sábado, 23 de agosto de 2014

Para que a cruz de Cristo não seja anulada


Não em sabedoria de palavras (1Co 1.17). O Apóstolo Paulo antecipa e refuta duas objeções. Pois aqueles mestres mal orientados poderiam concluir que Paulo, que não possuía o dom da eloqüência, se ostentava de forma ridícula ao alegar que o papel de mestre lhe fora confiado. Por essa razão ele diz, à guisa de concessão, que não nascera orador que pudesse blasonar-se com o esplendor de linguagem, mas ministro do Espírito, um servo que, com linguagem ordinária e sem refinamento, longe estava de ser ovacionado pelo mundo. Além disso, alguém poderia objetar, dizendo que ele corria atrás de glória ao proclamar o evangelho, assim como tantos outros procuravam batizar. A isso ele responde de forma breve, dizendo que o método de ensinar que ele seguia era despido de todo brilhantismo, e não revelava qualquer traço de ambição, e não podia ser suspeito a esse respeito. Se não estou equivocado, podemos igualmente perceber claramente o principal aspecto da controvérsia que Paulo manteve com os maus e infiéis ministros de Corinto, a saber: uma vez que se achavam intumescidos de ambição, procuravam angariar a admiração do povo para si, insinuando-se aos olhos de todos por meio de exibição de palavras e simulação de sabedoria humana.


Deste mal maior seguem-se dois outros, a saber: (1) Por essas coisas que podemos chamar de dissimulação, a simplicidade do evangelho estava deformada e Cristo estava vestido, por assim dizer, de uma nova e estranha roupagem, de modo que o puro e genuíno conhecimento dele estava oculto da vista. Além do mais, (2) porque a mente dos homens estava voltada para o brilhantismo e excelência de linguagem, para as especulações engenhosas, para a exibição fútil de um ensino um tanto rebuscado, o poder do Espírito esvaecia e nada era deixado senão a letra morta. A majestade de Deus, que resplandece no evangelho, era ofuscada, e no lugar só era visível a púrpura e a pompa infrutífera.

Portanto, com o fim de censurar aquelas corrupções do evangelho, Paulo faz, aqui, uma transição para o método de sua pregação. Ele assevera que sua forma de pregar é correta e legítima, ainda que era, ao mesmo tempo, diametralmente aposta à ostentação daqueles indivíduos interesseiros. E como se dissesse: "Eu sei como muitos daqueles mestres boa-vida gostam de vos lisonjear com sua linguagem pomposa. Quanto a mim, confesso que minha pregação é feita num estilo destituído de beleza retórica, deselegante, e sem qualquer cultivo, mas até mesmo me glorio dela. Pois ela tem sido assim, e deveras foi este o método que me foi prescrito por Deus."

Por sabedoria de palavras ele não quer dizer prestidigitação verbal, o que não passa de mera fala vazia, mas [significa a] mera eloquência, que consiste em habilidosa escolha de assuntos, em arranjo pomposo e excelência de estilo. Ele declara que não possuía nada disso; na verdade, em sua pregação não havia nada de conveniente nem de vantajoso.

Para que a cruz de Cristo não seja anulada. Como Paulo pusera tantas vezes o nome de Cristo em contraste com a orgulhosa sabedoria carnal, assim ele agora planta a Cruz de Cristo bem no centro, a fim de destronar toda arrogância e superioridade dessa sabedoria. Pois toda a sabedoria dos crentes está concentrada na luz de Cristo. E existe algo mais desprezível do que uma cruz? Contudo, aquele que é verdadeiramente sábio nas coisas de Deus precisa necessariamente inclinar-se para a ignomínia da Cruz. Isto só será feito, antes de tudo, pela renúncia do próprio entendimento das coisas e de toda a sabedoria do mundo. Na verdade, Paulo está ensinando aqui não só que espécie de homens os discípulos de Cristo devem ser, e a maneira apropriada pela qual devem aprender, mas também qual o método de ensino deve ser usado na escola de Cristo. "A Cruz de Cristo se tornaria inútil", diz ele, "se a minha pregação fosse adornada com eloqüência e brilhantismo." Ele usou a Cruz de Cristo para o benefício da salvação, a qual deve ser procurada no Cristo crucificado. Mas o ensino do evangelho, que nos chama para o usufruto desse benefício, deve lembrar a natureza da Cruz, de modo que, em vez de ser ela gloriosa, seja, antes, desprezível e indigna aos olhos do mundo. O significado, pois, é que, se Paulo tivesse usado a acuidade de um filósofo e a linguagem pomposa em seu trato com os coríntios, o poder da Cruz de Cristo, no qual a salvação dos homens consiste, teria sido sepultado, porque ele não poderia nos alcançar desta maneira.

Duas perguntas se levantam aqui: (1) Paulo, neste versículo, condena completamente a sabedoria de palavras como algo que se acha em oposição a Cristo? (2) Ele quer dizer que o ensino do evangelho deva ser sempre mantido distinto da eloquência, de modo a não poderem ser associados, e que a pregação do evangelho é contaminada caso alguma insinuação de eloquência seja usada para vesti-lo atrativamente?

À primeira pergunta, respondo que Paulo não seria tão irracional que condenasse como algo fora de propósito aquelas artes, as quais, sem a menor dúvida, são esplêndidos dons de Deus, dons estes que poderíamos chamar de instrumentos para auxiliarem os homens no desempenho de suas atividades nobres. Portanto, não há nada de irreligioso nessas artes, pois são detentoras de ciência saudável, e estão subordinadas a princípios verdadeiros; e visto que são úteis e adequáveis às atividades gerais da sociedade humana, é indubitável que sua origem está no Espírito. Além do mais, a utilidade que é derivada e experienciada delas não deve ser atribuída a ninguém, senão a Deus. Portanto, o que Paulo diz aqui não deve ser considerado como um desdouro das artes, como se estas estivessem agindo contra a religião.

A segunda pergunta é um pouco mais difícil. Porquanto Paulo diz que a Cruz de Cristo será anulada caso venha ser confundida ou embaralhada com a sabedoria de palavras. Minha resposta à questão é que a nossa atenção deve estar focalizada naqueles sobre quem ele está falando. Pois os ouvidos dos coríntios sofriam comichões com tola avidez ao som de discursos rebuscados. Portanto, careciam de ser chamados de volta à ignomínia da Cruz mais do que outras pessoas, de modo que viessem a aprender a apoderar-se de Cristo só e do evangelho em sua simplicidade, livre de toda e qualquer adulteração. Contudo, acredito que, em alguma medida, este conceito tem uma validade permanente, a saber, que a Cruz de Cristo é anulada não só pela sabedoria do mundo, mas também pelo esplendor linguístico. Pois a pregação de Cristo é nua e simples; portanto, não deve ela ser ofuscada por um revestimento dissimulante de verbosidade. A obra característica do evangelho é humilhar a sabedoria do mundo de tal maneira que, despojados de nosso próprio entendimento, nos tornemos completamente dóceis, e não reputar qualquer saber, ou ainda desejar conhecer algo que não seja aquilo que o próprio Senhor ensina. No que respeita à sabedoria humana, teremos de dar-lhe uma consideração mais plena, mais adiante, no tocante ao processo de sua oposição a Cristo. Porém, falarei de forma abreviada acerca da eloquência, aqui, dando-lhe a atenção que a passagem o exige.

Percebemos que desde o início Deus determinou que o evangelho seria despido de qualquer apoio da eloqüência [retórica]. Não poderia o que projetou a língua dos homens para a eloquência dar-lhes também habilidade para falarem o que desejassem? Enquanto que ele poderia tê-lo feito, contudo não quis que assim fosse. Posso encontrar mais duas razões importantes para sua indisposição. A primeira é que a majestade de sua verdade pode ser a mais clara de todas na composição de uma linguagem não refinada e esplêndida, e a eficácia de seu Espírito pode penetrar as mentes humanas, por si mesma, sem coadjuvância externa. A segunda razão é que ele pode pôr a nossa obediência e suscetibilidade em vantagem para o teste, e, ao mesmo tempo, instruir-nos no caminho da genuína humildade. Pois o Senhor admite só uns poucos em sua escola. Portanto, as únicas pessoas capacitadas com sabedoria celestial são aquelas que vivem contentes com a pregação do evangelho, embora possam ser aparentemente indignas, e que não alimentam nenhum desejo de ver Cristo sepultado em [humana] dissimulação (=larvatum). Então, o ensino do evangelho tem de ser ministrado para servir ao propósito de despir os crentes de toda arrogância e orgulho.

O que fazer, porém, se alguém em nossos dias fala com excelente estilo e faz o ensino do evangelho faiscante com sua eloqüência? Deveria ser rejeitado, por essa conta, como se estivesse poluindo e obscurecendo a glória de Cristo? Minha resposta, antes de tudo, é que a eloquência não se acha de forma alguma conflitante com a simplicidade do evangelho quando, livre do desprezo dos homens, não só lhe dá o lugar de honra e se põe em sujeição a ele, mas também o serve como uma empregada à sua patroa. Pois, como diz Agostinho, "Aquele que deu Pedro, o pescador, também deu Cipriano, o orador". Ele quis dizer, com isso, que ambos os homens são de Deus, embora um deles, sendo muito superior em autoridade, lhe falte atratividade verbal; enquanto que o outro, que se assenta aos pés do primeiro, é famoso por sua excelente eloquência. Não devemos condenar nem rejeitar a classe de eloquência que não almeja cativar cristãos com um requinte exterior de palavras, nem intoxicar os ouvintes com deleites fúteis, nem fazer cócegas em seus ouvidos com sua suave melodia, nem mergulhar a Cruz de Cristo em sua vã ostentação. Não! Não devemos condena- Ia nem rejeitá-la, porque, em contrapartida, seu alvo é conclamar-nos de volta à simplicidade original do evangelho, pôr em relevo a pregação da Cruz e nada mais, humilhando-se voluntariamente, e, finalmente, cumprindo, por assim dizer, seus deveres de arauto, para obter a atenção daquelas pessoas simples, comuns e sem cultura, que não gozam de nenhum privilégio senão o poder do Espírito.

Em segundo lugar, respondo que o Espírito de Deus também possui uma eloqüência particularmente sua. Pois ela brilha com aquele esplendor que lhe é natural, peculiar a si mesma, fazendo uso de uma palavra mais excelente, intrínseca (como dizem), superior aos pretensos ornamentos retóricos. Os profetas possuíam esta eloquência, particularmente Isaías, Davi e Salomão. Moisés também possuía uma pitada dela. De fato, ainda que os escritos dos apóstolos não sejam tão polidos, todavia tênues centelhas dela se revelam ali também. Sugere-se que a eloquência que está em conformidade com o Espírito de Deus não é bombástica nem ostentosa, como também não produz um forte volume de ruídos que equivalem a nada. Antes, ela é genuína e eficaz, e possui muito mais sinceridade do que refinamento.
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Por João Calvino
Fonte: O Calvinista
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