quinta-feira, 16 de outubro de 2014

O que existe em mim é uma santificação de verdade?


Alguns crentes podem não achar os deveres espirituais suaves e leves, mas pesados e penosos. Se assim for precisamos examinar a nós mesmos e verificar a procedência de tais opressores. Se brotam de nossa má vontade em suportar o jugo de Cristo e se a nossa religião é movida pelo temor e convicção de pecados, então continuamos não regenerados. Contudo, se procedem de desejos egoístas mas ansiamos ser libertos do pecado e viver para Deus em santa obediência, de modo a só ficarmos contentados quando tomarmos sobre nós o jugo de Cristo e lutarmos contra todo o pecado conhecido, então somos verdadeiramente regenerados. Por isso precisamos de autoexame para ver se estamos ou não sendo regulares e diligentes no cumprimento de todos os deveres que julgamos mais difíceis.

A graça, em primeiro lugar, nos torna constantes no cumprimento das nossas obrigações espirituais; ela nos faz diligentes para com todos os deveres e para achá-los todos suaves e agradáveis.

As dificuldades podem ser causa da preocupação com as tentações que fatigam, perturbam e põem a mente em conflito.

Problema. “O que existe em mim é uma santificação de verdade, ou estou sendo enganado por algo falso?”.

Resposta. Estaremos enganados se acharmos que as boas intenções de largar o pecado e de nos voltarmos para Deus causadas por problemas, doenças, culpa ou temor da morte forem de fato santificação (Mc 6.20. Veja também Sl 78.34-37; Os 6.4).

Estaremos enganados se pensarmos que a mera possessão de dons espirituais é a comprovação de que temos um coração santo. Os dons procedem do Espírito Santo e devem ser grandemente valorizados. Eles fazem os homens cumprirem deveres que são evidente manifestação de santidade: a oração, a pregação e a manutenção da comunhão espiritual com crentes verdadeiros. Mas deveres cumpridos pelo estímulo dos dons espirituais não são, necessariamente, obediência santa. Da mesma forma que também nem a moralidade nem os seus meros deveres são santificação. Nos crentes verdadeiros os dons promovem a santificação, que os faz servos em favor dela.

Aprendemos assim que essa disposição ou inclinação para a santificação é bem diferente de todos os outros propósitos da mente, quaisquer que sejam, intelectuais ou morais, inatos ou adquiridos. Do mesmo modo que diferem da graça comum e de seus efeitos, dos quais também os não regenerados identicamente participam.

A causa primeira da santificação é motivada pelo desejo da glória de Deus em Jesus Cristo. Ninguém pode ter tal desejo se não for regenerado. Por exemplo, alguém que dá dinheiro aos pobres é motivado primeiramente pelo desejo de ajudá-los, no entanto a sua motivação final, se for um não regenerado, é o ego, o desejo de obter mérito, de alcançar um bom nome para si, o desejo do louvor dos homens ou o de pagar pelos seus pecados. Jamais, contudo, é motivado pela aspiração de glorificar a Deus em Jesus Cristo.

A santificação decorre do propósito de Deus na eleição (Ef 1.4); é uma natureza especial concedida apenas ao eleito de Deus (2Ts 2.13; Rm 8.29, 30; 2Pe 1.5-7, 10; Rm 9.11; 11.5, 7). Se a sua fé não consegue produzir a santificação, então não é a fé de um eleito de Deus (Tt 1.1).

Eis três maneiras de sabermos se as nossas graças e deveres são verdadeiramente frutos e provas da eleição:

(i) Elas crescem e aumentam em nós (Jo 4.14)?
(ii) O sentimento da amorosa eleição de Deus nos instiga ao uso diligente de tais graças (Rm 5.2-5; Jr 31.3)? O sentir do amor do Deus Eterno leva-nos à fé e à obediência. Os deveres cumpridos meramente por temor, espanto, esperança e uma consciência despertada não procedem da eleição em amor.
(iii) Tais graças da santificação estão nos tornando mais parecidos com Cristo? Se tivermos sido escolhidos em Cristo e predestinados para sermos como ele, as graças verdadeiras hão de operar em nós a sua imagem. Tais graças são: humildade, mansidão, abnegação, desprezo pelo mundo, prontidão para preterir o mal que nos foi feito, perdoar aos inimigos e amar e fazer o bem a todos.
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Fonte: livro O Espírito Santo. Capítulo 19.
Editora Puritanos.
Por John Owen. 
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