sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Onde Estão as Pessoas que Oram?

"E busquei dentre eles um homem que estivesse tapando o muro, e estivesse na brecha perante mim por esta terra, para que eu não a destruísse; porém a ninguém achei." Ezequiel 22.30


Por David Wilkerson
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A Doutrina da Trindade [11/29]


NAS ESCRITURAS, DESDE A PRÓPRIA CRIAÇÃO, SE ENSINA UMA ESSÊNCIA ÚNICA DE DEUS, QUE EM SI CONTÉM TRÊS PESSOAS

11. Os apóstolos aplicam a Cristo o que fora dito do Deus eterno

O Novo Testamento, porém, borbulha de inumeráveis testemunhos. Portanto, devemos dar-nos ao trabalho de, concisamente, selecionar apenas uns poucos desses testemunhos, antes de coligi-los todos. E, embora os apóstolos tenham falado dele desde que já se apresentara na carne como Mediador, todavia tudo quanto trarei à consideração haverá de servir apropriadamente para provar sua eterna Deidade.

Em primeiro plano, digno de especial atenção é isto: que os apóstolos ensinam que o que se predissera do Deus eterno ou já se patenteou em Cristo ou um dia haverá de se manifestar nele. Pois quando Isaías profetiza que o Senhor dos Exércitos haveria de ser aos judeus e israelitas por pedra de tropeço e rocha de escândalo [Is 8.14], Paulo afirma que isso se cumpriu em Cristo [Rm 9.33]. Logo, Paulo declara que Cristo é esse Senhor dos Exércitos. De igual modo, em outro lugar [Rm 14.10, 11]: “Importa” diz ele, “que todos, uma vez, nos assentemos perante o tribunal de Cristo, pois foi escrito: Diante de mim todo joelho se dobrará e toda língua me confessará.”

Quando, em Isaías [45.23], Deus anuncia isto de si mesmo e de Cristo, o exibe objetivamente em si mesmo, segue-se que ele é aquele próprio Deus cuja glória não se pode transferir a outrem. O que também cita do Salmo [68.18] na epístola aos Efésios [4.8] é evidente que se refere unicamente a Deus: “Subindo ao alto, conduziu o cativeiro.” Compreendendo que ascensão dessa natureza só se prefigurara então, quando Deus manifestou seu poder em insigne vitória contra nações estrangeiras, Paulo a assinala que ela se manifesta mais plenamente em Cristo. Assim, João [12.41] testifica que foi a glória do Filho que, através de visão, fora revelada a Isaías [6.1], quando, entretanto, o próprio Profeta escreve que vira a majestade de Deus.

Além disso, é evidente que aquelas atribuições que o Apóstolo confere ao Filho, na Epístola aos Hebreus, são claríssimas exaltações de Deus: “Tu, Senhor, no princípio lançaste os fundamentos do céu e da terra” etc. [Hb 1.10]; de igual modo: “Adorai-o vós, todos os seus anjos” [Hb 1.6]. Contudo, nem delas abusa quando as aplica a Cristo, uma vez que tudo quanto se canta nesses salmos somente ele o cumpriu. Pois foi ele que, levantando-se, se compadeceu de Sião [Sl 102.13], ele que para si reivindicou o reino de todos os povos e ilhas [Sl 97.1]. E por que João, que dissera antes que o Verbo sempre fora Deus, teria hesitado em atribuir a Cristo a majestade de Deus? Por que haveria Paulo de ter-se arreceado de instalar a Cristo no tribunal de Deus [2Co 5.10], havendo-lhe previamente proclamado a divindade com tão franca proclamação, quando dissera ser Cristo “Deus bendito para sempre” [Rm 9.5]? E para que transpareça o quanto Paulo é consistente neste ponto, ele escreve ainda em outro lugar [1Tm 3.16] que Cristo é Deus manifestado em carne. Se como Deus Cristo deve ser louvado para sempre, então ele é Aquele a quem unicamente se devem toda honra e glória, o mesmo Paulo o afirma em outra passagem [1Tm 1.17]. Na verdade nem mesmo dissimula isto, senão que o proclama abertamente: “Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas a si mesmo se esvaziou, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens” [Fp 2.6, 7].

E para que os ímpios não concluíssem que ele é algum Deus fortuito, João vai além, dizendo: “Ele é o Deus verdadeiro e a vida eterna” [1Jo 5.20]. Todavia, mais do que suficiente nos deve ser que Cristo seja chamado Deus, especialmente por essa testemunha que nos assevera expressamente que não há muitos deuses, mas um único. E esse é Paulo, que assim fala [1Co 8.5-6]: “Ainda que muitos se chamem deuses, seja no céu, seja na terra, para nós, entretanto, há um só Deus, de quem procedem todas as coisas.” Quando da mesma boca ouvimos que Deus se manifestou em carne [1Tm 3.16], com cujo próprio sangue Deus adquiriu a Igreja para si [At 20.28], por que imaginamos um segundo Deus, a quem aquele de modo algum reconhece? E não há a mínima dúvida de que o mesmo foi o sentimento de todos os piedosos. De fato, de maneira semelhante, ao proclamá-lo abertamente seu Senhor e seu Deus [Jo 20.28], Tomé confessa ser ele aquele Deus único a quem havia sempre adorado.67
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Notas
67. Primeira edição: “De maneira, na verdade, semelhante, com abertamente proclamá [-lO] seu Senhor e [seu] Deus [Jo 20.28], Tomé [O] confessa ser Aquele Deus único a Quem havia sempre adorado.”

Fonte: As Institutas, Capítulo XIII
Por: João Calvino
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Reforma e Avivamento [03/07]

A Importância da Palavra na Reforma
"Porquanto o teu coração se enterneceu, e te humilhaste perante Deus, ouvindo as suas palavras contra este lugar, e contra os seus habitantes, e te humilhaste perante mim, e rasgaste as tuas vestes, e choraste perante mim, também eu te ouvi, diz o Senhor." 2 Crônicas 34.27

Por Sandro Vaz
Acampamento 2014 
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Panorama da História da Igreja [08/13]

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Martinho Lutero - A Reforma Protestante

Em 31 de outubro de 1517 foram pregadas as 95 Teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, com um convite aberto ao debate sobre elas. Esse fato é considerado como o início da Reforma Protestante.


Martinho Lutero nasceu em 1483 na pequena cidade de Eisleben, na Turíngia, em um lar muito religioso. Seu pai trabalhava nas minas e a família tinha uma vida confortável. Inicialmente, o jovem pretendeu seguir a carreira jurídica, mas em 1505 defrontou-se com a morte em uma tempestade e resolveu abraçar a vida religiosa. Ingressou no mosteiro agostiniano de Erfurt, onde se dedicou a uma intensa busca da salvação. Em 1512, tornou-se professor da Universidade de Wittenberg, onde passou a ministrar cursos sobre vários livros da Bíblia, como Gálatas e Romanos. Isso lhe deu um novo entendimento acerca da “justiça de Deus”: ela não era simplesmente uma expressão da severidade de Deus, mas do seu amor que justifica o pecador mediante a fé em Jesus Cristo (Rom 1.17).

No dia 31 de outubro de 1517, diante da venda das indulgências por João Tetzel, Lutero afixou à porta da igreja de Wittenberg as suas Noventa e Cinco Teses, a maneira usual de convidar-se uma comunidade acadêmica para debater algum assunto. Logo, uma cópia das teses chegou às mãos do arcebispo, que as enviou a Roma. No ano seguinte, Lutero foi convocado para ir a Roma a fim de responder à acusação de heresia. Recusando-se a ir, foi entrevistado pelo cardeal Cajetano e manteve as suas posições. Em 1519, Lutero participou de um debate em Leipzig com o dominicano João Eck, no qual defendeu o pré-reformador João Hus e afirmou que os concílios e os papas podiam errar.

Em 1520, a bula papal Exsurge Domine (“Levanta-te, Senhor”) deu-lhe sessenta dias para retratar-se ou ser excomungado. Os estudantes e professores da universidade queimaram a bula e um exemplar da lei canônica em praça pública. Nesse mesmo ano, Lutero escreveu várias obras importantes, especialmente três: À Nobreza Cristã da Nação Alemã, O Cativeiro Babilônico da Igreja e A Liberdade do Cristão. Isso lhe deu notoriedade imediata em toda a Europa e aumentou a sua popularidade na Alemanha. No início de 1521, foi publicada a bula de excomunhão, Decet Pontificem Romanum. Nesse ano, Lutero compareceu a uma reunião do parlamento, a Dieta de Worms, onde reafirmou as suas idéias. Foi promulgado contra ele o Edito de Worms, que o levou a refugiar-se no castelo de Wartburgo, sob a proteção do príncipe-eleitor da Saxônia, Frederico, o Sábio. Ali, Lutero começou a produzir uma obra-prima da literatura alemã, a sua tradução das Escrituras. 
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Por Alderi Souza de Matos 
Fonte: Mackenzie
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quinta-feira, 30 de outubro de 2014

O sacerdócio universal do fiéis

Introdução

Dentre os princípios fundamentais defendidos pelos reformadores do século XVI, está o “Sacerdócio Universal dos Fiéis” ou “Sacerdócio de Todos os Crentes”. Os outros princípios, dos quais este decorre, são as Escrituras como norma suprema de fé e vida e a salvação pela graça mediante a fé, alicerçada na obra redentora de Jesus Cristo.

Embora o Velho Testamento apresente claramente a noção de um ofício sacerdotal exercido por elementos da tribo de Levi em benefício do povo de Israel, existem passagens que antecipam um entendimento mais amplo dessa função. Êxodo 19.5-6: “Se diligentemente ouvirdes a minha voz, e guardardes a minha aliança, então sereis a minha propriedade particular dentre todos os povos... vós me sereis reino de sacerdotes e nação santa”. Outro texto relevante é Isaías 61.6: “Vós sereis chamados sacerdotes do Senhor, e vos chamarão ministros de nosso Deus”.

1. Novo Testamento

No Novo Testamento, o conceito de sacerdócio tem dois aspectos: (a) Jesus Cristo é o grande sumo sacerdote: todas as funções do sacerdócio da antiga dispensação concentram-se nele, e são por ele transformadas. Ele é o único mediador entre Deus e os seres humanos (1 Tm 2.5). Ele é o representante de Deus junto aos homens e o representante dos homens junto a Deus. Ele é, ao mesmo tempo, o sacerdote e o sacrifício. A Carta aos Hebreus expõe claramente a superioridade do sacerdócio de Cristo sobre o sacerdócio levítico e apresenta o caráter definitivo e totalmente eficaz do seu auto-sacrifício sobre a cruz (Hb 2.17; 3.1; 4.14s; 5.10; 6.20; 7:24-27; 9:12,26; 10.12). A literatura joanina também fala repetidamente do sacerdócio de Cristo, como em João 1.29.

(b) Todos os crentes partilham desse sacerdócio: isso se expressa principalmente nas áreas da adoração, serviço e testemunho. 1 Pedro 2.5: “Também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo”. 1 Pedro 2.9: “Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz”. O Apocalipse destaca o aspecto governamental desse sacerdócio: “Àquele que nos ama, e pelo seu sangue nos libertou dos nossos pecados, e nos constituiu reino, sacerdotes para o seu Deus e Pai...” (1.5-6); “Digno és de tomar o livro e de abrir-lhe os selos, porque foste morto e com o teu sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação, e para o nosso Deus os constituíste reino e sacerdotes” (5.9-10).

O Novo Testamento não menciona a existência de um ofício sacerdotal na Igreja. Essa idéia surgiu posteriormente, em escritores como Clemente (ministério cristão composto de sumo sacerdote, sacerdote e levita), a Didaquê (chama os profetas cristãos de “vossos sumos sacerdotes” e refere-se à eucaristia como um sacrifício) e, mais especificamente, em Tertuliano e Hipólito, que se referem aos ministros cristãos como “sacerdotes” e “sumos sacerdotes”.

2. Idade Média

Na Idade Média, desenvolveu-se plenamente a idéia do sacerdócio (o clero) como uma classe distinta dos leigos, dotada de dignidade e direitos especiais. Essa idéia resultou do entendimento da eucaristia como um sacrifício – a repetição do sacrifício de Cristo –, o que exigia a figura do sacerdote. Além disso, a noção de que os (sete) sacramentos são canais quase que exclusivos da graça de Deus e só podem ser ministrados através do sacerdócio, deu aos sacerdotes, à hierarquia, um enorme poder sobre as vidas dos fiéis. Os leigos tornaram-se totalmente dependentes da ministração dos sacerdotes para receberem os benefícios da graça de Deus e, em última análise, a própria salvação.

Um exemplo dos malefícios causados por esses dogmas pode ser visto na prática do interdito ou interdição, um instrumento utilizado pelos papas e outros líderes religiosos contra os reis europeus, mediante o qual o clero ficava proibido de ministrar os sacramentos em uma cidade, região ou país inteiro como um instrumento de pressão político-religiosa.

3. Martinho Lutero

Em sua peregrinação espiritual, Lutero veio a ter uma compreensão da graça de Deus que se chocou frontalmente com esse entendimento da Igreja e do ministério cristão. A partir de 1512, quando se tornou professor de estudos bíblicos na Universidade de Wittenberg, ele começou a encontrar nas Escrituras uma série de verdades revolucionárias a respeito da salvação. A salvação fundamentava-se exclusivamente na graça de Deus e na obra expiatória de Cristo. Mediante a fé ou confiança nessa graça e nessa obra, o indivíduo era justificado, ou seja, aceito como justo por Deus, sendo que essa fé também era uma dádiva do alto. As obras ou méritos humanos não desempenhavam nenhum papel nesse processo, mas a salvação era, do começo ao fim, uma dádiva da livre graça de Deus ao pecador arrependido.

A partir de 31 de outubro de 1517, Lutero passou a elaborar as implicações mais amplas dessa nova percepção. Ele o fez principalmente através de uma obra que escreveu em 1520, A Liberdade do Cristão, onde argumenta que “a alma crente, por seu compromisso de confiar em Cristo, livra-se de todo pecado, do temor da morte e do inferno, e se reveste com a justiça eterna, a vida, e a salvação de Cristo, o seu esposo”. É isto o que concede plena liberdade ao cristão.

Diz Lutero: “De posse da primogenitura e de todas as suas honras e dignidade, Cristo divide-a com todos os cristãos para que por meio da fé todos possam ser também reis e sacerdotes com Cristo, tal como diz o apóstolo Pedro em 1 Pe 2.9... Somos sacerdotes; isto é muito mais que ser reis, porque o sacerdócio nos torna dignos de aparecer diante de Deus e rogar pelos outros”.

Mais adiante ele pondera: “Tu perguntas: ‘Que diferença haveria entre os sacerdotes e os leigos na cristandade, se todos são sacerdotes?’ A resposta é: as palavras ‘sacerdote’, ‘cura’, ‘religioso’ e outras semelhantes foram injustamente retiradas do meio do povo comum, passando a ser usadas por um pequeno número de pessoas denominadas agora ‘clero’. A Escritura Sagrada distingue apenas entre os doutos e os consagrados, chamando-os de ministros, servos e administradores, que devem pregar aos outros a Cristo, a fé e a liberdade cristã. Já que, embora sejamos todos igualmente sacerdotes, nem todos podem servir, administrar e pregar. Como disse Paulo em 1 Co 4.1: “Assim, pois, importa que os homens nos considerem como ministros de Cristo, e despenseiros dos mistérios de Deus.” (A Liberdade do Cristão, cap. 17).

Os leigos têm a mesma dignidade que os ministros. Todas as profissões e atividades são igualmente valiosas aos olhos de Deus. Os ministros diferenciam-se dos leigos simplesmente nisso: foram escolhidos para realizar certos deveres definidos, para que haja ordem na casa de Deus. Foi esse princípio do sacerdócio de todos os crentes que libertou os homens do temor e dependência do clero. É o grande princípio religioso que jaz na base de todo o movimento da Reforma. Não somente Lutero, mas todos os demais reformadores o afirmaram, em especial João Calvino.

4. Implicações práticas

Dessa verdade bíblica, decorrem algumas implicações práticas:


a) O princípio do sacerdócio universal dos crentes nos fala do grande privilégio que temos como filhos de Deus: cada cristão é um sacerdote, cada cristão tem livre e direto acesso à presença de Deus, tendo como único mediador o Senhor Jesus Cristo.

b) Todavia, esse princípio jamais deve ser entendido de maneira individualista. A ênfase dos reformadores está no seu sentido comunitário. Somos sacerdotes uns dos outros, devendo orar, interceder e ministrar uns aos outros. À luz do Novo Testamento, todo cristão é um ministro (diákonos) de Deus, o que ressalta as idéias de serviço e solidariedade.

c) Num certo sentido, todos os crentes são “leigos”, palavra que vem do termo grego laós, o povo de Deus. Todavia, a Escritura claramente fala de diferentes dons e ministérios. Alguns cristãos são especificamente chamados, treinados e comissionados para o ministério especial de pregação da Palavra e ministração dos sacramentos.

d) Os leigos, no sentido daqueles que não são “ministros da Palavra”, também têm importantes esferas de atuação à luz do Novo Testamento. Os líderes da Igreja devem falar sobre o ministério do povo de Deus, bem como instruir e incentivar os crentes e desempenharem o seu ministério pessoal e comunitário. A placa de uma igreja nos Estados Unidos dizia o seguinte: “Pastor: Rev. tal; Ministros: todos os membros”.

e) O sacerdócio universal dos crentes corre o risco de tornar-se mera teoria em muitas igrejas evangélicas. Sempre que os pastores exercem suas funções com excesso de autoridade (1 Pedro 5.1-3), insistindo na distância que os separa da comunidade, relutando em descer do pedestal em que se encontram, concentrando todas as atividades de liderança e não sabendo delegar responsabilidades às suas ovelhas, tornando as suas igrejas excessivamente dependentes de sua orientação e liderança, não dando oportunidades para que as pessoas exerçam os dons e aptidões que o Senhor lhes tem concedido, há um retorno ao sacerdotalismo medieval contra o qual Lutero e os demais reformadores se insurgiram.

Que o Senhor nos dê a graça de valorizarmos e praticarmos fielmente o princípio bíblico do sacerdócio de todos os crentes, redescoberto pelos reformadores do século XVI. Dessa maneira, seguindo a verdade em amor, cresceremos “em tudo naquele que é o cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado, pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor” (Ef 4.15s).
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Por Alderi Souza de Matos
Fonte: Mackenzie
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quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Prefácio de Calvino para o Saltério de Genebra


Uma das coisas mais requerida na Cristandade e uma das mais necessárias, é que cada um dos fiéis observe e sustente a comunhão da Igreja em sua localidade, frequentando as assembleias que acontecem tanto aos Domingos como em outros dias para honrar e servir a Deus: assim também era conveniente e razoável que todos soubessem e ouvissem o que se deve dizer e fazer no templo a fim de receber fruto e edificação.

ENTENDIMENTO É ESSENCIAL

Pois nosso Senhor não instituiu a ordem que devemos obedecer quando nos reunimos em Seu Nome, somente para entreter o mundo quando este olha e observa, antes, ele deseja que o culto seja útil para todo o seu povo; como São Paulo testemunhou, ordenando que tudo que for feito na Igreja seja direcionado à edificação comum de todos; isto o servo não teria ordenado, não fosse esta a intenção do Mestre. Mas isto não pode ser feito, a menos que sejamos instruídos a usar a inteligência em tudo que foi ordenado para o nosso proveito. Porque dizer que somos capazes de ter consagração, tanto nas orações e cerimônias, sem entender nenhuma destas coisas, é uma grande tolice, no entanto, muito tem sido dito comumente. Mas Isto não que dizer que esta boa afeição para com Deus, deva ser algo morto ou embrutecido, ao contrário, ela é resultado de um mover vivo procedente do Espírito Santo, quando o coração é devidamente tocado e o entendimento iluminado. E se de fato, alguém pudesse ser edificado por coisas que alguém vê, sem entender o que elas significam São Paulo não proibiria tão rigorosamente o falar em línguas estranhas: e não usaria todo o seu arrazoado de que não há edificação a menos que haja doutrina. Portanto, se realmente queremos honrar as santas ordenanças de nosso Senhor que usamos na Igreja, a primeira coisa que devemos é saber o que elas contêm e o que elas significam e querem dizer e para que fim foram instituídas, para que o uso delas seja útil e salutar e consequentemente corretamente administrados.

ELEMENTOS NO CULTO

Agora há três breves coisas que nosso Senhor ordenou sejam observadas nas nossas assembleias espirituais: que são: a pregação de Sua Palavra, orações, públicas e solenes, e a administração dos sacramentos. Vou me abster de falar dos sermões desta vez, porque não há nenhuma questão a respeito deles. Tocando nas que restam, nós temos como ordenanças expressas do Espírito Santo que as orações sejam feitas em uma linguagem comumente conhecida do povo; e o Apóstolo disse que as pessoas não devem responder Amém àquelas orações que forem feitas em língua estranha. Isto porque, as orações são feitas em nome de todos, que naturalmente são participantes dela. Por isso é um grande descaramento por parte daqueles que introduziram a língua Latina na igreja, onde geralmente não é entendida. E não há nem sutileza nem casuísmo que possam desculpá-los, porque esta prática é perversa e desagrada a Deus. Além disso, não há nenhuma razão para presumir que Deus esteja de acordo com aqueles que estão indo diretamente contra a Sua vontade, e assim falam a despeito Dele. Por isso, nada o afeta mais que ir de encontro a sua proibição e gabar-se disto como se fosse algo santo e louvável.

SACRAMENTO ASSOCIADO À DOUTRINA

Quanto aos Sacramentos, se observarmos a sua natureza, vamos reconhecer que é um costume perverso celebrá-los de tal maneira que as pessoas somente as vejam, mas não compreendam os mistérios que eles contêm. Porque se eles são a Palavra visível, (como Agostinho os chama), é necessário, não somente que haja meramente um espetáculo externo, mas também que a doutrina seja associada com eles para emprestá-los inteligência. E também, nosso Senhor ao instituí-los demonstrou isso: porque Ele diz que são testemunhas da aliança que fez conosco, e a qual confirmou através de Sua morte. É necessário, portanto, dar-lhes seus próprios significados para que possamos saber e entender o que Ele disse: de outra sorte teria sido em vão que nosso Senhor abrisse sua boca para falar, se não houvesse ouvidos ao seu redor para ouvir. Assim não há necessidade de uma longa disputa a respeito disso. E quando a matéria é examinada com o senso comum, não há ninguém que não confesse que é completamente antiquado, entreter as pessoas com símbolos sem significado algum para eles. Assim podemos facilmente concluir que estes profanam os Sacramentos de Jesus Cristo, administrando-os de tal forma que as pessoas nem mesmo entendem as palavras que são ditas a respeito deles. E de fato, pode-se ver a superstição que emerge de tal prática. Porque é comumente considerado que a consagração, por exemplo da água do Batismo, ou do pão e do vinho da Santa Ceia do Senhor, é tal como um encantamento, em outras palavras, quando alguém respirou ou pronunciou com a boca as palavras, criaturas insensíveis a sentimentos, sentem o poder, embora os homens não entendam nada. Mas a verdadeira consagração é aquela se faz através da palavra da fé, quando é declarada e recebida, como St. Agostinho disse: aquela que é expressamente contida nas palavras de Jesus Cristo. Porque Ele não diz ao pão que é seu corpo, antes Ele dirige sua palavra ao ajuntamento dos fiéis, dizendo: tomai, comei, e assim por diante. Se quisermos celebrar corretamente este Sacramento, é necessário apropriar-se da doutrina, por meio da qual o significado nos é declarado. Eu sei que pode parecer muito entranho para quem não está acostumado a isto, como acontece com todas as coisas novas; mas é muito razoável se nós como discípulos de Jesus Cristo preferirmos sua instituição em lugar do nosso costume. E aquilo que Ele instituiu desde o princípio não deve parecer novo para nós.

E se isto ainda não foi capaz de penetrar no entendimento de alguém, é necessário que oremos a Deus, para que se for do Seu agrado, ilumine o ignorante para fazê-lo entender quão mais sábio é que todos os homens desta terra pudessem aprender a não se fixarem nos seus próprios sentidos, nem sequer em nenhuma sabedoria louca dos seus líderes que estão cegos. No entanto, para o uso em nossas igrejas, pareceu bem a nós tornar público, como uma coleção, estas orações e Sacramentos para que não só as pessoas desta Igreja, mas também todos aqueles que desejarem, saibam, de que forma os fieis devem comparecer e se portar quando se reunirem em nome de Cristo.

DOIS TIPOS DE ORAÇÃO

Nós temos então reunido em um sumário, a forma de celebrar os Sacramentos e santificar o casamento, igualmente as orações e louvores que usamos. Falaremos mais tarde sobre os Sacramentos. Quanto às orações públicas, há dois tipos. Aquelas somente com palavras, e outras cantadas. E isto não é alguma coisa inventada há pouco tempo atrás. Pois desde o início da Igreja tem sido assim, conforme o testemunho da história. E o próprio apóstolo Paulo fala, não apenas da oração de palavras, mas também da que é cantada. E na verdade nós sabemos, por experiência, que cantar tem grande força, vigor de mover e inflamar os corações dos homens para envolvê-los em adoração a Deus com mais veemência e ardente zelo. Sempre se deve ter cuidado, para que as músicas não sejam nem frívolas nem triviais, mas que tenham peso e majestade, (como dizia St. Agostinho), e também há uma grande diferença de músicas que alguém faz para entreter os homens à mesa ou em suas casas, e os Salmos que cantamos na Igreja, na presença de Deus e de Seus anjos. Mas se alguém quiser julgar corretamente a forma que apresentamos aqui, esperamos que a encontre santa e pura, direcionada à edificação da qual já temos falado.

EXPRESSÃO ATRAVÉS DO CANTO

E ainda que a prática do canto possa se estender mais amplamente; ela é, mesmo nos lares e nos campos, um incentivo para nós, de certo modo, um órgão de louvor a Deus, para elevar nossos corações a Ele, e consolar-nos pela meditação de Sua virtude, bondade, sabedoria e justiça: isto é, tudo aquilo que é mais do que alguém possa dizer. Em primeiro lugar, não é sem causa que o Espírito Santo nos exorta cuidadosamente através das Escrituras a nos regozijar em Deus e que toda a nossa alegria seja subjugada ao seu verdadeiro propósito, porque, Ele sabe o quanto somos inclinados a nos alegrar com futilidades. Como então, nossa natureza nos força e induz a buscarmos todos os meios de alegrias tolas e viciosas, assim, ao contrário, nosso Senhor, para nos desviar o espírito das tentações da carne e do mundo, nos apresenta todos os meios possíveis para nos ocupar naquela alegria espiritual que tanto Ele nos recomenda.

A IMPORTÂNCIA DA MÚSICA

Agora, entre outras coisas que são próprias para entreter e recrear o homem e lhe dar prazer, a música é tanto a primeira como a principal; e é necessário pensar que este é um dom de Deus a nós delegado para tal fim. Além do mais, por causa disso, temos que ser mais cuidadosos em não abusar dele, com temor de desgraçá-lo e contaminá-lo, convertendo em nossa condenação, aquilo que foi dedicado para o nosso proveito e uso. Se não houvesse outra consideração, senão esta, já seria suficiente para nos levar a ter moderação no uso da música, e fazê-la servir a todas as coisas honestas. E que ela não nos dê ocasião para dar lugar a todo tipo de dissolução, ou nos fazermos como efeminados em deleites desordenados, e não se torne instrumento de lascívia ou qualquer impudicícia.

O PODER DA MÚSICA

E ainda há mais: existe raramente no mundo qualquer coisa que seja mais capaz de virar e corromper os homens do seu caminho e da sua moral, como Platão prudentemente considerou. E como de fato, sabemos por experiência, que ela tem um poder sagrado e quase incrível de mover corações de uma forma ou de outra. Portanto, temos que ser por isso mesmo, mais diligente em regulá-la de tal forma que nunca seja usada por nós de alguma forma perniciosa. Por esta razão os antigos doutores da igreja frequentemente exortavam a esse respeito, de que as pessoas do seu tempo, eram viciadas em canções desonestas e vergonhosas, que não sem causa, se referiam a elas chamando-as de venenos mortais e satânicos por corromper o mundo. Além do mais, já que falamos de música, eu a compreendo em duas partes: o que chamamos letra, ou assunto; e segundo, a música, ou melodia. É verdadeiro que toda má palavra (como dizia St. Pau­lo), corrompe os bons costumes, mas quando a melodia é colocada nela, traspassa o coração muito mais fortemente, e penetra nele, de uma maneira como através de um funil se derrama o vinho num vaso; assim também o veneno e a corrupção é destilado até as profundezas do coração pela melodia.

PORQUE ESCOLHER OS SALMOS

O que então devemos fazer agora? É preciso haver canções não somente honestas, mas também santas, que como aguilhões nos incite a orar e a louvar a Deus e a meditar nas suas obras para amar, honrar e glori­ficá-Lo. Além do mais, aquilo que St. Agostinho disse é verdadeiro, que ninguém é capaz de cantar algo digno de Deus, exceto aquilo que recebemos Dele. Portanto, quando procurarmos diligentemente, aqui e ali, não iremos encontrar cânticos melhores, por mais apropriados que sejam os seus propósitos, do que os Salmos de Davi, que o Espírito Santo falou e preparou através dele. E, além disso, Crisóstomo exorta, tanto os homens, como as mulheres e crianças a se acostumarem a cantá-los, afim de que esta seja o tipo de meditação que os faça associados à companhia dos anjos.

PORQUE É REQUERIDO CANTAR COM ENTENDIMENTO

Como de resto, é necessário relembrar o que St. Paulo disse, que os cânticos espirituais não podem ser cantados exceto com o coração. Mas o coração requer a inteligência. E sobre isso (diz St. Agostinho), encontra-se a diferença entre o cantar dos homens e o cantar dos pássaros. Pois um pintarroxo, um rouxinol, um pardal pode cantar bem, mas será sem entendimento. Mas o dom único dado ao homem é cantar sabendo o que está cantando. Após a inteligência, deve seguir o coração e a afeição, uma coisa impossível de acontecer exceto se tivermos o hino impresso em nossa memória, afim de nunca cessarmos de cantar. Por essa razão, este presente livro, tanto mais pelas razões e outras que de resto foram ditas, deve ser singular recomendação a cada um que deseja alegrar-se honestamente e de acordo com Deus, para a sua própria prosperidade e proveito dos seus vizinhos; por tudo isso é mister que seja recomendado por mim: esperando que isto reivindique seu valor e louvor. Mas que o mundo seja bem advertido, que em lugar de canções em parte vãs e frívolas, em parte estúpidas e tolas, e consequentemente más e danosas, como são utilizadas no momento, seja acostumado, daqui para frente, a cantar estes hinos divinos e celestiais juntamente com o bom rei Davi. Tratando-se da melodia, parece ser a melhor e a mais moderada forma adotada para carregar apropriadamente o peso da majestade do assunto, e tanto para ser cantado na Igreja, de acordo com tudo que tem sido dito.

Genebra, 10 de junho de 1543.
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Fonte: Extraído da Revista Os Puritanos, Ano XIII, N 1: 2005.
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Os Salmos com melodias do Saltério de Genebra


O Saltério de Genebra - também chamado de Saltério dos Huguenotes – é uma coleção de hinos, na qual os Salmos bíblicos foram rimados e transformados em estrofes cantáveis.

O reformador João Calvino chegou a conhecer este tipo de Salmos cantados quando entre 1538 e 1541 esteve em Estrasburgo. Gostou tanto que logo em 1539 editou uma pequena coleção com salmos rimados em francês de Clément Marot (1495-1644) junto com alguns de sua própria autoria.

De volta em Genebra, João Calvino colecionou mais outros Salmos de Marot e encarregou o Chantre Guillaume Franc (1515-1570) a cuidar da elaboração das melodias. Assim nasceu a primeira edição do Saltério com 50 Salmos, editado em 1542 e 1543.

A partir de 1548 Teodore Beza (1519-1605) dedicou-se a complementar a coleção francesa, e Louis Bourgeois elaborou a parte musical para o novo Saltério de 1551 com 83 Salmos, entre eles a melodia do HPD nº 259.

A coleção completa e definitiva foi lançada em 1562. Provavelmente Pierre Davantès (1525-1561) foi o autor e/ou adaptador das novas melodias, entre elas a do HPD nº 179.

Característico no Saltério de Genebra é a sua fidelidade ao texto bíblico e a grande riqueza de suas melodias. Ele encontrou ampla aceitação tanto nas igrejas, quanto nas escolas e nos lares por causa das singelas e sonoras harmonizações feitas por Claude Goudimel (1514-1572).

Nas igrejas calvinistas de língua alemã conseguiu-se impor a tradução feita em 1573 por Ambrosius Lobwasser (1515-1585). Mais tarde esta foi substituída pela edição de Matthias Jorissen (1739-1823), publicada em 1798.
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Por: Leonhard Creutzberg
Fonte: Kleines Nachschlagewerk zum Evgl. Gesangbuch ed. para Baviéra e Turingia, Munique s.d. (1996?).

Aqui está uma série de links para você conhecer um pouco mais do Saltério de Genebra:
  • MÉTRICA EM PORTUGUÊS 
  • MÉTRICA EM ESPANHOL 
  • MELODIA EM PORTUGUÊS 
  • MELODIA EM ESPANHOL 
  • MELODIA EM INGLÊS 
  • INSTRUMENTAL 

A coleção completa você pode baixar em:

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Porque "Aceite a Jesus em seu coração" é supersticioso e antibíblico



Transcrição

Fazer discípulos é o transbordar natural, ou melhor, sobrenatural, de ser um discípulo. Proclamar o amor de Cristo é o transbordar de compartilhar da vida de Cristo.

Estou convencido de que muitas pessoas em nossas igrejas estão simplesmente se esquecendo da vida de Cristo. Muito disso tem a ver com o que vendemos para eles como sendo o evangelho. “Faça esta oração, aceite a Jesus em seu coração, convide a Cristo para entrar em sua vida”. Não deveria nos preocupar que não existe tal oração supersticiosa no Novo Testamento? Não deveria nos preocupar que a Bíblia nunca usa as frases: “Aceite Jesus em seu coração” ou “Convide a Jesus para entrar em sua vida”?

Não é o Evangelho que está sendo pregado. É um evangelismo moderno construído sobre areia movediça, que corre o risco de desiludir milhões de almas. É algo muito perigoso deixar que as pessoas pensem que são cristãs quando elas não responderam biblicamente ao Evangelho.

Se não tomarmos cuidado, nós vamos tirar o Evangelho que é o sangue do Cristianismo e colocar refresco no lugar para que seja mais agradável às multidões. Não é apenas perigoso, é condenável. Por causa disso, quando pensamos em fazer discípulos, pensamos apenas em sair e fazer com que as pessoas façam uma oração! Ou “espalhar isso”!

Não. Vamos lhes dar uma visão completa do Evangelho. Mostremos às pessoas a grandiosidade de Deus. Sim, ele é um Pai que nos ama! Ele é um Pai amoroso que nos salvará, mas Ele é também um Juiz enfurecido que nos pode nos condenar!
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Por David Platt. © Copyright Verge Network 2012 , Todos os direitos Reservados. Original: Platt: why “accepting Jesus in your heart” is superstitious & unbiblical
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A Doutrina Reformada da Autoridade Suprema das Escrituras


A doutrina que me proponho a considerar neste artigo foi de fundamental importância na Reforma Protestante do Século XVI. Em contraposição, por um lado, à doutrina católica romana de uma tradição oral apostólica e, por outro lado, ao misticismo dos assim chamados entusiastas ou reformadores radicais, os Reformadores defenderam a doutrina da autoridade suprema das Escrituras. Essa foi, portanto, a sua resposta à autoridade da tradição eclesiástica e do misticismo pessoal.

A autoridade suprema das Escrituras também é uma doutrina puritano-presbiteriana. A ela os puritanos tiveram que apelar freqüentemente na luta que foram obrigados a travar contra as imposições litúrgicas da Igreja Anglicana.1 A Confissão de Fé de Westminster professa a referida doutrina em três parágrafos do seu primeiro capítulo. No quarto parágrafo, ela trata da origem ou fundamento da autoridade das Escrituras:

A autoridade da Escritura Sagrada, razão pela qual deve ser crida e obedecida, não depende do testemunho de qualquer homem ou igreja, mas depende somente de Deus (a mesma verdade) que é o seu Autor; tem, portanto, de ser recebida, porque é a Palavra de Deus.

O parágrafo quinto aborda a questão da certeza ou convicção pessoal da autoridade das Escrituras:

Pelo testemunho da Igreja podemos ser movidos e incitados a um alto e reverente apreço pela Escritura Sagrada; a suprema excelência do seu conteúdo, a eficácia da sua doutrina, a majestade do seu estilo, a harmonia de todas as suas partes, o escopo do seu todo (que é dar a Deus toda a glória), a plena revelação que faz do único meio de salvar-se o homem, as suas muitas outras excelências incomparáveis e completa perfeição são argumentos pelos quais abundantemente se evidencia ser ela a Palavra de Deus; contudo, a nossa plena persuasão e certeza da sua infalível verdade e divina autoridade provém da operação interna do Espírito Santo que, pela Palavra e com a Palavra, testifica em nossos corações.

O décimo e último parágrafo desse capítulo confere às Escrituras (a voz do Espírito Santo) a palavra final para toda e qualquer questão religiosa, reconhecendo-a como supremo tribunal de recursos em matéria de fé e prática:

O Juiz Supremo, pelo qual todas as controvérsias religiosas têm de ser determinadas, e por quem serão examinados todos os decretos de concílios, todas as opiniões dos antigos escritores, todas as doutrinas de homens e opiniões particulares; o Juiz Supremo, em cuja sentença nos devemos firmar, não pode ser outro senão o Espírito Santo falando na Escritura.

Em dias como os que estamos vivendo, em que cresce a impressão de que o evangelicalismo moderno (particularmente o brasileiro) manifesta profunda crise teológica, eclesiástica e litúrgica,2 convém considerar novamente essa importante doutrina reformado-puritana. Convém uma palavra de alerta contra antigas e novas tendências de usurpar ou limitar a autoridade da Palavra de Deus. Tal é o propósito deste artigo.

I. Definição

O que queriam dizer os Reformadores ao professarem a doutrina da autoridade das Escrituras? Que, por serem divinamente inspiradas, elas são verídicas em todas as suas afirmativas. Segundo esta doutrina, as Escrituras são a fonte infalível de informação que estabelece definitivamente qualquer assunto nelas tratado: a única regra infalível de fé e de prática, o supremo tribunal de recursos ao qual a Igreja pode apelar para a resolução de qualquer controvérsia religiosa.

Isto não significa que as Escrituras sejam o único instrumento de revelação divina. Os atributos de Deus se revelam por meio da criação: a revelação natural (cf. Sl 19:1-4 e Rm 1:18-20). Uma versão da sua lei moral foi registrada em nosso coração: a consciência (cf. Rm 2:14-15), "uma espiã de Deus em nosso peito," "uma embaixadora de Deus em nossa alma," como os puritanos costumavam chamá-la.3 A própria pessoa de Deus, o ser de Deus, revela-se de modo especialíssimo no Verbo encarnado, a segunda pessoa da Trindade (cf. Jo 14.19; Cl 1.15 e 3.9).

Mas, visto que Cristo nos fala agora pelo seu Espírito por meio das Escrituras, e que as revelações da criação e da consciência não são nem perfeitas e nem suficientes por causa da queda, que corrompeu tanto uma como outra, a palavra final, suficiente e autoritativa de Deus para esta dispensação são as Escrituras Sagradas.

II. Base Bíblica

A base bíblica da doutrina reformada da autoridade suprema das Escrituras é tanto inferencial como direta.

A. Base Inferencial

É inferencial, porque decorre do ensino bíblico a respeito da inspiração divina das Escrituras. Visto que as Escrituras não são produto da mera inquirição espiritual dos seus autores (cf. 2 Pe 1.20), mas da ação sobrenatural do Espírito Santo (cf. 2 Tm 3.16 e 2 Pe 1.21), infere-se que são autoritativas. Na linguagem da Confissão de Fé, a autoridade das Escrituras procede da sua autoria divina: "porque é a Palavra de Deus."

Isto não significa que cada palavra foi ditada pelo Espírito Santo, de modo a anular a mente e a personalidade daqueles que a escreveram. Os autores bíblicos não escreveram mecanicamente. As Escrituras não foram psicografadas, ou melhor, "pneumografadas." Os diversos livros que compõem o cânon revelam claramente as características culturais, intelectuais, estilísticas e circunstanciais dos diversos autores. Paulo não escreve como João ou Pedro. Lucas fez uso de pesquisas para escrever o seu Evangelho e o livro de Atos. Cada autor escreveu na sua própria língua: hebraico, aramaico e grego. Os autores bíblicos, embora secundários, não foram instrumentos passivos nas mãos de Deus. A superintendência do Espírito não eliminou de modo algum as suas características e peculiaridades individuais. Por outro lado, a agência humana também em nada prejudicou a revelação divina. Seus autores humanos foram de tal modo dirigidos e supervisionados pelo Espírito Santo que tudo o que foi registrado por eles nas Escrituras constitui-se em revelação infalível, inerrante e autoritativa de Deus. Não somente as idéias gerais ou fatos revelados foram registrados, mas as próprias palavras empregadas foram escolhidas pelo Espírito Santo, pela livre instrumentalidade dos escritores.4

O fato é que, por procederem de Deus, as Escrituras reivindicam atributos divinos: são perfeitas, fiéis, retas, puras, duram para sempre, verdadeiras, justas (Sl 19.7-9) e santas (2 Tm 3.15).5

B. Base Direta

Mas a doutrina reformada da autoridade das Escrituras não se fundamenta apenas em inferências. Diversos textos bíblicos reivindicam autoridade suprema.

Os profetas do Antigo Testamento reivindicam falar palavras de Deus, introduzindo suas profecias com as assim chamadas fórmulas proféticas, dizendo: "assim diz o Senhor," "ouvi a palavra do Senhor," ou "palavra que veio da parte do Senhor."6 No Novo Testamento, vários textos do Antigo Testamento são citados, sendo atribuídos a Deus ou ao Espírito Santo. Por exemplo: "Assim diz o Espírito Santo..." (Hb 3:7ss).7

A autoridade apostólica também evidencia a autoridade suprema das Escrituras. O Apóstolo Paulo dava graças a Deus pelo fato de os tessalonicenses terem recebido as suas palavras "não como palavra de homens, e, sim, como em verdade é, a palavra de Deus, a qual, com efeito, está operando eficazmente em vós, os que credes" (1 Ts 2:13). Que autoridade teria Paulo para exortar aos gálatas no sentido de rejeitarem qualquer evangelho que fosse além do evangelho que ele lhes havia anunciado, ainda que viesse a ser pregado por anjos? Só há uma resposta razoável: ele sabia que o evangelho por ele anunciado não era segundo o homem; porque não o havia aprendido de homem algum, mas mediante revelação de Jesus Cristo (Gl 1:8-12).

Jesus também atesta a autoridade suprema das Escrituras: pelo modo como a usa, para estabelecer qualquer controvérsia: "está escrito"8 (exemplos: Mt 4:4,6,7,10; etc.), e ao afirmar explicitamente a autoridade das mesmas, dizendo em João 10:35 que "a Escritura não pode falhar."9

III. Usurpações da Autoridade das Escrituras

Apesar da sólida base bíblico-teológica em favor da doutrina reformada da autoridade suprema das Escrituras, hoje, como no passado, deparamo-nos com a mesma tendência geral de diminuir a autoridade das Escrituras. E isso ocorre de duas maneiras: por um lado, há a propensão em admitir fontes adicionais ou suplementares de autoridade, que tendem a usurpar a autoridade da Palavra de Deus. Por outro lado, há a tendência de limitar a autoridade das Escrituras, negando-a, subjetivando-a ou reduzindo o seu escopo.

Com relação à primeira dessas tendências, pelo menos três fontes suplementares usurpadoras da autoridade das Escrituras podem ser identificadas: a tradição (degenerada em tradicionalismo), a emoção (degenerada em emocionalismo) e a razão (degenerada no racionalismo). Sempre que um desses elementos é indevidamente enfatizado, a autoridade das Escrituras é questionada, diminuída ou mesmo suplantada.

A. A Tradição Degenerada em Tradicionalismo

Este foi um dos grandes problemas enfrentados pelo Senhor Jesus. A religião judaica havia se tornado incrivelmente tradicionalista. Havendo cessado a revelação, os judeus, já no segundo século antes de Cristo, produziram uma infinidade de tradições ou interpretações da Lei, conhecidas como Mishnah. Essas tradições foram cuidadosamente guardadas pelos escribas e fariseus por séculos, até serem registradas nos séculos IV e V A.D., passando a ser conhecidas como o Talmude,10 a interpretação judaica oficial do Antigo Testamento até o dia de hoje. Muitas dessas tradições judaicas eram, entretanto, distorções do ensino do Antigo Testamento. Mas tornaram-se tão autoritativas, que suplantaram a autoridade do Antigo Testamento. Jesus acusou severamente os escribas e fariseus da sua época, dizendo:

Em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens. Negligenciando o mandamento de Deus, guardais a tradição dos homens. E disse-lhes ainda: Jeitosamente rejeitais o preceito de Deus para guardardes a vossa própria tradição... invalidando a palavra de Deus pela vossa própria tradição que vós mesmos transmitistes... (Mc 7.7-9,13).11

O Apóstolo Paulo também denunciou essa tendência. Escrevendo aos colossenses, ele advertiu:

Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo... Se morrestes com Cristo para os rudimentos do mundo, por que, como se vivêsseis no mundo, vos sujeitais a ordenanças: Não manuseies isto, não proves aquilo, não toques aquiloutro, segundo os preceitos e doutrinas dos homens? (Cl 2.8,20-22).

Quinze séculos depois, os Reformadores se depararam com o mesmo problema: as tradições contidas nos livros apócrifos e pseudepígrafos, nos escritos dos pais da igreja, nas decisões conciliares e nas bulas papais também degeneraram em tradicionalismo. As tradições eclesiásticas adquiriram autoridade que não possuíam, usurpando a autoridade bíblica. É neste contexto que se deve entender a doutrina reformada da autoridade das Escrituras. Trata-se, primordialmente, de uma reação à posição da Igreja Católica.

Isto não significa, entretanto, que a tradição eclesiástica seja necessariamente ruim. Se a tradição reflete, de fato, o ensino bíblico, ou está de acordo com ele, não sendo considerada normativa (autoritativa) a não ser que reflita realmente o ensino bíblico, então não é má. Os próprios Reformadores produziram, registraram e empregaram confissões de fé e catecismos (os quais também são tradições eclesiásticas). Para eles, contudo, esses símbolos de fé não têm autoridade própria, só sendo normativos na medida em que refletem fielmente a autoridade das Escrituras.

O problema, portanto, não está na tradição, mas na sua degeneração, no tradicionalismo, que atribui à tradição autoridade inerente. O tradicionalismo atribui autoridade às tradições, pelo simples fato de serem antigas ou geralmente observadas, e não por serem bíblicas. Essa tendência acaba sempre usurpando a autoridade das Escrituras.

B. A Emoção Degenerada em Emocionalismo

Outra fonte de autoridade que sempre ameaça a autoridade das Escrituras é a emoção, quando degenerada em emocionalismo. Isto quase inevitavelmente conduz ao misticismo. Na esfera religiosa, freqüentemente é dado um valor exagerado à intuição, ao sentimento, ao convencimento subjetivo. Quando tal ênfase ocorre, facilmente esse sentimento subjetivo de convicção, pessoal e interno, é explicado misticamente, em termos de iluminação espiritual e revelação divina direta, seja por meio do Espírito, seja pela instrumentalidade de anjos, sonhos, visões, arrebatamentos, etc.

Não é que Deus não tenha se revelado por esses meios. Ele de fato o fez. Foi, em parte, através desses meios que a revelação especial foi comunicada à Igreja e registrada no cânon pelo processo de inspiração. O que se está afirmando é que o misticismo copia, forja essas formas reais de revelação do passado, para reivindicar autoridade que na verdade não é divina, mas humana (quando não diabólica). Essa tendência não é de modo algum nova. Eis as palavras do Senhor através do profeta Jeremias:

Assim diz o Senhor dos Exércitos: Não deis ouvido às palavras dos profetas que entre vós profetizam, e vos enchem de vãs esperanças; falam as visões do seu coração, não o que vem da boca do Senhor... Até quando sucederá isso no coração dos profetas que proclamam mentiras, que proclamam só o engano do próprio coração?... O profeta que tem sonho conte-o como apenas sonho; mas aquele em quem está a minha palavra, fale a minha palavra com verdade. Que tem a palha com o trigo? diz o Senhor (Jr 23.16,26,28).

Séculos depois o Apóstolo Paulo enfrentou o mesmo problema. Ele próprio foi instrumento de revelações espirituais verdadeiras, inspirado que foi para escrever suas cartas canônicas. Nessa condição, ele sabia muito bem o que eram sonhos, visões, revelações e arrebatamentos. Mas, ainda assim, advertiu aos colossenses, dizendo: "Ninguém se faça árbitro contra vós outros, pretextando humildade e culto dos anjos, baseando-se em visões, enfatuado sem motivo algum na sua mente carnal" (Cl 2:18). Tanto Jesus como os apóstolos advertem a Igreja repetidamente contra os falsos profetas, os quais ensinam como se fossem apóstolos de Cristo, mas que não passam de enganadores.

Pois bem, sempre que tal coisa ocorre, a autoridade das Escrituras é ameaçada. O misticismo, como degeneração das emoções (não se pode esquecer que também as emoções foram corrompidas pelo pecado) tende sempre a usurpar, a competir com a autoridade das Escrituras, chegando mesmo freqüentemente a suplantá-la. Na época dos Reformadores não foi diferente. Eles combateram grupos místicos por eles chamados de entusiastas12 que reivindicavam autoridade espiritual interior, luz interior, revelações espirituais adicionais que suplantavam ou mesmo negavam a autoridade das Escrituras. Esta tem sido igualmente uma das características mais comuns das seitas modernas, tais como mormonismo, testemunhas de Jeová, adventismo do sétimo dia, etc. Entre os movimentos pentecostais e carismáticos também não é incomum a emoção degenerar em emocionalismo, produzindo um misticismo usurpador da autoridade das Escrituras.

C. A Razão Degenerada em Racionalismo

A ênfase exagerada na razão também tende a usurpar a autoridade das Escrituras. O homem, devido a sua natureza pecaminosa, sempre tem resistido a submeter sua razão à autoridade da Palavra de Deus. A tendência é sempre tê-la (a razão) como fonte suprema de autoridade. Isto foi conseqüência da queda. Na verdade, foi também a causa, tanto da queda de Satanás como de nossos primeiros pais. Ambos caíram por darem mais crédito às suas conclusões do que à palavra de Deus. Desde então, essa soberba mental, essa altivez intelectual tem tendido sempre a minar a autoridade da Palavra de Deus, oral (antes de ser registrada) ou escrita.

Por que o ser humano, tendo conhecimento de Deus, não o glorifica como Deus nem lhe é grato? O Apóstolo Paulo explica: porque, suprimindo a verdade de Deus (Rm 1:18), "...se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato. Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos... pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura, em lugar do Criador...’’ (Rm 1:21-22,25).

Esta tem sido, sem dúvida, a causa de uma infinidade de heresias e erros surgidos no curso da história da Igreja. A heresia de Marcião, o gnosticismo, o arianismo, o docetismo, o unitarianismo, e mesmo o arminianismo são todos erros provocados pela dificuldade do homem em submeter sua razão à revelação bíblica. Todos preferiram uma explicação racional, lógica, em lugar da explicação bíblica que lhes parecia inaceitável. Assim, Marcião concebeu dois deuses, um do Antigo e outro do Novo Testamento. Por isso, também o gnosticismo fez distinção moral entre matéria e espírito. Já o arianismo originou-se da dificuldade de Ario em aceitar a eternidade de Cristo. Do mesmo modo, o docetismo surgiu da dificuldade de alguns em admitir um Cristo verdadeiramente divino-humano. O unitarianismo, por sua vez, decorre da recusa em aceitar a doutrina bíblica da Trindade, enquanto que o arminianismo surgiu da dificuldade de Armínio em conciliar a doutrina da soberania de Deus com a doutrina da responsabilidade humana (rejeitando a primeira).

A tendência da razão em usurpar a autoridade das Escrituras tem sido especialmente forte nos últimos dois séculos. O desenvolvimento científico e tecnológico instigou a soberba intelectual do homem. Assim, passou-se a acreditar apenas no que possa ser constatado, comprovado, pela razão e pela lógica. A ciência tornou-se a autoridade suprema, a única regra de fé e prática. E a Igreja passou a fazer concessões e mais concessões, na tentativa de harmonizar as Escrituras com a razão e com a ciência. O relato bíblico da criação foi desacreditado pela teoria da evolução; os milagres relatados nas Escrituras foram rejeitados como mitos; e muitos estudiosos das Escrituras passaram a assumir uma postura crítica, não mais submissa aos seus ensinos. Foi assim que surgiu o método de interpretação histórico-crítico em substituição ao método histórico-gramatical. Nele, é a suprema razão humana que determina o que é escriturístico ou mera tradição posterior, o que é milagre ou mito, o que é verdadeiro ou falso nas Escrituras.

Mas antes de se atribuir tanta autoridade à ciência, convém considerar a sua história. Quão falível e mutável é! A grande maioria dos "fatos" científicos de dois séculos atrás já foram rejeitados pela própria ciência. Além disso, com que freqüência meras teorias e hipóteses científicas são tomadas como fatos científicos comprovados!13

IV. Limitações da Autoridade das Escrituras

Além das tendências que acabei de considerar, propensas a usurpar a autoridade das Escrituras, existem outras, que tendem a limitar a autoridade bíblica, negando-a, subjetivando-a ou reduzindo o seu escopo. É o que têm feito a teologia liberal, a neo-ortodoxia e o neo-evangelicalismo, com relação a três dos principais aspectos da doutrina da autoridade das Escrituras. Estas três concepções de "autoridade" bíblica precisam ser entendidas. Elas estão sendo bastante divulgadas em nossos dias, e são, em certo sentido, até mais perigosas do que as tendências anteriormente mencionadas, por serem mais sutis. Este assunto pode ser melhor entendido considerando-se os três principais aspectos da doutrina da autoridade das Escrituras: sua origem (ou base), certeza (ou convicção) e escopo (ou abrangência).

A. Origem ou Base da Autoridade das Escrituras

A origem ou base da autoridade das Escrituras, como já foi mencionado, encontra-se na sua autoria divina. As Escrituras são autoritativas porque são de origem divina: o Espírito Santo é o seu autor primário. Para os Reformadores, as Escrituras são autoritativas porque são a Palavra de Deus inspirada. Por isso são infalíveis, inerrantes, claras, suficientes, etc.

A teologia liberal (racionalista) nega a própria base da autoridade da Escritura, negando a sua origem divina. Para ela, as Escrituras são mero produto do espírito humano, expressando verdades divinas conforme discernidas pelos seus autores, bem como erros e falhas características do homem. Sua autoridade, portanto, não é divina nem inerente, mas humana, devendo ser determinada pelo julgamento da razão crítica. Eis o que afirmam: "A verdade divina não é encontrada em um livro antigo, mas na obra contínua do Espírito na comunidade, conforme discernida pelo julgamento crítico racional."14 De acordo com a teologia liberal, "nós estamos em uma nova situação histórica, com uma nova consciência da nossa autonomia e responsabilidade para repensar as coisas por nós mesmos. Não podemos mais apelar à inquestionável autoridade de um livro inspirado."15

B. Certeza da Autoridade das Escrituras

A certeza ou convicção da autoridade das Escrituras16 provém do testemunho interno do Espírito Santo. A excelência do seu conteúdo, a eficácia da sua doutrina e a sua extraordinária unidade são algumas das características das Escrituras que demonstram a sua autoridade divina. Contudo, admitimos que "a nossa plena persuasão e certeza da sua infalível verdade e divina autoridade provém da operação interna do Espírito Santo, que pela Palavra e com a Palavra, testifica em nossos corações."17

O testemunho da Igreja com relação à excelência das Escrituras pode se constituir no meio pelo qual somos persuadidos da sua autoridade, mas não na base ou fundamento da nossa persuasão. A nossa persuasão da autoridade da Bíblia dá-se por meio do testemunho interno do Espírito Santo com relação à sua inspiração. Na concepção reformada, se alguém crê, de fato, na autoridade suprema das Escrituras como regra de fé e prática, o faz como resultado da ação do Espírito Santo. É ele, e só ele, quem pode persuadir alguém da autoridade da Bíblia.

Essa persuasão não significa de modo algum uma revelação adicional do Espírito. Significa, sim, que a ação do Espírito na alma de uma pessoa, iluminando seu coração e sua mente em trevas, regenerando-a, fazendo-a nova criatura, dissipa as trevas espirituais da sua mente, remove a obscuridade do seu coração, permitindo que reconheça a autoridade divina das Escrituras. O Apóstolo Paulo trata deste assunto escrevendo aos coríntios. Ele explica, na sua primeira carta, que, "o homem natural não aceita as cousas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las porque elas se discernem espiritualmente" (1 Co 2.14). O homem natural, em estado de pecado, perdeu a sua capacidade original de compreender as coisas espirituais. Ele não pode, portanto, reconhecer a autoridade das Escrituras; ele não tem capacidade para isso. Na sua segunda carta aos coríntios o Apóstolo é ainda mais explícito, ao observar que,

...se o nosso evangelho ainda está encoberto, é para os que se perdem que está encoberto, nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus... Porque Deus que disse: de trevas resplandecerá luz —, ele mesmo resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo (2 Co 4.3-4,6).

O que Paulo afirma aqui é que o homem natural, o incrédulo, está cego como resultado da obra do diabo, que o fez cair. Nesse estado, ele está como um deficiente visual, que não consegue perceber nem mesmo a luz do sol. Pode-se compreender melhor o testemunho interno do Espírito com esta ilustração. O testemunho do Espírito não é uma nova luz no coração, mas a sua ação através da qual ele abre os olhos de um pecador, permitindo-lhe reconhecer a verdade que lá estava, mas não podia ser vista por causa da sua cegueira espiritual.

Deve-se ter em mente, entretanto — e esse é o ponto enfatizado aqui —, que esse testemunho interno do Espírito Santo diz respeito à certeza do crente com relação à plena autoridade das Escrituras, e não à própria autoridade inerente das Escrituras. A convicção de um crente de que as Escrituras têm autoridade é subjetiva, mas a autoridade das Escrituras é objetiva. Esteja-se ou não convencido da sua autoridade, a Bíblia é e continua objetivamente autoritativa. A neo-ortodoxia existencialista confunde estas coisas e defende a subjetividade da própria autoridade da Bíblia. Para eles, a revelação bíblica só é verdade divina quando fala ao nosso coração. Como dizem, "as Escrituras não são, mas se tornam a Palavra de Deus" quando existencializadas.18

C. Escopo da Autoridade das Escrituras

Essas posições da teologia liberal e da neo-ortodoxia com relação à origem e à certeza da autoridade das Escrituras são seríssimas. Contudo, talvez mais séria ainda (por ser mais sutil) é a questão relacionada ao escopo da autoridade das Escrituras.

Uma nova concepção da autoridade das Escrituras tem surgido entre os eruditos evangélicos (inclusive reformados de renome, tais como G. C. Berkouwer19), conhecida como neo-evangélica. O neo-evangelicalismo limita o escopo (a área) da autoridade das Escrituras ao seu propósito salvífico. Segundo essa concepção, a autoridade das Escrituras limita-se à revelação de assuntos diretamente relacionados à salvação, a assuntos religiosos.20

A doutrina neo-evangélica faz diferença entre o conteúdo salvífico das Escrituras e o seu contexto salvífico, reivindicando autoridade e inerrância apenas para o primeiro. Mas tal posição não reflete nem se coaduna com a posição reformada e protestante histórica. Para esta, o escopo da autoridade das Escrituras é todo o seu cânon. É verdade que a Bíblia não se propõe a ser um compêndio científico ou um livro histórico. Mas, ainda assim, todas as afirmativas nelas contidas, sejam elas de caráter teológico, prático, histórico ou científico, são inerrantes e autoritativas.21

Os principais problemas relacionados com a posição neo-evangélica quanto à autoridade das Escrituras são os seguintes: Primeiro, como distinguir o conteúdo salvífico do seu contexto salvífico? É impossível. As Escrituras são a Palavra de Deus revelada na história. Segundo, como delimitar o que está ou não está diretamente relacionado ao propósito salvífico, se o propósito da obra da redenção não é meramente salvar o homem, mas restaurar o cosmo? Que porções das Escrituras ficariam de fora do escopo da salvação? Como Ridderbos admite, "a Bíblia não é apenas o livro da conversão, mas também o livro da história e o livro da Criação..."22 Que áreas da vida humana ficariam de fora da obra da redenção? A arte, a ciência, a história, a ética, a moral? Quem delimitaria as fronteiras entre o que está ou não incluído no propósito salvífico? Admitir, portanto, o conceito neo-evangélico de autoridade das Escrituras é cair na cilada liberal do cânon dentro do cânon, e colocar a razão humana como juiz supremo de fé e prática, pois neste caso competirá ao homem determinar o que é ou não propósito salvífico.

Conclusão

Em última instância, a questão da autoridade das Escrituras pode ser resumida na seguinte pergunta: quem tem a última palavra, Deus, falando através das Escrituras, ou o homem, por meio de suas tradições, sentimentos ou razão? A resposta dos Reformadores foi clara. Embora reconhecendo que o propósito especial das Escrituras não é histórico, moral ou científico, mas salvífico, eles não diminuíram a sua autoridade de forma alguma: nem por adições ou suplementos, nem por reduções ou limitações de qualquer natureza. A fé reformado-puritana reconhece a autoridade de todo o conteúdo das Escrituras, e sua plena suficiência e suprema autoridade em matéria de fé e práticas eclesiásticas.

Tão importante foi a redescoberta destas doutrinas pelos Reformadores, que pode-se afirmar que, da aplicação prática das mesmas, decorreu, em grande parte, a profunda reforma doutrinária, eclesiástica e litúrgica que deu origem às igrejas protestantes. Todas as doutrinas foram submetidas à autoridade das Escrituras. Todos os elementos de culto, cerimônias e práticas eclesiásticas foram submetidos ao escrutínio da Palavra de Deus. A própria vida (trabalho, lazer, educação, casamento, etc.) foi avaliada pelo ensino suficiente e autoritativo das Escrituras. Muito entulho doutrinário teve que ser rejeitado. Muitas tradições e práticas religiosas acumuladas no curso dos séculos foram reprovadas quando submetidas ao teste da suficiência e da autoridade suprema das Escrituras. E a profunda reforma religiosa do século XVI foi assim empreendida.

Mas muito tempo já se passou desde então. O evangelicalismo moderno recebeu, especialmente do século passado, um legado teológico, eclesiástico e litúrgico que precisa ser urgentemente submetido ao teste da doutrina reformada da autoridade suprema das Escrituras. É tempo de reconsiderar as implicações desta doutrina. É tempo de reavaliar a nossa fé, nossas práticas eclesiásticas e nossas próprias vidas à luz desta doutrina. Afinal, admitimos que a Igreja reformada deve estar sempre se reformando — não pela conformação constante às últimas novidades, mas pelo retorno e conformação contínuos ao ensino das Escrituras.

Sabendo que a nossa natureza pecaminosa nos impulsiona em direção ao erro e ao pecado, conhecendo o engano e a corrupção do nosso próprio coração, reconhecendo os dias difíceis pelos quais passa o evangelicalismo moderno (particularmente no Brasil), e a ojeriza doutrinária, a exegese superficial e a ignorância histórica que em grande parte caracterizam o evangelicalismo moderno no nosso país, não temos o direito de assumir que nossa fé e práticas eclesiásticas sejam corretas, simplesmente por serem geralmente assim consideradas. É necessário submeter nossa fé e práticas eclesiásticas à autoridade suprema das Escrituras.

Assim fazendo, não é improvável que nós, à semelhança dos Reformadores, também tenhamos que rejeitar considerável entulho teológico, eclesiástico e litúrgico acumulados nos últimos séculos. Não é improvável que venhamos a nos surpreender, ao descobrir um evangelicalismo profundamente tradicionalista, subjetivo e racionalista. Mas não é improvável também que venhamos a presenciar uma nova e profunda reforma religiosa em nosso país. Que assim seja!
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Por Paulo Anglada
Fonte: Monegismo
>Notas

1 Ver, por exemplo, William Ames, A Fresh Suit against Human Ceremonies in God’s Worship (Rotterdam, 1633); David Calderwood, Against Festival Days, 1618 (Dallas: Naphtali Press, 1996); George Gillespie, Dispute against the English Popish Ceremonies Obtruded on the Church of Scotland (Edinburgh: Robert Ogle and Oliver & Boyd, 1844); e John Owen, "A Discourse concerning Liturgies and their Impositions," em The Works of John Owen, vol. 15 (Edinburgh: The Banner of Truth Trust, 1965).
2 Cf. John MacArthur Jr., Com Vergonha do Evangelho: Quando a Igreja se torna como o Mundo (São José dos Campos: Editora Fiel, 1997) e Paulo Romeiro, Evangélicos em Crise: Decadência Doutrinária na Igreja Brasileira (São Paulo: Mundo Cristão, 1995).
3 Ver capítulo sobre a "Consciência Puritana," em J. I. Packer, Entre os Gigantes de Deus: Uma Visão Puritana da Vida Cristã (São José dos Campos: Editora Fiel, 1991), 115-132.
4 Sobre o conceito reformado de inspiração e infalibilidade (inerrância) das Escrituras, ver L. Berkhof, Introducción a la Teología Sistemática (Grand Rapids: The Evangelical Literature League, [1973]), 159-190; A. A. Hodge, Evangelical Theology: A Course of Popular Lectures (Edinburgh and Pennsylvania: The Banner of Truth Trust, 1976), 61-83; Loraine Boettner, Studies in Theology (Phillipsburg and New Jersey: Presbyterian and Reformed Publishing Company, 1978), 9-49; e J. C. Ryle, Foundations of Faith: Selections From J. C. Ryle’s Old Paths (South Plainfield, New Jersey: Bridge Publishing, 1987), 1-39.
5 Cf. também Salmo 119.39, 43, 62, 75, 86, 89, 106, 137, 138, 142, 144, 160, 164, 172; Mateus 24.34; João 17.17; Tiago 1.18; Hebreus 4.12 e 1 Pedro 1.23,25.
6 Lloyd-Jones afirma que essas expressões são usadas 3.808 vezes no Antigo Testamento; e que os que assim se expressavam estavam deixando claro que não expunham suas próprias idéias ou imaginações. D. Martin Lloyd-Jones, Authority (Edinburgh and Pennsylvania: The Banner of Truth Trust, 1984), 50.
7 Ver também Atos 28.25 e Hebreus 4.3, 5.6 e 10.15-16.
8 O termo empregado é gegraptai (gegraptai). O tempo (perfeito) indica uma ação realizada no passado, cujos resultados permanecem no presente: foi escrito e permanece válido, falando com autoridade.
9 Outras evidências da autoridade divina das Escrituras são apresentadas por Lloyd-Jones, Authority, 30-50; e por John A. Witmer, "The Authority of the Bible," Bibliotheca Sacra 118:471 (July 1961): 264-27.
10 O Talmud inclui também a Gemara, comentários rabínicos sobre o Mishnah, escritos entre 200 e 500 AD (C. L. Feinberg, "Talmude e Midrash," em J. D. Douglas, ed., O Novo Dicionário da Bíblia, vol. 3 (São Paulo: Edições Vida Nova, 1979), 1560-61.
11 Conferir também Mt 15.3ss.
12 Berkhof, Introducción a la Teología Sistemática, 207.
13 Um exemplo bem atual: há poucos dias atrás, cientistas anunciaram que pesquisas feitas com o DNA dos fósseis do assim chamado homem de Neanderthal — até então "inquestionavelmente" considerado um dos antepassados mais recentes do homem na cadeia evolutiva —, revelam que esses ossos nada têm a ver com a raça humana. Exemplos como estes repetem-se continuamente, e deveriam tornar-nos cautelosos em atribuir à ciência autoridade maior do que a da revelação bíblica.
14 C. Pinnock, citado por Keun-Doo Jung, "A Study of the Authority with Reference to The Westminster Confession of Faith." (Tese de Mestrado, Potchefstroom [South Africa] University for Christian Higher Education, 1981), 45.
15 G. D. Kaufman, ibid., 45.
16 Ensinada no parágrafo V do capítulo I da Confissão de Fé de Westminster.
17 Ibid.
18 Outros dados sobre a importância da doutrina reformada da autoridade das Escrituras em relação à teologia liberal e à neo-ortodoxia podem ser obtidos em Lloyd-Jones, Authority, 30-61; John A. Witmer, "Biblical Authority in Contemporary Theology," Bibliotheca Sacra 118:469 (January 1961), 59-67; e Kenneth S. Kantzer, "Neo-Orthodoxy and the Inspiration of Scripture," Bibliotheca Sacra 116:461 (January 1959), 15-29.
19 Ver G. C. Berkouwer, Studies in Dogmatics: Holy Scripture (Grand Rapids: Eerdmans, 1975) e Ronald Gleason, "In Memoriam: Dr. Gerrit Cornelius Berkouwer," Modern Reformation 5:3 (May/June 1996), 30-32.
20 Alguns eruditos têm considerado a doutrina reformada tradicional da autoridade das Escrituras conforme ensinada pelos teólogos de Princeton, tais como Charles Hodge (1797-1878), Alexander Hodge (1823-1886) e B. B. Warfield (1851-1921), como um desvio do ensino dos Reformadores e da Confissão de Fé de Westminster. Ver, por exemplo, Ernest Sandeen, The Roots of Fundamentalism: British and American Millenarianism, 1800-1930 (Chicago: University of Chicago Press, 1970). Alguns, como Jack Rogers e Donald McKim, The Authority and Interpretation of the Bible: A Historical Approach (San Francisco: Harper & Row, 1979), chegam a defender que a doutrina reformada das Escrituras encontra seus legítimos representantes em Abraham Kuyper (1837-1920) e Herman Bavinck (1854-1921), os quais teriam se antecipado aos esforços de Karl Barth e G. C. Berkouwer no sentido de restaurar a verdadeira tradição reformada. Outros, entretanto, têm demonstrado que estas teses não procedem, visto que os teólogos de Princeton estão em substancial harmonia com outros que os antecederam, e com Kuyper e Bavinck. Ver Randall H. Balmer, "The Princetonians and Scripture: A Reconsideration," Westminster Theological Journal 44:2 (1982): 352-365; e Richard B. Gaffin, Jr., "Old Amsterdam and Inerrancy?," Westminster Theological Journal 44:2 (1982), 250-289; 45:2 (1983): 219-272.
21 Uma demonstração da posição reformada e protestante histórica da inerrância das Escrituras em português pode ser encontrada em John H. Gerstner, "A Doutrina da Igreja sobre a Inspiração Bíblica," em James Montgomery Boice, ed., O Alicerce da Autoridade Bíblica, 2a ed. (São Paulo: Vida Nova, 1989), 25-68.
22 Herman Ridderbos, Studies in Scripture and its Authority (Grand Rapids: Eerdmans, 1978), 24.

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