segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Simonton e seus companheiros

Rev. Ashbel Green Simonton

(Estudo publicado no Brasil Presbiteriano em comemoração ao 139º aniversário da Igreja Presbiteriana do Brasil – agosto de 1998)

Exaltamos, com justiça, a figura do apóstolo Paulo como o grande missionário e plantador de igrejas do primeiro século. Todavia, com freqüência nos esquecemos que o apóstolo dos gentios pouco poderia ter feito sem o auxílio de colaboradores fiéis. Entre tais auxiliares havia figuras conhecidas como Barnabé, Silas, Timóteo, Marcos, Lucas, Priscila e Áqüila, Febe e também muitos cristãos anônimos cujos nomes não chegaram até nós. Foram essas pessoas que apoiaram o apóstolo e lhe proporcionaram o suporte financeiro, logístico e espiritual que o capacitou a fazer um trabalho tão eficiente, em tantas regiões do Império Romano.

O mesmo se pode dizer do pioneiro presbiteriano no Brasil, o Rev. Ashbel Green Simonton, cuja data de chegada ao nosso país – 12 de agosto de 1859 – é comemorada como o aniversário da Igreja Presbiteriana do Brasil. A propósito, o próprio Simonton talvez preferisse comemorar a data de 12 de janeiro de 1862, quando foi organizada a primeira comunidade presbiteriana no Brasil, a Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro. Em seu Diário, Simonton registrou: "...

Pois bem, à semelhança de Paulo, Simonton somente teve êxito em suas iniciativas missionárias no Brasil, em meio a condições bastante adversas, em primeiro lugar graças ao sustento e direção providente de Deus e, em segundo lugar, em virtude do apoio recebido de muitos amigos leais, estrangeiros e brasileiros. Entre esses amigos estavam outros missionários norte-americanos e os primeiros crentes presbiterianos nacionais.

Um grande colaborador por vários anos foi o Rev. Alexander Latimer Blackford, casado com a irmã de Simonton, Elizabeth (Lille). Após uma longa e perigosa viagem de navio, o casal Blackford chegou ao Rio de Janeiro em julho de 1860, menos de um ano após a chegada do pioneiro. Apesar de algumas divergências quanto ao melhor local para a sede da missão – Blackford preferia São Paulo; Simonton, o Rio –, este teve em Blackford um grande ajudador, que, entre outras coisas, o substituiu na Igreja do Rio durante uma prolongada viagem de Simonton aos Estados Unidos (março de 1862 a julho de 1863). Em outubro de 1863, Blackford e Lille mudaram-se para São Paulo a fim de fundar o trabalho presbiteriano naquela cidade (a igreja foi organizada em 5 de março de 1865). Blackford haveria de dedicar quarenta anos de sua vida à obra missionária no Brasil, tendo falecido em 1890. 

Elizabeth Simonton Blackford teve a honra de ser a primeira missionária presbiteriana a chegar ao Brasil e foi grande ajudadora do seu marido e do seu irmão. Aprendeu a amar profundamento o povo brasileiro, a quem chamava de "meu povo." Foi na lar amigo e acolhedor dos Blackford em São Paulo, na antiga R. Nova de São José, n° 1 (junto ao Largo de São Bento), que Simonton faleceu em 9 de dezembro de 1867, encerrando o seu curto e abençoado ministério no Brasil. Hoje, quem visita o Cemitério dos Protestantes naquela cidade vê lado a lado os túmulos de Simonton e de sua irmã, a consagrada Elizabeth, falecida em 18...

Outra colaboradora especialmente preciosa para Simonton, ainda que por um período mui breve, foi sua esposa Helen Murdoch Simonton, que ele desposou nos Estados Unidos em março de 1863 e veio a falecer no final de junho de 1864, menos de um ano após haver chegado ao Brasil. Simonton relata de modo tocante em seu Diário as alegrias da sua breve vida conjugal e a dor sentida com a morte de Helen, apenas nove dias após o nascimento de sua filhinha. A contribuição dessas valorosas mulheres pioneiras – esposas de missionários, esposas de pastores nacionais e educadoras – é uma página da história do presbiterianismo pátrio que ainda está por ser escrita.

Outros dois missionários que muito auxiliaram Simonton e deram importante contribuição para a implantação da Igreja Presbiteriana no Brasil foram os Revs. Francis Joseph Christopher Schneider e George Whitehill Chamberlain. Schneider, um alemão que emigrou para os Estados Unidos e lá estudou teologia, chegou ao Rio de Janeiro em dezembro de 1861 e no mês seguinte participou do culto em que Simonton recebeu os primeiros membros e organizou a igreja-mãe do presbiterianismo nacional. Schneider teve o privilégio de ser o primeiro obreiro presbiteriano a residir e trabalhar na então Província de São Paulo (entre os imigrantes alemães de Rio Claro) e mais tarde auxiliou Simonton lecionando no "seminário primitivo."

Chamberlain chegou ao Brasil ainda como um leigo em julho de 1862. Depois de uma passagem por São Paulo e pelo Rio Grande do Sul, voltou ao Rio em maio de 1864, atendendo a um apelo de Simonton para que fosse ajudá-lo. Fez companhia a Simonton nos dias amargos que se seguiram à morte de Helen. Em julho de 1866, na segunda reunião do Presbitério do Rio de Janeiro, Chamberlain, que já se destacava como um grande evangelista, foi ordenado e enviado aos Estados Unidos para estudar teologia em Princeton. Retornou ao Brasil no final de 1868, já casado com Mary Ann Annesley, e no ano seguinte iniciou seu longo e frutífero pastorado junto à Igreja Presbiteriana de São Paulo. Em 1870, o casal fundou a modesta Escola Americana, marco inicial do que é hoje a Universidade Mackenzie. Após quarenta anos dedicados à evangelização do Brasil, Chamberlain faleceu na Bahia em 1902.

Simonton também contou com o apoio valioso e decisivo de elementos "nacionais" (brasileiros e portugueses). Um dos primeiros foi Antonio dos Santos Neves, um funcionário do Ministério da Guerra, taquígrafo do Senado e poeta. Santos Neves foi recebido por profissão de fé pelo Rev. Blackford quando Simonton estava nos Estados Unidos. Entre outras contribuições, ele foi autor de muitos hinos e um dedicado colaborador de Simonton no jornal Imprensa Evangélica.

Outros personagens que merecem destaque foram os três únicos estudantes que Simonton teve no seminário que criou no Rio de Janeiro em maio de 1867: Modesto Perestrello de Barros Carvalhosa, Antonio Bandeira Trajano e Miguel Gonçalves Torres, todos eles nascidos em Portugal e membros da novel Igreja Presbiteriana de São Paulo (o quarto estudante, Antonio Pedro de Cerqueira Leite, só ingressou no seminário após a morte de Simonton). Os três discípulos do pioneiro foram denodados ministros presbiterianos, o primeiro em São Paulo e no Paraná, o segundo no Rio de Janeiro e o terceiro em Caldas, Minas Gerais.

Finalmente, não se pode falar do ministério de Simonton e dos primórdios da Igreja Presbiteriana do Brasil sem mencionar o Rev. José Manoel da Conceição, o primeiro pastor evangélico brasileiro. Instruído na fé bíblica e reformada pelo Rev. Alexander L. Blackford, o ex-padre Conceição professou a fé e foi batizado na Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro em 23 de outubro de 1864. No mesmo mês, quando veio a lume o primeiro jornal evangélico do Brasil, a Imprensa Evangélica, Conceição tornou-se um dos seus redatores. Um ano mais tarde, quando da organização do Presbitério do Rio de Janeiro (16 de dezembro de 1865), Conceição foi ordenado ministro presbiteriano, tendo Simonton proferido a parênese inspirado em 2 Coríntios 5.20. A partir de então, Conceição passou a fazer as suas célebres viagens missionárias, que tornaram-se em sementeiras de muitas igrejas.

Ao comemorarmos o 139° aniversário da chegada de Simonton, é bom lembrarmos que a obra de Deus é mais agradável e eficaz quando feita em parceria com os irmãos e irmãs de caminhada cristã. Que o mesmo espírito de companheirismo e solidariedade possa caracterizar os nossos esforços em prol do reino de Deus neste limiar do terceiro milênio.
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Por Alderi Souza de Matos
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