domingo, 23 de novembro de 2014

Introdução à Bíblia de Estudo de Genebra (1ª Edição)


A Bíblia é um livro. Ela pode ser chamada de uma coleção de livros reunidos em um majestoso volume. Como um livro, ela destina-se a ser lida. Nesse aspecto, a Bíblia é igual a todos os outros livros. Mas a Bíblia não é como qualquer outro livro. Ela é o Livro dos Livros. Nós geralmente chamamos este livro de a Santa Bíblia. Sua santidade encontra-se em sua "qualidade sobrenatural". É um livro sagrado porque transcende e posiciona-se à parte e acima de qualquer outro livro. É um livro santo porque seu Autor básico é santo. Ela é santa porque sua mensagem é santa. Ela é santa porque seu conteúdo se propõe fazer-nos santos.

A Bíblia é um livro inspirado, isto é, "soprado" por Deus. Essa inspiração transcende o que normalmente se entende como inspiração de artistas humanos. A Bíblia oferece mais do que intuição brilhante, mais do que sagacidade humana. Ela é chamada "inspirada" não por causa de seu modo sobrenatural de transmissão mediante autores humanos, mas por causa de sua origem. Não é meramente um livro sobre Deus; ela é um livro proveniente de Deus. Por isso, a Igreja confessa sua confiança e certeza de que a Bíblia é a vox Dei, a verdadeira "voz de Deus".

A Bíblia é um livro normativo. A Igreja tem declarado que a Bíblia é a "Norma das normas, sem se submeter a outra norma". Uma norma é um padrão, um instrumento de medir pelo qual as coisas são julgadas. Nós podemos usar muitos padrões menores para regular nossa vida, mas todas essas normas precisam estar subordinadas às Escrituras. Ser a "Norma das normas" é ser a norma suprema, o padrão pelo qual todas as demais normas são medidas. A Bíblia não é simplesmente "a primeira entre iguais" -ela não tem paridade com outros padrões. Como Jesus é exaltado como o Senhor dos senhores e o Rei dos reis, assim nós nos submetemos à sua Palavra como a Norma das normas, o padrão da verdade e a única legislação para o povo de Deus.

Deus é o Senhor de céus e terra e somente ele é capaz de impor obrigação absoluta sobre suas criaturas. Ele faz isso através da palavra escrita. Os Reformadores do século XVI reconheceram essa autoridade sem-par da Bíblia, a qual expressaram na divisa Sola Scriptura, "as Escrituras somente". Os Reformadores não desprezaram outras autoridades ou negaram o valor da tradição e dos credos, mas distinguiram a autoridade singular da Bíblia, "a única regra infalível de fé e prática".

Deus conclama cada cristão a seguir a justiça. Nossa confiança deve ser como a das crianças, mas nosso entendimento precisa ser adulto. Tal confiança e entendimento requerem estudo da Palavra de Deus. O discípulo autêntico medita nela dia e noite, de forma contínua e permanente. Nosso alvo é mais do que conhecimento; é sabedoria e o fruto de obediência interna e externa.

A nova Bíblia de Estudo de Genebra é assim chamada porque ela encontra-se na tradição da Bíblia de Genebra original. Na Genebra moderna, Suíça, um muro memorial foi construído e dedicado à Reforma do século dezesseis. Esse Monumento da Reforma é adornado com estátuas dos grandes líderes, Calvino, Beza, Farei e Knox. Ao redor dessas figuras está a frase Post Tenebras Lux -"Depois das Trevas, a Luz".

A luz da Reforma foi a luz da Bíblia. A Bíblia latina, que podia ser lida apenas por profissionais, Lutero traduziu para o alemão corrente, que podia ser lido pelo povo. Na Inglaterra, Wycliffe e, depois, William Tyndale traduziram a Bíblia para o inglês. No entanto, havia grande oposição a esses esforços. Tyndale foi queimado na fogueira em 1536. Durante o reinado de Mary Tudor (1553-1558), a Reforma foi reprimida. A missa católico-romana tinha de ser celebrada, cultos não podiam ser celebrados em inglês, e os sacerdotes foram proibidos de casar. Duzentas e oitenta e oito pessoas foram queimadas, inclusive o Arcebispo de Canterbury, Thomas Cranmer.

Essas perseguições geraram fugas da Grã-Bretanha para a Europa. Os eruditos mais capazes entre eles foram para Genebra, Suíça. Ali, eles empreenderam a tarefa de preparar uma nova tradução da Bíblia para o inglês. A Bíblia de Genebra foi publicada em 1560, cuidadosamente planejada para ser acurada e compreensível. Ela foi a primeira Bíblia em inglês a utilizar as divisões em versículos, como "mais proveitosos para a memória" e para a localização e comparação de passagens. Ela possuía ainda notas marginais baseadas em princípios reformados.

A Bíblia de Genebra dominou o mundo de fala inglesa durante cem anos. Foi a Bíblia usada por Sheakespeare. A Bíblia "King James" foi publicada em 1611, mas não suplantou a Bíblia de Genebra senão cinqüenta anos depois. Os peregrinos e puritanos trouxeram a Bíblia de Genebra ao Novo Mundo. Colonos americanos foram educados na Bíblia da Genebra. Eles a leram, estudaram e procuraram viver por sua luz.

Desde aquela época, uma grande quantidade de traduções para o inglês e de Bíblias de Estudo apareceram. Nenhuma dessas Bíblias de Estudo incorporou um resumo da teologia reformada. A nova Bíblia de Estudo de Genebra contém uma reafirmação moderna da verdade da Reforma em seus comentários e notas teológicas. Seu propósito é apresentar a luz da Reforma de uma forma nova.

Os reformados aceitam a fé cristã como expressa nos credos ecumênicos e crida por cristãos em todo lugar. As idéias características dos reformados são o resultado da aceitação da Bíblia como a autoridade suprema para a fé e prática. As palavras da Bíblia são verdadeiras, e sua mensagem é poderosa. Ela transmite a promessa infalível de Deus, seu Autor, que não retornará para ele vazia, mas certamente cumprirá o seu propósito.
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R. C. Sproul Editor
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