domingo, 6 de julho de 2014

É uma abominação atribuir forma visível a Deus, e geralmente se apartam do Deus verdadeiro quantos estabelecem ídolos para si [01/08]


1. REPRESENTAR A DEUS ATRAVÉS DE IMAGENS É CORROMPER-LHE A GLÓRIA 

Como, porém, a Escritura, levando em conta o parvo e tacanho entendimento humano, costuma expressar-se de maneira acessível à mente popular, quando tem em mira distinguir dos falsos o Deus verdadeiro, contrasta-o especialmente com os ídolos, não que, em assim fazendo, aprove o que, mais sutil e elegantemente, ensinam os filósofos, mas, antes, para que melhor exiba a estultícia do mundo; mais do que isso, sua completa loucura, enquanto, ao buscar a Deus, a todo tempo cada um se apega a suas próprias especulações.

Portanto, essa definição exclusiva, a qual, em referência à unicidade de Deus, por toda parte se manifesta, reduz a nada tudo quanto os homens, segundo a própria cogitação, engendram para si acerca da divindade, porquanto somente Deus é teste- munha idônea de si próprio.

Enquanto isso, já que este degradante embrutecimento se apossou de todo o orbe, de tal modo que os homens buscassem representações visíveis de Deus, e por isso forjassem deuses da madeira, da pedra, do ouro, da prata, ou de outro qualquer material inanimado e corruptível, a este princípio temos de apegar-nos: sempre que é lhe atribuída qualquer representação, a glória de Deus é corrompida por ímpio engano. E assim na lei, após haver arrogado unicamente para si a glória da Deidade, quando visa a ensinar que gênero de adoração aprova, ou repudia, Deus acrescenta de imediato: ‘Não farás para ti imagem esculpida, nem qualquer semelhança” [Ex 20.4], palavras com as quais nos coíbe o desenfreamento, para que não tentemos representá-lo por meio de qualquer figura visível. E enumera, de maneira sucinta, todas as formas mediante as quais, já desde outrora, a superstição começara a converter sua verdade em mentira.

Ora, sabemos que o sol fora adorado pelos persas. Também, tantas quantas es- trelas as pessoas estultas divisavam no céu, outros tantos deuses para si inventavam. Quase não houve animal algum que para os egípcios não se convertesse em representação de alguma divindade. Os gregos, verdade seja dita, pareceram exceder em sabedoria aos demais, pois adoraram a Deus sob forma humana.34 Entretanto, Deus não compara essas imagens entre si, como se uma fosse mais apropriada, outra o fosse menos; ao contrário, repudia, sem exceção, todas as efígies esculturadas, pinturas e outras representações, mediante as quais os supersticiosos supuseram que ele lhes haveria de estar perto.

2. REPRESENTAR A DEUS POR MEIO DE IMAGENS É CONTRADIZER-LHE O SER

Isso pode ser facilmente inferido das razões que ele anexa à sua proibição.35 Primeiramente, através de Moisés [Dt 4.15]: “Lembra-te do que o Senhor te falou no vale do Horebe: ouviste uma voz, porém corpo não viste; guarda-te, portanto, a ti mesmo, para que não aconteça que, se fores enganado, para ti faças qualquer representação” etc. Vemos como Deus opõe abertamente sua voz a todas as representações, para que saibamos que, todos quantos buscam para ele formas visíveis, dele se apartam.

Dentre os profetas, será suficiente um só, Isaías, que é muito incisivo nesta demonstração, visto que ensina que a majestade de Deus é maculada de vil e absurda ficção, quando o incorpóreo é nivelado à matéria corpórea, o invisível à representação visível, o espírito à coisa inanimada, o imenso a um pequeno pedaço de madeira, pedra ou ouro [Is 40.18; 41.7, 29; 45.9; 46.5]. Paulo também arrazoa de modo idêntico: “Visto que somos geração de Deus, não devemos pensar que o divino seja semelhante ao ouro, à prata ou à pedra trabalhada pela arte ou invenção do homem” [At 17.29]. Do quê transparece que, qualquer estátua que se erige, ou imagem que se pinta para representar a Deus, simplesmente lhe desagrada como coisas afrontosas a sua majestade.

E não surpreende se do céu o Espírito Santo troveja estes oráculos, quando da terra até aos míseros e cegos idólatras ele compele a fazer tal confissão! É conheci- da aquela queixa de Sêneca, que se lê em Agostinho: “Dedicam”, diz ele “os deuses sagrados, imortais e invioláveis em matéria mui vil e ignóbil, e os revestem da aparência dos homens e das feras; alguns até os representam com sexo misturado e corpos diversos, e os chamam de deidades, figuras que, se recebessem alento e parassem a nossa frente, por monstros haveriam de ser tidas.”

Do quê, novamente, mui claramente se evidencia que os patronos das imagens se arrimam em frívolo sofisma, os quais alegam terem elas sido vedadas aos judeus, porquanto eram propensos à superstição. Como se, na verdade, o que Deus revela de sua eterna existência e da contínua ordem da natureza pertencesse a um só povo! Aliás, Paulo não estava discursando aos judeus, mas aos atenienses, quando impugnava o erro de representar a Deus por meio de imagens.
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As Institutas, volume I, capítulo XI - Edição Clássica
Por João Calvino
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