domingo, 7 de dezembro de 2014

A Doutrina da Trindade [18/29]


NAS ESCRITURAS, DESDE A PRÓPRIA CRIAÇÃO, SE ENSINA UMA ESSÊNCIA ÚNICA DE DEUS, QUE EM SI CONTÉM TRÊS PESSOAS

18. Funções distintivas das Pessoas da Trindade

Na verdade, para expressar a força desta distinção, não sei se convenha lançar mão de comparações à base das coisas humanas. De fato, os antigos costumam, por vezes, fazer isso, mas, ao mesmo tempo, confessam que fica muito longe da realidade tudo quanto trazem à baila como analogia, do que resulta que me arreceio de toda e qualquer ousadia aqui, para que não dê oportunidade, seja de cavilação aos maldosos, seja de erro aos ignaros, se algo vier a apresentar-se não muito a propósito.

Entretanto, não convém passar em silêncio a distinção que observamos expressa nas Escrituras, e esta consiste em que ao Pai se atribui o princípio de ação, a fonte e manancial de todas as coisas; ao Filho, a sabedoria, o conselho e a própria dispensação na operação das coisas; mas ao Espírito se assinala o poder e a eficácia da ação. Com efeito, ainda que a eternidade do Pai seja também a eternidade do Filho e do Espírito, posto que Deus jamais pôde existir sem sua sabedoria e poder, nem se deve buscar na eternidade antes ou depois, todavia não é vã ou supérflua a observância de uma ordem, a saber: enquanto o Pai é tido como sendo o primeiro, então se diz que o Filho procede dele; finalmente, o Espírito procede de ambos. Ora, até mesmo o mero entendimento de cada um, de seu próprio arbítrio, o inclina a considerar a Deus em primeiro plano; em seguida, emergindo dele, a Sabedoria; então, por fim, o Poder pelo qual executa os decretos, diz-se que o Espírito procede, ao mesmo tempo, do Pai e do Filho. Isto, na realidade, em muitas passagens, contudo em parte alguma está mais explícito do que no capítulo 8 da Epístola aos Romanos [v. 9], onde, na verdade, o mesmo Espírito é indiferentemente designado ora Espírito de Cristo, ora Espírito daquele que dos mortos ressuscitou a Cristo [v. 11], e não sem razão plausível.

Ora, Pedro também testifica [1Pe 1.11; 2Pe 1.21] que o Espírito de Cristo foi Aquele pelo qual os profetas vaticinaram quando tantas vezes a Escritura ensina que fizeram isso pelo Espírito de Deus, o Pai.
___________________
Fonte: As Institutas. Volume I, capítulo XIII
Por: João Calvino
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...