segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Tempo, História e Escatologia

“[O tempo é] como vestígio da eternidade” – Agostinho.1 
“E Que assunto mais familiar e mais batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos, compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam. O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei” – Agostinho.2 
“Ai de mim, que nem ao menos sei o que ignoro!” – Agostinho.3
Introdução

A concepção cristã de tempo, mesmo com as suas variações, influenciou diretamente todo o mundo Ocidental. A compreensão de que o tempo tem um início, meio e fim era totalmente estranha às culturas pagãs. A questão da história e do tempo é fundamental para o Cristianismo pela sua própria constituição.

O Cristianismo é uma religião de história. Ele não se ampara em lendas, antes, em fatos os quais devem ser testemunhados, visto que têm uma relação direta com a vida dos que creem. O Cristianismo é uma religião de fatos, palavra e vida. Os fatos, corretamente compreendidos, têm uma relação direta com a nossa vida. A fé cristã fundamenta-se no próprio Cristo: O Deus-Homem. Sem o Cristo Histórico não haveria Cristianismo. A sua força e singularidade estão neste fato, melhor dizendo: na pessoa de Cristo, não simplesmente nos seus ensinamentos. O Cristianismo é o próprio Cristo. A encarnação é toda e inclusivamente missionária: o Verbo fez-se carne e habitou entre nós (Jo 1.14).

Jesus Cristo é o clímax da Revelação; é a Palavra Final de Deus. Nele temos não uma metáfora ou um sinal, antes, temos o próprio Deus que Se fez homem na história.

1. Tempo e Escatologia em Agostinho

Curiosamente, um dos sérios problemas da filosofia é a questão do tempo. Agostinho (354-430) ? “o grande mestre da Idade Média cristã”4 ?, soube como ninguém retratar este problema. Para Agostinho Deus é o eterno presente – na eternidade nada passa5 – que antecede o tempo por Ele criado: “Precedeis, porém, todo o passado, alteando-Vos sobre ele com a vossa eternidade sempre presente (Sl 102.27)”.6 Em outro lugar:“Os anos de Deus não são uma coisa e Deus mesmo outra; mas os anos de Deus são a eternidade de Deus; eternidade de Deus é a sua substância. Nada tem de mutável, nada de pretérito, como se já não fosse, nada de futuro como ainda não sendo. Ali só se encontra: É; não há: Foi e será, porque o que foi já não é, e o que será ainda não é, mas tudo que existe ali, apenas é”.7 Por isso, na eternidade, Deus nada fazia, visto que se Ele fizesse, seria criatura dEle: “Não temo afirmar que antes de criardes o céu e a terra não fazíeis coisa alguma. Pois, se tivésseis feito alguma coisa, que poderia ser senão criatura vossa?”.8

O tempo só pode ser avaliado a partir de sua finitude, olhando o seu passado ou desejando o seu futuro; o presente “para ser tempo, tem necessariamente de passar para o pretérito....”.9 No entanto, não podemos falar do “tempo passado” como “longo” ou “breve”, já que ele passou à condição de não-ser, não podendo mais ser caracterizado por estes acidentes. “Todos os dias do tempo vêm para não existirem mais. Toda hora, todo mês, todo ano: nada disso permanece. Antes de vir, será; quando vier, não será mais”.10 Como então nos referir a ele? “Não digamos pois: ‘o tempo passado foi longo’, porque não encontraremos aquilo que tivesse podido ser longo, visto que já não existe desde o instante que passou. Digamos antes: ‘aquele tempo presente foi longo’, porque só enquanto foi presente é que foi longo. (...) Onde existe portanto o tempo que podemos chamar longo? Será o futuro? Mas deste tempo não dizemos que é longo, porque ainda não existe. Dizemos: ‘será longo’. E quando será? Se esse tempo ainda agora está para vir, nem então será longo, porque ainda não existe nele aquilo que seja capaz de ser longo. Suponhamos que, ao menos, no futuro será longo. Mas só o poderá começar a ser no instante em que ele nasce desse futuro – que ainda não existe – e se torna tempo presente, porque só então possui capacidade de ser longo. Mas com as palavras que acima deixamos transcritas o tempo presente clama que não pode ser longo”.11 “A brevidade dos dias estende-se até o fim dos séculos. Brevidade porque a totalidade do tempo, não digo de hoje até o fim dos séculos, mas de Adão até o fim dos séculos, é uma exígua gota d’água, se comparada à eternidade”.12

Que fazer então, com a lembrança e com a esperança? Bem, Agostinho cria três formas de presente; diria que a lembrança é o presente das coisas passadas; o sonho é o presente das coisas futuras e o que vejo, aspiro, toco, provo e ouço, é o presente do presente.13

2. Tempo e sociedade medieval

A. Tempo e mobilidade geográfica e social

Dentro dos moldes de hoje, podemos dizer que na Idade Média havia uma sociedade estática, sem grande mobilidade social; onde as transformações eram lentas nos diversos setores da vida cultural, social, econômica e política. As maiores mudanças, ironicamente, eram causadas “por guerras, pragas e crises econômicas”.14 Cada pessoa estava de certa forma presa a um papel na ordem social,sem que houvesse perspectivas de mudança. A ingerência do “Estado” era enorme na vida privada, havendo leis contra todos os “males” imagináveis.Ao mesmo tempo, havia uma unidade cultural das elites, reconstruída pela Igreja por intermédio do latim, língua falada por toda a classe culta - língua que se tornou em “instrumento de comunicação culta - e pela leitura dos mesmos poucos livros controlados pelo clero –, que permitia haver um modo de viver semelhante entre as classes iguais nos lugares mais diversificados da Europa,que permeou o período de 800 até 1400. Todavia, esta "estabilidade" seria "desestabilizada" gradativamente, especialmente a partir do século XIII; quando surge lenta, mas sistematicamente, uma nova classe social, que não pode ser enquadrada dentro do mundo hermético medieval.

Nesta sociedade predominantemente agrícola, o poder e prestígio estavam associados à terra e, logicamente aos seus frutos. Dentro desta perspectiva, um homem tinha pouquíssimas chances de ascender socialmente, dificilmente podia mudar geograficamente de uma cidade ou de um país para outro. Aliás, as cidades medievais definidas por suas muralhas conferiam neste espaço fechado o senso fundamental de segurança para os seus habitantes mas, também, proporcionavam uma grande promiscuidade intelectual. Com poucas exceções, os servos deveriam permanecer onde nasciam. Amiúde, até mesmo para não parecer diferente dos outros, os homens não se sentiam livres para usarem as roupas que quisessem ou mesmo, para comer o que gostassem.

B. Tempo de fome e mobilidade social

Já no final do Século XIII, torna-se evidente a insatisfação com este estado de coisas, surgindo de modo mais frequente, movimentos em prol de uma maior liberdade encontrando o seu apogeu no século XIV. Também, como decorrência destas insatisfações sociais, houve um êxodo rural cada vez mais intenso. Isto ocasionou uma falta de mão de obra rural, gerando um aumento dos salários e, consequentemente, dos custos de produção. Tudo isso foi agravado pela “Fome Europeia de 1315-1317”, quando muitos morreram de fome e os ciclos da Peste Negra com suas manifestações diferentes (1338-1339; 1347-1351, 1360-1361, 1370-1376), que dizimou grande parte da população de toda Europa chegando a matar 30 a 40% da população de determinadas regiões, havendo indícios da taxa de mortandade entre de 10 e 50% da população em diversas cidades, sendo registrado o trágico recorde em Mântua (Itália): 77% (1630).

Retornando ao nosso ponto, observamos que nos ideais de maior autonomia houve também exageros, como por exemplo, a revolta campesina na França.A pregação de John Ball (†c. 1381), o “Profeta do povo”, – enfatizando o princípio da igualdade social –, a de John Wycliff (c. 1330-1384) - a “Estrela d’Alva da Reforma” - e John Huss (c. 1369-1415) contribuíram de forma direta ou indireta, para a revolta dos camponeses da Inglaterra em 1381 e outros movimentos semelhantes. No século XIV, o inglês William Langland (c. 1332-c. 1400), "o poeta dos camponeses livres", escreveu "Piers the Plowman" ("Pedro, o Lavrador"), que se constitui num documento precioso para a compreensão da história social do seu tempo. Nesses poemas, Langland descreve as condições dos pobres, a corrupção e os abusos do clero, bem como expressa a esperança dos camponeses de melhores condições devida. A igreja, no entanto, era a mais severa dominadora, se opondo ao movimento cada vez mais forte de libertação dos servos.

Todavia, com a diminuição da população, há uma inversão significativa: não adianta possuir terras se não há pessoas para cultivá-las. Logo, o trabalho do homem passou a ser mais valorizado do que antes das catástrofes descritas, resultando no aumento dos salários dos trabalhadores em geral.

Estes foram tempos difíceis, como são todos os tempos para aqueles que enfrentam as angústias próprias de sua época, que por vezes, são minimizadas ou romantizadas por olhares de outros tempos e continentes. O que contribui decisivamente para vencer tais circunstâncias, é a nossa fé, a visão de história e, no caso cristão, da certeza do governo de Deus sobre todas as coisas. O tempo passa, por maiores que sejam as alegrias ou angústias.

Considerações Finais: Tempo e escatologia e a vivência de nossa fé

Gilson (1884-1978) ressaltando a importância de Agostinho, afirma que após ele, “A Idade Média passou a representar a história do mundo como um belo poema, cujo sentido é para nós inteligível e completo, contanto que conheçamos seu início e seu fim”.15

De fato, a perspectiva de Agostinho adquire um tom escatológico: “.... pois nada parece mais rápido do que tudo aquilo que já passou. Quando vier o dia do juízo, então os pecadores perceberão não ser longa a vida que passa”.16

Deste modo, o tempo é o grande sinal de finitude e de mediatez. Assim, Idade Média são todos os tempos já que o tempo sempre será médio entre o antes e o depois ou, entre o tempo anterior e a eternidade, quando o tempo se extinguirá. “Na eternidade não há passado, como se algo ainda não existisse, mas apenas no presente, porque aquilo que é eterno existe sempre”.17

A História revela Deus e Seus propósitos (Rm 8.28-30; 13.12; At 1.6,7). Entendemos a escatologia como uma consumação “natural” do plano de Deus na sua historificação temporal. A Escatologia é precedida de uma história realizada; e a história aponta para uma escatologia decisiva. Desta forma, olhando pelo prisma da escatologia, podemos dizer que a história é escatológica, visto que para lá ela caminha de forma progressiva e realizante: A história consumar-se-á na não história, no atemporal e eterno. Por outro lado, a escatologia confere sentido à história; a fé da Igreja respalda-se num fato histórico e nutre-se da esperança que emana da promessa de Deus: "A esperança (...) [é] o alimento e força da fé”.18 E, quanto ao tempo, Calvino (1509-1564), que viveu ativamente um período de grande transformação na história medieval, valendo-se com reconhecimento das contribuições de Agostinho, afirmou com propriedade bíblica: “Os tempos estão nas mãos e à disposição de Deus, de modo que devemos crer que tudo é feito na ordem prefixada e no tempo predeterminado”.19

Hoje não é diferente: Deus continua dirigindo a história; Ele é o Senhor da eternidade, do tempo, da história e das circunstâncias. Caminhamos para a eternidade de onde procede a nossa criação e a meta de nossa existência. Deus nos guiará em segurança. Descansemos nEle. Amém.
______________________
Maringá, 2 de agosto de 2013. Rev.
Hermisten Maia Pereira da Costa
Integra a Equipe da pastores da Primeira Igreja
Presbiteriana do Brasil em São Bernardo do Campo, SP.

1 - Santo Agostinho, Comentário ao Gênesis, São Paulo: Paulus, 2005 (Coleção Patrística; 21), XIII.38. p. 625.
2 - Agostinho, Confissões, São Paulo: Abril Cultural (Os Pensadores, Vol. VI), 1973, XI.14.17. p. 244.
3 - Agostinho, Confissões, XI.25.32. p. 251.
4 - Jacques Le Goff, Tempo: In: Jacques Le Goff; Jean-Claude Schmitt, coords. Dicionário Temático do Ocidente Medieval,Bauru,SP/São Paulo: Editora da Universidade Sagrado Coração/Imprensa Oficial do Estado, 2002, Vol. 2, p. 531.
5 - Agostinho, Confissões, XI.11.13. p. 242. Ele insiste neste ponto:“Quanto ao presente, se fosse sempre presente, e não passasse para o pretérito, já não seria tempo, mas eternidade” (Agostinho,Confissões, XI.14.17. p. 244). Em outro lugar: “O que tem fim não é duradouro e todos os séculos termináveis, em comparação com a eternidade interminável, são, não direi pequenos, mas nada” (Santo Agostinho, A Cidade de Deus, 2. ed. Petrópolis, RJ./São Paulo: Vozes/Federação Agostiniana Brasileira, 1990, (Parte II), XII.12. p. 74).
6 - Agostinho, Confissões, XI.13.16. p. 243. 
7 - Agostinho, Comentário aos Salmos, São Paulo: Paulus, (Patrística, 9/3), 1998, (Sl 101), Vol. III, p. 37.
8 - Agostinho, Confissões, XI.12.14. p. 242.
9 - Agostinho, Confissões, XI.14.17. p. 244.
10 - Agostinho, Comentário aos Salmos, Vol. III, (Sl 101), p. 37.
11 - Agostinho, Confissões, XI.15.18 e XI.15.20. p. 244 e 245. Adiante acrescenta: “O futuro longo é apenas a longa expectação do futuro. Nem é longo o tempo passado porque não existe, mas o pretérito longo outra coisa não é senão a longa lembrança do passado”(Agostinho, Confissões, XI.28.37. p. 255).
12 - Agostinho, Comentário aos Salmos, Vol. III, (Sl 101), p. 36.
13 - Vejam-se: Agostinho, Confissões, XI.20.26. p. 248.
14 - Robert G. Clouse; Richard V. Pierard; Edwin M. Yamauchi, Dois Reinos – A Igreja e a Cultura interagindo ao longo dos séculos, São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 207.
15 - Étienne Gilson, O Espírito da Filosofia Medieval, São Paulo: Martins Fontes, 2006, p. 481.
16 - Agostinho, Comentário aos Salmos, São Paulo: Paulinas, 1997, (Patrística, 9/1), Vol. 1, (Sl 13), p. 70.
17 - Agostinho, Comentário aos Salmos, Vol. 1, (Sl 2.7), p. 27.
18 - J. Calvino, As Institutas ou Tratado da Religião Cristã,Campinas, SP./São Paulo: Luz para o Caminho e Casa Editora Presbiteriana, 1989, Vol. 3, III.2.43.
19 - João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (Tt 1.3), p. 303.

Fonte: Revista Fé Para Hoje N.40 (Artigo 7)
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