segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Vida espiritual verdadeira: uma disposição graciosa, sobrenatural


O que queremos dizer com “uma disposição sobrenatural”? Não é um mero ato de obediência a Deus. Atos ordinários de obediência podem ser prova de santificação, mas não a criarão (1Co 13.13; Is 1.11- 15). Uma disposição sobrenatural é uma virtude, um poder, um princípio de vida espiritual e graça operados em nossa alma e em todas as nossas faculdades. Essa constituição sobrenatural existe perenemente nos crentes; existe antes que seja concretizado qualquer ato de santidade real e é em si mesma a causa e a origem de toda boa- obra verdadeira e de santificação.

Esse feito sobrenatural em nós, assim como os atos físicos ordinários, não dá à luz atos de santificação por sua própria e inata habilidade. É o Espírito Santo que o capacita a produzi- los. Todo o poder e influência dessa disposição sobrenatural procedem de Cristo, nossa cabeça (Ef 4.15, 16; Cl 3.3; Jo 4.14). É como a seiva que flui pelos ramos. Além disso, varia de intensidade e floresce mais em alguns crentes do que em outros. Embora não seja obtida por obras de obediência é, contudo, nosso dever zelar por isso, auxiliando- a a crescer dentro de nós, fortalecendo- a e melhorando- a. Da mesma forma que exercitamos o nosso corpo, assim também precisamos exercitar as nossas graças espirituais.

Há uma disposição espiritual ou princípio regente de vida espiritual operando nos crentes do qual procede toda a santificação (Dt 30.6; Jr 31.33; Ez 36.26, 27; Jo 3.6; Gl 5.17; 2Pe 1.4). O Espírito de Deus cria no crente uma nova natureza que se expressa em todas as manifestações da vida de Deus em nós (Ef 4.23, 24; Cl 3.10). E, por meio dessa vida espiritual operada em nós, somos continuamente unidos a Cristo.

União com Cristo

A habitação do Espírito Santo em nós é a causa de tal união com Cristo, mas a nova natureza é o meio pelo qual estamos unidos a ele (Ef 5.30; 1Co 6.17; Hb 2.11, 14). A nossa semelhança com Deus reside nessa nova disposição espiritual criada em nós, por meio da qual sua imagem é em nós restaurada (Ef 4.23, 24; Cl 3.10). Através dessa nova vida espiritual em nós é que somos capacitados a viver para Deus. Esse é o princípio regente interior de vida do qual procedem todos os atos vitais da vida de Deus; é a vida que Paulo descreve como “oculta juntamente com Cristo em Deus” (Cl 3.3). Por isso ele estende sobre ela um véu, pois sabe que não temos condição de fitar a sua glória e beleza.

Assim, pois, aprendamos a não satisfazer a nós mesmos, nem a confiar em quaisquer atos ou deveres de obediência, nem em obras, conquanto boas e úteis, que não procedam desse princípio de santidade em nosso coração (Is 1.11- 15).

Esses deveres morais ou religiosos, por serem bons em si mesmos, devem ser aprovados e encorajados. Pode ser que sejam produzidos por motivos errados (Rm 9.31, 32; 10:3, 4), mas o mundo precisa até mesmo das boas obras de homens maus, embora devamos persuadi- los a não confiar em tais boas obras para a salvação, mas em Cristo somente.

Se esse princípio regente de santificação existir no coração dos crentes adultos, ele haverá de se manifestar no comportamento exterior (Tt 2.11, 12). Todos os crentes são concordes, pelo menos em palavras, de que a santificação é absolutamente necessária para a salvação por Jesus Cristo (Hb 12.14). Alguns, no entanto, acham que santidade é fazer o nosso melhor para viver uma vida moralmente decente (1Co 2.14). Não compreendem que, muito mais do que pensam, ser real e verdadeiramente santo é uma obra muito maior.

A santificação é a obra de Deus o Pai (1Ts 5.23). É uma obra de tal magnitude que somente o Deus de paz é capaz de fazê- la. Para que sejamos regenerados é necessário que o sangue de Cristo seja derramado e o Espírito Santo concedido. Não estejamos contentados com o mero nome de cristãos, mas certifiquemo- nos de que temos de fato uma vida cristã verdadeira.

Os deveres dos crentes

Agora, se recebemos esse princípio regente de santificação, somos então convocados aos seguintes deveres. Temos de nutrir e cuidar com zelo e diligência dessa nova vida espiritual nascida em nós. Ela nos foi confiada e espera- se que dela cuidemos, que a amemos e que encorajemos o seu crescimento. Se permitirmos, intencionalmente ou por negligência, que seja ferida pelas tentações, enfraquecida pelas corrupções, ou não exercitada em todos os deveres conhecidos, a nossa culpa e as nossas angústias serão grandes.

É também nosso dever mostrar convincentemente que temos essa nova vida em nós. Devemos deixar que se manifeste por meio dos seus frutos. Os seus frutos são a morte dos desejos de corrupção e o exercício de todos os deveres de santificação, justiça, amor e devoção a Deus no mundo. Uma das razões pelas quais Deus nos concedeu essa nova vida é a sua glorificação. Se os frutos da santificação não se fizerem manifestos, expomo-nos à acusação de hipocrisia. Revelemos, pois, em nossa vida aquilo que temos recebido.

Tal graça de santificação operada em nós conduz- nos a uma nova disposição de vida, inclinando- nos e impelindo- nos às boas obras e a atos de santificação. Disposições morais levam a ações morais, mas essa graça de santificação capacita- nos a ser santos e a viver para Deus. O homem natural está excluído desse tipo de vida (Ef 4.18; Rm 8.6); acha a santificação aborrecida e tediosa (Ml 1.13); odeia a santificação porque suas atitudes para com Deus são de inimizade, e portanto não pode ele agradar a Deus (Rm 8.7- 8).

A nova natureza, por outro lado, comporta- se de modo bem diferente. Ela dá ao coração um novo desejo e inclinação; é o que a Escritura chama de temor, amor e deleite (Dt 5.29; Jr 32.39; Ez 11.19; Os 3.5). A nova natureza dá uma nova atitude e direção à mente, que são chamadas de pendor espiritual (Rm 8.6; Cl 3.1, 2; Sl 63.8; Fp 3.13, 14; 1Pe 2.2).

Pela atuação desse princípio regente de santificação em nós é que o pecado se enfraquece e se afasta gradualmente e a alma deseja constantemente tornar- se santa.

O coração santificado deseja cumprir todo dever de santificação que conhece, pois preocupa- se em obedecer a todos os mandamentos de Deus. A falsa santidade do jovem rico foi posta a nu quando Cristo lhe ordenou que vendesse tudo quanto tinha e o desse aos pobres, então ele se foi entristecido, pois era possuidor de muitos bens (Mt 19.16ss; Mc 10.17ss; Lc.18.18ss).

Naamã o sírio, depois de curado da lepra por Elias, ainda desejou agradar a seus mestres terrenos ao curvar- se no templo de Rimom (2Rs 5.18). A verdadeira santificação pode, às vezes, resvalar ou desviar- se, mas não retornará integralmente à prática do pecado. O coração santificado segue em busca da santidade seja qual for a oposição. A pessoa santa sente o temor do Senhor o dia inteiro. A santificação é como uma torrente que flui sempre, sem importar quais os obstáculos (Jo 4.14).

A mera moralidade exterior é como um veleiro que depende de ventos externos que lhe enfunem as velas, mas quem possui esse princípio regente de santificação independe de ventos que podem ou não soprar, como uma nau movida por seu próprio motor interno.

Essa graça de santificação é constante e continuará para sempre; jamais deixará de encorajar a alma a realizar cada trabalho até que chegue ao total deleite de Deus; é aquela fonte de água viva que brota para a vida eterna (Jo 14.4); é prometida na aliança (Jr 32.40); capacita o crente a não negligenciar nenhuma responsabilidade (Hb 6.11; Is 40.31).
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Por John Owen. 
Fonte : Livro, O Espírito Santo. Capítulo 19. Ed. Os Puritanos
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