quinta-feira, 17 de julho de 2014

É uma abominação atribuir forma visível a Deus, e geralmente se apartam do Deus verdadeiro quantos estabelecem ídolos para si [03/08]


5. A BÍBLIA NÃO JUSTIFICA A REPRESENTAÇÃO ICONOCLÁSTICA 

Certamente conheço muito bem este popular e vulgar refrão : As imagens são os livros dos iletrados. Isso foi dito por Gregório. Entretanto, de maneira muito diferente fala o Espírito de Deus, em cuja escola, se Gregório houvesse sido instruído nesta matéria, jamais haveria de ter assim falado. Portanto, quando Jeremias [10.3] proclama que o lenho é o preceito da futilidade, quando Habacuque [2.18] ensina que a imagem fundida é a mestra da mentira, por certo que daqui se deve deduzir esta doutrina geral: que é ilusório e, mais ainda, loucura tudo quanto os homens têm aprendido das imagens acerca de Deus. Se alguém objeta, dizendo que aqueles que abusavam das imagens para ímpia superstição eram repreendidos pelos profetas, sem dúvida o admito. Acrescento, porém, o que é notório a todos, que eles condenam plenamente o que os papistas assumem como infalível axioma: que as imagens fazem as vezes de livros. Pois os profetas opõem as imagens ao Deus verdadeiro, como coisas contrárias e que jamais podem ser conciliadas. Nestas porções que há pouco citei, afirmo-o, infere-se esta conclusão: uma vez que o Deus verdadeiro a quem os judeus adoravam é um e único, pervertida e enganosamente se inventam figuras visíveis para que representem a Deus e miseravelmente iludidos se quedam todos os que daí buscam conhecimento. Em conclusão, se assim não fosse o caso, ou, seja, que todo e qualquer conheci- mento de Deus que se busca nas imagens é falaz e bastardo, os profetas não o have- riam condenado de forma tão generalizada. Ao menos sustento isto: quando ensinamos ser futilidade e engano o fato de que os homens tentem representar a Deus por meio de imagens, outra coisa não estamos fazendo senão referindo, palavra por palavra, o que os profetas transmitiram.

6. O PARECER CONTRA AS IMAGENS DE CERTOS VULTOS DA PATRÍSTICA

Leia-se, ademais, o que acerca desta matéria escreveram Lactâncio e Eusébio, que não hesitaram em tomar axiomaticamente que todos esses de quem se vêem imagens foram seres mortais. O que Agostinho expressou não foi outra coisa, o qual declara taxativamente que é abominável não só adorar imagens, mas também o erigi- las a Deus. Contudo, tampouco ele está dizendo outra coisa senão o que havia sido decretado, muitos anos antes, no Concílio de Elvira, do qual este é o cânon trinta e seis: “Resolveu-se que não se tenham nos templos representações pictoriais, como também não se pinte em suas paredes o que se cultua ou adora.” Mas é preciso lembrar especialmente do que o mesmo Agostinho, em outro lugar, cita de Varrão e confirma com sua chancela: “Os primeiros a introduzirem imagens dos deuses, esses, de um lado, removeram o temor; de outro, acrescentaram o erro.”41 Se Varrão dissesse apenas isso, talvez pouco tivesse de autoridade; contudo, com razão nos deveria causar vergonha que um pagão, como que a tatear nas trevas, tenha chegado a esta luz, isto é, que as imagens corpóreas são indignas da majestade de Deus porque diminuem nos homens o temor e aumentam o erro. Incontestavelmente o atestam os próprios fatos que isso foi dito não menos veraz que sabiamente, mas Agostinho, tendo-o tomado de empréstimo a Varrão, o profere em conformidade com seu próprio sentimento. E de início reitera, em verdade, que os primeiros erros a respeito de Deus em que os homens se enredilharam não começaram com as imagens, porém aviltaram, uma vez introduzido esse novo elemento. Em seguida, expõe que, com isso, diminuiu-se, ou até mesmo extinguiu-se o temor de Deus, pois na estultícia das imagens e em sua inepta e absurda invenção facilmente pode menosprezar-se sua divina majestade. Este segundo ponto , prouvera não experimentássemos ser tão verdadeiro. Portanto, quem quer que deseje ser corretamente ensinado, aprenda de outra fonte, a saber, o que de Deus se pode conhecer não deve ser através de imagens.

7. INACEITABILIDADE DAS IMAGENS DO ROMANISMO

Portanto, se os papistas possuem algo de pejo, que doravante não façam uso deste subterfúgio: que as imagens são os livros dos iletrados, o que está refutado tão escancaradamente por numerosos testemunhos da Escritura. Se bem que, mesmo que eu lhes conceda isso, certamente que nem ainda assim haverão de tirar algum proveito para defenderem a seus ídolos. É notório de que espécie de monstruosidades impõem em lugar de Deus! De fato, as pinturas ou estátuas que dedicam aos santos, que são mais do que corruptíssimos exemplares de luxúria e obscenidade, aos quais, se alguém quisesse amoldar-se a eles, digno seria do verdugo? Com efeito, os lupanares exibem as meretrizes mais decorosa e pudicamente vestidas que os templos aquelas que desejam ser tidas por imagens de virgens. Aos mártires inventam indumentária em nada mais decente. Portanto, que revistam a seus ídolos de pelo menos modesta decência, para que, um pouco mais decorosamente, sofismem serem eles livros de alguma santidade. Mas, então, também responderemos que esta não é a maneira de ensinar o povo fiel nos lugares sagrados, a quem Deus quer que aí seja instruído com doutrina bem outra, e não com essas funéreas elegias. Ele ordenou que aí, nos templos, se proponha uma doutrina comum a todos na proclamação de sua Palavra e nos sagrados mistérios; mas os que andam olhando de um lugar a outro, contemplando as imagens, mostram suficientemente que não lhes é muito grata esta doutrina.42

Portanto, a quem os papistas chamam de ignorantes, cuja obtusidade permita que sejam ensinados só por meio das imagens? Na verdade, o Senhor reconhece como seus discípulos aqueles a quem considera dignos da revelação de sua celeste sabedoria, a quem deseja que sejam instruídos nos mistérios salvíficos de seu reino. Certamente admito que, no atual estado de coisas, não há poucos hoje que não possam dispensar a tais “livros”. Entretanto, indago eu, que obtusidade é essa, se- não que estão defraudados desta doutrina que é a única apta para instruí-los? Pois não foi por outro motivo que os que presidiam às igrejas relegaram aos ídolos a função de ensinar, senão que eles próprios eram mudos. Paulo testifica que, mediante a verdadeira pregação do evangelho, Cristo é pintado ao vivo e, de certo modo, crucificado ante nossos olhos [Gl 3.1]. 

A que propósito, pois, serviria que nos templos, por toda parte, se erguessem tantas cruzes, de madeira, de pedra, de prata e de ouro, se isso fosse honesta e fielmente inculcado: que Cristo morreu para, na cruz, tomar sobre si nossa maldição [Gl 3.13], com o sacrifício de seu corpo expiar nossos pecados [Hb 10.10] e lavá-los com seu sangue [Ap 1.5], enfim, reconciliar-nos com Deus, o Pai [Rm 5.10]? Com isso só, poderiam os ignorantes aprender muito mais do que com mil cruzes de madeira e de pedra, visto que, no que diz respeito a ouro e prata, confesso que os avaros fixariam seus olhos e seu entendimento nelas muito mais que em qualquer palavra de Deus.43
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41. A Cidade de Deus , capítulos 9 e 31. 42. Primeira edição: “para com a qual revelam bem pouco diligentemente voltado terem o espírito [aqueles] que são pelos olhos levados em derredor à contemplação dos ídolos.”
43. Primeira edição: “Disso, apenas, poderiam aprender mais do que de mil cruzes de madeira ou de pedra, porquanto, nas de ouro e de prata, os avarentos talvez mais tenazmente fixam a mente e os olhos que em quaisquer palavras de Deus.” 

Por João Calvino
Fonte: As Institutas, volume I, capítulo XI - Edição Clássica
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