domingo, 27 de julho de 2014

Joseph Alleine – Um curto e inesquecível Ministério (1634-1668)

Joseph Alleine nasceu e foi batizado em Devizes, Wiltshire, a 8 de abril de 1634, em uma família puritana. Naquela época a Inglaterra enfrentava os sofrimentos causados pelos agitados acontecimentos que logo resultaram na Guerra Civil, e antes que Alleine completasse dez anos, a Praça do Mercado, onde ficava sua casa, ressoou com o estrondo dos canhões e o ribombar dos mosquetes, quando os monarquistas puseram os puritanos em retirada na batalha de Roundway (julho de 1643). Dois anos mais tarde os papéis se inverteram e o próprio Cromwell providenciou para que a bandeira azul do Parlamento fosse hasteada no alto do velho castelo, o qual se erguia em frente à casa onde Alleine passou sua infância. O círculo familiar também não ficou isento de problemas. Seu pai, embora bem conceituado como comerciante de tecidos, sofreu alguns dos infortúnios econômicos decorrentes da guerra; e para maior tristeza deles, Edward, o irmão mais velho de Joseph, já ativo no ministério, morreu em 1645.

No mesmo ano Alleine "apresentava-se para a carreira cristã", implorando a seu pai que lhe permitisse se preparar para "suceder seu irmão no ministério". Assim, em abril de 1649, nós o encontramos a caminho de Oxford para sentar-se aos pés de teólogos como John Owen e Thomas Goodwin. Em novembro de 1651 transferiu-se do Lincoln para o Corpus Christi College — este último um Seminário mais radicalmente puritano, sob a presidência do piedoso Dr. Edward Staunton. Ali recebeu o grau de Bacharel em Artes a 6 de julho de 1653, tornando-se professor assistente e, subsequentemente, capelão do Seminário. Sem dúvida alguma, foi devido à influência de Alleine que Henry Jessey pôde escrever em 1660, "Penso que não havia no mundo outro colégio como Corpus Christi, onde um grande número de pessoas demonstrava o poder da piedade e a pureza da adoração a Deus. Era tal qual um Éden, mas agora não passa de um deserto estéril".

Os anos que Alleine passou em Oxford foram caracterizados pela piedade e diligência nos estudos. Seu bom temperamento granjeou-lhe muitos amigos, mas se as visitas deles interrompiam seu tempo de estudo, "ele não se dava ao luxo de recebê-las", dizendo: "É preferível que se admirem da minha rudeza a que eu perca o meu tempo; pois somente alguns sentirão minha indelicadeza, mas muitos sentirão minha' perda de tempo". Na qualidade de capelão, empenhou-sé em evangelizar as aldeias rurais ao redor de Oxford e, de quinze em quinze dias, também pregava para os encarcerados. Assim foi o seu treinamento para o futuro ministério. Antes dos 21 anos ele já havia aprendido a ser "infinita e insaciavelmente ávido pela conversão das almas perdidas, e por essa causa derramava sua alma em oração e pregação.

Não admira, pois, que um notável teólogo puritano, George Newton (1602-1681), ministro de Sáint Mary Magdalen, Taunton, tenha convidado Alleine para ser seu assistente, em 1655. Taunton, uma cidade produtora de artefatos de lã, com uma população de aproximadamente 20 mil pessoas, era um baluarte puritano no ocidente da Inglaterra. O espírito da cidade havia se manifestado claramente 10 anos antes, quando, com heroica firmeza, havia resistido desesperados cercos monarquistas — embora metade das ruas houvesse sido queimada por uma carga de morteiros e muitos habitantes haviam morrido de fome! Foi ali, em meio às montanhas, campinas e pomares de Somerset, que Alleine havia de passar o seu curto e inesquecível ministério.

Logo depois de começar seu trabalho em Taunton, Alleine casou-se a 4 de outubro de 1655 com sua prima Theodosia Alleine, mulher de singular espiritualidade, que deixou um comovente relato sobre o ministério de seu marido. A única "falha" que achava nele era a de não passar mais tempo com ela, ao que ele respondia: "Oh, minha querida, sei que tua alma está salva; mas quantas há que estão perecendo e das quais eu tenho que cuidar? Oh, se eu pudesse fazer mais por elas!" A vida inteira de Alleine foi uma ilustração de suas palavras: "Mostre-me um crente que considere seu tempo mais precioso do que ouro". Quando a semana começava, ele dizia: "Temos uma nova semana à nossa frente, vamos usá-la para Deus!" E a cada manhã: "Vamos viver bem este dia!" "Enquanto teve saúde", escreve sua esposa, "ele se levantava constantemente às quatro horas da manhã ou antes, e aos domingos, mais cedo ainda, se acordasse; ficava muito magoado se ouvisse algum ferreiro, ou sapateiro, ou negociante fazendo seus trabalhos antes que ele tivesse cumprido seus deveres para com Deus. Então dizia-me: "Oh, como esse barulho me envergonha! Meu Senhor não merece mais do que o deles?". Das quatro às oitos da manhã passava em oração, em santa contemplação, e cantando salmos — o que muito lhe agradava — fazendo suas devoções diárias sozinho, como também com a família".

Este devotado casal trabalhava esforçadamente pelas almas perdidas. Theodosia mantinha uma escola para crianças em sua casa, enquanto seu marido passava cinco tardes por semana reiterando os urgentes apelos aos não-convertidos que ele lançava domingo após domingo, sob a majestosa torre de Mary Magdalen. Ele mantinha uma lista com os nomes dos habitantes de cada rua e cuidava para que cada um fosse visitado e catequizado. O resultado desse trabalho foi uma numerosa colheita de almas. "Suas súplicas e exortações", diz George Newton, "eram, muitas vezes, tão afáveis, tão cheias de zelo santo, vida e vigor, que conquistavam completamente seus ouvintes; ele os comovia e, às vezes, amolecia os mais duros corações". É claro, que mesmo numa época em que a pregação poderosa e a evangelização bem sucedida eram relativamente comuns, o ministério de Alleine era notável aos olhos de seus irmãos. "Poucas épocas produziram pregadores mais eminentes que o Joseph Alleine" — declarou o puritano apostólico, Oliver Heywood. E Baxter, referindo-se a Alleine, fala de sua "grande habilidade ministerial na exposição pública e na aplicação das Escrituras — tão comovente, tão convincente, tão poderosa".

Um período de bênção chegava ao seu fim quando Alleine iniciou o seu ministério. Três anos mais tarde Crommwell morria. Dois anos depois os sinos de Taunton tocaram alegremente para dar as boas-vindas a Charles II e à restauração da monarquia (1660). Mas a felicidade nos corações dos puritanos durou pouco, pois o tempo em que "a nação gozou de um estado de religiosidade" acabou em 1662, quando, com o infame Ato da Uniformidade, dois mil dos melhores ministros que a Inglaterra já teve, foram destituídos de seus púlpitos. Entre os oitenta e cinco ministros que sofreram dessa maneira em Somerset, encontramos, come era de esperar, os nomes de George Newton e Joseph Alleine. Mas, embora afastado do púlpito, Alleine recusou-se a ficar calado; de fato, conta-nos sua esposa que "deixando de lado outros estudos por achar que seu tempo era curto" ele intensificou sua atividade de pregação. "Eu sei que ele chegou a pregar catorze vezes numa semana, em muitas ocasiões dez vezes, e regularmente seis ou sete vezes em uma semana, durante aquele período".

Finalmente, após sobreviver a muitas ameaças, Alleine recebeu uma intimação em 26 de maio de 1663. Na noite seguinte ele marcou um encontro com seus fiéis "por volta de uma ou duas horas da manhã, ao qual compareceram, de boa vontade, centenas de jovens e adultos; então pregou e orou com eles durante três horas, aproximadamente". Poucas horas depois ele foi jogado na prisão em Ilchester. Após um ano foi libertado, mas apenas para enfrentar os rigores do Ato das Cinco Milhas e o Conventicle Act.

Embora já com a saúde precária, continuou a pregar ocultamente até 10 de julho de 1666. Naquela tarde, quando pregava sobre o Salmo 147:20 numa reunião em uma casa particular, foram arrombadas as portas e ele foi preso novamente. Uma vez mais foi libertado e com a mesma energia espiritual considerou o que ainda poderia fazer para promover o evangelho de Cristo. "Temos mais um dia", diria à sua esposa ao se levantar pela manhã, "mais um dia para Deus; vamos vivê-lo bem, trabalhar bastante por nossas almas, armazenar muito tesouro no céu, pois só nos restam alguns dias para viver". Sua esposa nos conta que, com verdadeiro espírito puritano, considerou a possibilidade do trabalho missionário no País de Gales ou mesmo na China. Jamais o evangelho de Jesus Cristo ardeu mais fervorosamente em qualquer outro coração inglês! Mas o trabalho de Alleine estava terminado, pois sua constituição física jamais se recuperou dos maus tratos sofridos nas prisões e seu corpo definhava-se rapidamente. No dia 17 de novembro de 1668, aos 34 anos, Deus o levou, poupando-o dos males futuros, e o idoso George Newton permaneceu junto ao seu corpo, quando foi enterrado na Capela de onde ressoava o "alerta" de seus chamados aos não-convertidos.

Muitos dos grandes evangelistas tiveram suas convicções moldadas pelas Obras de Joseph Alleine. George Whitefield, enquanto estudante em Oxford, nos conta em seu diário que o "Alerta" de Alleine o beneficiou sobremaneira. Charles Haddon Spurgeon registra que, quando ele era criança, sua mãe sempre lia uma parte do "Alerta" de Alleine para seus filhos quando se sentavam ao redor da lareira nos domingos à noite, e que, quando ele foi levado à convicção do pecado, foi àquele livro que recorreu. "Lembro-me", escreve ele, "de que quando eu acordava pela manhã, a primeira coisa que pegava era o "Alerta", de Alleine, ou o "Chamado aos Não-Convertidos", de Baxter. Oh, que livros aqueles, que livros! Eu não os lia apenas, eu os devorava..." Com o seu coração inflamado assim pela teologia puritana, Spurgeon se preparava para seguir os passos de Alleine e Whitefield.
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