sábado, 15 de novembro de 2014

Lutero e a Reforma: Uma entrevista


Repórter – Em sua carta de 6 de setembro de 1520, dirigida ao papa Leão X, o doutor reafirma o pedido feito dois anos antes, em novembro de 1518, em favor da convocação de um Concílio ecumênico para reformar a Igreja. A Reforma era mesmo uma necessidade urgente?

Lutero – O que eu escrevi ao sumo pontífice responde a sua pergunta. Precisamos de uma reforma porque sob este vasto céu não há nada mais corrupto, pestilento e odioso do que a Cúria Romana. Essa corrupção, que já dura trezentos anos, suplanta incomparavelmente a impiedade dos turcos, de modo que ela, a Cúria, antigamente era a porta do céu, em realidade, agora, é uma boca aberta do inferno.¹

Repórter – O seu pedido de um Concílio reformatório foi atendido?

Lutero – Nem o meu nem o de muitos outros, bem mais influentes do que eu! Na verdade, a Cúria Romana está perdida. A ira de Deus a atingiu até o fim. Ela odeia os concílios, tem medo de ser reformada, não pode mitigar o furor de sua impiedade e cumpre o epitáfio de sua mãe, a antiga Babilônia. É oportuno lembrar o lamento de Jeremias: “Gostaríamos de ter curado Babilônia, mas ela não pode ser curada; deixem-na e vamos, cada um para a sua própria terra, pois o julgamento dela chega ao céu, eleva-se tão alto quanto as nuvens” (Jr. 51.9).²

Repórter – O que aconteceu com aqueles nove cardeais que, em 1511, sete anos antes de seu primeiro pedido ao papa, tomaram a medida de convocar um Concílio reformador por conta própria?

Lutero – Todos os nove foram excomungados, destituídos de suas funções e denunciados como “filhos da escuridão” e “verdadeiros cismáticos” pelo papa Júlio II. O mais famoso dos nove era o cardeal espanhol Bernardino Lopez de Carvajal, de 55 anos, ex-núncio do papa aos reis católicos Isabel e Fernando, da Espanha.³
[…]

Repórter – Afinal, o que o doutor chama de reforma?

Lutero – Simplificando ao máximo, eu diria que é o movimento permanente na Igreja para restaurar a energia e a espiritualidade nas suas instituições, sempre necessário devido à fragilidade dos seus membros.4 Acrescentaria ainda que reforma é uma oportunidade ímpar para se rever qualquer desvio não só de comportamento, mas também de ordem dogmática.

Repórter – O doutor quer dizer que em nenhum momento de sua história a Igreja pode declarar que não precisa de reforma?

Lutero – Minha tese é ecclesia reformata semper reformanda est, isto é, igreja reformada, sempre se reformando. É preciso levar a sério o drama da fraqueza humana. Qualquer pessoa que leia a história de Israel, especialmente no período compreendido entre a posse da terra e a monarquia, encontrará seis vezes as expressões que revelam os desvios do povo eleito (Jz 3.12; 4.1; 6.1; 8.33; 10.6; 13.1).5
[…]

Repórter – Estranho certas expressões suas. Vou citar alguns exemplos. Em 1521, o doutor se vangloriou: “Fiz cinco vezes mais que o reformador João Huss”; em 1522, o senhor escreveu ao príncipe-eleitor: “Ninguém pode negar que as coisas começaram por mim”; em 1527, afirmou ter “trazido à luz a Sagrada Escritura e a Palavra de Deus, como já não ocorria mais desde há mil anos”; em 1534, o doutor relatou: “Muita gente no mundo aceitou o evangelho por mim e agora me considero doutor da verdade, apesar da excomunhão pelo papa e da cólera de imperadores, de reis e príncipes, sacerdotes e de todos os diabos”; e, em data que não consegui encontrar, o doutor resume o seu trabalho com, pelo menos, aparente, falsa modéstia: “Penso que fiz uma reforma… Cacei o pagão Aristóteles… Enfraqueci a grande magnificência e o sucesso das sedutoras indulgências… Consegui realizar muitas outras coisas que os papistas tiveram de deixar acontecer… Pude efetuar tanto, pela graça de Deus, que um menino ou uma menina de 7 anos sabem mais da doutrina cristã do que sabiam em outro tempo as universidades e os doutores”…6

Lutero – Fora do contexto, você tem toda a razão. Mas, posso garantir a todos que lerem esta conversa que eu sou e me considero um “saco de esterco”. Não quero me defender, mas devo lembrar que alguns autores bíblicos também usaram abundantemente o verbo na primeira pessoa do singular. Em seu critério, Davi seria soberbo quando escreveu: “Tenho mais discernimento que todos os meus mestres, pois medito nos teus testemunhos” (Sl 119.99). Veja Salomão: “Tornei-me mais famoso e poderoso do que todos os que viveram em Jerusalém antes de mim” (Ec 2.9). Poderia citar o próprio Paulo: “Eles são servos de Cristo? Mas eu sou um servo melhor do que eles, embora, ao dizer isso, eu esteja falando como se fosse louco” (2Co 11.23). Na leitura cuidadosa do contexto de cada citação acima, percebe-se claramente que não havia soberba nesses homens. Precisamos fazer diferença entre a necessária e própria consciência da vocação, da direção e da aprovação de Deus e entre a auto-atribuição de posições carnais. Sem essa consciência, eu não teria a menor possibilidade de me colocar nas mãos de Deus para cobrar a supremacia da Sagrada Escritura em matéria de fé e obras, e muito menos para colocar Jesus Cristo no lugar do Anticristo! Tudo quanto faço, faço-o de alguma maneira sob coerção. Confesso livremente que o empreendimento da Reforma não o comecei de modo deliberado. Ora, tudo aconteceu pelo desígnio de Deus, tenho certeza!7
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Fonte: Conversas com Lutero: história e pensamento, Elben 
M. Lenz César, Editora Ultimato, p. 88-89, 98-100.

Notas
1 LUTERO, Martinho Lutero; obras selecionadas. 2 ed. São Leopoldo; Sinodal, Porto Alegre: Concórdia, 2000. v. 2. p. 429. 
2 Id. Ibid. p. 428. 
3 JOHNSON, Paul. História do cristianismo. Rio de Janeiro: Imago, 2001. p. 337. 
4 ALBION, Gordon. Nova enciclopédia católica. Rio de Janeiro: Renes, 1969. v. 3. p. 1.202.
5 No último quartel do século 17, o papa Inocêncio XI (de setembro de 1676 a agosto de 1689) cunhou a frase “Cartusia nunquan reformata, quia nunquan deformata”, que literalmente significa “A cartuxa não precisa ser reformada, porque nunca se deforma”. Ele se referia ao conservadorismo da ordem religiosa fundada por São Bruno, em 1084. 
6 LEINHARD, Marc. Martin Lutero – tempo, vida e mensagem. São Leopoldo: Sinodal, 1998. p. 296. 
7 Id. Ibid. p. 300.
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