domingo, 27 de julho de 2014

É uma abominação atribuir forma visível a Deus, e geralmente se apartam do Deus verdadeiro quantos estabelecem ídolos para si [05/08]


10. O CULTO DE IMAGENS ENTÃO REINANTE

Mentem deslavadamente quantos negam que isso fosse feito no passado e esteja acontecendo ainda em nossos dias. Ora, por que se ajoelham diante delas? Por que, ao se prepararem para a prece, se voltam para elas como se falassem aos ouvidos de Deus? Com efeito é veraz o que Agostinho44 diz: Ninguém ora ou adora com os olhos assim postos em uma imagem que não seja afetado a tal ponto que não pense ser por ela ouvido ou não espere que dela lhe seja concedido aquilo que deseja. Por que tão grande diferença entre as imagens de um mesmo Deus que, preterida uma, ou honrada de forma vulgar, cerquem outra de toda solene honraria? Por que se afadigam com peregrinações votivas para irem visitar imagens das quais têm semelhantes em seu próprio lar? Por que em favor delas se batem hoje acirradamente até ao ponto da carnificina e do massacre, como se fora por seus altares e lareiras, de tal modo que é mais facilmente tolerável que lhes seja arrebatado o Deus único que seus ídolos?

E contudo ainda não estou a enumerar os crassos erros do vulgo, que são quase infinitos e dominam o coração de quase todos; estou a indicar somente o que eles próprios confessam quando querem especialmente justificar-se da alcunha de ido- latria. “Não as chamamos”, dizem eles, “de nossos deuses.” Nem outrora aqueles as chamavam deuses, quer judeus, quer gentios. E no entanto os profetas não cessavam de reiteradamente exprobar-lhes as fornicações com a madeira e a pedra [Jr 2.27; Ez 6.4-6; Is 40.19, 20; Hc 2.18, 19; Dt 32.37], por apenas estas coisas que são diariamente praticadas por aqueles que desejam ser havidos por cristãos, isto é, que veneravam a Deus carnalmente na madeira e na pedra.

11. O SOFISMA DO CULTO DE LATRIA E DULIA

Ainda que não ignore, nem se pode dissimular, que eles se evadem, lançando mão de distinção mais engenhosa, de cuja menção se fará outra vez e mais plenamente um pouco mais adiante. Pois o culto que alegam render às suas imagens é serviço à imagem, negando ser adoração de imagem. Ora, assim falam quando ensinam que se pode, sem ofensa a Deus, atribuir às representações esculturais e pictóricas o culto a que denominam dulia. Logo se julgam inculpáveis se apenas são servos das imagens, não também adoradores. Como se na verdade adorar não fosse em nada mais atenuado que servir.

E contudo, enquanto acham refúgio em um termo grego, infantilmente se contradizem sobremodo consigo próprios. Ora, uma vez que aos gregos [latreúein] nada mais significava senão adorar, o que dizem equivale exatamente a uma confissão de que cultuam suas imagens, porém sem dar-lhes culto! Nem razão há por que objetem que estou lançando-lhes armadilhas em palavras; ao contrário, eles próprios, ao tentarem espalhar trevas diante dos olhos dos simplórios, põem à mostra sua própria ignorância. Todavia, por mais eloquentes que sejam, jamais conseguirão, com sua eloquência, provar-nos que uma e a mesma coisa são duas.

Insisto que mostrem de forma objetiva a diferença para que sejam diferentes dos idólatras antigos. Ora, assim como um adúltero ou um homicida não se evadirá à incriminação, se com dissimulação sutilmente inventarem outro nome para um termo, se na prática nada diferem dos idólatras, aos quais até eles mesmos são obrigados a condenar. Na verdade, eles estão tão longe de separar a sua da prática desses idólatras, de que, antes, a fonte de todo mal é a confusa emulação em que porfiam com eles, enquanto para si concebem não só em sua imaginação, mas até com suas mãos confeccionam, símbolos através dos quais representam a Deus para si.

12. FUNÇÃO E LIMITAÇÃO LITÚRGICAS DA ARTE

Entretanto, nem me deixo tomar dessa superstição a tal ponto que postule não dever-se admitir, em hipótese alguma, qualquer imagem. Mas, uma vez que a escultura e a pintura são dons de Deus, postulo o uso puro e legítimo, tanto de uma quanto da outra, para que não aconteça que essas coisas que o Senhor nos outorgou para sua glória e nosso bem não só sejam poluídas por ímpio abuso, mas ainda também se convertam à nossa ruína.

Julgamos não ser próprio representar a Deus por forma visível, porquanto ele próprio o proibiu [Ex 20.4; Dt 5.8]; e, aliás, não se pode fazer isso sem alguma degradação de sua glória. E para que não pensem que estamos sozinhos nesta opinião, os que lerem os livros dos antigos doutores verão que estamos de acordo com eles, pois condenaram todas as figuras que representavam a Deus.45 Se na realidade não é próprio representar a Deus por efígie material, muito menos justificável será cultuá-la em lugar de Deus ou a Deus nela.

Resta, portanto, que se pinte e esculpa somente aquilo que está ao alcance dos olhos, de sorte que a majestade de Deus, que paira muito acima da percepção dos olhos, não se corrompa mediante representações descabidas e fantasiosas. Nesta classe de elementos que se podem representar pela arte estão, em parte, histórias e fatos acontecidos; em parte, imagens e formas corpóreas sem qualquer conotação de eventos consumados. Aqueles têm certa aplicação no ensino ou no conselho; estas, não vejo o que possam proporcionar, além de mero deleite. E contudo salta à vista terem sido assim quase todas as imagens que até o momento foram exibidas nos templos. Donde procede julgar que elas foram aí implantadas não em virtude de ponderado julgamento ou sábia decisão, mas por paixão estulta e inconsiderada.

Deixo de focalizar quão despropositada e indecentemente têm sido em grande parte representadas, quão licenciosamente pintores e estatuários têm aqui cedido à sua lascívia, ponto este em que toquei pouco antes. Estou apenas a frisar que, mesmo se nada de impróprio subsistisse nelas, todavia nada de valor têm para o ensinar.
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44. Sobre o Salmo 113.
45. Primeira edição: “E para que não pensem que nesta opinião estamos sós, verificarão quantos hajam de ser-lhes versados nos escritos que todos os escritores sóbrios o hão sempre reprovado.”

Por João Calvino
Fonte: As Institutas, volume I, capítulo XI - Edição Clássica
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