terça-feira, 18 de novembro de 2014

A santidade e a obra de Cristo


Uma das razões pela qual Deus enviou o seu Filho ao mundo era trazer o homem à santidade. Jesus Cristo veio para destruir as obras do diabo (1Jo 3.8; 1Tm 3.16), e por isso foi ungido para os ofícios de sacerdote, profeta e rei.

Sacerdote

Cristo consumou o seu ofício sacerdotal de duas formas. Primeiro, oferecendo-se a si mesmo como sacrifício por nossos pecados, e, segundo, por sua intercessão pelo seu povo.

O ofício sacerdotal de Cristo foi primeiramente exercido para com Deus ao oferecer-se a ele como expiação pelos pecados de seu povo, satisfazendo assim a justiça de Deus, tornando possível a sua reconciliação com os pecadores. Não poderíamos ser salvos nem santificados se Cristo não tivesse feito expiação pelos nossos pecados e a justiça de Deus não fosse satisfeita.

Em segundo lugar, o ofício sacerdotal de Cristo foi para o seu povo. É Cristo que traz a justificação e o perdão de pecados ao seu povo, que é santificado pelo Espírito Santo por seu intermédio (Tt 2.14; Ef 5.2; Hb 1.3; 9.14; Ap 1.5).

O ofício sacerdotal de Cristo era também o de interceder pelo seu povo (1Jo 2.1, 2; Jo 17.15, 17). Ele intercede pelo seu povo, para que os seus pecados sejam perdoados na virtude da oferta que fez de si mesmo, sendo, portanto, o nosso advogado diante de Deus para nos consolar quando cairmos inadvertidamente nas armadilhas do pecado. Além disso, ele também intercede para que o seu povo seja fortalecido em graça e no Espírito Santo, com vistas a que sejam santos e guardados em santidade.

Profeta

Cristo veio para ensinar e conduzir o seu povo a toda a verdade. Cristo ensinou toda a verdade sobre o seu Pai, apresentando a total revelação do seu nome, amor, graça, bondade e verdade; revelando também toda a verdade acerca da vontade e dos mandamentos de seu Pai (Jo 1.18; 3.2; 17.6).

Vemos a sua obra profética primeiramente para com a casa de Israel. Ele veio para declarar, expor e vindicar os mandamentos divinos que Deus lhes havia dado para conduzi-los a uma vida de santa obediência. Mas o povo, não sendo espiritual, compreendera e interpretara de modo muito errado a lei do Antigo Testamento, soterrando-a sob o lixo das suas vãs tradições. Distorceram a lei fazendo-a concordar com as suas concupiscências e pecados e interpretaram-na de tal maneira que ficaram dispensados de obedecê-la.

Cristo ensinou a natureza interior e espiritual da lei. Declarou o verdadeiro sentido dos mandamentos dela (Mt 5.21, 22, 27, 28). O Sermão do Monte foi o princípio do seu ministério.

Em segundo lugar, o seu ministério profético aplica-se a toda a igreja ao longo de todas as eras, o que inclui o ministério dos apóstolos. O ministério profético de Cristo ensinou os deveres de santidade que, apesar de serem encontrados de modo genérico na lei, ainda assim, jamais seriam conhecidos como deveres de natureza especial, não fosse pelo seu ensinamento. Ele ensinou a fé em Deus através de si mesmo. Ele ensinou o amor fraternal entre os cristãos, em razão de serem cristãos. Ensinou a renúncia de si mesmo no tomar a cruz, no retornar o bem por mal e no amar os inimigos. Ensinou também todas as ordenanças de culto, das quais dependem nossa obediência e santidade (Tt 2.11, 12).

Cristo ensinou três coisas em sua doutrina da obediência. A primeira foi que a obediência tem de proceder do coração. A renovação de nossa alma em todas as suas faculdades, movimentos e comportamento externo, moldando-nos à imagem de Deus, procede do coração regenerado (Jo 3.3, 5; Ef 4.22-24).

A segunda coisa que ensinou foi que se deve obedecer a toda a vontade de Deus. A vontade de Deus é a perfeita regra de santidade e obediência, e tem de ser obedecida em sua inteireza.

A terceira coisa que ensinou foi que não existe desculpa para a desobediência. Os mandamentos de Deus são claros, têm em si mesmos a comprovação divina e trazem consigo o total respaldo da autoridade de Deus.

Os ensinamentos de Cristo estão muito acima de todos os ensinamentos dos homens (Jó 36.22). Somos ensinados por Deus quando aprendemos de Cristo. A mais alta sabedoria dos homens jamais alcançou o padrão de santidade ensinado por Cristo. As filosofias humanas jamais ensinaram como é que nossa alma poderia ser renovada e transformada da sua natureza corrupta e pecaminosa na imagem e semelhança de Deus.

Os maiores moralistas tiveram disputas infindáveis e incorretas sobre a natureza da virtude em geral, sobre o seu status oficial e os deveres a que nos convoca, e sobre a regra e o padrão da verdadeira virtude. Mas ao que Cristo Jesus nos ordenou não resta a menor dúvida sobre se é ou não uma regra infalível a qual temos de receber.

Os melhores padrões de conduta dados pela maior luz natural dos homens ainda são obscuros e parciais, ao passo que o padrão de obediência de Cristo é claro e abrange a totalidade do homem.

Cristo ensina com autoridade e veio com o poder e a condição necessários para cumprir seu propósito. Palavras sedutoras, fala macia e elegante para iludir os sentimentos e deleitar as fantasias dos homens são a graça, o ornamento e a vida dos ensinamentos do mundo. Mas Cristo não procurou adular a homens nem teve qualquer desejo de obter o aplauso e o louvor deles. Cristo “ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas” (Mt 7.29). As pessoas “se maravilhavam das palavras de graça que lhe saíam dos lábios” (Lc 4.22). “Jamais alguém falou como este homem” (Jo 7.46).

Rei

Isso também foi para a nossa santificação. Como rei ele subjuga os nossos inimigos e protege a nossa alma de ser por eles destruída. Os inimigos que subjuga são as nossas concupiscências, os nossos pecados e as nossas tentações.

Cristo, como rei, torna os seus súditos livres para servirem ao Deus vivo. Ele guarda o seu povo salvo para sempre; capacita-os a se amarem mutuamente e a viverem em paz uns com os outros; coloca o seu reino no coração deles e lhes galardoa a obediência. Mas acima de tudo, ele os torna em Povo Santo.

Conclusão: Quão insensato seria permanecer na impiedade e ainda assim pensar que Cristo nos aceitou. Isso não apenas ilude a nossa alma, mas também desonra a Cristo e ao seu evangelho (Fp 3.18, 19).

Agora, portanto, deixe-me examinar a mim mesmo. Confiei nele como meu sacerdote? Aprendi dele como meu profeta? Submeti-me a ele como meu rei? Se sim, tenho então que envidar o máximo esforço para andar como ele andou — em santa obediência a Deus (1Jo 2.6).
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Livro : O Espírito Santo. Capítulo 25.
Por John Owen.
Editora: Os Puritanos.
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