quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

A Doutrina da Trindade [20/29]


NAS ESCRITURAS, DESDE A PRÓPRIA CRIAÇÃO, SE ENSINA UMA ESSÊNCIA ÚNICA DE DEUS, QUE EM SI CONTÉM TRÊS PESSOAS

20. O conceito básico do Deus Triúno

Portanto, aqueles cujo coração tiver sobriedade e que se contentarem com a medida da fé, recebam, em poucas e breves palavras, o que é útil de se conhecer, isto é, quando professamos crer em um só e único Deus, pelo termo Deus entende-se uma essência única e simples, em que compreendemos três pessoas sem especificação, designam-se não menos o Filho e o Espírito que o Pai; quando, porém, o Filho é associado ao Pai, então se interpõe a relação, e com isso fazemos distinção entre as pessoas.

Mas, uma vez que as propriedades específicas implicam de si uma gradação nas pessoas, de sorte que no Pai estejam o princípio e a origem, sempre que se faz menção, simultaneamente, do Pai e do Filho, ou do Espírito, se atribui ao Pai, de modo peculiar, o termo Deus. Desse modo retém-se a unidade de essência e tem-se em conta a ordem de gradação, o que, entretanto, nada detrai da divindade do Filho e do Espírito.

E, por certo, como já se viu antes, uma vez que os apóstolos afirmam ser o Filho de Deus aquele a quem Moisés e os profetas testificaram ser o Senhor, necessário é sempre volver à unidade de essência. Daí ser abominável sacrilégio dizer que o Filho é outro Deus distinto do Pai, visto que o simples designativo Deus não admite relação, nem se pode dizer que Deus, com respeito a si próprio, seja isto ou aquilo.

Quanto ao fato de que o designativo Senhor, tomado sem especificação, convenha a Cristo, é patente à luz das palavras de Paulo [2Co 12.8, 9]: “Por isso três vezes supliquei ao Senhor”, porquanto, quando recebeu a resposta de Deus: “Minha graça te basta”, acrescenta pouco depois: “Para que o poder de Cristo habite em mim.” Ora, é evidente que o termo Senhor foi aí posto em lugar de Jeová, e por isso seria frívolo e pueril restringi-lo à pessoa do Mediador, quando é uma afirmação absoluta, que não compara o Filho com o Pai.

E sabemos do reconhecido costume dos gregos que os apóstolos empregaram, geralmente, o termo [Kyrios (Κύριος) – Senhor] no lugar de Jeová. E para que não se tenha de buscar exemplo distante, Paulo orou ao Senhor em sentido não diferente daquele em que é citada por Pedro a passagem de Joel: “Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” [At 2.21; Jl 2.32]. Onde este designativo é atribuído de modo particular ao Filho, se verá no devido lugar que a razão é outra. Por ora é bastante ter-se em conta que, rogando Paulo a Deus em sentido absoluto, imediatamente adiciona o nome de Cristo.

Assim também Deus é, em acepção total, pelo próprio Cristo, designado de Espírito [Jo 4.24]. Pois nada se opõe que toda a essência de Deus, em que se compreendem o Pai, o Filho e o Espírito, seja espiritual, o que, aliás, se faz evidente da Escritura, porquanto, como ouvimos que Deus é aí chamado de Espírito, assim também ouvimos que o Espírito Santo, que é hipóstase de toda a essência, se diz não só ser o Espírito de Deus, mas ainda que procede de Deus.
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Fonte: As Institutas. Volume I, capítulo XIII
Por: João Calvino
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