terça-feira, 23 de setembro de 2014

A Doutrina da Trindade [05/29]


NAS ESCRITURAS, DESDE A PRÓPRIA CRIAÇÃO, SE ENSINA UMA ESSÊNCIA ÚNICA DE DEUS, QUE EM SI CONTÉM TRÊS PESSOAS

5. Sentido e distinção de termos fundamentais, a saber, substância, consubstancial, essência, hipóstase, Pessoa e Trindade.

Se portanto estes termos não foram inventados temerariamente, devemos acautelar-nos para que não sejamos arguidos de presunçosa temeridade, os repudiando. Prouvera que realmente fossem sepultados, contanto que entre todos esta fé se patenteasse: que o Pai e o Filho e o Espírito são um e único Deus, todavia de modo que o Filho não é o Pai como tal; ou o Espírito, o Filho; ao contrário, que são distintos entre si por determinada propriedade.

Na verdade, não sou de uma intransigência tão categórica que porfie por digladiar por causa de meros palavretes! Pois tomo em consideração que os antigos, de outra sorte a falar destas coisas com muita reverência, não concordam nem entre si, nem ainda a todo tempo consigo próprios, individualmente. Ora, que formas de expressão usadas pelos concílios que Hilário justifica? Com que liberdade por vezes Agostinho62 prorrompe! Quão antagônicos os latinos são dos gregos! Desta diversidade, porém, baste apenas um exemplo. Quando os latinos quiseram traduzir o termo homousious, empregam consubstantiâlis [consubstancial], indicando assim que uma é a substância do Pai e do Filho e dessa forma usando substância por essência. Donde também Jerônimo, da epístola a Damaso, diz ser sacrilégio atribuir três substâncias em Deus, e no entanto que há em Deus três substâncias se achará em Hilário mais de cem vezes!

Quão confuso, porém, se mostra Jerônimo com a palavra hipóstase! Pois quando se referem três hipóstases em Deus, suspeita ele que há veneno escondido embaixo. E se alguém faz uso desta palavra em sentido piedoso, mesmo assim ele não esconde que é uma forma imprópria de falar. Se, afinal, é que haja assim falado sinceramente e não antes diligenciada, cônscia e deliberadamente, por infamar com injusta calúnia aos bispos do Oriente, a quem detestava. Por certo que assevera isto com bem reduzida lucidez: que em todas as escolas profanas, ouvsiva [ousía] outra coisa não era senão hipóstase, o que reiteradamente se refuta pelo uso comum e constante.

Mais comedido e compreensivo é Agostinho63 que, embora afirme ser novel o termo hipóstase aos ouvidos latinos, nesta acepção, contudo, tanto não deprecia aos gregos sua maneira de expressar-se, que até mesmo tolera placidamente aos latinos que passaram a imitar a terminologia grega. E o que também Sócrates escreve a respeito, no livro VI da História Tripartite, leva a isto: que o termo hipóstase foi originalmente aplicado a esta matéria, em moldes improcedentes, pode-se dizer, por homens ignorantes. Aliás, o mesmo Hilário acusa os hereges de grande crime, por- quanto, pela improbidade deles, é forçado a sujeitar ao perigo do discurso humano coisas que fora conveniente que se contivessem na sacralidade das mentes, não dissimulando que isto é fazer coisas impermissíveis, dizer coisas inexprimíveis, presumir coisas não admitidas. Pouco depois, ainda se desculpa longamente porque ousa introduzir termos novos, pois, empregado que haja os designativos de natureza, Pai, Filho e Espírito, acrescenta que tudo quanto se busca além disso ultrapassa o sentido da linguagem, o alcance dos sentidos, a capacidade da inteligência. E, em outro lugar,64 proclama os bispos da Gália bem-aventurados, os quais não haviam elaborado, nem recebido, nem sequer conhecido outra confissão além daquela antiga e mui simples, que havia sido recebida entre todas as igrejas desde o tempo dos apóstolos. Nem é diferente a escusa de Agostinho, de que, em razão da pobreza da linguagem humana em matéria de tão alto importe, esta palavra hipóstase havia sido forçada pela necessidade, não para que se expressasse o que é, mas apenas para que não se passasse em silêncio o fato de que são três o Pai, o Filho e o Espírito.

E, por outro lado, esta sobriedade dos santos varões nos deve advertir, para que não marquemos de imediato, com tanta severidade, como por um estilete censório, aqueles que não se disponham a jurar por palavras concebidas por nós, desde que não façam isto ou por arrogância, ou por mero capricho, ou por maldoso intento; ao contrário, por sua vez, eles próprios ponderem ser levados de quão impiedosa necessidade por assim falarmos, para que, aos poucos, afinal se acostumem a esta relevante forma de expressão. Aprendam também a acautelar-se, para que, ao ter de enfrentar, de um lado, os arianos; de outro, os sabelianos, enquanto se agastam de que a uns e outros se corte a oportunidade de tergiversar, nenhuma suspeita instilem de que são discípulos, seja de Ário, seja de Sabélio.

Ário afirma que Cristo é Deus, porém resmunga que ele foi criado e teve começo. Diz que é um com o Pai, mas, às escondidas, sussurra aos ouvidos dos seus que ele está unido ao Pai como os demais fiéis, se bem que em prerrogativa singular. Digas que ele é consubstancial: terás removido a máscara a um hábil dissimulador e no entanto nada assim acrescentas às Escrituras.

Diz Sabélio que os termos Pai, Filho e Espírito não expressam nenhuma distinção em Deus. Digas que na essência una e única de Deus subsiste uma trindade de pessoas: terás dito em uma palavra o que as Escrituras dizem e terás refreado a loquacidade vazia.

Se todavia a alguns constringe superstição tão inquietante que não suportam estes termos, contudo ninguém poderá agora negar isto, nem ainda que estoure: quando ouvirmos falar de um, devemos entender a unidade de substância; quando ouvimos falar de três em uma essência, denotam-se as pessoas nessa trindade. Quando se confessa isto, sem subterfúgios nem reservas, já não nos detemos mais em questão de palavras. Tenho, porém, de longa data experimentado, e na verdade não poucas vezes, que todos quantos mais pertinazmente litigam acerca de palavras, nutrem peçonha secreta, de sorte que é preferível provocá-los abertamente do que falar de maneira menos explícita para ser-lhes agradável.
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Fonte: As Institutas, Capítulo XIII
Por: João Calvino

Notas
62. Da Trindade, livro V, capítulos 8 e 9.
63. Da Trindade, livro II, capítulo 2.
64. Dos Concílios, 69.
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