domingo, 13 de julho de 2014

É uma abominação atribuir forma visível a Deus, e geralmente se apartam do Deus verdadeiro quantos estabelecem ídolos para si [02/08]


3. MANIFESTAÇÕES E SINAIS QUE PATENTEAVAM A PRESENÇA DIVINA NÃO SERVEM DE BASE  PARA AS IMAGENS

É verdade que, de quando em quando, Deus exibiu a presença de sua divinal majestade mediante sinais definidos, de modo que se poderia dizer que era ele contemplado face a face. Todos os sinais, porém, que Deus manifestava se ajustavam muito bem a seu método de ensinar e ao mesmo tempo advertiam os homens, de forma explícita, quanto a sua essência incompreensível. Ora, nuvem, fumaça e chama, uma vez que eram símbolos da glória celestial [Dt 4.11], como que a interpor um freio, coibiam as mentes de todos para que não tentassem penetrar mais fundo. Por isso, nem ainda Moisés, a quem, entretanto, mais do que a outros, Deus se manifestou mui intimamente, logrou com suas súplicas contemplar aquela face, senão que recebeu a resposta de que o homem não é apto a tão grande resplendor [Ex 33.20]. O Espírito Santo apareceu em forma de pomba [Mt 3.16; Mc 1.10; Lc 3.22]; mas, visto que logo se desvaneceu, quem não vê que, pelo símbolo de um simples momento, foram os fiéis advertidos de que se deve crer que o Espírito é invisível, e assim, contentes com seu poder e graça, a si não evocassem nenhuma representação externa? Além do mais, o fato de que, de quando em quando, Deus aparecia sob a forma de homem, era isso prelúdio da futura manifestação em Cristo. E assim foi absolutamente vedado aos judeus abusarem desse pretexto de sorte a plasmarem para si representação da Deidade em figura humana. Também o propiciatório, donde sob a lei Deus manifestou a presença de seu poder, fora construído de tal modo que indicava ser esta a mais excelente visão da Deidade: quando as mentes se elevam acima de si mesmas em admiração, pois com asas estendidas os querubins o ocultavam, o véu  o cobria, o próprio lugar, pela própria natureza tão recôndito, escondia suficientemente [Ex 25.17, 18, 21]. Logo salta à vista que são ensandecidos quantos tentam defender imagens de Deus e dos santos com o exemplo desses querubins. Pergunto, pois, que significavam essas imagenzinhas, senão que não há imagens apropriadas pelas quais sejam representa- dos os mistérios de Deus, quando haviam sido feitas para isto: com as asas, velando ao propiciatório, barrassem da visão de Deus não apenas os olhos humanos, mas todos os sentidos, e dessa forma contivessem a temeridade humana ? Acresce a isto que os profetas pintam os serafins que lhes foram manifestos em visão com a face velada em relação a nós, significando com isso ser tão grande o fulgor da glória divina, que até os próprios anjos se continham de contemplação direta, e as tênues centelhas que refulgem em seus anjos nos são subtraídas aos olhos. 

Contudo, todos quantos julgam com acerto reconhecem que os querubins, dos quais ora estamos tratando, pertenciam à antiga tutela da lei. Logo, é absurdo tomá- los como exemplo que sirva a nossa época, uma vez que é passada, por assim dizer, aquela fase infantil a que se haviam destinado rudimentos como esses [Gl 4.3]. E certamente é de causar vergonha o fato de que os escritores profanos sejam mais proficientes intérpretes da lei de Deus que os papistas. Juvenal, em zombaria, censura aos judeus por adorarem as meras nuvens e a divindade do céu.37  Por certo que ele está falando pervertida e impiamente. Entretanto, negando existir entre eles qualquer efígie divina, fala mais verazmente que os papistas, que grasnam haver existido entre os judeus alguma representação visível de Deus. No que tange a esse povo, logo, sem qualquer consideração, precipitou-se e foi após os ídolos tão prontamente e com tanto ímpeto como se dá com as águas quando abundantemente fluem do manancial; assim também podemos aprender quão grande é a inclinação que em nós existe para a idolatria, em vez de atribuir aos judeus um vício que pertence a todos nós, a fim de perseverar assim nos sonhos dos vãos afagos e da licença para pecar.38

4. A BÍBLIA  CONDENA IMAGENS  E  REPRESENTAÇÕES DE DEUS

A mesma linha segue esta afirmação : “Os ídolos dos povos são prata e ouro, obras das mãos dos homens” [Sl 115.4; 135.15], pois o Profeta conclui não só de sua materialidade que não são deuses esses cuja imagem é de ouro ou prata, mas ainda assume por pressuposto que é insípida imaginação tudo quanto de nosso próprio senso concebemos acerca de Deus. Menciona o ouro e a prata antes que a argila ou a pedra, para que, seja o esplendor, seja o valor, não induzam sua reverência para com os ídolos. Conclui também, de modo geral, que nada é menos provável que serem os deuses plasmados de qualquer espécie de matéria morta. Ao mesmo tempo, insiste não menos neste outro ponto : que os mortais são trans- portados de temeridade supinamente insana, dando aos ídolos a honra devida a Deus, já que eles mesmos, com muitíssima dificuldade, podem assegurar que viverão um só momento.39 O homem se vê compelido a confessar que é ele uma criatura efêmera, e não obstante quer que um metal, a cuja divindade deu origem, seja considerado deus! Pois, de onde tiveram os ídolos seu princípio senão no arbítrio dos homens?   

Muito justo é o motejo daquele poeta profano:40
“Outrora eu era um tronco de figueira, um inútil pedaço de lenho, Quando um artífice, incerto se deveria fazer um banco etc., Preferiu que eu fosse um deus.”
  
Desta forma, um homenzinho terreno, que a vida exala quase que a cada instante, mercê de sua arte, transfere o nome e a dignidade de Deus a um tronco sem vida! Não obstante, uma vez que esse epicureu, cinicamente a gracejar, não se importou com religião alguma, postos de parte seus motejos e os de outros, punja-nos, ou, melhor, trespasse-nos a repreensão do Profeta [Is 44.15-17], dizendo que são mui insensatos os que, de um mesmo lenho, se aquecem, acendem o forno para cozer pão, assam carne ou a cozinham, e esculpem um deus, diante do qual se prostram simploriamente a orar. E assim é que, em outro lugar [Is 40.21], não somente os incrimina como réus em face da lei, mas ainda os exprobra de que não aprenderam dos fundamentos da terra, quando, na verdade, nada há menos próprio do que dese- jar reduzir Deus, que é imensurável e além de compreensão, à medida de cinco pés! E no entanto o costume revela ser natural aos homens esta monstruosidade que repugna abertamente à ordem da natureza. Além disso, é preciso ter-se em mente que as superstições freqüentemente se referem nestes termos – que são obras das mãos dos homens, que carecem da autoridade divina [Is 2.8; 31.7; 37.19; Os 14.3; Mq 5.13] – para que isto seja estabelecido: que são abomináveis todas as formas de culto que os homens inventam para si próprios. No Salmo [95], o Profeta acentua essa insânia, dizendo que aqueles que foram a tal ponto dotados de inteligência, que sabem que todas as coisas são movidas somente pelo poder de Deus, imploram o auxílio de coisas inanimadas e destituídas de sensibilidade. Mas, visto que a corrupção da natureza arrebata a demência tão crassa, tanto a todos os povos quanto a cada indivíduo em particular, por fim o Espírito fulmina com terrível imprecação: “Semelhantes se lhes tornem aqueles que os fazem e quantos neles põem a confiança” [Sl 115.8]. Deve-se notar, porém, que não se proíbe menos uma gravura do que uma imagem escupida, com o quê se refuta a improcedente ressalva dos gregos. Pois pensam que se portam esplendidamente, se não fazem representações esculturais de Deus, enquanto se esbaldam em gravuras mais desabridamente que quaisquer outros povos.  O  Senhor,  entretanto,  proíbe  não  apenas  que  lhe  seja  talhada  imagem  por estatuário, mas ainda que lhe seja modelada representação por qualquer sorte de artífice, porquanto é, com isso, afeiçoado em moldes inteiramente falsos e com grave insulto de sua majestade.
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37. Sátiras , livro V, sát. XIV. 38. Primeira edição: “Que, porém, esse povo se haja, com férvida prontidão, arrojado repentinamente a buscar ídolos para si, tal como, com violento ímpeto, de profuso manancial as águas fervilham borbulhantes, daqui antes aprendamos quão grande é a propensão de nossa mente para com a idolatria, de sorte que, com atirar aos judeus a pecha do erro comum [a todos] não durmamos, sob as vãs seduções de pecar, o sono letal.” 39. Primeira edição: “que supinamente insana temeridade a haurir, de instante a instante, fugaz alento, ousam conferir aos ídolos a dignidade de Deus.” 
40. Horácio, Serm. I, sát . VIII.

Por João Calvino
Fonte: As Institutas, volume I, capítulo XI - Edição Clássica
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