sexta-feira, 24 de outubro de 2014

O dever da mortificação


A Escritura sempre nos exorta ao dever de mortificar o pecado. Paulo diz: “Mortificai, pois, os vossos membros, que estão sobre a terra: a prostituição, a afeição desordenada, a vil concupiscência, e a avareza, que é idolatria” (Cl 3.5, ACF). O que Paulo está dizendo é: mortifiquem os seus desejos terrenos corruptos apartando-se da fornicação, da impureza, etc. Há, dessa forma, uma distinção entre os desejos terrenos corruptos e seus frutos. Esses frutos imorais surgem de desejos malignos corruptos que almejam a fornicação. Assim, os pecados especiais mencionados são desejos em nós existentes que, se permitidos, produzem de fato esses pecados. Tais desejos são também denominados de nossos “membros”.

São chamados de nossos “membros” porque procedem de um princípio regente de pecado denominado de “o corpo do pecado”, ou “corpo dos pecados da carne” (Rm 6.6; Cl 2.11, ACF). Esses desejos são como braços e mãos que agarram o nosso corpo físico e o leva a cometer tais pecados. Assim, quando Paulo diz: “Mortificai (...) os vossos membros, que estão sobre a terra” (Cl 3.5) não se refere à destruição real de nenhum de nossos membros físicos, como imaginam alguns que tal mortificação seria a penitência do corpo, mas, trata-se de matar os nossos desejos malignos e pecaminosos ao não permitir que nosso corpo os cometa.

Agora, assim como o corpo usa naturalmente os seus diversos membros físicos o corpo do pecado em nós usa, do mesmo modo, esses desejos malignos e por meio deles o seduz, enganando-o e pondo-o a serviço do pecado. Por isso Paulo nos adverte para que não deixemos o pecado reinar em nosso corpo mortal (Rm 6.12). Ele prossegue dizendo: “Assim como oferecestes os vossos membros para a escravidão da impureza (...) assim oferecei, agora, os vossos membros para servirem à justiça para a santificação” (Rm 6.19).

Que farei? Colocarei o meu corpo a serviço de desejos malignos, ou de desejos santos?

Fui redimido por Cristo, cada pedaço de mim, inclusive todos os membros do meu corpo, pertencem agora a Cristo e a seu serviço. “E eu, porventura, tomaria os membros de Cristo e os faria membros de meretriz?” (1Co 6.15).

Mortificar significa destruir. Somos, portanto, convocados ao dever de destruir todos os desejos terrenos corruptos e pecaminosos dentro de nós que se opõem e fazem resistência àquela vida espiritual que nos capacita a viver para Deus. Em Romanos 8.13, “mortificar” foi originalmente posto no presente do indicativo para mostrar que é uma ação contínua, ativa, sempre em andamento, obra que devemos fazer de contínuo. “se mortificardes” quer dizer, “se estiverdes sempre empenhados nesta obra”.

Uma outra palavra usada é “crucificar” (Rm 6.6). O nosso velho homem está crucificado com Cristo (vide Gl 2.20; 5.24). Paulo disse: “Mas longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu, para o mundo” (Gl 6.14). Aqui o dever de “mortificar” está relacionado à morte de Cristo, pois diz que nós e os nossos pecados estamos crucificados com Cristo. Estamos assim crucificados, nós e os nossos pecados, pela virtude da sua morte (2Co 4.10). Assim como alguém crucificado leva muito tempo para morrer, o mesmo acontece com o “corpo do pecado” que há em nós. O crucificado, no entanto, vai demorar mais a morrer se for bem alimentado e bem tratado do que se for deixado com fome e lhe quebrarem as pernas.

Mas o principal sentido de termos sido crucificados com Cristo é que quando viemos a ele pela fé, pela virtude da sua morte, a nossa natureza corrupta e pecaminosa foi “crucificada” em nós. O seu poder sobre nós foi quebrado. O pecado não tem mais domínio sobre nós. Agora, pois, esse “corpo do pecado” que foi crucificado em nós não deve mais ser alimentado nem tratado bem, antes, deve-se envidar todo esforço para acelerar a sua morte. Essa natureza corrompida crucificada em nós gostaria de ser famosa entre os homens e de realizar todos os seus próprios desejos lascivos, como as pessoas do mundo o fazem.

Quando, porém, mortificamos esses desejos e não damos a vez ao pecado, o mundo logo vê que somos diferentes e a vida de santidade que resulta em nós condena os caminhos pecaminosos deles. Por isso os cristãos são aviltados e tratados do modo como Cristo foi tratado. Por essa causa é que o apóstolo Paulo disse que carregava sempre em seu corpo o morrer do Senhor Jesus (2Co 4.10). O poder de Cristo crucificado operava dentro de Paulo a mortificação do pecado e o fazia experimentar externamente o morrer do Senhor Jesus por causa do tratamento que o mundo lhe dava.
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Fonte : livro, O Espírito Santo. Capítulo 21.
Por John Owen.
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