sábado, 22 de novembro de 2014

Perseguições nos Vales de Piemonte no século XVII

“E, havendo aberto o quinto selo, vi debaixo do altar as almas dos que foram mortos por amor da palavra de Deus e por amor do testemunho que deram. E clamavam com grande voz, dizendo: Até quando, ó verdadeiro e santo Dominador, não julgas e vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra?E foram dadas a cada um compridas vestes brancas e foi-lhes dito que repousassem ainda um pouco de tempo, até que também se completasse o número de seus conservos e seus irmãos, que haviam de ser mortos como eles foram” (Apocalipse 6:9–11).
Giovanni Pelanchion, por recusar tornar-se papista, foi amarrado por uma perna à cauda de uma mula e, arrastado pelas ruas de Lucerna, em meio às aclamações de uma multidão desumana, que não parava de apedrejá-lo e de gritar: “Está possuído pelo demônio, pelo que nem o apedrejamento e nem o fato de ser arrastado pelas ruas o matarão, porque o demônio o mantém vivo”. A seguir, levaram-no ao rio, onde cortaram-lhe a cabeça e a deixaram junto com o seu corpo sem sepultura.

Magdalena, filha de Pedro Fontaine, uma formosa menina de dez anos de idade, foi violentada e assassinada pelos soldados. Outra menina com aproximadamente a mesma idade foi assada viva em Vila Nova; e uma pobre mulher, ao ouvir que os soldados iam em direção à sua casa, tomou o berço em que o seu bebê dormia e correu em direção ao bosque. Mas os soldados a viram e perseguiram-na; para que pudesse fugir mais rapidamente, ela pôs o filho no chão, e os soldados, assim que alcançaram a criança, assassinaram-na. Retomaram a perseguição e encontraram a mãe em uma gruta. Violentaram-na primeiro e, a seguir, esquartejaram-na.

Jacob Michelino, principal presbítero da igreja de Bobbio, e vários outros protestantes, foram pregados por meio de garfos fixados em seus ventres, e deixaram-nos expirar em meio às mais horrendas dores.

A Giovanni Rostagnal, um venerável protestante de mais de oitenta anos de idade, foram cortados o nariz e as orelhas, aviltaram-lhe as partes carnosas do corpo e fizeram-no sangrar até a morte.

A sete pessoas, Daniel Seleagio e sua mulher, Giovanni Durant, Lodwich Durant, Bartolomeu Durant, Daniel Revel e Paulo Reynaud, encheram a boca de cada um com pólvora, a qual, inflamada, fez com que suas cabeças voassem em pedaços.

Jacob Birone, mestre de Rorata, recusou-se a mudar de religião, e foi então completamente despido; depois de exibi-lo tão indecentemente, arrancaram-lhe as unhas dos dedos dos pés e das mãos com tenazes incandescentes e perfuraram-lhe as mãos com a ponta de um punhal. Em seguida, amarram-no na altura da cintura com urna corda, e foi levado pelas ruas com um soldado de cada lado. Ao chegar a cada esquina, o policial da direita lhe fazia um corte na carne e o da esquerda o golpeava, e ambos lhe perguntavam: “Irás à missa?”, “Irás à missa?”. Ele respondia “não” . Finalmente, o levaram a uma ponte, onde lhe cortaram a cabeça, e a lançaram, juntamente com o corpo, ao rio.

Paulo Garnier, um protestante muito piedoso, arrancaram os olhos; em seguida, o esfolaram vivo e, após esquartejá-lo, os seus membros foram postos em quatro das principais casas de Lucerna. Suportou estes sofrimentos com a paciência exemplar, ofereceu louvores a Deus enquanto foi capaz de falar e deu clara evidência de que confiança e resignação podem ser inspiradas por uma boa consciência.

No Século XII, iniciaram-se as primeiras perseguições na Itália, a mando do pontífice de Roma, Adriano, um inglês que na ocasião era o papa. Estas foram as causas que levaram à perseguição: Um erudito e excelente orador da Brescia, chamado Agnaldo, chegou a Roma, e pregou abertamente contra as corrupções e inovações que se infiltraram na Igreja. Os seus discursos eram tão plenos e consistentes, e exalavam um espírito tão puro de piedade, que os senadores e muitos do povo aprovaram e admiravam grandemente as suas doutrinas.

Este fato enfureceu a Adriano de tal maneira, que determinou a saída de Arnaldo da cidade imediatamente. Porém, o pregador do Evangelho não obedeceu, porque os senadores e alguns dos principais do povo puseram-se a seu lado e resistiram à autoridade papal.

Daniel Cardon, de Rocappiata, preso por alguns soldados, cortaram-lhe a cabeça, fritaram a carne de seu peito e a comeram.

Duas pobres anciãs cegas que viviam em St. Giovanni foram queimadas vivas; e a viúva de La Torre, juntamente com sua filha, foi levada ao rio, onde foram apedrejadas até a morte.

Pablo Giles, que tentava fugir de uns soldados, ao ser baleado, foi ferido no pescoço; a seguir, cortaram-lhe o nariz, quebraram-lhe o maxilar, apunhalaram-lhe e deram o seu cadáver aos cães.

Algumas da tropas irlandesas, após prender a onze homens de Garcigliana, aqueceram um forno até que ficasse incandescente e obrigaram-nos a empurrar uns aos outros para dentro deste, até que chegassem ao último, o qual eles mesmos lançaram.

Michael Gonet, de noventa anos, foi queimado até a morte; Batista Oudri, outro ancião, foi apunhalado; a Bartolomeu Frasche fizeram furos em seus calcanhares e, através destes, amarraram as cordas, e foi puxado por estas até o cárcere; estas feridas gangrenaram, o que causaram a sua morte.

Magdalena de la Pierre, perseguida por alguns soldados, foi finalmente presa, derrubada ao solo e estraçalhada. Margarita Revella e Maria Pravillerin, duas mulheres muito idosas, foram queimadas vivas; Michael Bellino e Ana Bochardno foram decapitados.

O filho e a filha de um vereador do município de Giovanni foram lançados de uma ladeira muito íngreme, e deixados morrer de inanição em uma profunda cova existente no local. Um comerciante e sua esposa, com um bebê nos braços, foram lançados de um alto monte a um precipício abaixo e estraçalharam-se. José Chairet e Pablo Carneiro foram esfolados vivos.

Quando perguntaram a Cipriano Bustia se renunciaria a sua religião e tornar-se-ia católico, ele respondeu: “Prefiro antes renunciar à vida, ou até mesmo tornar-me um cão”. A esta afirmação, um sacerdote respondeu: “Por teres dito isto, perderás a vida e serás lançado aos cães”. Assim, arrastaram-no ao cárcere, onde permaneceu por muito tempo sem alimento, até morrer de inanição; após a sua morte, lançaram o seu cadáver à rua em frente ao cárcere, onde foi devorado por cães famintos.

Margarita Saretta foi apedrejada até a morte e, em seguida, lançada ao rio; Abriram a cabeça de Antonio Bartina e a José Pont abriram o corpo de alto a baixo.

Daniel Maria e todos os membros de sua família estavam enfermos, quando vários desalmados papistas entraram em sua casa e disseram que eram médicos práticos e os livrariam da enfermidade; o que fizeram, ao romper a cabeça de todos os membros da família.

Tomaram três filhos de um protestante chamado Pedro Fine, cobriram-nos de neve e os asfixiaram. Decapitaram a uma viúva anciã chamada Judite; e a uma formosa jovem despiram, violentaram e mataram.

Lúcia, mulher de Pedro Besson, em avançado estado de gestação, vivia nos povoados dos vales de Piemonte. Decidiu que se lhe fosse possível fugiria das terríveis cenas que por todas as partes contemplava; tomou então os seus dois filhos pequenos e dirigiu-se aos Alpes. Porém, ao terceiro dia de viagem, sobrevieram-lhe as dores de parto, e deu à luz um bebê, que morreu devido à extrema inclemência do tempo, como também os outros dois filhos. Os três foram encontrados mortos ao seu lado, ainda agonizante, pela pessoa que relatou os detalhes mencionados.

Francisco Gros, filho de um clérigo, cortaram lentamente sua carne em pequenos pedaços e, em seguida, os colocaram em um prato diante de seu pai; dois de seus filhos foram feitos em pedaços também; sua mulher foi amarrada a um poste, para que contemplasse como faziam estas crueldades a seu marido e a seus filhos. Finalmente, os algozes cansaram-se destas crueldades, cortaram a cabeça do marido e da mulher, e deram a carne de toda família aos cães.

O Sr. Tomás Margher fugiu para uma gruta, cuja entrada foi em seguida bloqueada pelos soldados; ele morreu de fome. Judite Revelin e sete crianças foram barbaramente assassinadas em suas camas; e uma viúva de quase oitenta anos foi esquartejada pelos soldados.

Ordenaram a Jacó Roseno que orasse aos santos, o que absolutamente se recusou a fazer. Alguns dos soldados o golpearam violentamente com garrotes para o fazerem obedecer; porém, prosseguiu resoluto. Por esta razão, vários deles dispararam suas armas e muitas balas alojaram-se em seu corpo. Enquanto agonizava, escarneciam dele, puxaram-no e diziam: “Vais rezar aos santos?”, “Vais rezar aos santos?”, ao que ele respondia: “Não!”, “Não!”, “Não!”. Então um dos soldados, com uma espada de lâmina grande, partiu-lhe a cabeça em duas partes, e pôs fim aos sofrimentos dele neste mundo, pelos quais será sem sombra de dúvidas gloriosamente recompensado na eternidade.

Susana Gacquin, uma moça a qual um soldado tentava violentar, opôs-se com forte resistência e, durante a luta, empurrou-o para um precipício, onde foi destroçado pela queda. Os companheiros do soldado, ao invés de admirar a virtude da jovem e de aplaudi-la por defender sua virgindade tão nobremente, lançaram-se sobre ela com as suas espadas e a despedaçaram.

Giovanni Pulhus, um pobre camponês de La Torre, foi preso pelos soldados como protestante, e o marquês de La Pianesta ordenou que fosse executado em um lugar próximo ao convento. Ao chegarem à forca, vários monges aproximaram-se e fizeram todo o possível para persuadi-lo a renunciar a sua religião. Porém, disse-lhes que jamais abraçaria a idolatria e sentia-se feliz por ser considerado digno de sofrer pelo nome de Cristo. Então fizeram-no lembrar-se do quanto sua mulher e filhos sofreriam se ele morresse, por dependerem do trabalho dele para terem o sustento. A isto respondeu: “Eu gostaria que a minha mulher e os meus filhos, assim como eu, considerassem antes as suas almas mais do que os seus corpos, e o mundo vindouro mais do que este mundo; e a respeito da angústia em que os deixo, Deus é misericordioso, e lhes proverá o sustento, enquanto forem dignos de sua proteção”. Ao verem a inflexibilidade deste pobre homem, os monges gritaram: “Acabem com ele, acabem com ele!” , o que o carrasco fez de imediato; o corpo foi a seguir despedaçado e lançado ao rio.

II

Pablo Clemente, presbítero da igreja em Rossana, preso pelos monges de um mosteiro vizinho, foi levado à praça do mercado, onde alguns protestantes acabavam de ser executados pelos soldados. Mostraram-lhe os cadáveres, a fim de intimidá-lo com o espetáculo. Ao assistir àquele terror, disse, calmamente:“Podeis matar o corpo; porém, não podeis prejudicar a alma de um verdadeiro crente; e acerca do terrível espetáculo que me mostrastes, podeis ter a certeza de que a vingança de Deus alcançará os assassinos desta pobre gente, e os castigará pelo sangue inocente derramado”. Os monges sentiram-se cheios de furor por esta resposta e ordenaram que fosse imediatamente enforcado; e, enquanto estava pendurado na forca, os soldados, para se divertirem, puseram-se à distância e tornaram o seu corpo um alvo para seus disparos.

Daniel Rarnbaut, de Vilario, pai de uma numerosa família, foi preso e levado, juntamente com várias outras pessoas, ao cárcere de Paysana. Ali, foi visitado por vários sacerdotes, que o importunaram insistentemente e fizeram todo o possível para persuadi-lo a renunciar à religião protestante e fazer-se papista. Porém, ele se recusou veementemente, e os sacerdotes, ao ver a sua decisão, pretenderam sentir piedade por sua numerosa família, e disseram-lhe que ainda assim poderia salvar a sua vida, se afirmasse a sua fé nos seguintes artigos:
1. A presença real de Cristo na hóstia.
2. A Transubstanciação.
3. O Purgatório.
4. A Infalibilidade do Papa.
5. As missas que se celebravam a favor dos mortos liberavam as suas almas do purgatório.
6. Rezar aos santos traz a remissão dos pecados.
Daniel Rambaut disse aos sacerdotes que nem a sua religião, nem o seu entendimento, nem a sua consciência lhe permitiriam aprovar qualquer um destes artigos, pelas seguintes razões:
1. Crer que a presença real de Cristo está na hóstia é uma forte união de blasfêmia e idolatria.
2. Imaginar que as palavras de consagração fazem com que aconteça o que os papistas chamam de transubstanciação, ou seja, a transformação do pão e do vinho no verdadeiro e idêntico corpo e sangue de Cristo, que foi crucificado e, após ressuscitar, ascendeu ao Céu, é algo demasiadamente errôneo e absurdo para que sequer uma criança com a mínima capacidade de discernimento possa crer; e nada além da mais cega superstição poderia fazer com que os católicos pusessem a sua confiança em algo tão ridículo.
3. A doutrina do purgatório é mais inconseqüente e absurda do que um conto de fadas.
4. Era impossível a infalibilidade do papa e ele, arrogante e soberbamente, se apropriava de um atributo que pertence somente a Deus como ser perfeito.
5. Celebrar missas em favor dos mortos era ridículo, e somente possuía a intenção de manter a crença na fábula do purgatório, porquanto a sorte de todos fica definitivamente decidida quando a alma parte do corpo.
6. A oração aos santos para a remissão de pecados é uma adoração fora de propósito, porquanto eles mesmos tiveram a necessidade da intercessão de Cristo. Assim, pelo fato de que somente Deus pode perdoar os nossos erros, deveríamos ir somente a Ele para recebermos o perdão.
Os sacerdotes sentiram-se tão ofendidos diante das respostas de Daniel Rambaut, sobre os artigos que desejavam que ele confirmasse, que resolveram vingar sua decisão mediante o método mais cruel. Ordenaram que lhe cortassem uma articulação dos dedos das mãos a cada dia, até que ficasse sem eles; a seguir passaram aos dedos dos pés; a seguir, alternadamente, passaram a cortar-lhe um dia uma das mãos, e no outro, um dos pés; porém, ao ver que suportava os seus sofrimentos com a mais admirável paciência, fortalecido e resignado, e mantinha a sua fé com uma resolução irrevogável e uma constância inabalável, apunhalaram seu coração, e deram o seu corpo aos cães.

Pedro Gabriola, um cavalheiro protestante de considerável estirpe, foi preso por um grupo de soldados; ao negar-se a renunciar sua religião, amarraram grande quantidade de pequenos sacos de pólvora por todo o seu corpo e, ao acendê-los, fizeram com que o seu corpo voasse em pedaços.

Um grupo de soldados despedaçou a Antônio, filho de Samuel Catieris, um pobre moço completamente mudo e inofensivo. Pouco depois, os mesmos desalmados entraram na casa de Pedro Moniriat, cortaram as pernas de todos os membros da família, e deixaram que sangrassem até a morte, incapacitados de socorrer uns aos outros.

Daniel Benech foi preso, arrancaram-lhe o nariz, cortaram-lhe as orelhas, esquartejaram-no e penduraram cada parte de seu corpo em uma árvore.

Quebraram as mandíbulas de Maria Monino e deixaram-na sofrer até morrer de inanição.

Maria Pelanchion, uma formosa viúva, vizinha da cidade de Vilario, foi presa por um pelotão das brigadas irlandesas, violentaram-na, esfolaram-na violentamente, arrastaram-na a uma alta ponte que cruzava o rio e despiram seu corpo. Penduraram-na pelas pernas na ponte, de cabeça para baixo, entraram nos barcos e dispararam contra ela como se fosse um alvo, até que morreu.

Maria Nigrino e sua filha, que era débil mental, foram despedaçadas nos bosques, e os seus corpos deixados como pasto para as feras.

Susana Bales, uma viúva de Vilário, foi trancada entre quatro paredes até que morreu de fome. Susana Calvio fugiu de alguns soldados e escondeu-se em um celeiro. Eles, então, atearam fogo à palha e mataram-na queimada.

Pablo Armand foi cortado em pedaços; um menino chamado Daniel Bertino foi queimado. Arrancaram a língua de Daniel Michialino e deixaram-no morrer nesta condição.

Andreo Bertino, um ancião de idade muito avançada, coxo, foi mutilado cruelmente e, ao final destripado, e as suas entranhas levadas na ponta de uma arma conhecida como alabarda.

A Constância Bellione, uma dama protestante presa por causa de sua fé, um sacerdote perguntou se renunciaria ao diabo e iria à missa; ela lhe respondeu:

“Fui criada em uma religião na qual sempre fui ensinada a renunciar ao diabo; porém, se cedesse a vossos desejos e fosse à missa, seguramente o encontraria ali sob vários disfarces”. O sacerdote enfureceu-se com estas palavras e disse-lhe que se retratasse ou sofreria cruelmente. A dama, contudo, disse-lhe valorosamente que, apesar de todos os sofrimentos que pudessem afligi-la, ou de todos os tormentos que viesse a enfrentar, manteria a sua consciência pura e a sua fé inviolada.

O sacerdote ordenou, então, que cortassem pedaços de sua carne, de várias partes de seu corpo; crueldade que ela suportou com a paciência mais inusitada, e disse ao sacerdote: “Que horríveis e duradouros tormentos sofrerás no inferno pelas pobres e passageiras dores que agora sinto!”. Exasperado pelas palavras da mulher, e desejoso de fechar-lhe a boca, ordenou a um pelotão de mosqueteiros que se aproximassem e disparassem contra ela, pelo que logo morreu e selou seu martírio com o seu sangue.

III

Por recusar-se a mudar de religião e abraçar o papismo, uma jovem chamada Judit Mandon foi presa a uma estaca, e lançaram-lhe pedaços de madeira de uma certa distância, idêntico ao bárbaro costume que se praticava anteriormente nas terças-feiras de carnaval, o chamado lançamento contra as rochas. Com este procedimento desumano, os membros da pobre moça foram golpeados e mutilados terrivelmente, e finalmente um dos garrotes lhe partiu o crânio.

David Paglia e Pablo Genre, que tentavam escapar em direção aos Alpes, cada um deles com o seu respectivo filho, foram perseguidos e alcançados pelos soldados em uma grande planície. Ali, para se divertirem, cassaram-nos, feriram-nos com suas espadas e correram atrás deles até que caíssem pela fatiga. Quando viram que estavam esgotados e já lhes não podiam mais divertir, despedaçaram-nos e deixaram os seus corpos mutilados naquele mesmo lugar.

Um jovem de Bobbio, chamado Miguel Greve, foi preso na cidade de La Torre e, levado à ponte, foi lançado ao rio. Como era um bom nadador, nadou rio abaixo, ciente que poderia escapar; porém, os soldados e a turba seguiram-no por ambos os lados das margens, apedrejaram-no continuamente, até que, ao receber um certo golpe, perdeu os sentidos, submergiu e afogou-se.

Ordenaram a David Armand que pusesse a sua cabeça sobre um bloco de madeira e, um soldado, com uma marreta, partiu-lhe o crânio.

David Baridona, preso em Vilario, foi levado a La Torre onde, ao negar-se a renunciar à sua religião, foi atormentado; acendiam-lhe pavios de enxofre atados entre os dedos de suas mãos e pés. Depois, arrancaram pedaços de sua carne com tenazes incandescentes, até que ele expirasse.

Giovanni Barolina e sua mulher foram lançados a um tanque de água e obrigados a manter a cabeça submersa através de forcas e pedras, até que se afogassem.

Um grupo de vários soldados foi à casa de José Garniero e, antes de entrar, dispararam contra a janela, a fim de anunciar a sua chegada. Uma bala de mosquete atingiu um dos seios de sua esposa, enquanto amamentava seu bebê no outro peito. Ao descobrirem a intenção dos soldados, rogou-lhes encarecidamente que poupassem a vida da criança, o que fizeram, e enviaram-lhe imediatamente a uma ama-de-leite católica. Em seguida, tomaram o marido, enforcaram-no em sua própria porta, deram um tiro na cabeça da mulher e deixaram-na banhada em seu sangue.

Um ancião chamado Isaías Mondon, piedoso protestante, fugiu dos perseguidores, os quais não tinham qualquer misericórdia, e refugiou-se na greta de uma penha, onde sofreu as mais terríveis privações; em meio ao inverno, viu-se obrigado a deitar-se sobre a pedra bruta, sem nada para cobrir-se; alimentava-­se das raízes que era capaz de arrancar ao redor de seu mísero habitáculo; e a única forma de conseguir algo para beber era colocar neve na boca até que esta se fundisse. Contudo, até mesmo neste esconderijo encontraram-no alguns dos desumanos soldados que, depois de golpeá-lo implacavelmente, feriram-no com a ponta de suas espadas e levaram-no até Lucerna. Completamente debilitado pelas circunstâncias passadas, e esgotado pelos golpes recebidos, caiu no caminho. Eles começaram novamente a golpeá-lo para obrigá-lo a seguir; porém, de joelhos, implorou-lhes que o matassem e pusessem fim aos seus sofrimentos. Finalmente, cederam ao seu pedido, e um dos soldados aproximou-se dele, desferiu-lhe um tiro na cabeça com uma pistola, com a seguinte expressão: “Tome, herege, aqui tens o que pediste!”.

Maria Revol, uma digna protestante, recebeu um disparo nas costas enquanto caminhava por uma rua. Caiu ao solo ferida, mas, ao recobrar a força suficientemente, pôs-se sobre os seus joelhos, levantou as suas mãos ao céu e orou fervorosamente ao Todo-Poderoso; então, vários dos soldados, próximos a ela, dispararam muitos tiros contra a mulher, que foi ferida por muitas balas, o que imediatamente pôs fim aos seus sofrimentos.

Vários homens, mulheres e crianças esconderam-se em uma grande caverna, onde permaneceram a salvo durante várias semanas. Era costume os homens saírem quando se fazia necessário, para que procurassem provisões secretamente. Porém, um certo dia, foram vistos e a caverna foi descoberta, e pouco depois apareceu diante da entrada desta uma tropa católica. Os papistas que se reuniram ali naquela ocasião eram vizinhos e amigos íntimos dos protestantes que se esconderam na caverna; e alguns eram inclusive parentes. Por esta razão, os protestantes imploraram-lhes pelos laços da hospitalidade, pelos vínculos do parentesco e como velhos conhecidos e vizinhos, que não os assassinassem.

Mas a superstição vence a todos os sentimentos naturais e humanos, e os papistas, cegos pelo fanatismo, disseram-lhes que não era justo mostrar graça alguma a hereges; portanto, deveriam preparar-se para morrer. Ao ouvirem isto, e conhecedores da obstinação assassina dos católicos, os protestantes prostraram-se, levantaram as mãos ao céu, oraram com grande sinceridade e fervor, lançaram-se sobre o solo e esperaram por sua sorte, que imediatamente foi selada, pois os papistas lançaram-se sobre eles com fúria selvagem, reduziram-nos a pedaços e deixaram na caverna seus corpos mutilados.

Giovanni Salvagiot passou em frente a uma igreja católica e não fez sequer uma vênia, como ato de reverência. Foi seguido por alguns dos fiéis, que se lançaram sobre ele e o assassinaram.

Jacó Barrei e sua esposa foram feitos prisioneiros pelo conde de St. Secondo, um dos oficiais do duque de Sabóia, e entregues aos soldados, que cortaram os seios da mulher, o nariz do homem, e logo os mataram com um tiro na cabeça de cada um.

Um protestante chamado Antonio Guido, que estava vacilante, foi a Venero com a intenção de renunciar à sua religião e abraçar o papismo. Comunicado o seu intento a alguns sacerdotes, estes o elogiaram muito, e agendaram um dia para a sua retratação pública. Neste ínterim, ele percebeu a dimensão de sua perfídia e sua consciência atormentou-lhe de tal maneira, dia e noite, que decidiu não retratar-se, mas fugir. Após empreender a fuga, sentiram a sua falta, foi perseguido e preso. As tropas, durante o caminho, fizeram todo o possível para convencê-lo à sua intenção de retratar-se, mas, ao perceberem que os seus esforços eram inúteis, golpearam-no violentamente no caminho; ao aproximar-se de um grande precipício, ele aproveitou a oportunidade, saltou e espatifou-se.

Um cavalheiro protestante extremamente rico, que vivia em Bobbio, provocado certa noite pela insolência de um sacerdote, respondeu-lhe com grande dureza; dentre outras coisas disse-lhe que o papa era o Anticristo; a missa, uma idolatria; o purgatório, uma farsa; e a absolvição, uma falácia. Para vingar-se, o sacerdote contratou cinco marginais que naquela mesma noite invadiram a casa do cavalheiro e apoderaram-se dele com violência. Ele se assustou tremendamente e implorou-lhes, de joelhos, que o poupassem; porém, os marginais o mataram sem vacilar.
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Por John Fox
Fonte: Livro dos Mártires Cristãos.
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