sexta-feira, 8 de agosto de 2014

É uma abominação atribuir forma visível a Deus, e geralmente se apartam do Deus verdadeiro quantos estabelecem ídolos para si [07/08]


13. A INTRODUÇÃO DE IMAGENS NA HISTÓRIA DA IGREJA

Mas, posta de parte esta distinção, examinemos também, de passagem, se convém ter nos templos cristãos quaisquer imagens, sejam as que expressem fatos do passado, sejam as que representem corpos humanos. Em primeiro lugar, se há na Igreja primitiva alguma autoridade para nós, tenhamos em mente que por cerca de quinhentos anos, durante os quais até aqui mais florescia a religião e vicejava uma doutrina mais pura, os templos cristãos eram, geralmente, vazios de imagens. Portanto, quando a pureza do ministério já se havia não pouco degenerado, então primeiro foram elas introduzidas como ornamento dos santuários. Não discutirei que razão tiveram os que foram os primeiros autores dessa prática; se, porém, comparas época com época, verás que eles declinaram muito da integridade daqueles que prescindiam de imagens.

Como é possível, pensamos nós, que aqueles santos pais teriam deixado ficar a Igreja por tanto tempo carente desta prática que julgariam ser-lhe útil e salutar? Portanto, sem dúvida a repudiaram mais por deliberação e reflexão que por ignorância ou a preteriram por negligência, porquanto viam subsistir nela ou nada ou um mínimo de utilidade, porém muito de perigo. O que também Agostinho atesta em palavras claras: “Quando”, diz ele, “nestes pedestais se colocam em exaltada elevação, para que, em razão da própria semelhança com membros e sentidos animados, ainda que careçam de sensibilidade e de alento, chamem a atenção dos que estão a orar e dos que estão a oferecer sacrifícios, as imagens afetam as mentes fracas de forma a que pareçam ter vida e respiração”46 etc. E, em outro lugar: “A figura com membros humanos que se vê nos ídolos força o entendimento a imaginar que um corpo, quanto mais semelhante fosse ao seu, mais sentirá”47 etc. E pouco adiante:
“As imagens mais valem para desviar a infeliz alma, porquanto possuem boca, olhos, ouvidos, pés, do que para assisti-la, uma vez que não falam, nem vêem, nem ouvem, nem andam.”
Esta bem que poderia ser a causa pela qual João quis que nos guardemos não só do culto aos ídolos, mas também dos próprios ídolos [1Jo 5.21]. E temos experimentado mais desmedidamente, em vista da horrível insânia que, para a extinção de quase toda piedade, tem até aqui dominado o orbe, a saber: que tão logo se colocam imagens nos templos, é como se hasteasse o pendão da idolatria, porque a loucura de nosso entendimento não pode ser refreada, senão que logo se deixa levar, sem qualquer oposição, pela idolatria dos cultos supersticiosos.48

Ora, mesmo que o perigo não fosse tão iminente, entretanto, quando me ponho a refletir a que uso se têm destinado os templos, de uma forma ou outra, a mim me parece indigno de sua santidade que acolham outras imagens além daquelas vivas e representativas que o Senhor consagrou em sua Palavra. Refiro-me ao Batismo e à Ceia do Senhor, juntamente com outras cerimônias, em que importa não só que nossos olhos se detenham mais diligentemente, mas ainda sejam mais vividamente afetados, de modo que não requeiram outras imagens, forjadas pela engenhosidade dos homens.

Vês aqui, pois, o inestimável bem das imagens, que de modo algum se pode refazer nem recompensar, se é verdade o que dizem os papistas.49

14. ARGUMENTOS ENGANOSOS QUE EMBASAM A DECISÃO ICONÓLATRA DO CONCÍLIO DE NICÉIA DE 787

Sou de parecer que já teria dito mais do que o suficiente acerca desta matéria, não fosse que me deparasse com o Concílio de Nicéia,50 não aquele famosíssimo ao qual reuniu Constantino, o Grande, mas o que foi realizado, há oitocentos anos, por ordem e sob os auspícios da Imperatriz Irene. Ora, este concílio decretou que não apenas se deve ter imagens nos templos, mas ainda que elas devem ser veneradas. O que quer, pois, que eu tenha dito, a autoridade deste Concílio acarretará grande preconceito em contrário. Se bem que, para confessar a verdade, isso não me preocupa tanto quanto que seja evidente aos leitores a que ponto se haja extravasado a sanha daqueles que têm sido mais ávidos pelas imagens do que convinha a cristãos.

Antes de tudo, porém, desvencilhemo-nos disto: aqueles que hoje defendem o uso das imagens alegam o respaldo desse concílio niceno. Existe, porém, sob o nome de Carlos Magno, um livro refutatório, que, à base do estilo, se pode concluir haver sido escrito nessa mesma época. Nesta obra, enunciam-se as opiniões dos bispos que estiveram presentes ao concílio e os argumentos com que pugnaram. Disse João, ao legado das igrejas do Oriente: “Deus criou o homem à sua imagem”, e daí concluiu que, portanto, é preciso ter imagens. O mesmo foi de parecer que nesta afirmação as imagens nos são recomendadas: “Mostra-me tua face, porque ela é formosa” [Ct 2.14]. Outro, para provar que se devem colocar imagens nos altares, citou este testemunho: “Ninguém acende uma candeia e a põe debaixo do alqueire” [Mt 5.15]. 

Um outro, para demonstrar que a contemplação delas nos é útil, evocou um versículo do Salmo: “Estampada foi sobre nós a luz de tua face, ó Senhor” [Sl 4.6]. Outro lançou ainda mão desta analogia: como os patriarcas fizeram uso dos sacrifícios dos povos, assim as imagens dos santos devem ser tidas aos cristãos em lugar dos ídolos dos povos. A esse mesmo propósito torceram esta afirmação: “Senhor, amei a formosura de tua casa” [Sl 26.8]. Mais especialmente engenhosa é esta interpretação: “Como temos ouvido, assim também temos visto.” Logo, Deus é conhecido não apenas por ouvir a Palavra, mas ainda pela contemplação das imagens. Semelhante é o raciocínio do bispo Teodoro: “Maravilhoso”, diz ele, “é Deus em seus santos” [Sl 68.35], e então se lê em outro lugar: “Quanto aos santos que estão na terra” [Sl 16.3]. Portanto, isso deve referir-se às imagens! Afinal, tão disparatadas são suas parvoíces, que a mim até me causa pejo o mencioná-las.
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50. Primeira edição: “Sou de parecer que já se haveria dito mais do que o suficiente acerca desta matéria, não fosse que sobre mim, de certo modo, lançasse a mão o Concílio de Nicéia...”
51. Primeira edição: “E, para que, de qualquer modo, dúvida mais nenhuma restasse, Teodósio, bispo de Mira, tão a sério confirma, à base dos sonhos de seu arcediago, que se devem adorar as imagens, como se tivesse presente um oráculo celeste.”

Por João Calvino
Fonte: As Institutas, volume I, capítulo XI - Edição Clássica
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