sábado, 11 de outubro de 2014

A Doutrina da Trindade [07/29]


NAS ESCRITURAS, DESDE A PRÓPRIA CRIAÇÃO, SE ENSINA UMA ESSÊNCIA ÚNICA DE DEUS, QUE EM SI CONTÉM TRÊS PESSOAS

7. Divindade do Verbo

Contudo, antes que eu avance mais longe, é preciso provar a divindade tanto do Filho quanto do Espírito Santo; em seguida, veremos como eles diferem entre si.

Evidentemente, quando na Escritura é posta diante de nós a expressão Palavra de Deus, seria o cúmulo do absurdo imaginar-se apenas a momentânea e evanescente emissão de voz que, lançada ao ar, se projeta para fora do próprio Deus, cuja natureza foram não só os oráculos outorgados aos patriarcas, mas ainda todas as profecias, quando outrora se indicava com este designativo a perpétua Sabedoria residente em Deus, de que provieram tanto os oráculos quanto todas as profecias. Ora, Pedro [1Pe 1.11] testifica que os profetas antigos falaram pelo Espírito de Cristo, não menos que os apóstolos e quantos mais tarde ministraram a doutrina celestial. Entretanto, uma vez que Cristo ainda não havia se manifestado, é necessário entender a Palavra como gerada do Pai antes dos séculos. Porque, se esse Espírito, de quem os profetas foram instrumentos, foi o Espírito da Palavra, concluímos, sem sombra de dúvida, que o Deus verdadeiro era a Palavra.

E Moisés ensina isto bem claramente na narrativa da criação do mundo, apresentando-lhe essa mesma Palavra como intermediária. Pois, por que fala expressamente haver Deus dito, ao criar a cada uma de suas obras: Haja isto ou aquilo, senão para que a glória insondável de Deus reluza naquele que é sua imagem? Aos escarnecedores e palradores seria fácil contornar isto, alegando que nessa referência toma-se palavra na acepção de ordem e preceito. Melhores intérpretes, porém, são os apóstolos que ensinam [Hb 1.2, 3] que os mundos foram criados através do Filho, e que ele a tudo sustenta por sua poderosa Palavra. Ora, vemos que aqui o termo Verbo é tomado na acepção de arbítrio ou determinação do Filho, que é ele próprio a Palavra eterna e essencial do Pai.

Na verdade não é obscuro aos sóbrios e comedidos o que Salomão diz [Pv 8.22, 23], onde introduz a Sabedoria como gerada por Deus antes dos séculos e a presidir à criação das coisas e a todas as obras de Deus. Ora, seria estulto e frívolo imaginar aqui uma como que determinação temporária de Deus, quando ele queria então manifestar seu plano fixo e eterno, e mesmo algo mais recôndito. Com que também se afina aquela declaração de Cristo: “Meu Pai e eu trabalhamos até agora” [Jo 5.17]. Pois, afirmando haver estado constantemente em ação juntamente com o Pai desde o próprio início do mundo, expressa de modo mais explícito o que Moisés abordara de maneira mais sucinta. Concluímos, pois, que Deus assim falou no ato da criação para que a Palavra tivesse sua parte na ação e com isso a operação fosse, a um só tempo, comum a ambos.

João, porém, é de todos o que fala muito mais claramente, quando declara que aquela Palavra que desde o princípio era Deus com Deus, juntamente com Deus o Pai, é a causa de todas as coisas [Jo 1.1-3]. Ora, João não só atribui ao Verbo uma essência real e permanente, mas ainda lhe assinala algo peculiar e mostra, com luminosa clareza, como Deus foi o criador do mundo mediante a Palavra.

Logo, uma vez que todas as revelações divinamente comunicadas são designadas, com toda propriedade, com o título de Palavra de Deus, assim convém elevar ao mais alto grau esse Verbo substancial como a fonte de todos os oráculos, o qual, acima de toda variação, permanece perpetuamente um e o mesmo com Deus, e ele próprio é Deus.
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Fonte: As Institutas, Capítulo XIII
Por: João Calvino
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