sexta-feira, 5 de setembro de 2014

A Doutrina da Trindade [02/29]


NAS ESCRITURAS, DESDE A PRÓPRIA CRIAÇÃO, SE ENSINA UMA ESSÊNCIA ÚNICA DE DEUS, QUE EM SI CONTÉM TRÊS PESSOAS

2. A questão das Três Pessoas e a unidade substancial de Deus

Mas Deus se designa também por outra marca especial, mediante a qual possa ele ser distinguido mais precisamente. Ora, ele se proclama como sendo o único em termos tais que nos levam a considerá-lo em três pessoas distintas, as quais, se não as reconhecemos, no cérebro nos revolve apenas o nome de Deus, desnudo e como um vácuo, sem o Deus real. Contudo, para que alguém não imagine um Deus tríplice ou conclua que a essência singular de Deus seja parcelada pelas três pessoas, aqui nos deparamos com a necessidade de buscar uma definição breve e fácil, que nos ponha a salvo de todo erro. 

Contudo, visto que alguns investem odientamente contra o termo pessoa, como sendo de invenção humana, deve-se ver em primeiro lugar com que equidade o fazem. O Apóstolo, designando o Filho de Deus como sendo a expressa representação da hipóstase do Pai [Hb 1.3], ao Pai atribui não dubiamente certa subsistência em que difere do Filho. Ora, tomar hipóstase como equivalente de essência, como têm feito alguns intérpretes, como se Cristo em si representasse a substância do Pai, à maneira de cera impressa por um selo, não seria apenas impróprio, mas igualmente absurdo. Portanto, uma vez que a essência de Deus, que a contém toda em si, é simples e indivisa, sem parcelamento nem distribuição, mas em perfeição integral, impropriamente, mais ainda, até absurdamente, diz-se que o Filho é sua expressa representação. Mas como o Pai, ainda que seja distinto do Filho por sua propriedade, é representado plenamente neste, com toda razão se diz que manifestou-se nele sua hipóstase; a que se ajusta apropriadamente o que logo em seguida se acrescenta: que o Filho é o resplendor de sua glória [Hb 1.3]. Das palavras do Apóstolo concluímos com certeza que no Pai subsiste uma hipóstase própria, que esplende no Filho.

Donde, também, em contrário, facilmente se infere a hipóstase do Filho, que o distingue do Pai. O mesmo arrazoado vale em relação ao Espírito Santo, pois prontamente provaremos não só ser ele Deus, mas ainda é necessário que o tenhamos como hipóstase diferente do Pai.58 Entretanto, esta não é uma distinção de essência, a qual não é admissível ser tomada como múltipla.

Portanto, se o testemunho do Apóstolo merece crédito, segue-se que há em Deus três hipóstases. Quando os latinos expressaram o mesmo pelo termo pessoa, é de excessiva impertinência, e até mesmo de obstinação, contender acerca de matéria sobejamente evidente. Se porventura preferir-se traduzir ao pé da letra, pode-se dizer subsistência. Muitos usaram o termo substância nesta mesma acepção. De fato, tampouco somente os latinos fizeram uso do termo pessoa, mas os gregos, de igual modo, talvez com o propósito de atestar sua anuência à doutrina, ensinaram haver em Deus três pessoas.

Contudo, os que diferem entre si em palavras, sejam gregos, sejam latinos, estão de pleno acordo na essência da matéria.
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Fonte: As Institutas, Capítulo XIII
Por: João Calvino

Notas
58. Primeira edição: “mas ainda [que], necessariamente, é de haver-Se [por] outro que o Pai.”
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