terça-feira, 22 de julho de 2014

É uma abominação atribuir forma visível a Deus, e geralmente se apartam do Deus verdadeiro quantos estabelecem ídolos para si [04/08]


8. A FEITURA DE IMAGENS PROCEDE DO DESEJO DE TOCAR A DEUS

Quanto, porém, à origem dos ídolos, é recebido de consenso virtualmente público o que se contém no livro da Sabedoria de Salomão [14.15], isto é, que seus primeiros autores foram os que conferiram esta honra aos mortos no intento de lhes cultivarem, supersticiosamente, a memória. E admito, sem reservas, que antiquíssimo foi este pervertido costume, nem nego ter ele sido um facho em virtude do qual mais se incendeu a inflamada paixão dos homens para com a idolatria. Todavia, não concedo que esta foi a fonte primeira desse mal.

Ora, que os ídolos já estivessem em uso antes que viesse a prevalecer este desmedido anseio em consagrar imagens dos mortos, de que se faz freqüente menção nos escritores profanos, evidencia-se de Moisés. Quando narra que Raquel furtara os ídolos do pai [Gn 31.19], não fala de outra forma senão de um vício generalizado. Do quê é lícito concluir que a imaginação do homem é, por assim dizer, uma perpétua fábrica de ídolos.

Após o dilúvio, havia um como que renascimento do mundo. Entretanto, não passam muitos anos antes que, a seu prazer, os homens inventassem para si deuses. E é de crer-se que, vivendo o santo patriarca ainda até esse tempo, seus descendentes se entregaram à idolatria, de sorte que, não sem a mais cruciante dor, visse com os próprios olhos a terra se poluindo com ídolos, cujas corrupções purgara Deus, havia pouco, com juízo tão horrível. Ora, já antes de nascido Abraão, Tera e Naor eram adoradores de deuses falsos, como o atesta Josué [24.2]. Quando a progênie de Sem tão logo veio a degenerar-se, como haveremos de julgar os descendentes de Cão, que na pessoa do próprio pai já bem antes foram amaldiçoados?

Essa é a pura verdade. A mente do homem, visto estar abarrotada de orgulho e temeridade, ousa imaginar a Deus, na medida de seu alcance; como padece de embotamento, ainda pior, é levada de roldão pela mais crassa ignorância, em lugar de Deus concebe a irrealidade e a fútil aparência.

A estes males se acrescenta nova iniquidade, a saber: o homem tenta exprimir Deus em sua obra segundo o concebera interiormente. Logo, a mente gera o ídolo, a mão o dá à luz. Sendo esta a origem da idolatria: que os homens não crêem que Deus esteja com eles, a não ser que sua presença lhes seja exibida em forma concreta, o demonstra o exemplo dos israelitas. “Não sabemos” diziam eles, “o que haja acontecido a esse Moisés. Faz-nos deuses que vão adiante de nós” [Ex 32.1]. Sabiam, realmente, que era Deus aquele cujo poder haviam experimentado em tantos milagres; porém não confiavam que ele estivesse perto deles, salvo se pudessem, com os olhos, contemplar uma representação corpórea da figura, representação que lhes fosse testemunho de um Deus a dirigi-los. Portanto, queriam reconhecer que Deus lhes era o guia do caminho através de uma imagem que lhes fosse à frente.

A experiência de cada dia ensina isto: que a carne está sempre inquieta até que haja conseguido uma fantasiosa representação semelhante a si mesma, em que vãmente se console como em real imagem de Deus. Em quase todos os séculos, desde que o mundo foi criado, para que obedecessem a esta cega obsessão, os homens têm erigido representações visíveis, nas quais criam Deus para que esteja diante dos olhos carnais.

9. O USO DAS IMAGENS CONDUZ À IDOLATRIA

À essa representação segue-se imediatamente a adoração, pois, uma vez que os homens julgavam contemplar a Deus nas imagens, nelas também o adoraram. Por fim, nelas fixados tanto em espírito quanto em visão, começaram todos a embrutecer-se cada vez mais e a deslumbrar-se com elas e a nutrir-lhes admiração, como se nelas residisse algo da divindade. É já evidente que os homens não se atiram ao culto das imagens antes que estejam embebidos de certa opinião mais crassa, certamente não que as tenham por deidades, mas porque imaginam habitar nelas algum poder da divindade.

E assim, quer a Deus, quer à criatura, representas para ti na forma de uma imagem, quando te prostrares à veneração, já de certa superstição te deixas fascinar. Por esta razão, o Senhor proibiu não só que se erijam estátuas modeladas para representá- lo, como também consagraram-se gravuras de qualquer espécie e lápides que se antepusessem para adoração. Também pela mesma razão, no preceito da lei se anexa outra parte a respeito da adoração dessas representações. Ora, tão logo se inven- tou forma visível para Deus, também se vincula o poder a essa representação. Os seres humanos são a tal ponto néscios que identificam Deus com tudo com que o representam, e daí não pode acontecer outra coisa, senão que nisso o adoram. Nem vem ao caso se simplesmente adoram o ídolo ou Deus no ídolo: quando, qualquer que seja o pretexto, se proporcionam honras divinas a um ídolo, isto é sempre idolatria. E já que Deus não quer ser cultuado supersticiosamente, dele é subtraído tudo quanto se confere aos ídolos.

Atentem para isso os que andam à cata de míseros pretextos para a defesa dessa execrável idolatria, ou, seja, que por muitos séculos passados a religião verdadeira tem sido submersa e subversa. As imagens, dizem eles, não são consideradas como seres divinos. Nem tão absurdamente obtusos eram os judeus, que não se lembras- sem de que fora Deus quem por cuja mão tinham sido conduzidos para fora do Egito [Lv 26.13], antes de haverem forjado o bezerro [Ex 32.4]. Pelo contrário, afoitamente anuíram a Arão a proclamar que aqueles eram os deuses pelos quais tinham sido libertados da terra do Egito [Ex 32.4, 8], expressando, não em sentido dúbio, que desejavam que se conservasse que aquele era o Deus libertador, contanto que o pudessem contemplar indo a sua frente na forma do bezerro.

Nem se deve crer que os pagãos fossem tão boçais, que não entendessem que Deus não era o próprio lenho e pedra, pois mudavam as imagens a seu talante, mas retinham sempre em mente os mesmos deuses, e as imagens para um Deus único eram muitas, contudo não imaginavam para si tantos deuses quanto era a multidão dessas imagens. Além disso, consagravam novas imagens, dia após dia, contudo não pensavam que estavam assim a constituir novos deuses.

Leiam-se as justificativas que Agostinho menciona, as quais eram usadas por pretexto pelos idólatras de seu tempo. Realmente, quando eram acusadas de idolatria, as pessoas comuns respondiam que não adoravam aquela representação visível, mas, ao contrário, a deidade que ali habitava invisivelmente. Já aqueles que, em seu próprio dizer, eram de uma religião mais refinada, afirmavam que não adoravam nem a imagem, nem a potestade aí figurada, mas, mediante a representação material, visualizavam um sinal dessa entidade que deveriam cultuar.

E então? Todos os idólatras, quer dentre os judeus, quer dentre os gentios, não têm sido motivados de outra forma além da referida: não contentes com uma com- preensão espiritual, pensavam que, por meio das imagens, haveriam de imprimir- lhes compreensão mais segura e mais íntima. Desde que uma vez lhes foi do agrado esta canhestra representação imitacional de Deus, não houve limite até que, iludidos por postulações sucessivamente novas e fantasiosas, viessem a pressupor que Deus exibe seu poder nas imagens. Mais ainda, os judeus não só foram persuadidos de que, sob tais imagens, adoravam ao Deus eterno, o único e verdadeiro Senhor do céu e da terra, mas, igualmente, os gentios criam que assim adoravam a seus deuses, ainda que falsos, os quais, no entanto, imaginavam que habitassem o céu.
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Por João Calvino
Fonte: As Institutas, volume I, capítulo XI - Edição Clássica
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