segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Apenas os crentes é que são santificados [01/02]


Todos os que sinceramente creem no Senhor Jesus Cristo, e em Deus através de Jesus Cristo — e somente os que creem — são santificados (Jo 17.17, 19, 20; 7.38, 39; 1Ts 1.1; 5.23).

Objeção. Se o Espírito de santificação é dado apenas aos crentes, então como é que os homens se tornam crentes? Se não temos o Espírito Santo senão depois de crermos, então, temos de crer por nossos próprios esforços. Não é isso o que Pedro diz em Atos 2.38? Ele afirmou que primeiro era necessário se arrepender e ser batizado e só então se receberia o dom do Espírito Santo. E não nos disse Jesus que o mundo não pode receber o Espírito Santo? (Jo 14.17). Parece que fé e obediência são exigidas como os requisitos necessários ao recebimento do Espírito Santo. Se isso for verdade, então fé e obediência são obras nossas, e não obras produzidas em nós pela graça de Deus, e isso é Pelagianismo.

Resposta. Em primeiro lugar se diz que o Espírito Santo nos foi prometido e por nós recebido para uma obra em particular. Embora seja “um só e o mesmo Espírito”, sendo ele mesmo prometido, dado e recebido, não obstante tenha muitas e diferentes obras a realizar. Assim, por muitas e diferentes razões é que recebemos nós o Espírito Santo. Aos incrédulos é prometido e por eles recebido como aquele que vem para torná-los crentes. Aos crentes é prometido e por eles recebido como aquele que vem para santificá-los e torná-los santos.

Em segundo lugar, o Espírito Santo é prometido e recebido para efetuar duas obras principais. É prometido aos eleitos e por eles recebido para regenerá-los. Aos assim regenerados é prometido e por eles recebido para santificá-los, ou torná-los santos.

Essa obra de santificação deve ser considerada de duas formas: primeira, que o Espírito Santo mantém vivo o princípio de santidade dado aos crentes; segunda, que é sua a obra de santificação progressiva, inclusive o crescimento na fé. A fé também precisa ser considerada de duas maneiras: primeira, quanto à sua infusão original na alma, como um dom de Deus; segunda, quanto à sua atividade e frutos, vistos na profissão de fé de toda uma vida e em santa obediência.

Em terceiro lugar, o Espírito Santo é prometido como o Consolador. Para essa obra ele não é prometido ao regenerado em si, porque muitos que podem ser regenerados não devem receber consolação, nem dela precisam, como no caso de criancinhas regeneradas. Nem é prometido total e absolutamente em toda a sua magnitude aos crentes adultos, pois muitos deles não chegaram àquela condição em que a consolação do Espírito Santo lhes fosse benéfica.

Em quarto lugar, o Espírito Santo é prometido e recebido como o doador de dons espirituais para a edificação da igreja (At 2.38, 39).

A razão por que o Espírito é concedido para a regeneração é a eleição. A razão por que é concedido para a santificação é a regeneração. A razão por que é concedido para a consolação é a santificação, juntamente com as tentações e os dissabores que passam os que estão sendo santificados. É por causa de tais dificuldades que os crentes necessitam do Espírito Santo como Consolador.

Mas por que razão é concedido o Espírito para a edificação da vida espiritual da igreja? É esta a razão: a profissão e o louvor da verdade do evangelho, juntamente com a convocação para o encorajamento e auxílio mútuos (1Co 12.7).

Devemos aqui chamar a atenção particularmente para as duas seguintes observações. Primeira, o Espírito Santo não concede os seus dons para a edificação da igreja a ninguém que se encontre fora dos seus muros, ou a quem não professe a verdade e o louvor do evangelho. Segunda, o Espírito Santo é soberano, é ele quem decide a quem conceder os seus dons. E não pode ser forçado a concedê-los nem a um nem a todos (1Co 12.11).

Pergunta. Por ser prometido aos crentes o Espírito de santificação, podemos em nossas orações apelar para o fato de que somos crentes, regenerados, como uma razão para persuadir a Deus a nos conceder mais graça pelo seu Espírito?

Resposta. Não podemos apelar apropriadamente para qualquer qualidade presente em nós mesmos, como se Deus fosse obrigado a nos conceder um aumento de graça porque o mereçamos. Disse Jesus, “vós, depois de haverdes feito tudo quanto vos foi ordenado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos apenas o que devíamos fazer” (Lc 17.10). Mas podemos apelar à fidelidade e à justiça do Deus que cumpre as suas promessas. Devemos orar para que ele “não se esqueça das obras da sua própria mão”; porque “aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus”; para que, quanto ao seu pacto e promessas, ele conserve seguramente em seu cuidado aquela nova criatura, aquela divina natureza que formou e implantou em nós. Quando nos conscientizamos da fraqueza de qualquer graça, devemos humildemente confessá-la e orar para que essa graça seja fortalecida em nós.

Pergunta. Os crentes em tribulação podem, por causa das suas angústias, orar ao Espírito como o Consolador por entenderem que ele lhes fora prometido?

Resposta. Podem e devem orar pela consolação do Espírito em todas as suas tribulações. Se não o fazem, é sinal de que estão buscando consolação em outro lugar. As tribulações podem ser de dois tipos: espirituais e temporais. É principalmente por causa daquelas que o Espírito Santo foi prometido como Consolador. As tribulações espirituais tanto podem ser subjetivas, decorrentes das trevas e angústias íntimas por causa dos pecados, quanto objetivas, decorrentes da perseguição por causa do nome de Cristo e do evangelho.

As angústias temporais, por outro lado, são comuns a todos os homens. Surgem de coisas tais como a privação e a perda de propriedade ou de liberdade. Os cristãos devem orar pelo Espírito como o Consolador para que as consolações de Deus possam sobrepujar em muito às suas angústias e que por elas possam encorajar-se a outros deveres.

Pergunta. Podem os que sinceramente creem no evangelho orar para que o Espírito lhes conceda dons espirituais para a edificação de outros, e especialmente da igreja, tendo em vista que foi por essa razão que ele foi prometido?

Resposta. Podem, mas com as seguintes restrições: devem orar submissos à soberania do Espírito que dá a cada um “segundo a sua vontade”; devem orar com vistas à posição e deveres que têm na igreja pela providência e chamado de Deus. Aquele que não foi chamado para pregar não pode orar pelo dom da pregação. Aqueles que não foram chamados para pregar, ensinar ou ministrar à igreja não têm qualquer respaldo para orar por dons ministeriais. Devem orar por aqueles dons que melhor os capacite a cumprir os seus próprios deveres. Os genitores, por exemplo, devem orar por dons parentais.

Pergunta. Alguém não regenerado pode orar para que o Espírito da regeneração opere tal obra nele? O Espírito da regeneração, como tal, só está prometido ao eleito. Assim, pois, como poderia um incrédulo saber se é um dos eleitos?

Resposta. Não podemos, de nossa parte, utilizar a condição de eleito como argumento na oração. A eleição é o propósito secreto de Deus. Os que são eleitos só nos são revelados ao se tornarem crentes. Os convictos de pecado podem e devem orar para que Deus lhes envie o seu Espírito e os regenere. Deus lhes enviará o seu Espírito e os regenerará. Esse é um dos meios pelo qual podemos “fugir da ira vindoura” (Mt 3.7). O objeto especial das suas orações é a graça soberana, bondade e misericórdia segundo nos foi declarada em e por Jesus Cristo. Na verdade, aos que se encontram sob tais convicções de pecado já foram conferidas, algumas vezes, as sementes da regeneração. Vão, portanto, continuar a orar de fato para que a obra de regeneração seja apropriadamente produzida neles. Assim, no tempo oportuno, ser-lhes-á concedida a indicação de que tal obra neles se operou.
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Por John Owen.
Fonte : Livro, O Espírito Santo. Capítulo 13.
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