigiu aquele documento importante e famoso foi o secretário, Ephraim Brevard, um ancião na ativa na Igreja Presbiteriana e graduado na Faculdade Princeton. O historiador Bancroft diz que, 'com efeito, uma declaração tão completa quanto um sistema de governo.' (História dos EUA, volume VIII, 40). Aquele documento foi enviado através de mensageiro especial ao Congresso na Filadélfia; e publicado no 'Cape Fear Mercury' e largamente distribuído em todo o país. É claro que também foi rapidamente transmitido à Inglaterra, onde tornou-se motivo de excitação intensa.

"A identidade de sentimento e a similaridade de expressão entre esta Declaração e a grande Declaração escrita por Jefferson não poderia escapar aos olhos dos historiadores; assim foi que Tucker, em sua obra 'A Vida de Jefferson' diz: 'Cada um deve persuadir-se de que um desses papéis deve ter sido emprestado do outro'. Mas é certo que Brevard não poderia haver 'emprestado' de Jefferson, pois ele o escreveu mais de um ano antes de Jefferson; daí é que Jefferson, de acordo com o seu biógrafo, deve tê-lo 'emprestado' de Brevard. Mas foi um plágio feliz, pelo qual o mundo sinceramente o perdoará. Na correção do seu primeiro rascunho da Declaração, pode ser visto pelo menos em algumas partes, que Jefferson apagou as palavras originais e inseriu aquelas que ele havia primeiramente encontrado na Declaração de Mecklenberg. Ninguém pode duvidar que Jefferson tinha diante de si as resoluções escritas por Brevard enquanto escrevia a sua Declaração imortal." 27

Esta surpreendente similaridade entre os princípios apresentados na Forma de Governo da Igreja Presbiteriana e aqueles apresentados na Constituição dos Estados Unidos da América tem causado muito comentário. "Quando os pais da nossa República sentaram-se para preparar um sistema de governo representativo e popular", diz o Dr. E. W. Smith, "a sua tarefa não era tão difícil quanto alguém poderia imaginar. Eles tinham um modelo para seguir." 28

Se fosse perguntado a um cidadão Americano quem foi o fundador da América, o verdadeiro autor daquela grande República, poderia ser-lhe difícil para responder. Podemos imaginar sua surpresa ao ouvir a resposta desta questão, dada pelo famoso historiador Alemão, Ranke, um dos mais profundos catedráticos da atualidade. Diz Ranke, 'João Calvino foi o fundador virtual da América.' " 29

D'Aubigne, cuja história da Reforma é um clássico, escreve: "Calvino foi o fundador das maiores repúblicas. Os Peregrinos que deixaram o seu país no reinado de James I; e fincaram pé na terra barrenta da Nova Inglaterra, fundaram colônias populosas e poderosas, eram seus filhos, seus diretos e legítimos filhos; e aquela nação Americana que temos visto crescer tão rapidamente proclama como seu pai o humilde Reformador na praia do Lago Leman." 30

O Dr. E. W. Smith diz, "Estes princípios revolucionários de liberdade republicana e de auto governo, ensinados e incorporados no sistema de Calvino, foram trazidos para a América; e nestas novas terras onde eles frutificaram tão imensamente um cultivo foi plantado, pelas mãos de quem? -- as mãos dos Calvinistas. A relação vital de Calvino e do Calvinismo para com a fundação das instituições livres da América, conquanto estranha para alguns ouvidos possa ter parecido a declaração de Ranke, é reconhecida e afirmada por historiadores de todas as terras e de todos os credos." 31

Isso tudo foi inteiramente compreendido e candidamente reconhecido por historiadores e filosóficos tais como Bancroft, que embora estivesse tão longe de ser um Calvinista nas suas convicções pessoais, chama Calvino simplesmente de "o pai da América", e acrescenta: "Aquele que não honra a memória e respeita a influência de Calvino não conhece nada da origem da liberdade Americana."

Quando lembramos que dois terços da população à época da Revolução tinha sido treinada na escola de Calvino, e quando lembramos do quão unida e entusiasticamente os Calvinistas labutaram pela causa da independência, nós prontamente vemos o quão verdadeiros são os testemunhos acima.

Não havia praticamente Metodista algum na América à época da Revolução; e, na verdade, a Igreja Metodista não foi organizada oficialmente como tal, na Inglaterra, até o ano de 1784, o que foi três anos após a Revolução Americana. John Wesley, embora fosse um grande vulto e bom homem, era um "Tory" [N.T.: (a) membro do Partido Conservador Inglês. (b) designação de quaisquer Americanos que, durante o período da Revolução, estivessem do lado Britânico. Também chamados de 'Lealistas'] e cria na não resistência política. Ele escreveu contra a "rebelião" Americana, mas aceitou o resultado providencial. McFetridge nos diz: "Os Metodistas dificilmente tinham um pé nas colônias, quando a guerra começou. Em 1773 eles somavam aproximadamente cento e sessenta membros. Seus ministros eram quase que todos, senão todos, da Inglaterra; e eram ferrenhos partidários da Coroa contra a Independência Americana. Assim é que, quando a guerra estourou eles foram compelidos a saírem do país. Seus pontos de vista políticos estavam naturalmente de acordo com aqueles do seu grande líder, John Wesley, que habilmente exercia todo o poder da sua eloqüência e influência contra a independência das colônias. (Bancroft, História dos E.U.A., Vol. VII, p. 261). Ele não previu que a América independente era para ser o terreno no qual sua nobre Igreja ceifaria suas maiores colheitas; e que naquela Declaração à qual ele se opôs tão bravamente se encontrasse a segurança das liberdades dos seus seguidores." 32

Na Inglaterra tanto quanto na América, os conflitos pela liberdade civil e religiosa nasceram no Calvinismo, foram inspirados pelo Calvinismo; e largamente levados a cabo por homens que eram Calvinistas. E porque a maioria dos historiadores nunca estudaram o Calvinismo seriamente, eles nunca foram capazes de dar-nos conta, de maneira completa e verdadeira, do que foi feito nesses países. É somente necessária a luz da investigação histórica para mostrar-nos como os nossos bisavós criam no Calvinismo e eram por ele controlados. Hoje vivemos numa época em que os serviços dos Calvinistas na fundação deste país têm sido em muito esquecidos; e dificilmente alguém pode tratar deste assunto sem parecer ser um mero elogiador do Calvinismo. Nós bem podemos honrar aquele credo que rendeu frutos tão doces e ao qual a América tanto deve.

8. CALVINISMO E GOVERNO REPRESENTATIVO.

Enquanto a liberdade religiosa e a liberdade civil não têm nenhuma conexão orgânica, elas não obstante têm uma afinidade muito forte entre si; e onde falta uma, a outra não sobreviverá por muito. A história é eloqüente ao declarar que a religião de um povo depende sempre da sua liberdade ou do seu jugo. É uma questão de suprema importância em que doutrinas eles crêem, que princípios eles adotam: pois estes devem servir como a base sobre a qual encontra-se a super estrutura das suas vidas e do seu governo. O Calvinismo foi revolucionário. Ele ensinou a igualdade natural entre os homens; e a sua tendência natural era acabar com todas as distinções de classe e todas as alegações de superioridade as quais apoiavam-se em riqueza ou privilégios adquiridos. A alma do Calvinista, amante da liberdade, fez dele um guerreiro numa cruzada contra aquelas distinções artificiais as quais elevavam alguns homens sobre os demais.

Politicamente, o Calvinismo tem sido a principal fonte de governo republicano moderno. O Calvinismo e o republicanismo são tão relacionados um com o outro como causa e efeito; e onde um povo esteja possuído pelo primeiro, o segundo cedo se desenvolverá. O próprio Calvino sustentava que a Igreja, sob Deus, era uma república espiritual; e ele certamente era um republicano em teoria. James I estava bem ciente dos efeitos quando disse: "O Presbitério concorda tanto com a monarquia, como Deus concorda com o Diabo." Bancroft fala do "caráter político do Calvinismo, que conjunta e instintivamente os monarcas daquele tempo temiam como republicanismo." Um outro historiador Americano, John Fiske, escreveu, "Seria difícil ultrapassar o débito que a humanidade tem para com Calvino. O pai espiritual de Coligny, de William The Silent e de Cromwell, deve ocupar o mais alto posto entre os campeões da democracia moderna . . . . A promulgação desta teologia foi um dos mais largos passos que a humanidade já deu em direção à liberdade pessoal." 33 Emilio Castelar, o líder dos Liberais Espanhóis, diz que "A democracia Anglo-Saxônica é o produto de uma teologia severa, aprendida nas cidades da Holanda e da Suíça." Buckle, na sua obra "História da Civilização" diz, "O Calvinismo é essencialmente democrático," (I, 669). E do hábil escritor político Alexis de Tocqueville, chama o Calvinismo de "Uma religião democrática e republicana." 34

O sistema não somente imbuiu seus convertidos com o espírito de liberdade, mas deu-lhes treinamento prático nos direitos e deveres como homens livres. Cada congregação elegia os seus próprios oficiais e conduzia sua própria administração. Fiske refere-se a ele como "uma das escolas mais efetivas que jamais existiram, para treinar homens em assuntos de governo local de base." 35 A liberdade espiritual é a fonte e a força de todas as demais liberdades; e não precisamos surpreendermo-nos quando nos é dito que os princípios pelos quais eram governados em assuntos eclesiásticos moldaram seus pontos de vista políticos. Eles instintivamente preferiam um governo representativo e obstinadamente ofereciam resistência a todos governantes injustos. Depois que o despotismo religioso é deposto, o despotismo civil não mais pode continuar.

Podemos dizer que a república espiritual fundada por Calvino encontra-se baseada em quatro princípios básicos. Estes foram sumariados por um eminente estadista e jurista Inglês, Sir James Stephen, no seguinte: "Estes princípios eram, primeiramente que a vontade do povo era a fonte legítima de poder dos governantes; em segundo, que o poder era mais apropriadamente delegado pelo povo, aos seus governantes, através de eleições, nas quais cada homem adulto pode exercer seu direito de sufrágio; em terceiro, que um governo eclesiástico, a classe clerical e a classe de membros tinham ambas o direito a uma autoridade igual e coordenada; e em quarto, que entre a Igreja e o Estado, nenhuma aliança, ou dependência mútua, ou outra relação definida, existia necessária ou apropriadamente." 36
O princípio da soberania de Deus, quando aplicado aos assuntos relativos ao governo provaram ser muito importantes. Deus é o supremo Governante, foi investido com soberania, e qualquer que seja a soberania encontrada no homem, esta lhe foi graciosamente concedida. Tomamos as Escrituras Sagradas como autoridade final, uma vez que contém os princípios eternos que são reguladores para todas as idades e em todos os povos. Nas seguintes palavras, as Escrituras declaram o Estado como sendo uma instituição divinamente estabelecida: "(1) Toda alma esteja sujeita às autoridades superiores; porque não há autoridade que não venha de Deus; e as que existem foram ordenadas por Deus. (2) Por isso quem resiste à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos a condenação. (3) Porque os magistrados não são motivo de temor para os que fazem o bem, mas para os que fazem o mal. Queres tu, pois, não temer a autoridade? Faze o bem, e terás louvor dela; (4) porquanto ela é ministro de Deus para teu bem. Mas, se fizeres o mal, teme, pois não traz debalde a espada; porque é ministro de Deus, e vingador em ira contra aquele que pratica o mal. (5) Pelo que é necessário que lhe estejais sujeitos, não somente por causa da ira, mas também por causa da consciência. (6) Por esta razão também pagais tributo; porque são ministros de Deus, para atenderem a isso mesmo. (7) Dai a cada um o que lhe é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra."[Romanos 13:1-7].

No entanto, nenhum tipo de governo, seja ele uma democracia, uma república ou monarquia, foi imaginado haver sido divinamente ordenado para determinada época ou determinado povo, embora o Calvinismo mostrasse uma preferência pelo tipo republicano. "Qualquer que seja o sistema de governo", diz Meeter, "seja monarquia ou democracia ou qualquer outra forma; em cada caso o governante (ou governantes) devia agir como um representante de Deus; e administrar os assuntos do governo de conformidade com a lei de Deus. O princípio fundamental supria ao mesmo tempo o maior incentivo para a preservação da lei e da ordem entre os seus cidadãos, sujeitos que eram, para a glória de Deus, render obediência aos poderes mais altos, quaisquer que estes pudessem ser. Assim é que o Calvinismo foi feito para governos altamente estáveis.

"Por outro lado, este mesmo princípio da soberania de Deus operava como uma poderosa defesa das liberdades dos cidadãos contra governantes tirânicos. Sempre quando soberanos ignorassem a Vontade de Deus, pisoteassem os direitos dos governados e se tornassem tiranos, passava a ser o privilégio e o dever dos sujeitos, à vista da responsabilidade mais alta para com o Soberano supremo, Deus, recusar obediência e até mesmo, se necessário, depor o tirano, através da autoridades menores, apontadas por Deus para a defesa dos direitos dos governados." 37

As idéias Calvinistas com referência a governos e governantes foram habilmente expressas por J. C. Monsma no seguinte e muito lúcido parágrafo: "Governos são instituídos por Deus através da instrumentalidade do povo. Nenhum rei ou presidente tem qualquer poder inerente em si mesmo; qualquer poder que ele possua, qualquer soberania que ele exerça, é poder e é soberania que derivam da grande Fonte, do alto. Não força, mas direito; e direito fluindo da eterna Fonte de justiça. Para o Calvinista é extremamente fácil respeitar as leis e os estatutos do governo. Se o governo não fosse nada mais que um grupo de homens, unidos para concretizar os desejos de uma maioria popular, sua alma amante da liberdade se rebelaria. Mas agora, ao seu entendimento e em conformidade com a sua crença fixa, -- por trás do governo encontra-se Deus e ante Ele, ele se põe de joelhos na mais profunda reverência. Aqui também está a razão fundamental para aquele profundo e quase que fanático amor pela liberdade, também a liberdade política, a qual tem sempre sido uma característica do Calvinista genuíno. O governo é servo de Deus. Isto quer dizer que, COMO HOMENS, todos os oficiais do governo encontram-se em passo igual com os seus subordinados; não têm o direito de reclamar qualquer superioridade em qualquer que seja o sentido. Pela mesma razão, exatamente, o Calvinista prefere a forma de governo republicana, ante qualquer outra. Em nenhum outro tipo de governo a soberania de Deus, o caráter derivativo dos poderes do governo e a igualdade de homens como homens, encontram uma expressão mais clara e mais eloqüente." 38

A teologia dos Calvinistas exaltava um Soberano e humilhava todos outros soberanos perante a Sua maravilhosa majestade. O direito divino de reis e os decretos infalíveis de papas não mais podiam existir entre um povo que colocava a soberania somente em Deus. Mas enquanto esta teologia exaltava infinitamente a Deus como o Governante Todo-Poderoso do céu e da terra e colocava todos os homens em posição de humildade perante Ele, ela também engrandecia a dignidade do indivíduo e ensinava-lhe que todos os homens são iguais como homens. O Calvinista temia a Deus; e ao temer a Deus ele não temia a mais ninguém. Sabendo ter sido ele mesmo escolhido nos conselhos da eternidade e marcado para as glórias do céu, ele possuía algo que dissipava o sentimento de honrarias para com homens e que obscurecia o brilho de toda magnificência terrena. Se uma aristocracia traçasse sua linha de ascendência através de gerações de ancestrais nobres, os Calvinistas, com orgulho mais exaltado, invadiam o mundo invisível; e do livro da vida mostravam o registro da mais nobre cidadania, decretada deste a eternidade pelo Rei dos reis. Por uma linhagem genealógica mais alta que qualquer outra linhagem terrena, eles eram cidadãos da nobreza celeste porque eram filhos e sacerdotes de Deus, co-herdeiros com Cristo, reis e sacerdotes de Deus, por unção e consagração divinas. Coloque a verdade da soberania de Deus na mente e no coração de um homem; e estará colocando aço no seu sangue. A Fé Reformada prestou serviço mais valioso, ao ensinar ao indivíduo os seus direitos.

Em contraste gritante com estas tendências democráticas e republicanas que são vistas serem inerentes à Fé Reformada, vemos que o Arminianismo tem uma tendência muito pronunciadamente aristocrática. Nas Igrejas Presbiterianas e Reformadas, o presbítero vota no Presbitério ou Sínodo ou Assembléia Geral em completa igualdade com o seu pastor; mas nas igrejas Arminianas o poder encontra-se muito mais nas mãos do clérigo, enquanto que o leigo tem muito pouca autoridade real. O Episcopado enfatiza o governo pela hierarquia. O Arminianismo e o Catolicismo Romano (o qual é praticamente Arminiano) prospera sob monarquia, ao passo que ali o Calvinismo tem sua vida dificultada. Por outro lado, o Romanismo, especialmente, não progride numa república; que é onde o Calvinismo se encontra mais em casa. Uma forma aristocrática de governo de igreja tende para o lado da monarquia em assuntos civis, enquanto que uma forma republicana de governo de igreja tende mais para a democracia, nos mesmos assuntos. McFetridge diz, "O Arminianismo é desfavorável à liberdade civil; enquanto que o Calvinismo é desfavorável ao despotismo. Os governantes déspotas dos tempos passados eram rápidos ao observar a clareza dessas proposições; e, reclamando o divino direito de reis, temiam o Calvinismo como o próprio republicanismo." 39

9. CALVINISMO E EDUCAÇÃO.

Novamente, a história apresenta testemunho muito claro de que Calvinismo e educação têm sido intimamente associados. Onde quer que o Calvinismo tenha ido, levou consigo a escola e deu impulso poderoso à educação popular. É um sistema que demanda hombridade intelectual. Na verdade, podemos dizer que a própria existência do Calvinismo encontra-se unida à educação do povo. Treinamento mental é requerido para dominar o sistema e mapear tudo o quanto ele envolve. O Calvinismo apela da maneira mais forte possível à razão humana e insiste que o homem deve amar a Deus não somente com todo o seu coração, mas também com toda a sua mente. Calvino sustentava que "uma fé verdadeira deve ser uma fé inteligente"; e a experiência tem mostrado que a piedade sem o aprendizado é um longo caminho tão perigoso quanto o é o aprendizado sem piedade. Ele viu claramente que a aceitação e a difusão do seu esquema de doutrina era dependente não somente do treinamento dos homens que o deveriam apresentar, mas também na inteligência das grandes massas de humanidade que deveriam aceitá-lo. Calvino coroou seu trabalho em Genebra com o estabelecimento da Academia. Milhares de alunos peregrinos da Europa Continental e das Ilhas Britânicas sentaram-se aos seus pés e depois levaram as suas doutrinas a cada canto da Cristandade. Knox retornou de Genebra inteiramente convencido de que a educação das massas era a muralha mais forte do Protestantismo e a mais certa fundação do Estado. "Com o Romanismo vai o padre; com o Calvinismo vai o professor" é um ditado antigo, a verdade do qual não será negada por qualquer um que venha a examinar os fatos.

Este amor Calvinista pelo aprendizado, colocando a mente acima do dinheiro, inspirou um número incontável. de famílias Calvinistas na Escócia, na Inglaterra, na Holanda e na América, a sacrificarem-se para educar seus filhos. O famoso dito de Carlile, "Que qualquer ser com capacidade de aprendizado pereça ignorante, a isto eu chamo de tragédia," expressa uma idéia que é Calvinista até o cerne. Aonde quer que o Calvinismo tenha ido, lá o conhecimento e o aprendizado foram encorajados e lá uma raça vigorosa de pensadores foi treinada. Os Calvinistas não construíram grandes catedrais, mais foram construtores de escolas, de faculdades e de universidades. Quando os Puritanos da Inglaterra, os Pactuantes da Escócia e os Reformados da Holanda e da Alemanha vieram para a América, eles trouxeram consigo não somente a Bíblia e a Confissão de Fé de Westminster, mas também a escola. E é por isso que o Calvinismo Americano nunca

"Teme as fracas mãos dos céticos, (Dreads the skeptic's puny hands,)
Enquanto perto da escola estiver a torre da sua igreja, (While near her school the church spire stands)."
"Nem teme a regra cega dos intolerantes, (Nor fears the blinded bigot's rule,)
Enquanto perto da torre da igreja estiver uma escola." (While near her church spire stands a school.)"

Nossas três universidades Americanas de grande importância histórica, Harvard, Yale e Princeton, foram originalmente fundadas por Calvinistas, como escolas Calvinistas fortes, destinadas a proporcionar aos alunos uma base sólida em teologia tanto quanto em outros segmentos do aprendizado. Harvard, estabelecida em 1636, foi primariamente destinada a ser escola de treinamento para ministros; e mais da metade das suas primeiras classes a graduarem-se seguiram o caminho do ministério. Yale, algumas vezes chamada de "a mãe das Faculdades", foi por um período de tempo considerável uma rígida instituição Puritana. E Princeton, fundada pelos Presbiterianos Escoceses, estava alicerçada em bases inteiramente Calvinistas.

"Orgulhamo-nos", diz Bancroft, "das nossas escolas regulares; Calvino foi o pai da educação popular -- o inventor do sistema de escolas livres." 40 "Onde quer que o Calvinismo tenha ganhado domínio", ele diz novamente, "invocou a inteligência para as pessoas; e cada paróquia plantou uma escola regular." 41

"O nosso orgulhoso sistema escolar regular", diz Smith, está em débito por sua existência àquela corrente de influências que vieram da Genebra de Calvino, através da Escócia e da Holanda até a América; e, durante os duzentos primeiros anos da nossa história quase que cada colégio e seminário e quase que cada academia e escola regular foi construído e sustentado por Calvinistas." 42

A relação que existe entre o Calvinismo e a educação foi muito bem colocada nos próximos dois parágrafos, escritos pelo Prof. H. H. Meeter, da Faculdade Calvino: "A ciência e a arte foram dádivas da graça comum de Deus; e devem como tais serem desenvolvidos e utilizados. A natureza é obra das mãos de Deus; o incorporar das Suas ideias, na sua forma pura o reflexo das Suas virtudes. Deus foi o pensamento unificador de toda ciência, uma vez que tudo foi o desdobrar do Seu plano. Mas junto com tais razões teóricas, há razões muito práticas porque o Calvinista tem sempre estado intensamente interessado em educação; e porque escolas para iniciação escolar de crianças tanto quanto escolas para aprendizado mais alto aparecerem lado a lado com igrejas Calvinistas; e porque os Calvinistas foram em tão grande medida a vanguarda do movimento universal para a educação moderna. Estas razões práticas estão intimamente associadas com a sua religião. Os Católicos Romanos podem convenientemente passar sem a educação das massas. Para eles a classe clerical -- distintamente dos leigos -- eram os que decidiam sobre matérias relativas à doutrina e ao governo da igreja. Assim, os interesses não requeriam o treinamento das massas. Para a salvação, tudo de que o leigo precisava era uma fé implícita naquilo que a igreja acreditava. Não era necessário ser capaz de explicar de maneira inteligente as doutrinas da sua fé. Nos cultos, não o sermão, mas o sacramento era o importante portador das bênçãos da salvação; o sermão era menos necessário. E, novamente, o sacramento não requeria inteligência, uma vez que operava ex opere operato [N.T.: O ensinamento Católico de que a graça de um sacramento é sempre conferida pelo próprio sacramento. Literalmente quer dizer "da obra realizada"].

"Pois as matérias Calvinistas eram justamente o contrário. O governo da igreja era posto nas mãos dos presbíteros, homens leigos; e estes tinham de decidir sobre os assuntos de política da igreja e os assuntos de peso da doutrina. Ademais, o próprio leigo tinha o grave dever, sem a intermediação de uma ordem sacerdotal, de trabalhar na sua própria salvação; e não poderia faze-lo com uma fé implícita no que a igreja acreditava. Ele devia ler a sua Bíblia. Ele devia conhecer e saber o seu credo. E nisso era um intelectual altamente errado. Mesmo para o Luterano, a educação das massas não era tão urgente quanto para o Calvinista. É verdade que o Luterano também situava o homem diante da responsabilidade pessoal de trabalhar na própria salvação. Mas nos círculos Luteranos, os leigos eram excluídos do ofício do governo da igreja e destarte também da tarefa de decidir sobre assuntos de doutrina. A partir dessas considerações, fica evidente porque o Calvinista devia ser um ferrenho advogado da educação. Se por um lado a Deus era devida a soberania no campo da ciência; e se o sistema Calvinista, muito religioso exigia a educação das massas para a sua própria existência, não é de surpreender-nos que o Calvinista pressionasse o aprendizado ao limite. Para o Calvinista, a educação é uma questão de ser ou não ser." 43

Os padrões tradicionalmente altos das Igrejas Presbiteriana e Reformada, para o treinamento ministerial, são dignas de nota. Enquanto muitas outras igrejas ordenam homens como ministros e missionários e permitem que preguem com muito pouca educação; as Igrejas Presbiteriana e Reformada insistem que o candidato ao ministério seja graduado em uma faculdade e que tenha estudado por no mínimo dois anos, com um professor de teologia aprovado (vide Formas de Governo, cap. XIV, seções III e VI). Como resultado, uma grande proporção desses ministros têm sido capazes de administrar assuntos influentes das igrejas nas cidades. Isto pode significar um menor número de ministros, mas também significa ministros melhor preparados e melhor remunerados.

10. JOÃO CALVINO.

João Calvino nasceu em 10 de Julho de 1509, em Noyon, França; uma cidade com uma catedral antiga, aproximadamente 70 milhas (N.T. aproximadamente 110 Km) a nordeste de Paris. Seu pai, um homem de caráter tanto quanto duro e severo, mantinha a posição como secretário apostólico do bispo de Noyon; e era íntimo das melhores famílias da vizinhança. Sua mãe era notada por sua beleza e piedade, mas morreu ainda jovem.

Ele recebeu a melhor educação que a França da sua época podia proporcionar, estudando sucessivamente nas três universidades mais importantes de Orleans, Bourges e Paris, entre 1528 até 1533. Seu pai tencionava prepará-lo para a profissão legal, uma vez que do direito normalmente surgiam aqueles que galgariam posições de riqueza e influência. Mas não sentindo nenhuma vocação, nenhum chamado em particular para aquele rumo, Calvino voltou-se para o estudo da Teologia; e ali encontrou a esfera de labor para a qual ele estava particularmente preparado por uma habilidade, um dom natural, além de escolha pessoal. Ele foi descrito como sendo de natureza introspecta e tímida, muito estudioso e pontual nos seus trabalhos, animado por um rigoroso sentido de dever, e excessivamente religioso. Muito cedo ele mostrou-se possuído por um intelecto capaz de argumentos convincentes e claros, além de análise lógica. Através de excessivo treinamento ele armazenou sua mente com informação valiosa, mas que prejudicou a sua saúde. Ele avançou tão rapidamente que era, ocasionalmente, convidado a tomar o lugar dos mestres; e era considerado pelos outros estudantes mais como um doutor, do que como um auditor. Calvino era, na sua época, um Católico de carácter irrepreensível. Uma carreira brilhante como humanista, ou advogado, ou clérigo, estava aberta à sua frente, quando ele foi de repente convertido ao Protestantismo; e viu-se jogado à sua sorte, com o grupo dos pobres perseguidos.

Sem qualquer intenção de sua parte, e mesmo contra o seu próprio desejo, Calvino tornou-se o cabeça do partido evangélico em Paris, em menos de um ano após a sua conversão. Seu conhecimento profundo e sinceridade de discurso eram tais que ninguém podia ouvi-lo sem sentir-se fortemente impressionado. Pelo presente ele permaneceu na Igreja Católica, esperando que a sua reforma acontecesse no seu seio e se expandisse, ao invés de vir de fora para dentro. Shaff relembra-nos que "todos os Reformadores nasceram, foram batizados, confirmados e educados na histórica Igreja Católica, que os expulsou; como os Apóstolos foram circuncidados e treinados na Sinagoga, que os expulsou." 44

O zelo e a sinceridade do novo Reformador não ficaram por muito tempo sem serem desafiados; e logo tornou-se necessário que Calvino escapasse, fugindo por sua vida. O seguinte relato, da sua fuga é dado pelo historiador da Igreja, Philip Schaff: "Nicholas Cop, o filho de um distinto médico da corte (William Cop, da Basiléia), e um amigo de Calvino, foi eleito Reitor da Universidade em 10 de Outubro de 1533; e apresentou o discurso inaugural no dia de todos os santos, 01 de Novembro; perante uma grande assembléia na Igreja dos Mathurins. Este discurso, por solicitação do novo Reitor, havia sido preparado por Calvino. Era um pedido por uma reforma nas bases do Novo Testamento; e um ataque frontal aos teólogos escolásticos daquele tempo, que estavam representados como um conjunto de sofistas, ignorantes do Evangelho .... A Sorbonne e o Parlamento consideraram este discurso acadêmico como um manifesto de guerra contra a Igreja Católica, e o condenaram à fogueira. Cop foi avisado e fugiu para os seus parentes na Basiléia. (Trezentas coroas foram oferecidas por sua captura, vivo ou morto). Foi dito que Calvino, o verdadeiro autor do estrago, desceu de uma janela através de lençóis; e escapou de Paris com a capa de um podador de jardim, com uma enxada ao ombro. Seus aposentos foram vasculhados e seus livros e papéis foram apreendidos pela polícia .... Vinte e cinco Protestantes inocentes foram queimados vivos em lugares públicos da cidade, entre 10 de Novembro de 1534 até 05 de Maio de 1535 .... Muitos mais foram multados, aprisionados e torturados; e um considerável número, entre eles Calvino e Du Tillet, escaparam para Strassburg .... Durante quase três anos Calvino vagueou como evangelista fugitivo, usando nomes falsos, de lugar a lugar no sul da França, na Suíça e na Itália; até chegar a Genebra, seu destino final." 45

Pouco depois, senão antes, a primeira edição das suas Institutas aparecerem, em Março de 1536, Calvino e Louis Du Tillet cruzaram os Alpes até a Itália, onde a literatura e artes Renascentistas tiveram origem. Lá ele trabalhou como evangelista até que a Inquisição começou seu trabalho de destruir ambos, a Renascença e a Reforma, como se fossem duas serpentes da mesma espécie. Ele então divergiu seu caminho, provavelmente através de Asota e sobre o Grande São Bernardo, para a Suíça. De Basel ele fez uma última visita à sua cidade natal de Noyon, de forma a resolver de vez alguns assuntos familiares. Então, junto com seu irmão mais novo Antoine e sua irmã Marie, ele deixou a França para sempre, esperando fixar-se em Basel ou em Strassburg e de lá levar a pacata vida de catedrático e de autor. Devido ao fato de que um estado de guerra existia entre Charles V e Francis I, a rota direta através do Lorraine estava fechada, o que o obrigou a fazer uma jornada alternativa, através de Genebra.

Era intenção de Calvino parar somente por uma noite em Genebra, mas a Providência havia decretado o contrário. Sua presença foi sabida por Farel, o reformador Genebriano, que instintivamente sentiu que Calvino era o homem para completar e salvar a Reforma em Genebra. Uma fina descrição desta reunião entre Calvino e Farel é dada por Schaff. Diz ele: "Farel chamou Calvino imediatamente e segurou-o rápido, como se por comando divino. Calvino protestou, alegando sua juventude, sua inexperiência, sua necessidade de mais estudos, sua timidez natural e sua introversão, que não o qualificavam para a ação pública. Mas tudo em vão. Farel, 'que queimava de um zelo maravilhoso para avançar o Evangelho', ameaçou-o com a maldição do Deus Todo-Poderoso caso ele preferisse os estudos ao invés do trabalho do Senhor, e o seu próprio interesse ao invés da causa de Cristo. Calvino ficou aterrorizado e tremia com estas palavras do destemido evangelista; e sentiu 'como se Deus estendesse do alto a Sua mão'. Ele submeteu-se e aceitou a chamada para o ministério, como professor e pastor da Igreja Evangélica de Genebra." 46

Calvino era vinte e seis anos mais moço que Lutero e Zuínglio; e teve e a grande vantagem de construir sobre o alicerce que eles haviam preparado. Os primeiros dez anos da carreira pública de Calvino foram contemporâneos aos últimos dez anos da carreira de Lutero, embora os dois nunca tenham se encontrado pessoalmente. Calvino era íntimo de Melancton contudo, e eles trocaram correspondência até a sua morte.

À época em que Calvino apareceu em cena, não havia ainda sido determinado se Lutero seria o herói de um grande sucesso, ou a vítima de uma grande falha. Lutero havia produzido novas idéias; a obra de Calvino era trabalhá-las num sistema, preservar e desenvolver o que havia começado de maneira tão nobre. Ao movimento Protestante faltava unidade e corria o risco de afundar na areia movediça da disputa doutrinária, mas foi bravamente salvo daquela sina pelo novo impulso, que lhe foi proporcionado pelo Reformador em Genebra. A Igreja Católica trabalhou como uma unidade poderosa e buscava rotular, através de métodos justos ou não, os diferentes grupos Protestantes que haviam surgido no Norte. Zuínglio havia visto este perigo e tinha tentado unir os Protestantes contra seu inimigo comum. Em Marburg, depois de apelos e com lágrimas nos olhos, ele estendeu a Lutero a mão da amizade, a despeito das diferenças de opinião entre eles, quanto à maneira da presença de Cristo na Ceia do Senhor; mas Lutero recusou-a, inibido por uma estreita consciência dogmática. Calvino também, trabalhando na Suíça, com imensa oportunidade de realizar a união da Igreja Italiana, enxergou a necessidade de união e labutou para manter junto o Protestantismo. Para Cranmer, na Inglaterra, ele escreveu, "Eu anseio por uma santa comunhão entre os membros de Cristo. Quanto a mim, se puder ser útil, ficaria contente em cruzar dez oceanos de maneira a concretizar esta unidade." A sua influência, como exercida através de seus livros, cartas; e alunos, era poderosamente sentida nos vários países; e a afirmação de que ele salvou o movimento Protestante da destruição não parece ser exagero.

Durante trinta anos o interesse absorvente de Calvino era o avanço da Reforma. Reed diz, "Ele labutou exaustivamente para isso até o último limite de suas forças, lutou por isso com uma coragem que nunca esmoreceu, sofreu por isso com uma força de vontade inabalável; e estava pronto para morrer por isso a qualquer momento. Ele literalmente derramou cada gota da sua vida nisso, generosamente, sem hesitação. A história será dissecada em vão, na busca de um homem que tenha se entregado a um propósito definido com persistência mais inalterável, e com mais profusão de auto entrega que Calvino deu a si mesmo pela causa da Reforma do século dezesseis." 47

Provavelmente nenhum servo de Cristo desde os dias dos Apóstolos tenha sido ao mesmo tempo tão amado e tão odiado, admirado e aborrecido, exortado e condenado, abençoado e amaldiçoado, do que o fervoroso, destemido e imortal Calvino. Vivendo numa época forçosamente polêmica, e a postos na torre de vigia do movimento da reforma na Europa Ocidental, ele foi o observado de todos os observadores, e foi exposto a ataques de todos os lados. Paixões religiosas e sectárias são as mais fortes e mais profundas; e à vista do bem e do mal que sabidamente existe na natureza humana neste mundo, não deve nos surpreender a recepção dada aos escritos e aos ensinamentos de Calvino.

Calvino tinha apenas vinte e seis anos de idade, quando publicou em Latim as suas "Institutas da Religião Cristã". A primeira edição continha num breve enunciado todos os elementos essenciais do seus sistema, e, considerando a tenra idade do autor, tratava-se de uma maravilha de precocidade intelectual. Foi mais tarde aumentada para cinco vezes o tamanho do original e publicada em Francês, mas ele nunca se apartou radicalmente de quaisquer doutrinas apresentadas na primeira edição. Quase que imediatamente, as Institutas alcançaram o primeiro lugar, como a melhor exibição e melhor defesa da causa Protestante. Outros escritos mal lidaram com certas fases do movimento, mas aqui estava um que tratava dele como uma unidade. "O valor de tal presente para a Reforma", diz Reed, "não pode ser facilmente exagerado. Protestantes e Romanistas ambos igualmente testemunharam para a sua validade. Os primeiros exaltavam-no como uma bênção; os outros execravam-no com as maldições mais amargas. A obra foi queimada por ordem da Sorbonne em Paris e em outras localidades; e em todos lugares ela suscitava os mais violentos assaltos, de línguas e de canetas. Florimond de Raemond, um teólogo Católico Romano, chamou-a de 'o Alcorão, o Talmude da heresia, a causa mais importante da nossa queda'. Kampachulte, outro Católico Romano, testifica que 'foi o arsenal comum do qual os opositores da Igreja Antiga emprestaram suas armas mais poderosas', e que 'nenhum escrito da era da Reforma foi mais temido pelos Católicos Romanos, mais zelosamente combatido, e mais amargamente amaldiçoado do que as Institutas de Calvino'. A sua popularidade foi evidenciada pelo fato de que as edições foram seguindo, em rápida sucessão; foi traduzida para a maioria dos idiomas da Europa ocidental; tornou-se livro principal de textos nas escolas das Igrejas Reformadas, e supriu o material com o qual os seus credos foram feitos." 48

"De todos os serviços prestados por Calvino à humanidade", diz o Dr. Warfield, " -- e não foram nem poucos nem pequenos -- o maior deles foi indubitavelmente seu presente para o afresco deste sistema de pensamento religioso, acelerado numa nova vida pelas forças do seu gênio." 49

As Institutas foram de imediato aclamadas pelos Protestantes com exortações entusiásticas, como a mais clara, a mais lógica e a mais convincente defesa das doutrinas Cristãs desde os dias dos Apóstolos. Schaff caracteriza-as muito bem quando ele diz que nelas "Calvino proporcionou uma exposição sistemática da religião Cristã em geral, e em particular uma vindicação da fé evangélica, com o objetivo prático e apologético de defender os crentes Protestantes contra a calúnia e a perseguição às quais eles encontravam-se expostos, especialmente na França." 50 A obra é permeada por uma sinceridade intensa e por uma argumentação severa e destemida a qual apropriadamente subordina a razão e a tradição à suprema autoridade das Escrituras Sagradas. É admitidamente o maior livro do século, e através dela os princípios Calvinistas foram propagados numa escala imensa. Albrecht Ritschl chama-a de "a obra de arte da teologia Protestante". O Dr. Warfield nos diz que "depois de três séculos e meio ela mantém a sua preeminência inquestionada como o maior e mais influente de todos os tratados dogmáticos." E novamente ele diz, "Mesmo do ponto de vista de simples literatura, ela detém uma posição tão suprema na sua classe que todos que conhecessem os melhores livros do mundo, devem familiarizar-se com ela. O que os Thucydides é entre os Gregos, ou Gibbon entre os historiadores Ingleses do século dezoito, o que Platão é entre os filósofos, ou a Ilíada entre as obras épicas, ou Shakespeare entre os dramaturgos, é o que as Institutas de Calvino são entre os tratados teológicos." 51 A obra 'Institutas' consternou a Igreja Romana e foi uma poderosa força unificadora entre os Protestantes. Ela mostrou que ser Calvino o mais hábil controversialista no Protestantismo e como o mais formidável antagonista com o qual os Romanistas tiveram de contender. Na Inglaterra as Institutas desfrutaram de uma quase que indisputada popularidade; e foram usadas como um livro de textos nas universidades. Elas foram logo traduzidas para nove idiomas Europeus diferentes; e é simplesmente devido à séria falta na maioria das contas históricas que a sua importância não tem sido devidamente apreciada em anos recentes.

Umas poucas semanas depois da publicação das Institutas, Bucer, considerado como terceiro entre os Reformadores na Alemanha, escreveu a Calvino: "É evidente que o Senhor o elegeu como o Seu órgão para o conceder da mais rica e completa bênção sobre a Sua Igreja." Lutero não escreveu nenhuma teologia sistemática. Embora os seus escritos fossem volumosos, eles versavam sobre assuntos dispersos e muitos deles lidavam com os problemas práticos da sua época. Foi então deixado para Calvino, dar uma exibição sistemática da fé evangélica.

Calvino foi, primeiramente, um teólogo. Ele e Agostinho facilmente classificam-se como os dois mais notáveis expositores sistemáticos do Cristianismo desde Paulo. Melancton, quem era ele mesmo o príncipe dos teólogos luteranos, e quem, depois da morte de Lutero, foi reconhecido como o "Preceptor da Alemanha", chamou Calvino preeminentemente de "o teólogo".

Se o idioma das Institutas parece ser difícil em algumas passagens, devemos lembrar que esta foi a marca e a fraqueza da controvérsia teológica naquela época. Os tempos nos quais Calvino viveu eram polêmicos. Os Protestantes estavam engajados numa batalha de vida ou morte com Roma; e as provocações até a impaciência eram sérias e numerosas. No entanto, Calvino foi sobrepujado por Lutero na utilização de linguagem rude, como será prontamente visto num exame da última obra, "A Escravidão da Vontade", que foi uma polêmica escrita contra as idéias do livre arbítrio de Erasmo. E ademais, nenhum dos escritos Protestantes daquele período foram tão rudes e abusivos quanto o foram os decretos Católicos Romanos de excomunhão, de anátemas e etc., os quais foram dirigidos contra os Protestantes.

Adicionalmente às Institutas, Calvino escreveu comentários sobre aproximadamente todos os livros de ambos, o Antigo e o Novo Testamentos. Estes comentários, na tradução em Inglês, compreendem cinquenta e cinco grandes volumes, e, com relação às suas demais obras, são nada menos que maravilhosos. A qualidade desses escritos era tal que eles cedo chegaram ao primeiro lugar entre as obras de exegese sobre as Escrituras; e entre todos os antigos comentaristas, ninguém é mais frequentemente citado pelos melhores catedráticos modernos do que Calvino. Ele foi, além de qualquer questionamento, o maior exegeta do período da Reforma. Como Lutero foi o príncipe dos tradutores, também Calvino foi o príncipe dos comentaristas. [N.A.: Uma nova edição dos comentários de Calvino, em Inglês, foi recentemente publicada (1948), pela Wm. B. Eerdmans Publishing Co., Grand Rapids.]

E mais ainda, para que se possa estimar o verdadeiro valor dos comentários de Calvino, deve-se ter em mente que eles foram baseados nos princípios de exegese os quais eram raros no seu tempo. "Ele mostrou o caminho", diz R. C. Reed, "ao descartar o costume de fazer alegorias com as Escrituras, um costume que vinha desde os primeiros séculos do Cristianismo e o qual havia sido sancionado pelos maiores nomes da Igreja, de Orígenes a Lutero, um costume o qual converte a Bíblia num nariz de cera, e faz de sonhos ao vivo a qualificação primaz dum exegeta." 52 Calvino aderiu estritamente ao espírito e à carta do autor e assumiu que o escritor tinha um pensamento definido o qual estava expressado em linguagem natural e cotidiana. Ele expôs sem perdão as doutrinas e práticas corruptas da Igreja Católica Romana. Seus escritos inspiraram os amigos da reforma e supriram-nos com a mais mortal das munições. Podemos dificilmente sobrestimar a influência de Calvino no salvaguardar e no perpetuar da Reforma.

Calvino foi um mestre no aprendizado patrístico e escolástico. Tendo sido educado nas mais importantes universidades da sua época, ele possuía um conhecimento completo de Latim e de Francês; e um bom conhecimento de Grego e Hebraico. Seus comentários principais apareceram em ambas versões, em Francês e em Latim; e constituem-se obras de grande abrangência. Elas são eminentemente justas e francas; e mostram que o autor ter sido possuidor de singulares balanço e moderação de julgamento. As obras de Calvino tinham um efeito adicional, ao dar forma e permanência ao então instável idioma Francês, em muito da mesma forma em que a tradução da Bíblia por Lutero moldou o idioma Alemão.

Um outro testemunho, o qual não deveríamos omitir, é o de Armínio, o originador do sistema teológico rival. Certamente que temos aqui um testemunho que provém de uma fonte não tendenciosa. "Em seguida ao estudo das Escrituras", ele diz, "Eu exorto meus alunos a buscarem os comentários de Calvino, os quais eu exalto em termos mais elevados do que o próprio Helmick (N.A.: helmick era um teólogo Holandês); pois eu afirmo que ele excede além de comparação na interpretação das Escrituras; e que os seus comentários devem ser valorizados mais altamente do que tudo o que nos é entregue pela biblioteca dos pais; assim é que eu o reconheço como ter tido mais que muitos outros, ou ainda acima que todos outros homens, o que pode ser chamado de uma dádiva eminente de profecia." 53

A influência de Calvino foi ainda mais propalada através de volumosa correspondência que ele manteve com líderes de igrejas, príncipes e nobres, em toda a Cristandade Presbiteriana. Mais de trezentas dessas cartas estão ainda hoje preservadas; e como regra elas não tratam de breves trocas de amizade, mas de tratados longos e elaborados, apresentando de forma maestral os seus admiráveis pontos de vista sobre questões eclesiástico teológicas. Nesta forma, também foi profunda a sua influência ao guiar a Reforma em toda a Europa.

Devido a uma tentativa de Calvino e Farel, para forçar um sistema de disciplina muito severo em Genebra, veio a ser necessário que eles deixassem a cidade temporariamente. Isto ocorreu dois anos após a vinda de Calvino. Ele foi para Strassburg, no sudoeste da Alemanha, onde foi calorosamente recebido por Bucer e os líderes da Reforma Alemã. Ali ele passou os três anos seguintes, em trabalhos quietos e úteis, como professor, pastor e autor; e veio a estar em contato com o Luteranismo em primeira mão. Ele tina uma grande apreciação pelos líderes Luteranos e sentiu-se proximamente aliado à Igreja Luterana, embora fosse desfavoravelmente impressionado com a falta de disciplina e com a dependência do clero para com os governantes seculares. Ele mais tarde acompanhou o progresso da Reforma na Alemanha, passo a passo, com o mais cálido interesse, como é mostrado na sua correspondência e em diversos escritos. Durante a sua ausência de Genebra, os assuntos alcançaram tal crise que parecia que os frutos da Reforma seriam perdidos; e lhe foi então requerido que retornasse com urgência. Depois de repetidas solicitações de várias fontes, ele assim o fez; e retomou o trabalho de onde ele o havia interrompido.

A cidade de Genebra, localizada às margens de um lago que leva o mesmo nome, foi o lar de Calvino. Ali, entre os Alpes cobertos de neve, ele passou a maior parte a sua vida adulta; e dali a Igreja Reformada se estendeu por toda a Europa e até a América. Nos assuntos da Igreja, tanto quanto nos assuntos de Estado, o pequeno país da Suíça exerceu uma influência desproporcional ao seu tamanho.

A influência de Calvino em Genebra nos dá uma boa amostra do poder transformador do seu sistema teológico. "Os habitantes de Genebra", diz o eminente historiador da igreja, Philip Schaff, "eram despreocupados, um povo alegre, fã de divertimentos públicos; danças, cantos, bailes de máscaras e festas ruidosas. Comportamentos inconseqüentes, apostas, bebedices, adultério, blasfêmias; e toda sorte de vícios abundavam. A prostituição era sancionada pela autoridade do Estado, e sua superintendente era uma mulher chamada de 'Reine de bordel'. O povo era ignorante. O padre não tinha se preocupado em instruí-los e havia dado-lhes um mau exemplo." Num estudo de história contemporânea, vemos que pouco antes de Calvino ir para Genebra, os monges e mesmo o bispo eram culpados de crimes que hoje em dia são puníveis com a pena capital. O resultado do trabalho de Calvino em Genebra foi que a cidade tornou-se mais conhecida pela vida quieta, ordeira dos seus cidadãos, do que anteriormente, por sua devassidão. John Knox, como milhares de outros que vieram a sentar-se como estudantes admirados aos pés de Calvino, encontraram o que chamaram de "a mais perfeita escola de Cristo que jamais houve na terra, desde os dias dos Apóstolos."

Através da obra de Calvino, Genebra tornou-se asilo para os perseguidos; e um centro de treinamento para a Fé Reformada. Refugiados de todos as nações da Europa afluíam a este refúgio; e ao voltar, levavam consigo os claramente ensinados princípios da Reforma. Genebra, assim, era como um centro de onde emanava poder espiritual e forças educacionais, as quais guiaram e moldaram a Reforma nos países vizinhos. Bancroft diz, "Mais verdadeiramente benevolente para a raça humana do que Solon, mais negador de si mesmo do que Lycurgus, o gênio de Calvino introduziu elementos duradouros nas instituições de Genebra e fez para o mundo moderno a fortaleza inexpugnável da liberdade popular, o solo fértil para a semeadura da democracia." 54

Encontramos uma testemunha de quão efetivas eram as influências que emanavam de Genebra, numa das cartas do Católico Romano Francis de Sales ao duque de Savoy, exortando a supressão de Genebra como a capital do que a Igreja Romana chama de heresia. "Todos os hereges", escreve ele, "respeitam Genebra como a asilo da sua religião...... Não há nenhuma cidade na Europa que ofereça mais facilidades para o encorajamento da heresia, pois Genebra é portão para a França, para a Itália e para a Alemanha; de modo que qualquer um encontra lá pessoas de todas as nações -- Italianos, Franceses, Alemães, Poloneses, Espanhóis, Ingleses; e de países ainda mais remotos. Além disso, todo mundo sabe do grande número de ministros ali formados. No ano passado Genebra enviou vinte deles para a França. Até a Inglaterra recebe ministros vindos de Genebra. O que dizer das magníficas gráficas de impressão, a partir das quais a cidade inunda o mundo com a sua literatura ímpia; e vai mais longe, ao ponto de distribuí-los às custas dos cofres públicos? .....Todas as empreitadas levadas a efeito contra a Santa Sé e contra os príncipes Católicos tiveram o seu início em Genebra. Nenhuma cidade na Europa recebe mais apóstatas de todas as classes, seculares e regulares. Disso tudo eu concluo que se Genebra for destruída, isto naturalmente levará à dissipação da heresia." 55

Um outro testemunho é o de um dos inimigos mais amargos do Protestantismo, Philip II da Espanha. Ele escreveu ao rei da França: "Esta cidade é a fonte de todos os infortúnios da França, o inimigo mais formidável de Roma. A qualquer tempo, eu estou pronto para assistir à sua destruição, com todo o poder do meu reino." E quando esperava-se que o Duque de Alva passasse com o seu exército perto de Genebra, o Papa Pio V solicitou-lhe desviar e "destruir aquele ninho de diabos e de apóstatas."

A famosa academia de Genebra foi aberta em 1558. Junto com Calvino, haviam se associado dez professores experientes e hábeis, que instruíam em gramática, lógica, matemática, física, música; e línguas antigas. A escola teve admirável sucesso. Durante o primeiro ano, mais de novecentos alunos, a maioria refugiados de vários países Europeus matricularam-se; e quase outro tanto atendeu às suas palestras sobre teologia, preparando-se para serem evangelistas e professores nos seus países de origem e estabelecerem igrejas segundo o modelo que haviam visto em Genebra. Por mais de dois séculos a academia permaneceu como a principal escola de Teologia Reformada e cultura literária.

Calvino foi o primeiro dos Reformadores a demandar a separação completa entre a Igreja e o Estado; e assim ele avançou outro princípio que tem sido de valor inestimável. A Reforma Alemã foi decidida pela vontade do príncipe; a Reforma Suíça, pela vontade do povo; embora em cada caso houvesse uma simpatia entre os governantes e a maioria da população. Os Reformadores Suíços, no entanto, vivendo na república em Genebra, desenvolveram uma Igreja livre num Estado livre, enquanto que Lutero e Melâncton, com a sua reverência nativa às instituições monárquicas e ao Império Alemão, ensinavam obediência passiva na política e trouxeram a Igreja à uma servidão sob a autoridade civil.

Calvino morreu no ano de 1564; com a pouca idade de cinqüenta e cinco anos. Seu amigo próximo e sucessor, Beza, descreveu a sua morte como havendo chegado calmamente, durante o sono, e acrescenta: "Assim recolheu-se ao céu, ao mesmo tempo como ocaso do sol, aquela luminária mais brilhante, que era a lâmpada da Igreja. Na noite e no dia seguintes, houve angústia e lamentação intensas em toda a cidade; pois a República havia perdido seu mais sábio cidadão, a Igreja o seu fervoroso pastor; e a Academia, um professor incomparável."

Num livro comparativamente recente, o Professor Harkness escreveu: "Calvino viveu, e morreu, como homem pobre. Sua casa era parcamente mobiliada; e suas roupas eram simples. Ele livremente dava àqueles que necessitavam, mas ele gastava muito pouco consigo mesmo. O Conselho, uma vez deu-lhe um sobretudo, como para expressar sua estima; e como uma proteção necessária contra o frio do inverno. Isto, ele o aceitou com gratidão, mas em outras ocasiões ele recusava assistência financeira oferecida e declinava de aceitar qualquer coisa adicionalmente ao seu salário modesto. Durante a sua última doença, o Conselho desejava pagar pelos medicamentos usados mas Calvino declinou a oferta, dizendo que ele tinha escrúpulos quanto a receber mesmo o seu salário normal enquanto ele não podia trabalhar. Ao morrer, deixou herança espiritual de valor inestimável e patrimônio terreno de valor entre mil e quinhentos a dois mil dólares." 56

Schaff descreve Calvino como "um daqueles caracteres que comandam respeito e admiração ao invés de afeição, e inibem aproximação familiar mas ganham num relacionamento mais próximo. Quanto mais é conhecido, mais é admirado e estimado." E com relação à sua morte, Schaff diz: "Calvino tinha proibido expressamente toda pompa no seu funeral, assim como que fosse erigido qualquer monumento sobre a sua sepultura. Ele desejava ser enterrado como Moisés, longe do alcance de idolatria. Tal desejo era consistente com a sua teologia, a qual humilha o homem e exalta a Deus." 57 Mesmo o lugar do seu túmulo, no cemitério de Genebra, é desconhecido. Uma lápide simples, com as iniciais "J. C", é mostrada aos estranhos como sendo o lugar onde encontra-se o seu corpo, mas isto, não se sabe com que autoridade. Ele próprio solicitou que nenhum monumento devesse marcar sua cova. O seu real monumento, no entanto, como diz S. L. Morris, é "cada governo republicano na terra, o sistema de escola pública de todas nações, e 'As Igrejas Reformadas em todo o mundo, que adotam o Sistema Presbiteriano'."

E Harkness, embora não sendo sempre um escritor amigável, diz novamente isto: "Aqueles que vêem em Calvino somente austeridade insensível, deixa de enxergar a gentileza quase que feminina a qual ele demonstrava em muitos dos seus relacionamentos paroquiais. Ele angustiava-se com o seu povo nos seus problemas e rejubilava-se com eles nas suas alegrias. Algumas das suas cartas àqueles que haviam sofrido perdas familiares são verdadeiras obras de arte de amorosa simpatia. Quando de algum casamento, ou quando um bebê chegava para alegrar um lar, ele demonstrava caloroso interesse pessoal no evento. Não era difícil para ele parar na rua, no meio de assuntos importantíssimos, para um tapinha das costas e uma palavra de incentivo a uma criança a caminho da escola. Os seus inimigos podem rotulá-lo de papa, ou rei, ou califa; os seus amigos o têm na memória como seu irmão e líder amado." 58 Numa de suas cartas a um amigo, ele escreveu: "Em breve eu devo ir visitá-lo, e então vamos dar juntos umas boas risadas."

Devemos agora considerar um evento na vida de Calvino que, até determinada extensão, projetou uma sombra sobre o seu nome justo, e o qual o expôs à carga da intolerância e à perseguição. Referimo-nos à morte de Servetus, que ocorreu em Genebra durante o período em que Calvino lá vivia e trabalhava. Aquilo foi um erro, admitido por todos. A história conhece somente um ser sem quaisquer manchas -- o Salvador dos pecadores. Todos, todos os demais têm marcas, de defeitos ou de fraquezas, que proíbem a sua idolatria.

No entanto, Calvino tem sido freqüentemente criticado com severidade indevida, como se a responsabilidade fosse sua somente, quando a bem da verdade Servetus passou por um julgamento de tribunal que durou mais de dois meses e foi sentenciado numa sessão do Conselho municipal, de conformidade com as leis que eram então reconhecidas em toda a Cristandade. E longe de incentivar a aplicação mais severa da sentença, Calvino implorou que a espada substituísse o fogo, no que foi derrotado. Calvino e os homens da sua época não devem ser julgados estrita e unicamente pelos padrões avançados do nosso século vinte, mas devem sê-lo à luz da situação no seu próprio século dezesseis. Temos visto grandes desenvolvimentos no que se refere à tolerância civil e religiosa, reforma penitenciária, abolição da escravidão e do tráfico de escravos, feudalismo, caça e queima de bruxas, melhoria das condições dos pobres e etc., o que são resultados posteriores mas genuínos dos ensinamentos Cristãos. O erro daqueles que advogaram e praticaram o que hoje seria considerado intolerância, era o erro geral da época. Não deveria, com justiça, ser permitido dar uma impressão desfavorável dos seus caracteres e dos seus motivos; e muito menos deveria ser permitido o nosso preconceito contra as suas doutrinas em assuntos outros e mais importantes.
Os Protestantes haviam recém se libertado do jugo de Roma e na sua luta para defenderem-se eles foram muitas vezes forçados a lutar contra a intolerância com intolerância. Durante os séculos dezesseis e dezessete, a opinião pública em todas as nações Européias justificavam o direito e o dever dos governos civis para proteger e amparar a ortodoxia e para punir a heresia, sustentando que hereges obstinados e blasfemos deveriam ser tornados inofensivos com a morte, se necessário. Os Protestantes diferiam dos Romanistas principalmente na definição de heresia; e numa moderação maior na punição dela. A heresia era considerara um pecado contra a sociedade; em alguns casos pior que homicídio; pois enquanto o suicídio destruía somente o corpo, a heresia destruía também a alma. Hoje, nos direcionamos para o outro extremo; e a opinião pública manifesta uma indiferença permissiva para com a verdade ou o erro. Durante o século dezoito, o reino da intolerância foi gradualmente minado. A Inglaterra e a Holanda Protestantes lideraram o estender da liberdade civil e religiosa; e a Constituição dos Estados Unidos completou a teoria, colocando todas as denominações Cristãs em paridade perante a lei e ao garantir-lhe o completo desfrutar de direitos iguais.

A conduta de Calvino com relação a Servetus foi completamente aprovada por todos os Reformadores líderes da época. Melancton, a cabeça teológica da Igreja Luterana, total e repetidamente justificou a conduta de Calvino e do Conselho de Genebra; e até mesmo os apontou como modelos para serem seguidos. Quase que um ano após a morte de Servetus ele escreveu a Calvino: "Eu li o seu livro, no qual você refutou ardentemente as blasfêmias horríveis de Servetus .... A você a Igreja agora deve gratidão, e continuará a dever, até a última posteridade. Eu concordo plenamente com a sua opinião. Também afirmo que os seus magistrados agiram corretamente ao punir, depois de um julgamento normal, este homem blasfemo." Bucer, classificado como ocupante do terceiro lugar entre os Reformadores na Alemanha, Bullinger, o amigo chegado e digno sucessor de Zuínglio, tanto quanto Farel e Beza na Suíça, apoiaram Calvino. Lutero e Zuínglio já haviam morrido na época e pode ser questionado se eles teriam ou não aprovado esta execução, embora Lutero e os teólogos de Wittenberg tivessem aprovado as sentenças de morte para alguns Anabatistas na Alemanha, a quem eles consideravam hereges perigosos, -- acrescentando ser cruel puni-los, porém mais cruel seria permitir que continuassem arruinando o ministério da Palavra e destruindo o reino do mundo; e Zuínglio não teve objeções quanto à sentença de morte contra um grupo de seis Anabatistas na Suíça. A opinião pública passou por uma grande mudança com relação a este evento; e a execução de Servetus, que foi totalmente aprovada pelos melhores homens do século dezesseis encontra-se completamente fora de harmonia com os pensamentos no nosso século vinte.

Como dito anteriormente, a Igreja Católica Romana neste período era desesperadamente intolerante para com os Protestantes; e os Protestantes, até determinado ponto e de maneira defensiva, foram forçados a seguir o exemplo daqueles. Com relação às perseguições Católicas, Philip Schaff escreve o seguinte: "Precisamos somente referirmo-nos às cruzadas contra os Albigenses e Waldenses, que foram sancionadas por Inocêncio III, um dos maiores e melhores papas; às torturas e os autos da fé da Inquisição Espanhola, que foram celebrados com festividades religiosas; e aos cinqüenta mil ou mais Protestantes que foram executados durante o reinado do Duque de Alva nos Países Baixos (1567-1573); as várias centenas de mártires que foram queimados em Smithfield sob o reinado de bloody Mary; e as repetidas perseguições no atacado, de Waldenses inocentes na França e em Piedmont, os quais choravam ao céu por vingança. É em vão jogar a responsabilidade sobre o governo civil. O papa Gregório XIII comemorou o massacre de São Bartolomeu não somente com um Te Deum nas igrejas de Roma, mas mais deliberadamente e permanentemente com uma medalha que representa 'A Matança dos Huguenotes' por um anjo de ira." 59

E então o Dr. Schaff continua: "A Igreja Romana perdeu o poder, e a uma grande extensão também a disposição, para perseguir pelo fogo e pela espada. Alguns dos seus mais altos dignatários francamente repudiam o princípio da perseguição, especialmente na América, onde eles desfrutam de todos os benefícios da liberdade religiosa. Mas a cúria Romana nunca repudiaram oficialmente a teoria na qual a prática da perseguição está baseada. Ao contrário, vários papas desde a Reforma têm-na endossado ......... O papa Pio IX, no Syllabus de 1864, expressamente condenou, entre os erros desta época, a doutrina da liberdade e da tolerância religiosa. E este papa foi declarado ser oficialmente infalível pelo decreto do Vaticano em 1870, o qual também abrange todos os seus predecessores (não obstante o perversamente irracional caso de Honório I) e todos os seus sucessores no trono de São Pedro" (p. 669). E em outro lugar, o Dr. Schaff acrescenta, "Se os Romanistas condenaram Calvino, eles o fizeram da hostilidade do homem; e o condenaram por haver seguido o seu próprio exemplo, mesmo neste caso em particular."

Servetus era Espanhol e opunha-se ao Cristianismo, fosse na forma Católica Romana ou Protestante. Schaff refere-se a ele como "um incansável fanático, um panteísta pseudo reformador, e o herege mais audacioso e mesmo blasfemo, do século dezesseis". 60 E em outra ocasião, Schaff declara que Servetus era "orgulhoso, desafiador, contencioso, vingativo, de linguajar irreverente, enganador e falso"; e acrescenta que ele abusou dos Reformadores tanto quanto do papado, com linguagem irracional. 61 Bullinger declara que se o próprio Satã viesse do inferno, ele não poderia usar linguagem mais blasfema contra a Trindade do que este Espanhol. O Católico Romano Bolsec, na sua obra sobre Calvino, chama Servetus de "um homem muito arrogante e insolente", "um monstro herege", que mereceu ser exterminado.

Servetus havia fugido para Genebra procedente de Vienne, na França, e enquanto o julgamento em Genebra estava em progresso, o Conselho municipal recebeu uma mensagem dos juizes Católicos em Vienne, juntamente com uma cópia da sentença de morte que lá havia sido passada contra ele, solicitando que ele fosse enviado de volta de forma que a sentença pudesse ser executada nele próprio, uma vez que já havia sido executada nos seus livros e na sua efígie. Esta solicitação o Conselho recusou, mas prometeu fazer justiça completa no caso. O próprio Servetus preferiu ser julgado em Genebra, uma vez que ele somente podia vislumbrar uma pira funerária esperando por ele em Vienne. A comunicação de Vienne provavelmente fez com que o Conselho em Genebra se tornasse mas zeloso pela ortodoxia, uma vez que eles não desejavam estar atrás da Igreja Romana, naquele aspecto.

Antes de ir para Genebra, Servetus havia se recomendado à atenção de Calvino, através de uma longa série de cartas. Por um tempo Calvino respondeu a estas em considerável detalhe, mas vendo que nenhum resultado satisfatório estava sendo alcançado, ele parou de responde-las. Servetus, no entanto, continuou a escrever e as suas cartas passaram a ter um tom de maior arrogância e até mesmo de insulto. Ele considerava Calvino como o papa do Protestantismo ortodoxo, a quem ele estava determinado a converter ou destruir. Na época em que Servetus veio a Genebra, o partido Libertino, que era em oposição a Calvino, estava no controle do Conselho municipal. Aparentemente Servetus planejava ingressar neste partido e assim expulsar Calvino. Ao que parece, Calvino previu este perigo e não estava disposto a permitir que Servetus propagasse os seus erros em Genebra. Daí é que ele considerou seu dever desarmar homem tão perigoso; e determinou-se a traze-lo ou a uma retratação ou à punição merecida. Servetus foi prontamente preso e trazido à corte. Calvino conduziu a parte teológica do julgamento e Servetus foi condenado de heresia fundamental, falsidade e blasfêmia. Durante o longo julgamento, Servetus encorajou-se e tentou sobrepor-se a Calvino, derramando sobre ele injúrias do tipo mais vulgar. 62 O resultado do julgamento foi deixado para o Conselho municipal, que promulgou a sentença de morte na fogueira. Calvino fez um apelo infrutífero para que a espada substituísse a fogueira; pelo que então a responsabilidade final pelo queimar na fogueira fica com o Conselho.

O Dr. Emilé Doumergue, autor de 'Jean Calvin', que é além de qualquer comparação a obra mais exaustiva e autoritária jamais publicada sobre Calvino, tem o seguinte a dizer sobre a morte de Servetus: "Calvino fez com que Servetus fosse preso quando ele chegou a Genebra, e apareceu como seu acusador. Ele o queria condenado à morte, mas não morte na fogueira. Em 20 de Agosto de 1553, Calvino escreveu para Farel: 'Eu espero que Servetus seja condenado à morte, mas desejo que ele fosse poupado da crueldade do castigo' -- ele se referia à crueldade da fogueira. Farel respondeu-lhe em 08 de Setembro: 'Eu não aprovo muito o sentimentalismo do coração', e segue adiante ao alertá-lo para ser cuidadoso que 'ao desejar que a crueldade do castigo de Servetus seja aliviada, estais agindo como amigo para com um homem que é vosso maior inimigo. Mas rogo a ti que te conduzas de tal maneira que, no futuro, ninguém terá a ousadia de publicar tais doutrinas, e causar problemas com impunidade por tanto tempo quanto este homem tem feito'.

"Calvino, neste sentido, não mudou de opinião, mas ele não podia faze-la prevalecer. Em 29 de Outubro ele escreveu novamente a Farel: 'Amanhã Servetus será executado. Nós fizemos o nosso melhor para mudar o tipo da morte, mas em vão. Quando nos encontrarmos contar-te-ei por que não tivemos sucesso'. (Opera, XIV, pp. 509, 613-657).

Assim, com o que Calvino é mais desaprovado -- a morte de Servetus na fogueira -- ele era diametralmente contra. Ele não é responsável por isto. Ele fez o que ele podia fazer para salvar Servetus da pira. Mas, que reprimendas, mais ou menos eloqüentes, para o que esta pira com as suas chamas e fumaça abriram espaço! A verdade é que sem a pira, sem a fogueira, a morte de Servetus teria quase que passado despercebida."

Doumérgue vai além, ao dizer-nos que a morte de Servetus foi "o erro da época, um erro pelo qual Calvino não era particularmente responsável. A sentença de condenação à morte foi pronunciada somente após as Igrejas Suíças haverem sido consultadas, várias das quais estavam longe de um bom relacionamento com Calvino (mas todas elas deram o seu consentimento) ..... Além do mais, o julgamento foi pronunciado por um Conselho municipal no qual, os inimigos inveterados de Calvino, os do pensamento livre, eram a maioria." 63

Que o próprio Calvino rejeitou a responsabilidade está claro nos seus escritos posteriores. "Desde o tempo em que Servetus foi culpado de sua heresia", disse ele, "eu não manifestei uma palavra sequer sobre o seu castigo, como todos homens honestos testemunharão". 64 E em uma das suas últimas respostas a um ataque que havia sido feito contra ele, ele diz: "Por que ato particular meu você me acusa de crueldade, eu estou ansioso para saber. Eu mesmo sei nada sobre tal ato, a menos que seja com referência à morte do seu grande mestre Servetus. Mas que eu mesmo sinceramente me empenhei para que ele pudesse não ser posto à morte, seus próprios juizes são testemunhas, dentre os quais haviam dois que eram seus verdadeiros favoritos e defensores". 65

Antes da prisão de Servetus e durante as primeiras etapas do julgamento, Calvino advogou a pena de morte, baseando seu argumento principalmente na lei Mosaica, que era "E aquele que blasfemar o nome do Senhor, certamente será morto; toda a congregação certamente o apedrejará. Tanto o estrangeiro como o natural, que blasfemar o nome do Senhor, será morto."[Levítico 24:16] -- uma lei a qual Calvino considerava tão unificador como o decálogo; e aplicável também à heresia. Todavia ele deixou o aplicar da sentença inteiramente ao Conselho municipal. Ele considerava Servetus o maior inimigo da Reforma e acreditava honestamente ser direito e obrigação do Estado punir aqueles que ofendessem a Igreja. Ele também sentia-se providencialmente chamado para purificar a Igreja de todas corrupções, e até o dia da sua morte ele nunca mudou seus pontos de vista nem arrependeu-se da sua conduta com relação a Servetus.

O Dr. Abraham Kuyper, o teólogo estadista da Holanda, ao falar para uma audiência Americana não muitos anos atrás, expressou alguns pensamentos nesta conexão, os quais são dignos de repetirmos. Disse ele: "A tarefa do governo de extirpar cada forma de falsa religião e de idolatria não era uma descoberta do Calvinismo, mas data desde os tempos de Constantino o Grande e foi a reação contra as horríveis perseguições as quais seus predecessores pagãos no trono Imperial tinham infligido sobre o grupo do Nazareno. Desde aquele dia este sistema tem sido defendido por todos os teólogos Romanos e aplicados por todos príncipes Cristãos. No tempo de Lutero e Calvino, era uma convicção universal de que aquele sistema era o verdadeiro sistema. Cada teólogo famoso daquele período, Melancton primeiro de todos, aprovou a morte de Servetus na fogueira; e o patíbulo erigido pelos Luteranos, em Leipsig, para Kreel, Calvinista absoluto; era infinitamente mais repreensível, quando visto do ponto de vista Protestante.

Mas enquanto os Calvinistas, na idade da Reforma, renderam-se como mártires, dezenas de milhares deles, no patíbulo ou na estaca (dificilmente valendo a pena contar as dos Luteranos e dos Católicos Romanos), a história tem sido culpada da injustiça enorme e de longo de sempre trazerem nos dentes esta uma execução na fogueira, de Servetus, como sendo um 'crimen nefandum'.

"Não obstante tudo isso eu não somente deploro aquela sentença, mas eu a desaprovo incondicionalmente; todavia não como se fosse a expressão de uma característica especial do Calvinismo, mas ao contrário como o fatal efeito posterior de um sistema, grisalho com a idade, o qual o Calvinismo encontrou em existência, sob o qual o Calvinismo cresceu, e do qual o Calvinismo ainda não tinha sido capaz de libertar-se por completo." 66

Portanto, quando estudamos esta ocorrência à luz do século dezesseis e consideramos estes aspectos diferentes do caso, -- nominalmente, a aprovação de outros reformadores, a opinião pública que aborrecia a tolerância como envolvendo indiferença para com a verdade e que justificava a pena de morte para a blasfêmia e a heresia obstinada, a sentença também promulgada a Servetus pelas autoridades Católicas Romanas, o caráter de Servetus e a sua atitude para com Calvino, sua ida a Genebra com o propósito de causar problemas, o fato de a sentença haver sido promulgada por uma corte civil fora do controle de Calvino; e o apelo de Calvino para uma forma de punição mais branda, -- chegamos à conclusão de que houveram numerosas circunstâncias atenuantes, e que o que quer que seja dito adicionalmente, o próprio Calvino agiu a partir de um estrito sentido de justiça. Analise-o de qualquer ângulo que queira; pinte-o como Cromwell pediu que fosse ele mesmo pintado -- "defeitos e tudo o mais" -- e, como disse Schaff, "Ele melhora com o relacionamento". Ele foi, além de qualquer questionamento, um enviado de Deus, um encorajador; tal como aparecem somente algumas poucas vezes na história do mundo.


11. CONCLUSÃO.

Nós examinamos o sistema teológico Calvinista em considerável detalhe; e vimos a sua influência na Igreja, no Estado, na sociedade e na educação. Também consideramos as objeções que são usualmente feitas contra ele; e consideramos a importância prática do sistema. Resta-nos agora fazer algumas observações gerais com relação ao sistema como um todo.

Um teste certo do caráter de indivíduos ou de sistemas é encontrado nas próprias palavras de Cristo: "Pelo seu fruto os conhecereis". Por aquele teste os Calvinistas e o Calvinismo terão prazer em serem julgados. As vidas e as influências daqueles que sustentaram a Fé Reformada é um dos melhores e mais conclusivos argumentos em seu favor. Smith refere-se "ao Calvinismo exuberante e divinamente vital, o criador do mundo moderno, a mãe de heróis, de santos e de mártires em número inumerável, cuja história, julgando a árvore pelos frutos, coroa como o maior credo da Cristandade." 67 O veredito imparcial da história é que como formador de caráter e como proclamador de liberdade a homens e nações, o Calvinismo mantém-se supremo entre todos os sistemas religiosos de mundo. Ao chamar a lista dos grandes homens do nosso próprio país, o número de presidentes, legisladores, juristas, autores, editores, professores e homens de negócio Presbiterianos e vastamente desproporcional ao número de membros da Igreja. Todo historiador imparcial admitirá que foi a revolta protestante contra Roma que deu ao mundo moderno o primeiro gosto da genuína religião e liberdade civil; e que as nações que alcançaram e desfrutaram da maior das liberdades foram aquelas que foram mais completamente trazidas sob a influência do Calvinismo. Ainda mais que o Calvinismo fez fluir sobre as planícies da história moderna aquela grande torrente vivificante da liberdade civil e religiosa. Quando comparamos países tais como Inglaterra, Escócia e América, com países tais como França, Espanha e Itália, que nunca vieram a estar sob a influência do Calvinismo, prontamente vemos quais são os resultados práticos. A depressão moral e econômica em países Católicos Romanos trouxe tal diminuição até mesmo na taxa de natalidade, que a população naqueles países tornou-se quase que estacionária, enquanto que a população naqueles outros países tem mostrado crescimento estável.

Uma análise breve da história da Igreja, ou dos credos históricos do Protestantismo, também logo nos mostra que as doutrinas que hoje são conhecidas como Calvinismo foram as que foram trouxeram a Reforma e que preservaram os seus benefícios. Quem estiver familiarizado com a história da Europa e da América prontamente concordará com a brilhante declaração do Dr. Cunningham que, "depois de Paulo, João Calvino fez muito pelo mundo". E o Dr. Smith disse muito bem: "Certamente que deveria fechar as bocas dos que falam mal do Calvinismo, lembrar que dos homens daquele credo nós herdamos, como os frutos do seu sangue e do seu esforço, de suas preces e dos seus ensinamentos; a nossa liberdade civil, a nossa fé Protestante, os nossos lares Cristãos. O leitor pensativo, ao notar que estas três bênçãos repousam na raiz de tudo o que é de melhor e maior no mundo moderno, pode surpreender-se com a reivindicação implícita de que a nossa presente civilização Cristã nada mais é que a frutificação do Calvinismo." 68

Somente repetimos o testemunho muito claro da história, quando dizemos que o Calvinismo foi o credo de santos e de heróis. "Qualquer que seja a causa", diz Froude, "os Calvinistas foram os únicos Protestantes que combateram. Foram eles cuja fé deu-lhes coragem para levantar-se pela Reforma, e não fosse por eles a Reforma teria sido perdida." Durante aqueles séculos nos quais a tirania espiritual enumerava as suas vítimas aos milhares; quando na Inglaterra, na Escócia, na Holanda e na Suíça o Protestantismo tinha de manter-se pela espada, o Calvinismo provou-se o único sistema capaz de enfrentar e destruir os grandes poderes da Igreja Romana. Seu pelotão inigualável de mártires é uma das suas coroas de glória. No discurso da Conferência Metodista à Aliança Presbiteriana de 1896, foi graciosamente dito: "Sua Igreja proporcionou o espetáculo memorável e inspirador, não simplesmente o de uma alma heróica aqui e ali, mas o de gerações de almas fervorosas prontas a irem alegremente para a prisão ou mesmo para a morte pelo benefício de Cristo e da Sua verdade. Esta rara honra vocês corretamente estimam como a parte mais preciosa da sua herança que não tem preço." "Não há nenhum outro sistema de religião no mundo", diz McFetridge, que tenha tal conjunto de mártires pela fé. "Quase que todo homem e mulher que caminharam nas chamas, ao invés de negar a sua fé ou de deixar uma mancha na consciência, foi na verdade o seguidor ou a seguidora devotos, não somente, e acima de tudo do Filho de Deus, mas também daquele ministro de Deus, que fez de Genebra a luz da Europa, João Calvino." 69 "À divina vitalidade e frutificação deste sistema o mundo moderno tem um débito de gratidão, débito este o qual em anos recentes o mundo está vagarosamente começando a reconhecer, mas que nunca poderá pagar.

Dissemos que a teologia Calvinista desenvolve um povo amante da liberdade. Onde ela floresce, o despotismo não consegue existir. Como seria de se esperar, ela cedo fez com que uma forma revolucionária de governo de Igreja aparecesse, na qual o povo da Igreja seria governado e ministrado, não por aqueles apontados por algum homem ou conjunto de homens que se situassem acima deles, mas por pastores e por oficiais eleitos por eles próprios. A religião estava então com o povo, não sobre ele. O testemunho de uma fonte notável quanto à eficiência deste tipo de governo é aquele dado pelo distinto Católico Romano, Arcebispo Hughes, de Nova Iorque: "Embora seja meu privilégio referir-me à autoridade exercida pela Assembléia Geral como usurpação, ainda assim eu devo dizer, em coro com dada homem que tenha conhecimento da maneira na qual ela é organizada, que pelo propósito de governo político e popular sua estrutura é pouco inferior ao do próprio Congresso. Ela age no princípio de um centro de irradiação, e é sem igual ou rival entre as demais denominações do país." 70

Da liberdade e da responsabilidade na Igreja, era somente um passo para a liberdade e para a responsabilidade no Estado; e historicamente a causa da liberdade não encontrou campeões mais bravos ou mais resolutos do que os seguidores de Calvino.

"O Calvinismo", diz Warburton, "não é um credo teórico ou sonhador. Ele não, -- apesar de todas as asserções dos seus adversários, -- encoraja alguém a cruzar os braços num espírito de indiferença fatalística e ignorar as necessidades daqueles à sua volta, juntamente com os males que permanecem, como úlceras putrefatas na face da sociedade." 71 Onde quer que o Calvinismo tenha ido, maravilhosas transformações morais têm seguido o seu rastro. Pela pureza da vida, pela temperança, pela indústria e pela caridade, não tem havido ninguém superior aos Calvinistas.

James Anthony Froude foi reconhecido como um dos mais capazes historiadores e literatos Ingleses. Durante muitos anos ele foi professor de História em Oxford, a maior universidade da Inglaterra. Enquanto ele aceitou para si outro sistema teológico; e enquanto os seus escritos sejam tais que a ele usualmente refere-se como um oponente do Calvinismo, ele não tinha preconceito; e os ataques ignorantes contra o Calvinismo que tornaram-se tão comuns em anos recentes, acenderam nele a inflamada e justa impaciência de catedrático.

"Eu vou pedir-lhes para considerarem", diz Froude, "como pode ser possível que, se o Calvinismo for realmente o credo rude e irracional que o iluminismo moderno declara ser, ele fosse, no passado, para alguns dos maiores homens que jamais viveram, atraente de maneira tão singular; e como -- sendo como nos é dito, fatal para a moralidade, por negar o livre arbítrio -- o primeiro sintoma da sua atuação, onde quer que tenha se estabelecido, foi obliterar a distinção entre crimes e pecados, e fazer da lei moral a regra para Estados tanto quanto para indivíduos. E devo perguntar-lhes, novamente, por que, se este é um credo de servidão intelectual, ele foi capaz de inspirar e de sustentar os mais bravos esforços jamais feitos pelo homem para quebrar o jugo de autoridade injusta. Quando tudo o mais falhou, -- quando o patriotismo cobriu sua face e a coragem humana desapareceu, -- quando o intelecto rendeu-se, como diz Gibbon, 'com um sorriso ou um esgar', satisfeito por filosofar no gabinete, e longe de casa cultuar com os comuns, -- quando a emoção, e o sentimento, e aquela falsa piedade suave tornaram-se criadas da superstição, e abstraíram-se no esquecimento de que existe uma diferença entre verdade e mentiras, -- a forma de crença barata chamada Calvinismo, numa ou em outra das suas muitas formas, proporcionou uma barreira tão inflexível contra a ilusão e a falsidade, preferindo antes ser moída até o pó como o sílex, do que dobrar-se ante a violência ou dissolver-se sob destruidora tentação."

Para ilustrar isto, Froude menciona William the Silent, Lutero, Calvino, Knox, Coligny, Cromwell, Milton e Bunyan; e deles diz: "Estes homens são possuídos por todas as qualidades que dão nobreza e grandeza à natureza humana, -- homens cuja vida foi tão ereta quanto o seu intelecto era comandante e seus objetivos públicos não maculados pelo egoísmo; inalteravelmente justos onde o dever exigia que fossem austeros, mas com corações delicados como o coração feminino; francos, verdadeiros, alegres, de bom humor, tão diferentes de fanáticos amargos como é possível imaginar alguém; e capazes de alguma forma soar o diapasão em resposta ao qual cada coração leal e valente em toda a Europa vibrava instintivamente." 72

Voltaremos agora a nossa atenção para o Calvinismo como uma força evangelizadora. Um teste muito prático para qualquer sistema de doutrina religiosa é, "Tem ele, em comparação com outros sistemas, provado ser um sucesso na evangelização do mundo?" Salvar pecadores e converte-los a Deus é o propósito chefe da Igreja neste mundo; e o sistema que não se adequar a isto deve ser posto de lado, não importa o quão popular ele possa ser em outros aspectos.

O primeiro grande avivamento, no qual três mil pessoas converteram-se, aconteceu depois do discurso de Pedro em Jerusalém, que empregou tal linguagem como: "sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos."[Atos 2:23]. E a companhia dos discípulos, em fervente oração pouco depois, falaram assim: "(27) porque verdadeiramente se ajuntaram nesta cidade contra o teu santo Servo Jesus, o qual ungiste, Herodes e Pôncio Pilatos, com gentios e gente de Israel, (28) para fazerem tudo o que a tua mão e o teu propósito predeterminaram;"[Atos 4:27, 28]. Isto, é Calvinismo rígido o bastante.

O próximo grande avivamento na Igreja, que ocorreu no século quatro através da influência de Agostinho, foi baseado nestas doutrinas, como é de imediato visto por qualquer um que leia a literatura disponível sobre aquele período. A Reforma, a qual é admitida por todos ter sido incomparavelmente o maior dos avivamentos da verdadeira religião desde a época do Novo Testamento, aconteceu sob os inescusadamente Predestinatários sermões de Lutero, Zuínglio e Calvino. Para Calvino e para o Almirante Colignyh pertence o credito de haver inspirado o primeiro empreendimento missionário Protestante no estrangeiro, a expedição ao Brasil em 1555. É verdade que a missão provou ser infrutífera; e as guerras religiosas na Europa tornaram a repetição da missão inviável por um período considerável.

McFetridge nos deu alguns fatos interessantes e comparativamente desconhecidos a respeito do crescimento da Igreja Metodista. Ele diz: "Falamos do começo da Igreja Metodista haver acontecido num avivamento. E assim foi. Mas o primeiro e principal ator naquele avivamento não foi Wesley, mas Whitefield (um Calvinista não comprometido). Embora mais jovem que Wesley, foi ele o primeiro a ir à frente, pregando nos campos e reunindo multidões de seguidores; e levantando fundos e construindo igrejas. Foi Whitefield quem invocou os dois Wesleys para ajudar-lhe. E ele teve de usar de muita argumentação e persuasão para sobrepor-se aos seus preconceitos contra o movimento. Whitefield começou a grande obra em Bristol e Kingswood; e teve milhares caminhando ao seu lado, prontos para serem organizados em igrejas, quando ele apelou a Wesley por ajuda. Wesley, com todo o seu zelo, bem que era um Alto Clérigo, sob muitos dos seus pontos de vista. Ele cria na imersão mesmo das crianças; e demandava que dissidentes fossem re-batizados antes de serem novamente aceitos na Igreja. Ele não podia sequer imaginar uma pregação em qualquer lugar que não fosse numa igreja. 'Ele devia pensar', como ele disse, 'que a salvação de almas fosse quase um pecado, se não fosse feita numa igreja'. Assim, quando Whitefield chamou John Wesley para juntar-se a ele no movimento popular, ele retrocedeu. Finalmente, ele rendeu-se à persuasão de Whitefield, mas, ele permitiu-se ser guiado em sua decisão pelo que muitos qualificariam de superstição. Ele e Charles primeiro abriram suas Bíblias ao acaso para ver se seus olhares recairiam em algum texto que pudesse decidir por eles. Mas os textos eram todos estranhos ao assunto. Então eles recorreram ao sortilégio, e jogaram sortes para decidir sobre o assunto. Aconteceu de sair a sorte marcada por ele como consentindo na empreitada, então ele aceitou-a. Assim, ele foi levado a aceitar desde então a obra com a qual o seu nome tem sido tão intimamente e honoravelmente associado.

Tanto devia o movimento Metodista a Whitefield, que ele era chamado de 'o estabelecedor Calvinista do Metodismo', e até o fim da sua vida ele permaneceu como o representante disto aos olhos do mundo. Walpole, em suas Cartas, fala somente uma vez de Wesley com relação ao aparecimento do Metodismo, enquanto que ele freqüentemente menciona Whitefield, relacionando-o com o tema. Mant, no desenrolar das suas palestras contra o Metodismo, fala dele como um tema inteiramente Calvinista. nem o mecanismo ou a força que fez com que o Metodismo aparecesse e se levantasse originou-se com Wesley. As Pregações ao ar livre, que deram ao movimento Metodista como um todo a característica de agressividade; e o armasse e o capacitasse para fazer frente às agências poderosas que se armaram contra ele, começou com Whitefield, enquanto que 'Wesley encontrava-se confinado à relutância.' Na linguagem polida, do tempo em que 'Calvinismo' e 'Metodismo' eram termos sinônimos, e os Metodistas eram chamados 'outra faceta dos Presbiterianos.'.....

"Foi o Calvinismo, e não o Arminianismo, que originou (tanto quanto qualquer sistema de doutrina originou) o grande movimento religioso no qual a Igreja Metodista nasceu.

"Portanto, enquanto Wesley deve ser honrado por seu trabalho em nome daquela Igreja, não devemos nos esquecer do grande Calvinista, George Whitefield, que deu àquela Igreja seus começos e o seu caráter mais distintivo. Tivesse ele vivido mais tempo, e não se afastado do pensamento de ser o fundador de uma Igreja, muito diferente teriam sido os resultados das suas labutas. Como foi, ele reuniu congregações para que outros organizassem em Igrejas, e construiu templos para que outros pregassem neles." 73

Neste ponto, deveria ser dito que Wesley acreditava em bruxarias. Deixar de acreditar em bruxas ser-lhe-ia creditado como uma concessão para infiéis e racionalistas. Muitos dos seus biógrafos passaram por este assunto em silêncio, embora alguns deles, muito amigavelmente para com a sua causa tenham admitido que ele declarou as suas crenças com palavras que não podem ser incompreendidas. No seu diário, lemos este relato de uma garota que estava sofrendo convulsões: "Quando perguntado qual era o problema com ela, o velho Doutor Alexander respondeu, 'É o que antigamente eles chamariam estar enfeitiçada'. E por que eles não chamariam assim hoje? Porque os infiéis gritaram e espantaram a feitiçaria do mundo; e os Cristãos complacentes, em grande número, uniram-se a eles nos seus gritos." Embora Calvino tivesse vivido como duzentos e vinte e cinco anos antes de Wesley e não tivesse as vantagens do progresso intelectual e científico que foi conquistado naquele período, não encontramos nele esta estranha credulidade. Seus escritos são não somente isentos de brucharias, mas contém numerosos alertas contra tal crença.

O famoso Batista Inglês Charles Hadden Spurgeon (1834 - 1892), um dos maiores pregadores do mundo, pronunciou-se como segue:

"Eu nunca me envergonho de apresentar-me publicamente como um Calvinista. Eu não hesito em tomar o nome de Batista; mas se for perguntado o que é o meu credo, eu respondo, 'É Jesus Cristo.' "

E de novo, "Muitos dos nossos pregadores Calvinistas não alimentam o povo de Deus. Eles crêem na eleição, mas não pregam sobre ela. Eles consideram verdadeira a redenção particular, mas guardam-na do cofre do seu credo e nunca a proclamam abertamente no seu ministério. Eles sustentam a perseverança final, mas eles perseveram em manterem-se calados a respeito. Eles acham que existe coisa tal como chamada eficaz, mas eles não acham que sejam chamados freqüentemente para pregar a respeito. A grande falta que encontramos neles é que eles não falam abertamente sobre o que crêem. Você não saberia, se os ouvisse cinqüenta vezes, se as doutrinas de que falaram eram doutrinas do Evangelho, ou qual era o seu sistema de salvação. E assim é que o povo de Deus passa fome."

Quando passamos ao estudo de missões estrangeiras, vemos que este sistema de crença tem sido a agência mais importante na multiplicação do Evangelho para nações pagãs. St. Paul, quem os oponentes mais liberais do Calvinismo admitem ter sido responsável pela casta Calvinista do pensamento teológico da Igreja, foi o maior e mais influente dos missionários. Se enumeramos o time de heróis de Missões Protestantes, vemos que quase que sem exceção eles foram discípulos de Calvino. Encontramos Carey e Martin na Índia, Livingstone e Moffat na África, Morrison na China, Paton nos Mares do Sul; e uma multidão de outros. Estes homens professavam e possuíam um Calvinismo não estático, mas dinâmico; não era somente o seu credo, mas a sua conduta.

E com relação a missões estrangeiras, o Dr. F. W. Loetscher disse: "Embora como todas nossas Igrejas irmãs nós tenhamos motivos para, à vista dos nossos recursos sem precedentes e da necessidade gritante das terras pagãs, lamentar que não tenhamos conseguido mais, podemos pelo menos agradecer a Deus que os nossos venerados pais começaram tão bem, ao estabelecer missões em todo o mundo; que as Igrejas Calvinistas hoje em dia ultrapassam todas as demais nas suas contribuições para esta causa; e em particular que a nossa própria denominação tenha a honra e o privilégio ímpares de descarregar as suas responsabilidades de longo alcance por realmente confrontar cada uma das grandes religiões não Cristãs, e pregar o Evangelho em mais continentes, e entre mais nações, povos e línguas, do que qualquer outra Igreja evangélica no mundo." 74

Embora para alguns possa parecer como um exagero injustificável, não hesitamos dizer que através dos séculos o Calvinismo, destemidamente e com polêmico alarde na sua insistência pela, e na defesa da sã doutrina, tem sido a verdadeira força da Igreja Cristã. Os padrões tradicionalmente elevados das Igrejas Calvinistas com relação à cultura e ao treinamento ministerial, têm propiciado uma grande seara no trazer as multidões até os pés de Jesus, não em excitação efêmera, mas num pacto perpétuo. A julgar pelos frutos, o Calvinismo tem se provado ser incomparavelmente a maior força evangelizadora no mundo.

Os inimigos do Calvinismo não são capazes de honestamente confrontar o testemunho da história. Certamente que um recorde glorioso pertence a este sistema teológico, na história da civilização moderna. Nenhum mais nobre pode ser encontrado em qualquer lugar. "Tem sido um mistério constante para os assim chamados liberais", diz Henry Ward Beecher, "que os Calvinistas, com o que eles consideram doutrinas e pontos de vista rígidos e toscamente déspotas, fossem sempre os defensores mais ferrenhos e mais bravos da liberdade. O operar para a liberdade, destes severos princípios nas mentes de todos aqueles que os adotaram tem sido um mistério. Mas a verdade está aqui: O Calvinismo tem feito o que nenhuma outra religião jamais foi capaz de fazer. Ele apresenta o mais alto ideal humano para o mundo, e elimina totalmente a estrada para a destruição, com a bateria mais poderosa que se possa jamais imaginar.

"O Calvinismo intensifica, além de todos exemplos, a individualidade do homem e mostra, numa luz clara e super potente, a sua responsabilidade para com Deus e suas relações com a eternidade. Ele aponta o homem como adentrando à vida sob o peso duma tremenda responsabilidade, tendo na sua marcha em direção ao túmulo, este único consolo -- da segurança do céu e do livramento do inferno.

"Assim o Calvinista vê o homem pressionado, incomodado, exortado, pelas forças mais poderosamente influentes. Ele está na marcha para a eternidade, e cedo deverá estar sendo coroado no céu ou queimando no inferno, e assim continuará por toda a eternidade. Quem ousará deter tal criatura? Saia do seu caminho! Não interfira, ou faça-o com o risco da sua própria alma. Deixe-o livre para encontrar o seu caminho para Deus. Não interfira com ele ou com os seus direitos. Deixe-o operar a sua própria salvação conforme puder. Não se pode pressionar ou empurrar uma criatura que esteja em tal corrida como esta -- uma corrida cujo final será a glória eterna ou a inalterável danação para sempre e sempre." 75

"Esta árvore", para adotar o parágrafo eloqüente de outro, "pode ter, aos olhos preconceituosos, a casca muito grossa, o tronco cheio de nós e galhos feios retorcidos, conferindo-lhe formas totalmente sem graciosidade. Mas, lembre-se, não estamos falando de salgueiros de outrora. Estes galhos foram retorcidos com a força de tempestades sofridas por mil anos; este tronco foi marcado por relâmpagos e ganhou cicatrizes das faíscas e dos desastres; e a casca em toda sua extensão traz as marcas do machado de batalha e das balas. Este velho carvalho não tem a graça maleável ou a maciez aveludada de uma planta de estufa, mas tem uma majestade acima da graciosidade, e uma grandeza além da beleza. Suas raízes podem ser estranhamente retorcidas, mas algumas delas foram enriquecidas com o sangue de gloriosos campos de batalha, algumas delas enrodilharam-se ao redor de estacas fincadas para o suplício e morte de mártires; algumas delas podem estar agora escondidas em celas de prisões ou em bibliotecas vazias, onde grandes pensadores meditaram e oraram profundamente, como numa Patmos apocalíptica; e esta grande raiz muda de rumo até torcer-se, envolvendo e abraçando amorosamente a cruz do Calvário. Os seus galhos podem ser retorcidos, mas eles vestem-se com tudo o quanto é mais rico e mais forte na civilização e no Cristianismo da história humana." 76

A medida em que pesquisamos este sistema, sentimo-nos como alguém defronte ao manual de um grande órgão. Nossos dedos tocam as teclas, e toque após toque vamos abrindo os registros, até que todo o coro responda, numa grande harmonia. O Calvinismo toca a música da vida, porque primeiro e acima de tudo busca o Criador e O encontra em todos lugares. Ou de novo, como se estivéssemos fora, no espaço; a grande redoma celestial sobre nós, a extrema expansão da eternidade em toda a volta das nossas almas e acima de tudo, está DEUS. Ou de novo, se encontrássemo-nos, como se fosse, sobre rochedos; o descampado às nossas costas, uma ravina à nossa frente, o poderoso rio do tempo com sua torrente em direção à eternidade, o sol no zênite sobre nós, tudo em radiante luz e calor, e a um primeiro sussurro, nossas almas ecoam de volta as palavras, "Ó profundidade da riqueza!" Pois o Calvinismo nos mostra Deus e segue Suas pegadas, -- Deus, em toda a Sua grandeza, em toda a Sua majestade, em toda a Sua sabedoria, em toda a Sua justiça, em todo o Seu amor. O Calvinismo nos mostra Deus alto e elevado; e nossas almas clamam novamente, 'que é o homem, para que te lembres dele?'[Salmo 8:4]."

Não se trata de um elogio vão e vazio ao Calvinismo. Com os fatos e observações acima, cada leitor da história, esclarecido e imparcial, concordará. Ademais, o autor deseja dizer deste livro o que o Dr. E. W. Smith disse no seu livro "O Credo dos Presbiterianos", no final do capítulo I - "O Credo Testado Pelos Seus Frutos", -- nominalmente que estes fatos e observações são "apresentados, não para estimular vaidade denominacional, mas para encher-nos com gratidão a Deus por aquela história passada e aquele eminência do presente, que deveria ser para cada um de nós.

'Um terreno vantajoso para a nobreza'; e acima de tudo, atiçar nos nossos corações um entusiasmo santo por aquele sistema Divino da verdade, o qual, sob Deus, tem sido o fator mais importante na construção da América e do mundo moderno."

Para concluir, diríamos que o leitor encontrou neste livro uma divindade bem antiga -- divindade tão antiga quanto a Bíblia, tão antiga e mais antiga que o próprio mundo, uma vez que este plano de redenção estava oculto nos eternos conselhos de Deus. Nenhuma tentativa foi feita para ocultar o fato de que as doutrinas advogadas e defendidas nestas páginas são verdadeiramente maravilhosas e verdadeiramente impressionantes. Elas são suficientes para eletrizar o pecador adormecido que presumiu durante toda a sua vida que poderia 'ajeitar as coisas' com Deus a qualquer momento que lhe convenha; e estas doutrinas são suficientes para horrorizar o "santo" adormecido que tem se iludido na tranqüilidade amortecida de uma religião carnal. Mas por que não deveriam elas causar espanto? As maravilhas não abundam na natureza? Porque não revelação? Uma pessoa precisa ler somente um pouco para ver de que a Ciência traz à luz muitas verdades assombrosas que alguém não instruído acha difícil, senão impossível de acreditar; então por que não deveria ser assim também com relação às verdades de Revelação e aquele espiritualmente sem instrução? Se o Evangelho não atemorizar e assustar e maravilhar um indivíduo quando lhe apresentado, então não se trata do verdadeiro Evangelho. Mas quem jamais maravilhou-se com o Arminianismo, com a sua doutrina de que cada homem constrói o seu próprio destino? Não satisfará, simplesmente ignorar ou ridicularizar estas doutrinas, como muitos estão inclinados a fazer. A questão é, Estas doutrinas são verdadeiras? Se elas são verdadeiras, por que ridicularizá-las? Se elas não são verdadeiras, refute-as. Terminamos com a declaração de que este grandioso sistema de religião, pensamento o qual carrega o nome de Calvino, não é nada mais e nada menos que a esperança do mundo.
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Por Loraine Boettner, D.D.a
Fonte: Monergismo
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