quarta-feira, 17 de setembro de 2014

A Doutrina da Trindade [04/29]

NAS ESCRITURAS, DESDE A PRÓPRIA CRIAÇÃO, SE ENSINA UMA ESSÊNCIA ÚNICA DE DEUS, QUE EM SI CONTÉM TRÊS PESSOAS

4. Utilidade dos termos Trindade e Pessoa em relação a conceitos heréticos

Mas, a novidade (se assim se deve denominar) de termos desta espécie então vem a uso mui relevante, quando se tem de afirmar a verdade contra seus detratores, os quais, em tergiversando, a evadem, o que hoje experimentamos sobejamente.

Elas vêm muito a propósito para que os inimigos da pura e sã doutrina sejam desbaratados, mormente em que, com seu serpear sinuoso e insinuante, estas serpentes escorregadias se escapolem, a menos que sejam acossadas com vigor e, apanhadas, sejam esmagadas. Assim, os antigos, assoberbados de não poucas escaramuças de doutrinas pervertidas, foram compelidos a expressar com magistral clareza e propriedade o que sentiam, para que não deixassem aos ímpios subterfúgios distorcidos, a quem os invólucros das palavras eram os esconderijos dos erros.

Porque não podia opor resistência a testemunhos manifestos da Escritura, Ário confessava a Cristo como Deus e Filho de Deus e, como se agisse com probidade, aparentava certa conformidade com os demais. Mas, ao mesmo tempo, não cessava de alardear que Cristo fora criado e tivera começo, como as demais criaturas. Os antigos, no afã de arrancar de seus antros a versátil sutileza do homem, avançaram além, proclamando a Cristo como o eterno Filho do Pai e consubstancial com o Pai.

Então, efervesceu a impiedade, em que os arianos começaram a abominar e a execrar mui perversamente o termo – consubstancial. Ora, se sinceramente e de coração o houvessem, desde o princípio, confessado Deus, não o teriam negado ser consubstancial com o Pai.

Quem se atreverá a acusar àqueles santos varões de amigos de controvérsias e dissensões, pelo fato de que, por uma simples palavra, se inflamassem os ânimos na disputa ao ponto de turbar a paz e tranqüilidade da Igreja?61 Mas, essa palavrinha fazia a diferença entre os cristãos de fé pura e os sacrílegos arianos.60.

Mais tarde surgiu Sabélio, que não levava quase em nenhuma conta os títulos Pai, Filho e Espírito Santo, arguindo que não eram empregados em função de alguma distinção; ao contrário, eram apenas atributos diversos de Deus, dos quais mui vasto é o número. Se tal matéria viesse a debate, confessava crer que o Pai é Deus, o Filho é Deus, o Espírito é Deus; mas, em seguida, lhe era fácil safar-se, alegando que nada mais havia afirmado senão que havia chamado a Deus de forte, justo e sábio.

E dessa forma ecoava novamente outra cantilena: que o Pai é o Filho e o Espírito Santo é o Pai, sem nenhuma hierarquia, sem nenhuma distinção. Para que a improbidade desse homem fosse desmantelada, os probos doutores que no coração tinham então a piedade, redarguiam com veemência, dizendo que é preciso reconhecer verdadeiramente três propriedades no Deus uno e único.

E para que, contra suas tortuosas sutilezas, se armassem da verdade aberta e simples, afirmaram que subsiste no Deus uno e único ou – o que era o mesmo – subsiste na unidade de Deus, verdadeiramente, uma trindade de pessoas.
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Fonte: As Institutas, Capítulo XIII
Por: João Calvino

60. Primeira edição: “o a verdade fazer-se clara e lúcida?”
61. Primeira edição: “Quem haja de ousar investir contra esses probos varões como se querelantes e contenciosos, por isso que, em função de uma palavrinha só, se hajam incendido de tão grande fervor de disputar e perturbado hajam a paz da Igreja?”

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