quarta-feira, 19 de novembro de 2014

A Doutrina da Trindade [15/29]


NAS ESCRITURAS, DESDE A PRÓPRIA CRIAÇÃO, SE ENSINA UMA ESSÊNCIA ÚNICA DE DEUS, QUE EM SI CONTÉM TRÊS PESSOAS

15. O Espírito Santo é identificado com a Deidade

Ademais, tampouco a Escritura se abstém do designativo Deus, quando fala a seu respeito. Ora, do fato de que seu Espírito habita em nós [1Co 3.17; 6.19; 2Co6.16], Paulo conclui que somos templos de Deus, o que não se deve passar por alto sem atenção mais detida. Na verdade, quando tantas vezes Deus promete que nos haverá de escolher por seu templo, esta promessa não se cumpre de outra forma senão quando o Espírito habita em nós. De fato, como Agostinho68 o afirma mui luminosamente: “Se nos fosse ordenado edificar ao Espírito um templo de madeira e pedra, uma vez que esta honra só se deve a Deus, seria cristalino argumento em prol de sua divindade. Ora, pois, temos aqui um argumento muito mais luminoso: que não devemos fazer-lhe um templo, ao contrário, nós mesmos somos seu templo! E o próprio Apostolo escreve, ora que somos templo de Deus, ora, na mesma acepção, que somos templo do Espírito Santo.

Com efeito Pedro, repreendendo a Ananias por este haver mentido ao Espírito Santo, dizia que ele não mentira aos homens, mas a Deus [At 5.3, 4]. E onde Isaías introduz o Senhor dos Exércitos a falar, Paulo ensina que é o Espírito Santo quem fala [6.9; At 28.25]. Mais ainda, quando os profetas, a cada passo, dizem que as palavras que proferem são do Deus dos Exércitos, Cristo e os apóstolos as atribuem ao Espírito Santo, do quê se segue que Aquele que é o autor primordial das profecias é o verdadeiro Senhor. Igualmente, onde Deus se queixa de que fora provocado à ira pela obstinação do povo, Isaías escreve que o Espírito Santo, em lugar dele [Deus], foi contristado [Is 63.10]. Por fim, a blasfêmia contra o Espírito Santo não é perdoada nem nesta era, nem na vindoura [Mt 12.31; Mc 3.29; Lc 12.10]; quando quem blasfemou contra o Filho alcança perdão, daqui sendo afirmada abertamente sua majestade, e que ofendê-la ou diminuí-la constitui crime inafiançável.

Deixo, cônscia e deliberadamente, de considerar muitos testemunhos de que os antigos fizeram uso. Para provarem que o mundo é obra do Espírito Santo não me- nos que do Filho, citaram Davi com muito prazer: “Pela Palavra do Senhor foram feitos os céus, e pelo Espírito de sua boa todo o exército deles” [Sl 33.6]. Como, porém, é costumeiro nos Salmos a dupla repetição da mesma coisa, e como em Isaías [11.4] a expressão “a boca do Espírito” equivale a “palavra”, tal argumento se torna precário. Por isso preferi abordar, um tanto seletivamente, apenas elementos em que as mentes piedosas pudessem solidamente arrimar-se.
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Notas
68. A Máximo, ep. 66.

Fonte: As Institutas. Volume I, capítulo XIII
Por: João Calvino
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