quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Prefácio de Calvino para o Saltério de Genebra


Uma das coisas mais requerida na Cristandade e uma das mais necessárias, é que cada um dos fiéis observe e sustente a comunhão da Igreja em sua localidade, frequentando as assembleias que acontecem tanto aos Domingos como em outros dias para honrar e servir a Deus: assim também era conveniente e razoável que todos soubessem e ouvissem o que se deve dizer e fazer no templo a fim de receber fruto e edificação.

ENTENDIMENTO É ESSENCIAL

Pois nosso Senhor não instituiu a ordem que devemos obedecer quando nos reunimos em Seu Nome, somente para entreter o mundo quando este olha e observa, antes, ele deseja que o culto seja útil para todo o seu povo; como São Paulo testemunhou, ordenando que tudo que for feito na Igreja seja direcionado à edificação comum de todos; isto o servo não teria ordenado, não fosse esta a intenção do Mestre. Mas isto não pode ser feito, a menos que sejamos instruídos a usar a inteligência em tudo que foi ordenado para o nosso proveito. Porque dizer que somos capazes de ter consagração, tanto nas orações e cerimônias, sem entender nenhuma destas coisas, é uma grande tolice, no entanto, muito tem sido dito comumente. Mas Isto não que dizer que esta boa afeição para com Deus, deva ser algo morto ou embrutecido, ao contrário, ela é resultado de um mover vivo procedente do Espírito Santo, quando o coração é devidamente tocado e o entendimento iluminado. E se de fato, alguém pudesse ser edificado por coisas que alguém vê, sem entender o que elas significam São Paulo não proibiria tão rigorosamente o falar em línguas estranhas: e não usaria todo o seu arrazoado de que não há edificação a menos que haja doutrina. Portanto, se realmente queremos honrar as santas ordenanças de nosso Senhor que usamos na Igreja, a primeira coisa que devemos é saber o que elas contêm e o que elas significam e querem dizer e para que fim foram instituídas, para que o uso delas seja útil e salutar e consequentemente corretamente administrados.

ELEMENTOS NO CULTO

Agora há três breves coisas que nosso Senhor ordenou sejam observadas nas nossas assembleias espirituais: que são: a pregação de Sua Palavra, orações, públicas e solenes, e a administração dos sacramentos. Vou me abster de falar dos sermões desta vez, porque não há nenhuma questão a respeito deles. Tocando nas que restam, nós temos como ordenanças expressas do Espírito Santo que as orações sejam feitas em uma linguagem comumente conhecida do povo; e o Apóstolo disse que as pessoas não devem responder Amém àquelas orações que forem feitas em língua estranha. Isto porque, as orações são feitas em nome de todos, que naturalmente são participantes dela. Por isso é um grande descaramento por parte daqueles que introduziram a língua Latina na igreja, onde geralmente não é entendida. E não há nem sutileza nem casuísmo que possam desculpá-los, porque esta prática é perversa e desagrada a Deus. Além disso, não há nenhuma razão para presumir que Deus esteja de acordo com aqueles que estão indo diretamente contra a Sua vontade, e assim falam a despeito Dele. Por isso, nada o afeta mais que ir de encontro a sua proibição e gabar-se disto como se fosse algo santo e louvável.

SACRAMENTO ASSOCIADO À DOUTRINA

Quanto aos Sacramentos, se observarmos a sua natureza, vamos reconhecer que é um costume perverso celebrá-los de tal maneira que as pessoas somente as vejam, mas não compreendam os mistérios que eles contêm. Porque se eles são a Palavra visível, (como Agostinho os chama), é necessário, não somente que haja meramente um espetáculo externo, mas também que a doutrina seja associada com eles para emprestá-los inteligência. E também, nosso Senhor ao instituí-los demonstrou isso: porque Ele diz que são testemunhas da aliança que fez conosco, e a qual confirmou através de Sua morte. É necessário, portanto, dar-lhes seus próprios significados para que possamos saber e entender o que Ele disse: de outra sorte teria sido em vão que nosso Senhor abrisse sua boca para falar, se não houvesse ouvidos ao seu redor para ouvir. Assim não há necessidade de uma longa disputa a respeito disso. E quando a matéria é examinada com o senso comum, não há ninguém que não confesse que é completamente antiquado, entreter as pessoas com símbolos sem significado algum para eles. Assim podemos facilmente concluir que estes profanam os Sacramentos de Jesus Cristo, administrando-os de tal forma que as pessoas nem mesmo entendem as palavras que são ditas a respeito deles. E de fato, pode-se ver a superstição que emerge de tal prática. Porque é comumente considerado que a consagração, por exemplo da água do Batismo, ou do pão e do vinho da Santa Ceia do Senhor, é tal como um encantamento, em outras palavras, quando alguém respirou ou pronunciou com a boca as palavras, criaturas insensíveis a sentimentos, sentem o poder, embora os homens não entendam nada. Mas a verdadeira consagração é aquela se faz através da palavra da fé, quando é declarada e recebida, como St. Agostinho disse: aquela que é expressamente contida nas palavras de Jesus Cristo. Porque Ele não diz ao pão que é seu corpo, antes Ele dirige sua palavra ao ajuntamento dos fiéis, dizendo: tomai, comei, e assim por diante. Se quisermos celebrar corretamente este Sacramento, é necessário apropriar-se da doutrina, por meio da qual o significado nos é declarado. Eu sei que pode parecer muito entranho para quem não está acostumado a isto, como acontece com todas as coisas novas; mas é muito razoável se nós como discípulos de Jesus Cristo preferirmos sua instituição em lugar do nosso costume. E aquilo que Ele instituiu desde o princípio não deve parecer novo para nós.

E se isto ainda não foi capaz de penetrar no entendimento de alguém, é necessário que oremos a Deus, para que se for do Seu agrado, ilumine o ignorante para fazê-lo entender quão mais sábio é que todos os homens desta terra pudessem aprender a não se fixarem nos seus próprios sentidos, nem sequer em nenhuma sabedoria louca dos seus líderes que estão cegos. No entanto, para o uso em nossas igrejas, pareceu bem a nós tornar público, como uma coleção, estas orações e Sacramentos para que não só as pessoas desta Igreja, mas também todos aqueles que desejarem, saibam, de que forma os fieis devem comparecer e se portar quando se reunirem em nome de Cristo.

DOIS TIPOS DE ORAÇÃO

Nós temos então reunido em um sumário, a forma de celebrar os Sacramentos e santificar o casamento, igualmente as orações e louvores que usamos. Falaremos mais tarde sobre os Sacramentos. Quanto às orações públicas, há dois tipos. Aquelas somente com palavras, e outras cantadas. E isto não é alguma coisa inventada há pouco tempo atrás. Pois desde o início da Igreja tem sido assim, conforme o testemunho da história. E o próprio apóstolo Paulo fala, não apenas da oração de palavras, mas também da que é cantada. E na verdade nós sabemos, por experiência, que cantar tem grande força, vigor de mover e inflamar os corações dos homens para envolvê-los em adoração a Deus com mais veemência e ardente zelo. Sempre se deve ter cuidado, para que as músicas não sejam nem frívolas nem triviais, mas que tenham peso e majestade, (como dizia St. Agostinho), e também há uma grande diferença de músicas que alguém faz para entreter os homens à mesa ou em suas casas, e os Salmos que cantamos na Igreja, na presença de Deus e de Seus anjos. Mas se alguém quiser julgar corretamente a forma que apresentamos aqui, esperamos que a encontre santa e pura, direcionada à edificação da qual já temos falado.

EXPRESSÃO ATRAVÉS DO CANTO

E ainda que a prática do canto possa se estender mais amplamente; ela é, mesmo nos lares e nos campos, um incentivo para nós, de certo modo, um órgão de louvor a Deus, para elevar nossos corações a Ele, e consolar-nos pela meditação de Sua virtude, bondade, sabedoria e justiça: isto é, tudo aquilo que é mais do que alguém possa dizer. Em primeiro lugar, não é sem causa que o Espírito Santo nos exorta cuidadosamente através das Escrituras a nos regozijar em Deus e que toda a nossa alegria seja subjugada ao seu verdadeiro propósito, porque, Ele sabe o quanto somos inclinados a nos alegrar com futilidades. Como então, nossa natureza nos força e induz a buscarmos todos os meios de alegrias tolas e viciosas, assim, ao contrário, nosso Senhor, para nos desviar o espírito das tentações da carne e do mundo, nos apresenta todos os meios possíveis para nos ocupar naquela alegria espiritual que tanto Ele nos recomenda.

A IMPORTÂNCIA DA MÚSICA

Agora, entre outras coisas que são próprias para entreter e recrear o homem e lhe dar prazer, a música é tanto a primeira como a principal; e é necessário pensar que este é um dom de Deus a nós delegado para tal fim. Além do mais, por causa disso, temos que ser mais cuidadosos em não abusar dele, com temor de desgraçá-lo e contaminá-lo, convertendo em nossa condenação, aquilo que foi dedicado para o nosso proveito e uso. Se não houvesse outra consideração, senão esta, já seria suficiente para nos levar a ter moderação no uso da música, e fazê-la servir a todas as coisas honestas. E que ela não nos dê ocasião para dar lugar a todo tipo de dissolução, ou nos fazermos como efeminados em deleites desordenados, e não se torne instrumento de lascívia ou qualquer impudicícia.

O PODER DA MÚSICA

E ainda há mais: existe raramente no mundo qualquer coisa que seja mais capaz de virar e corromper os homens do seu caminho e da sua moral, como Platão prudentemente considerou. E como de fato, sabemos por experiência, que ela tem um poder sagrado e quase incrível de mover corações de uma forma ou de outra. Portanto, temos que ser por isso mesmo, mais diligente em regulá-la de tal forma que nunca seja usada por nós de alguma forma perniciosa. Por esta razão os antigos doutores da igreja frequentemente exortavam a esse respeito, de que as pessoas do seu tempo, eram viciadas em canções desonestas e vergonhosas, que não sem causa, se referiam a elas chamando-as de venenos mortais e satânicos por corromper o mundo. Além do mais, já que falamos de música, eu a compreendo em duas partes: o que chamamos letra, ou assunto; e segundo, a música, ou melodia. É verdadeiro que toda má palavra (como dizia St. Pau­lo), corrompe os bons costumes, mas quando a melodia é colocada nela, traspassa o coração muito mais fortemente, e penetra nele, de uma maneira como através de um funil se derrama o vinho num vaso; assim também o veneno e a corrupção é destilado até as profundezas do coração pela melodia.

PORQUE ESCOLHER OS SALMOS

O que então devemos fazer agora? É preciso haver canções não somente honestas, mas também santas, que como aguilhões nos incite a orar e a louvar a Deus e a meditar nas suas obras para amar, honrar e glori­ficá-Lo. Além do mais, aquilo que St. Agostinho disse é verdadeiro, que ninguém é capaz de cantar algo digno de Deus, exceto aquilo que recebemos Dele. Portanto, quando procurarmos diligentemente, aqui e ali, não iremos encontrar cânticos melhores, por mais apropriados que sejam os seus propósitos, do que os Salmos de Davi, que o Espírito Santo falou e preparou através dele. E, além disso, Crisóstomo exorta, tanto os homens, como as mulheres e crianças a se acostumarem a cantá-los, afim de que esta seja o tipo de meditação que os faça associados à companhia dos anjos.

PORQUE É REQUERIDO CANTAR COM ENTENDIMENTO

Como de resto, é necessário relembrar o que St. Paulo disse, que os cânticos espirituais não podem ser cantados exceto com o coração. Mas o coração requer a inteligência. E sobre isso (diz St. Agostinho), encontra-se a diferença entre o cantar dos homens e o cantar dos pássaros. Pois um pintarroxo, um rouxinol, um pardal pode cantar bem, mas será sem entendimento. Mas o dom único dado ao homem é cantar sabendo o que está cantando. Após a inteligência, deve seguir o coração e a afeição, uma coisa impossível de acontecer exceto se tivermos o hino impresso em nossa memória, afim de nunca cessarmos de cantar. Por essa razão, este presente livro, tanto mais pelas razões e outras que de resto foram ditas, deve ser singular recomendação a cada um que deseja alegrar-se honestamente e de acordo com Deus, para a sua própria prosperidade e proveito dos seus vizinhos; por tudo isso é mister que seja recomendado por mim: esperando que isto reivindique seu valor e louvor. Mas que o mundo seja bem advertido, que em lugar de canções em parte vãs e frívolas, em parte estúpidas e tolas, e consequentemente más e danosas, como são utilizadas no momento, seja acostumado, daqui para frente, a cantar estes hinos divinos e celestiais juntamente com o bom rei Davi. Tratando-se da melodia, parece ser a melhor e a mais moderada forma adotada para carregar apropriadamente o peso da majestade do assunto, e tanto para ser cantado na Igreja, de acordo com tudo que tem sido dito.

Genebra, 10 de junho de 1543.
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Fonte: Extraído da Revista Os Puritanos, Ano XIII, N 1: 2005.
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