quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

A Doutrina da Trindade [22/29]


NAS ESCRITURAS, DESDE A PRÓPRIA CRIAÇÃO, SE ENSINA UMA ESSÊNCIA ÚNICA DE DEUS, QUE EM SI CONTÉM TRÊS PESSOAS

22. A obstinação dos antitrinitarianos, especialmente Serveto

Tecer um catálogo dos erros com os quais a integridade da fé foi outrora posta em xeque em relação a este capítulo da doutrina, seria excessivamente longo totalmente inútil e tedioso. E a maior parte dos hereges intentou de tal modo sair acampo no afã de subverter toda a glória de Deus mediante seus crassos desvarios, que se deram por satisfeitos com alarmar e lançar em confusão os menos esclarecidos.

De fato, de uns poucos homens logo borbulharam muitas seitas, as quais, em parte, fragmentariam a essência de Deus; em parte, confundiriam a distinção que há entre as pessoas. Entretanto, se mantemos o que foi antes suficientemente demonstrado da Escritura: que a essência do Deus uno e único é simples e indivisa, essência, porém, que pertence ao Pai, e ao Filho, e ao Espírito, por outro lado, que por determinada propriedade o Pai difere do Filho, e o Filho difere do Espírito, estará fechada a porta não apenas a Ário e a Sabélio, mas também aos demais vetustos geradores de erros.

Entretanto, visto que têm surgido em nosso tempo certos desvairados, como Serveto e outros como ele, que a tudo envolveram de novéis fantasias, faz-se necessário, em poucas palavras, discutir suas falácias. A Serveto, o termo Trindade foi a tal ponto odioso, pior, abominável, que dizia serem ateus todos quantos ele denominava de trinitários. Deixo de considerar os termos insultuosos que inventou para invectivá-los. Esta, com efeito, foi sua síntese das especulações: Deus fica dividido em três partes quando se diz que ele subsiste em três pessoas na essência, e que esta Tríade é imaginária, porquanto se põe em conflito com a unidade de Deus. Enquanto isto, ele foi de parecer que as chamadas pessoas são apenas certas figurações externas que, na realidade, não subsistem na essência de Deus, mas nos representam Deus desta ou daquela forma, e que, de início, certamente nada havia de distinto em Deus, uma vez que outrora o Verbo era o mesmo que o Espírito. Contudo, desde que Cristo surgiu, como Deus procedente de Deus, também dele derivou o Espírito como outro Deus. Mas, embora às vezes ele matize suas fúnebres canções, como quando diz que a eterna Palavra de Deus era o Espírito de Cristo em Deus e a efulgência de sua ideia, de igual modo que o Espírito era a sombra da Deidade, entretanto em seguida reduz a nada a deidade de um e de outro, asseverando que, segundo a maneira da dispensação, tanto no Filho quanto no Espírito, há uma parte de Deus, assim como o mesmo Espírito, substancialmente em nós e também na madeira e na pedra, é uma porção de Deus. O que ele vocifera sobre a pessoa do Mediador, examinaremos no devido lugar.

Mas, esta monstruosa fantasmagoria, de que pessoa outra coisa não é senão a manifestação visível da glória de Deus, não necessita de refutação extensa. Pois quando João [1.1] declara que já antes de o mundo ser criado o λόγος [Logos – Verbo; Palavra] era Deus, mui claramente o distingue de uma simples ideia. Na verdade, se também então, e desde a extrema eternidade, esse λόγος [Logos, que era Deus, esteve com o Pai, e sua própria glória foi insigne com o Pai [Jo 17.5], por certo que não pode ser mera refulgência externa ou figurativa. Ao contrário, segue- se necessariamente que era uma hipóstase que residia no âmago do próprio Deus.

E ainda que não se faça menção do Espírito, senão na história da criação do mundo, contudo ali ele não se apresenta como uma sombra, mas antes como o poder essencial de Deus, uma vez que Moisés registra que aquela massa ainda informe era sustentada por ele [Gn 1.2]. Portanto, visto que o Espírito eterno sempre existiu em Deus, então ele se manifestou enquanto, vivificando-a, susteve ele a matéria caótica do céu e da terra até que fossem revestidos com beleza e ordem. Evidentemente, ainda não pode haver então um emblema ou representação de Deus, como sonha Serveto. Em outro lugar, porém, ele se vê obrigado a desnudar mais abertamente sua impiedade, quando sustenta que Deus decretou para si um Filho visível em sua eterna razão, desse modo ele se manifestou visível. Ora, se isso é verdadeiro, não se deixa a Cristo outra divindade exceto até onde, pelo eterno decreto de Deus, foi ele constituído Filho. Acrescenta-se que essas fantasmagorias que Serveto supõe em lugar das hipóstases, de tal modo ele as transforma, que não vacila em anexar a Deus novos acidentes.

Mais do que tudo, porém, deve-se especialmente execrar isto: que ele indiscriminadamente mistura com todas as criaturas tanto o Filho de Deus quanto o Espírito. Ora, afirma abertamente que na essência de Deus há partes e divisões, das quais cada porção é Deus. De modo especial, porém, diz que os espíritos dos fiéis são coeternos e consubstanciais com Deus, visto que, em outro lugar, atribui deidade substancial não apenas à alma humana, mas ainda às demais coisas criadas.
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Por: João Calvino
Fonte: As Institutas. Volume I, capítulo XIII
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