quinta-feira, 2 de outubro de 2014

O caminho para a fonte purificadora


Tentem compreender quão repugnante é o pecado em seus efeitos contaminadores e o grande perigo que é não estar purificado dele (Ap 3.16-18). Perscrutem as Escrituras e considerem seriamente o que ela ensina sobre o nosso estado depois que perdemos a imagem e semelhança de Deus (Sl 53.3). Quem aceita o testemunho da Escritura quanto ao seu estado de imundície tentará descobrir qual a razão disso; esquadrinhará as suas próprias chagas e clamará: “Imundo! Imundo!”.

Orem também por luz e direção quanto à imundície de vocês e sobre como lidar com ela. A luz natural não é suficiente o bastante para dar a conhecer a profundeza da corrupção de vocês (Rm 2.14, 15).

Para sermos purificados da contaminação do pecado, precisamos nos envergonhar da sua imundície (Ed 9.6; Jr 3.25). Há duas espécies de vergonha. Há a vergonha legal, produzida pelo reconhecimento judicial do pecado. Por exemplo, Adão, após a queda, sentiu uma vergonha que o encheu de temor e terror. Foi por isso que fugiu e se escondeu de Deus. Há também a vergonha procedente do evangelho, que sobrevém do reconhecimento da vileza do pecado e das riquezas da graça de Deus em perdoar-nos e purificar-nos dele (Ez 16.60-63; Rm 6.21).

É triste, contudo, que muitos sejam completamente insensíveis à sua real condição.Envergonham-se mais do que parecem à vista dos homens, do que os seus corações parecem aos olhos de Deus (Pv 30.12); por exemplo, os fariseus (Is 65.4, 5). Outros até mesmo se vangloriam abertamente da sua corrupção e pecado. Proclamam-nos como Sodoma (Is 3.9; Jr 6.15; 8.12) e não somente se ufanam deles como também aprovam e se deleitam naqueles que fazem do mesmo modo (Rm 1.32).

Nossa obrigação de compreender a forma purificadora de Deus

É o próprio Deus que nos ensina a importância dessa obrigação. As instituições legais do Antigo Testamento revelam-nos a sua importância, pois cada sacrifício tinha em si mesmo algo relativo à purificação da imundície. As maiores promessas do Antigo Testamento enfocavam a purificação do pecado (e.g., Ez 36.25, 29). O Evangelho apresenta como a maior de todas as nossas necessidades a de sermos purificados do pecado.

O poder purificador do sangue de Cristo e a sua aplicação, pelo Espírito, em nosso coração nos é apresentado nas promessas do pacto (2Pe 1.4). A única maneira de se gozar pessoalmente das boas coisas apresentadas nas promessas é através da fé (Hb 4.2; 11.17; Rm 4.19-21; 10.6-9).

São duas as coisas que tornam eficaz uma tal fé. A primeira é a própria excelência da graça ou dever. A fé anula todas as outras maneiras de purificação. Ela presta a Deus toda a glória pelo seu poder, fidelidade, bondade e graça a despeito de todas as dificuldades e oposições. A fé glorifica a sabedoria de Deus em produzir este modo de nos purificar. Glorifica a sua graça infinita ao proporcionar essa fonte purificadora de toda imundícia quando estávamos perdidos e debaixo de sua maldição. Assim é que somos unidos a Cristo, de quem somente procede toda a nossa purificação.

Os deveres dos crentes

O primeiro dever é continuamente negar-se a si mesmo. Escolha assentar-se no lugar mais baixo, do mesmo modo como Cristo instruiu os judeus a fazerem, quando numa festa. Lembre-se da situação de corrupção e imundície de onde você foi liberto (Dt 26.1; Ez 16.3-5; Sl 51.5; Ef 2.11-13; 1Co 6.9-11; Tt 3.5).

O segundo dever é ser continuamente agradecido pela libertação que Cristo lhe concedeu da imundície original do pecado (Lc 17.17; Ap 1.5, 6). Devemos ser gratos pelo aspergir do sangue de Cristo na santificação do Espírito. Conscientize-se do gozo e da satisfação interior que deve ter, pois você foi liberto daquela ignomínia que nos despojava de toda ousadia e confiança para nos aproximarmos de Deus e sermos gratos. Louve a Deus por essas coisas.

Temos, portanto, de vigiar contra todo o pecado; especialmente nos seus primeiros sinais no coração. Lembre-se do seu perigo e castigo. Considere o terror do Senhor e as ameaças da lei. Mas não se deixe tragar por aquele servil temor que anseia por livrar-se de Deus; busque o temor que guarda do pecado e faz a alma mais determinada em apegar-se a Deus. Pondere sobre os abomináveis e imundos efeitos do pecado (1Co 3.16, 17; 6.15-19).

Ande humildemente diante do Senhor. Lembre-se de que as nossas melhores obras são trapos de imundícia (Is 64.6). Depois de havermos feito tudo quanto nos foi ordenado, ainda devemos olhar para nós mesmos como servos inúteis (Lc 17.10).

Mate de inanição a raiz do pecado (Tg 1.13-15). Não alimente os seus desejos pecaminosos. Venha continuamente a Jesus Cristo para a purificação pelo seu Espírito e o aspergir do seu sangue na sua consciência, purificando-a das obras mortas — obras por meio das quais a alma, ao negligenciar a fonte estabelecida para a sua purificação, procura, por si mesma, limpar-se do pecado e de sua imundície.

Pergunta. Mas como é possível aquele que é santo, bom, puro e separado dos pecadores ter união e comunhão com aqueles que são impuros e que estão em trevas? Não nos diz a Escritura que não pode haver comunhão entre justos e injustos, entre luz e trevas (2Co 6.14)?

Resposta. Os que estão totalmente debaixo do poder da sua corrupção original não têm nem podem ter união ou comunhão com Cristo (1Jo 1.6). Nenhuma pessoa não regenerada pode estar unida a Cristo.

Sejam quais forem as nossas corrupções, Cristo, que é luz, não pode ser contaminado por elas. A luz não se contamina por iluminar um monte de esterco. Uma ferida na perna não contamina a cabeça, embora ela sofra com a perna.

O propósito de Cristo em unir-se a nós é purificar-nos de todo o pecado (Ef 5.25-27). Não é necessário que sejamos completamente santificados para nos unirmos a ele. Estamos unidos a Cristo para sermos completamente santificados (Jo 15.1-5). Assim, pois, ali onde começou verdadeiramente em alguém a obra de santificação e purificação espiritual todo ele é agora considerado santificado. É a nova criação em nós que nos une diretamente a Cristo. Essa nova criação que está unida a Cristo foi em nós formada pelo Espírito de santidade, e é, portanto, santa em si mesma.

Muitos são os pecados com que os crentes se contaminam. Mas existe para eles um caminho aberto à purificação. Se utilizarem continuamente este caminho, nenhuma contaminação de pecado pode impedir-lhes a comunhão com Cristo.

No Antigo Testamento havia uma solução para a contaminação. Se alguém não se utilizasse dela ao se contaminar, era eliminado do meio do povo. Deus nos supriu com o sangue de Cristo para nos purificar de toda a contaminação do pecado, e ele espera que os crentes façam uso dele. Se não o fizermos não podemos ter comunhão com Cristo, nem ter comunhão verdadeira com os demais crentes (1Jo 1.6, 7).

Devemos orar como Davi (Sl 19.12, 13, cuja oração era um constante e humilde reconhecimento de pecados. “Quem há que possa discernir as próprias faltas?”. Ele buscava a purificação diária das impurezas que os menores e mais secretos pecados trazem consigo: “Absolve-me das que me são ocultas”. Orava para ser resguardado dos “pecados intencionais” (NVI), pecados cometidos de propósito e deliberadamente. Mesmo guardados dentro das fronteiras delimitadoras da oração de Davi, os crentes podem ser contaminados pelo pecado; ainda assim, nada há neles inconsistente com a sua comunhão com Cristo. O nosso Bendito Cabeça não é apenas puro e santo, é também gracioso e misericordioso. Ele não extirpará do seu corpo um membro por estar este doente ou ferido.

Conclusão

Há, então, uma grande diferença entre a verdadeira santidade operada em nós pelo Espírito Santo e uma vida moral e decente produzida por esforço próprio. Além disso, a santidade produzida em nós pelo Espírito Santo precisa ser mantida pura e imaculada pelo Espírito de Deus e pelo sangue de Cristo, ao passo que a vida moralmente decente, produzida por esforço próprio, luta para manter-se pura através de “boas resoluções”.
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Por John Owen. 
Fonte : Livro, O Espírito Santo. Capítulo 18.

Editora: Os Puritanos

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