sábado, 3 de janeiro de 2015

A Fé Cristã por Theodore Beza (1519-1605)


Cremos no Espírito Santo; Ele é o poder essencial do Pai e do Filho (Gn 1:2). Ele habita nEles e é coeterno e consubstancial com Eles; Ele procede dEles (Jo 14:16,26; 16:7-15). Ele é um Deus com Eles (Rm 8:9-11; At 5:3-4; 1 Co 12:4-8; 3:16) e é uma Pessoa distinta do Pai e do Filho (Mt 28:19). Isto é o que a Igreja tem bem firmado, pela Palavra de Deus, opondo-se a Macedonius (que viveu no quarto século, e negou a divindade do Espírito Santo. Sua heresia foi condenada no Concílio de Constantinopla em 381 AD) e outros hereges semelhantes. Seu infinito poder é demonstrado na criação e preservação de todas as criaturas, desde o começo do mundo (Gn 1:2; Sl 104:29,30). Mas neste tratado, consideraremos especialmente os efeitos que Ele produz nos filhos de Deus; como, juntamente com a fé, Ele os conduz às graças de Deus para torná-los conscientes da eficácia e poder delas (Rm 8:12-17; 1 Co 2:11,12; 1 Jo 4:13); resumindo, como Ele os conduz, mais e mais, ao fim e propósito para os quais eles foram predestinados antes da fundação do mundo (Ef 1:3-4).

Somente pela fé, o Espírito Santo nos torna participantes de Jesus Cristo

O Espírito Santo, portanto, é Aquele através de quem o Pai estabelece e mantêm Seus elei-tos na posse de Jesus Cristo, Seu Filho e, conseqüentemente, de todas as graças necessárias à salvação deles. Mas é necessário, em primeiro lugar, que o Espírito Santo nos torne propícios e prontos a receber Jesus Cristo. Isto é o que Ele faz criando em nós, por meio de Sua pura bondade e divina misericórdia, aquilo que chamamos ‘fé’ (Ef 1:17; Fp 1:29), o único instrumento pelo qual tomamos posse de Jesus Cristo quando Ele é ofertado a nós, o único recipiente para recebê-Lo (Jo 3:1-13, 33-36).

Os meios que o Espírito Santo usa para produzir e preservar nossa fé

Objetivando criar em nós este instrumento de fé, e também para nutrir e fortalecê-lo mais e mais, o Espírito Santo usa dois meios ordinários (...): a pregação da Palavra de Deus e Seus sacramentos (Mt 29:19-20; At 6:4; Rm 10:17; Tg 1:18; 1 Pe 1:23-25). Mais adiante re-tornaremos a este assunto; em primeiro lugar definiremos o que esta tão preciosa fé é e quais são seus efeitos e poderes.

O que é fé e em que sentido ela é necessária

Somos daí tão inimigos de nossa própria salvação, por causa da nossa corrupção natural (Rm 8:7; 1 Co 2:14), que se Deus tivesse Se contentado meramente em nos comunicar que acharíamos nossa salvação em Jesus Cristo, somente zombaríamos disto; assim tem o mundo sempre feito e assim fará até o fim (1 Co 1:23-25; Jo. 10:20; At. 2:13; Lc 23:35). Mais ainda, se Ele também nada mais acrescentasse além do que nos comunicar que os meios pelos quais experimentamos a eficácia deste remédio contra morte eterna é crer em Jesus Cristo, isto de nada nos aproveitaria (Jo 3: 5-6). Pois, nestas coisas, somos mais do que mudos (Sl. 51:15; Is. 6:5; Jr 1:6), surdos (Sl 40:6; Jo 8:47; Mt. 13:13), e cegos pela corrupção de nossa natureza (Jo 1:5; 3:3; 9:41). Não seria possível para nós até mesmo desejar acreditar, mais do que seria para um homem morto, voar (Jo 12:38, 39; 6:44). É necessário, portanto, que com tudo isto, o bom Pai, que nos escolheu para Sua glória, viesse multiplicar Sua misericórdia para com Seus inimigos. Declarando para nós que Ele tem dado Seu único Filho de forma que todo aquele que se apossa dEle, pela fé, não pereça (Jo 3:16), Ele também cria em nós este instrumento de fé que Ele requer de nós. Assim sendo, a fé de que falamos não consiste somente em crer que Deus é Deus e que o conteúdo de Sua Palavra é verdadeiro - de fato, os demônios têm esta fé, e ela somente os faz tremer (Tg 2:19). Mas, chamamos de fé um certo conhecimento que, somente por Sua graça e bondade, o Espírito Santo grava, mais e mais, no coração dos eleitos de Deus (1 Co 2:6-8).

(...) Fé, eu digo, não somente crê que Jesus Cristo morreu e ressuscitou pelos pecadores, mas também recebe Jesus Cristo (Rm 8:16, 39; Hb 10:22, 23; 1 Jo 4:13; 5:19, etc). Todo aquele que verdadeiramente crê, confia somente nEle e está certo de sua salvação, ao ponto de não mais duvidar dela (Ef 3:12). Daí porque St. Bernardo disse, em conformidade com toda a Escritura, que: “Se você crê que seus pecados não podem ser encobertos, exceto por Aquele contra quem você tem pecado, você faz bem. Mas acrescente ainda um ponto: creia que seus pecados tem sido perdoados por Ele. Este é o testemunho que o Espírito Santo concede aos nossos corações, dizendo: ‘Seus pecados estão perdoados’”.

O objeto e poder da verdadeira fé

Visto que Jesus Cristo é o objeto da fé, assim como Ele nos é apresentado na Palavra de Deus, seguem-se daí dois pontos que deveriam ser bem considerados. De um lado, onde não há Palavra de Deus mas somente a palavra de homem, quem quer que seja, lá não há fé, mas somente uma fantasia ou uma opinião que não pode falhar em nos enganar (Rm 10:2-4; Mc 16:15; Rm 1:28; Gl 1:8-9). Por outro lado, a fé aceita e apropria Jesus Cristo e tudo que está nEle, visto que Ele nos foi entregue na condição de crermos nEle (Jo 17:20, 21; Rm 8:9). Daí seguem-se uma ou duas coisas: ou tudo que é necessário para nossa salvação não está em Jesus Cristo, ou se tudo está de fato lá, aquele que tem a Jesus Cristo pela fé, tem tudo. Ora, dizer que tudo que é necessário para nossa salvação não está em Jesus Cristo é uma horrível blasfêmia, pois isto somente faria dEle um Salvador parcial (Mt 1:21). Daí resta, portanto a outra parte: tendo Jesus Cristo, pela fé, temos nEle tudo que é requerido para nossa salvação (Rm 5:1). Isto é o que o apóstolo diz: “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus”(Rm 8:1)

Como devemos entender “Somos justificados pela fé somente”. 

Aqui está a explicação de nossa justificação pela fé somente: a fé é o instrumento que recebe Jesus Cristo e, consequentemente, recebe Sua justiça, o que significa, toda a perfeição. Quando, portanto, acompanhando o Apóstolo Paulo (Rm 1:17; 3:21-27; 4:3; 5:1; 9:30-33; 11:6; Gl. 2:16-21; 3:9, 10,18; Fp 3:9, 2 Tm 1:9; Tt 3:5; Hb 11:7), dizemos que somos justificados pela fé somente, não queremos dizer que a fé é um mérito nosso que nos faz justos diante de Deus, pois isto seria colocar a fé no lugar de Jesus Cristo que é nossa per-feita e completa justiça. Porém, dizemos juntamente com o apóstolo, que somente pela fé somos justificados, à medida que ela aceita Aquele que nos justifica, Jesus Cristo, a quem nos une e ajunta. Nós somos, então, feitos participantes dEle e dos benefícios que Ele pos-sui. Estes, nos sendo imputados e doados, são mais do que suficientes para nos tornar ino-centes e justos diante de Deus.

Ter certeza da salvação através da fé em Jesus Cristo não é, de forma alguma, arrogância ou presunção. 

Está estabelecido que estar certo da salvação através da fé, não é nem presunção, nem arrogância, mas, pelo contrário, é o único meio de despojar alguém de todo orgulho, para dar toda glória a Deus (Rm 8:16,38; Ef 3:12; Hb 10:22,23; 1 Jo 4:13; 5:19; Rm 3:27; 4:20; 1 Co 4:4; 9:26,27). Porque somente a fé nos ensina a desistir de nós mesmos e nos compele a, sinceramente, reconhecer que em nós não há nada, exceto motivo para completa maldição. Assim ela nos manda para Jesus Cristo e nos ensina e assegura que encontraremos salvação diante de Deus somente através da Sua justiça. Verdadeiramente, tudo o que está em Jesus Cristo, ou seja, toda a justiça e perfeição (nEle não há pecado e mais ainda, Ele cumpriu toda a justiça da Lei), é colocado na nossa conta e doado a nós como se fosse nosso, desde que nós O aceitemos pela fé. Daí porque St. Bernardo disse: “O testemunho de nossa consciência é nossa glória: não o testemunho que a mente enganada, enganando seu dono, fornece de si mesma para a vanglória farisaica (Lc 18:11,12); este testemunho não é verdadeiro. Mas o testemunho dado pelo Espírito Santo ao nosso espírito é verdadeiro”.

A fé encontra em Jesus Cristo tudo o que é necessário para salvação

Este tópico requer uma exposição detalhada para que saibamos se, através da fé, nos apos-samos do remédio suficiente para nos assegurar, completamente, a vida eterna, de acordo com a passagem bíblica “O justo viverá pela fé” (Hc 2:4; Rm 1:16,17; Gl 3:11). Dizemos, portanto, que tudo que obstrui a comunhão do homem com Deus, que é perfeitamente justo e bom, repousa em três aspectos. Porém, a vista de cada um deles, encontramos o remédio, não em nós mesmos, mas em Jesus Cristo e em tudo que Ele tem, desde que estejamos unidos a Ele comungando de todos os benefícios (Jo 17:9-11, 20-26). Este é o motivo pelo qual a Igreja, ou seja, a assembléia dos crentes, é chamada de esposa de Jesus Cristo, seu marido (Rm 7:2-6; 8:35; 2 Co 11:2; Ef 5:31,32); é para, mais claramente, mostrar a grandeza da união e comunhão existente entre Jesus Cristo e aqueles que, pela fé, se confiam a Ele. Pois, em virtude desta união e casamento espiritual pela fé, Ele toma toda nossa miséria sobre si e nós recebemos dEle todos os Seus tesouros, pela Sua pura bondade e misericórdia. Isto é o que veremos agora.

O meio que a fé encontra somente em Jesus Cristo contra o primeiro assalto da primeira tentação: “A multidão de nossos pecados”. A segurança que podemos ter sobre este ponto concernente aos santos ou a nós mesmos.

Em primeiro lugar, Satanás e nossa consciência, para demonstrar que somos verdadeira-mente indignos de sermos salvos e bastante dignos de perecer, coloca, em primeiro plano, a natureza de Deus, perfeitamente justo e grande inimigo e vingador de toda a iniquidade. É verdade que estamos cobertos com pecados mil, portanto, segue-se a esta conclusão, que nada mais há para nós fazermos do que esperar pelo salário do pecado, ou seja, morte eterna (Rm 6:23). O que os homens poderiam argumentar contra esta conclusão de Satanás e de suas consciências? Certamente, nada que pudesse ajudar, a menos que seja o que temos tratado. Pois se recorressem à misericórdia de Deus, esquecendo Sua justiça, eles estariam se enganando. (...) Se desejarmos, então, no intuito de cobrir nossos pecados, suplicar pelos méritos dos santos:

1) Fazemo-lhes uma grande ofensa; pois Davi escreve “Não entres em juízo com o Teu servo” (Sl 143:2) e, em outra passagem, ele confessa que suas obras não podem ascender a Deus (Sl 16:2). E o que o apóstolo Paulo diz sobre Abraão, esta santa pessoa e pai da fé? “Porque se Abraão foi justificado por obras, tem de que se gloriar, porém não diante de Deus. pois que diz a Escritura? Abraão creu e isso lhe foi imputado para justiça” (Rm 4:2-3). E com relação a si mesmo? “Porque de nada me argui a consciência; contudo, nem por isso me dou por justificado” (1 Co 4:4). Como então podemos suplicar os méritos dos santos para pagar nossos pecados, se eles próprios recorreram à misericórdia de Deus somente, obtida por Jesus Cristo (Fp 3:8)?

2) Mais ainda, se os santos mereceram o paraíso por suas vidas santas (o que não pode ser, tendo em vista que eles próprios testificam o contrário), já não teriam recebido paga por seus méritos? Com que direito, portanto, suplicaríamos a eles, diante de Deus, uma vez mais?

3) Assim, dizer que eles têm tanto mérito que sobraria algum para nós, é chamar de mentira ao que eles deixaram escrito para nós. Mais ainda, não seria como dizer que eles não precisam da morte de Jesus Cristo, visto que eles possuem em si mesmos mais do que o suficiente?

4) Por fim, se eles têm excesso de méritos, como saberemos que eles são nossos? Porque achamos que sim, ou porque o adquirimos? Mas o apóstolo Pedro repreende Simão, o mágico, por esta falsa e maldita troca: “O teu dinheiro seja contigo para perdição, pois julgaste adquirir por meio dele o dom de Deus” (At 8:20).

Aí está como, crendo que honramos os santos, nós, na verdade, os desonramos tanto quanto
possível. Assim sendo, se as obras dos santos não têm nenhum mérito nesta esfera, o que encontraremos em nós, ou em qualquer outro ser vivente, que seja suficiente para nos fortalecer diante dos assaltos de Satanás? Mas, para restringir todas estas falsas imaginações, consideremos os seguintes pontos: Primeiro, não consideraríamos um homem destituído de sensatez por persuadir-se de estar livre de credores, sob o pretexto de ter imaginado que pagou tudo, ou que outra pessoa pagou por ele? Agimos assim em relação a Deus, quando não nos contentamos somente com a obra de Jesus Cristo. Pois, que fundamento tem todo o resto a não ser fantasia de homens, como se Deus devesse achar bom tudo que nos pareça bom. Mas, pelo contrário, ouçamos o que Jesus Cristo diz: “Em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens” (Mt 15:9). E, em outra passagem, “Quando vindes para comparecer perante mim, quem vos requereu o só pisardes os meus átrios?” (Is 1:12). Em segundo lugar, quando dizemos que descansamos unicamente na misericórdia de Deus, mas imaginamos que pagamos por isto, total ou parcialmente, isto não é desdenhar da Sua misericórdia? (Rm 4:4). Em terceiro lugar, não estar contente unicamente com o mérito de Jesus Cristo, mas desejar acrescentar outros ao dEle, não é como se disséssemos que Cristo não é Jesus, ou seja, nosso Salvador, mas somente em parte? (Gl 2:21) Em quarto lugar, não é como despir Deus de Sua perfeita justiça (Rm 3:26) e, consequentemente, de Sua divindade, ousando apresentar em oposição a Sua ira, as obras dos homens, contra as quais tanto poderia ser dito, não importando quão boas elas sejam (Lc 17:10)? Davi disse “Não entres em julgamento com o teu servo” (Sl 143:2).

Vamos, portanto, aprender a contestar de maneira diferente, o argumento de Satanás supra-citado: “Você diz, Satanás, que Deus é perfeitamente justo e vingador de toda a iniquidade; eu creio nisto. Mas eu acrescento outra propriedade de Sua justiça que você deixou de lado: visto que Ele é justo, Ele se satisfez em ter sido pago uma vez. Em seguida você diz que eu tenho uma multidão de iniquidades e que, portanto, mereço morte eterna; eu creio nisto. Mas acrescento o que você, maliciosamente, omitiu: as iniquidades que estão em mim, foram de forma cabal, vingadas e punidas em Jesus Cristo que suportou o julgamento de Deus em meu lugar (Rm 3:25, 1 Pe 2:24). Daí porque, eu chego a uma conclusão completamente diferente da sua. Desde que Deus é justo (Rm 3:26) e não requer duplo pagamento; desde que Jesus Cristo, Deus e homem (2 Co 5:19), satisfez por Sua infinita obediência (Rm 5:19; Fp 2:8), a infinita majestade de Deus (Rm 8:33), segue-se então, que minhas iniquidades não podem mais levar-me à ruína (Cl 2:14); elas já foram removidas da minha conta, pelo sangue de Jesus Cristo que foi feito maldição por mim (Gl 3:13), e sendo justo, morreu pelos injustos (1 Pe 2:24). Logo após, é certo que Satanás saberá bem colocar, diante de nossos olhos, nossas aflições e especialmente a morte (Rm 5:12). Ele alegará que elas são testemunhas que nos mostram que Deus não perdoou nossos pecados. Mas argumentaremos que: primeiro, embora toda aflição e morte tenham entrado no mundo pelo pecado, Deus nem sempre tem em vista os nossos pecados quando Ele nos aflige. Nós deduzimos isto da história de Jó e em outras passagens (Jo 9:3; 1 Pe 2:19; 3:14; Tg 1:2). Mas Ele tem vários propósitos que visam a Sua glória e o nosso benefício, como explicaremos mais tarde. Por outro lado, quando Deus aflige os Seus por seus pecados, mesmo quando Ele chega a fazê-los sentir as dores da morte (Jó 13:15), Ele não está irado contra eles, como um juiz, para condená-los, mas como um Pai que está disciplinando Seus filhos para livrá-los da destruição (2 Co 6:9; Hb 12:6; 2 Sm 7:14), ou para dar exemplo a outros (2 Sm 12:13,14).

O meio que a fé encontra unicamente em Jesus Cristo, contra a segunda investida da primeira tentação: “Somos destituídos de justiça a qual Deus justamente requer de nós”.

Esta é a segunda investida que Satanás pode levantar contra nós por conta de nosso mundanismo: Não é suficiente não ter pecados, ou ter satisfeito a justiça de Deus. Mas outra coisa é necessária: que o homem cumpra toda a Lei, ou seja, que ame a Deus perfeitamente e seu próximo como a si mesmo (Dt. 17:26; Gl 3:10-12; Mt 22:37-40). Trazendo à tona esta questão, Satanás diz a nossa pobre consciência: você sabe bem que não pode escapar da ira e maldição de Deus. Contra esta investida, o que todos os homens tem a seu favor, senão a Jesus Cristo? Pois esta é uma questão de perfeita obediência que nunca foi achada em ninguém, salvo em Jesus Cristo. Aprendamos aqui a nos apropriarmos, uma vez mais, pela fé, de outro tesouro de Jesus Cristo: Sua justiça. Sabemos que Ele cumpriu toda justiça (Mt 3:15; Fp 2:8, Is 53:11). Ele deu obediência perfeita e amor a Deus, Seu Pai, e amou, perfeitamente, Seus inimigos (Rm 5:6-10) sendo feito maldição por eles, como o apóstolo Paulo diz em Gl 3:13; isto significa suportar por eles o julgamento da ira de Deus (Cl 1:22; 2 Co. 5:21). Assim, sendo revestidos com esta perfeita justiça que nos é dada pela fé como se ela fosse nossa (Ef 1:7-8), somos aceitáveis diante de Deus (Jo 1:12; Rm. 8:17) como irmãos e co-herdeiros com Jesus Cristo. Aqui, Satanás necessariamente fechará sua boca, providos da fé para receber Jesus Cristo e todos os benefícios que Ele possui para comunicar aos que nEle creem (Rm 8:33).

O terceiro assalto da mesma tentação:

“A poluição natural, ou pecado original, que está em nós, faz com que Deus nos odeie ainda”

Resta ainda para Satanás, um ataque com esta tentação sobre nosso mundanismo: Embora você tenha satisfeito a pena pelos seus pecados, na pessoa de Jesus Cristo, e está, pela fé, coberto por Sua justiça, você, todavia, é corrupto em sua natureza; nela reside ainda a fonte de todo pecado (Rm 7:17,18). Como então, você ousaria comparecer diante da majestade de Deus que é inimigo de toda perversão, e vê as profundezas do coração (Sl 44:21; Jr 17:10)? Nesta esfera, encontramos mais uma vez, um pronto auxílio em Jesus Cristo so-mente. Devemos confiar nEle. Verdadeiramente nós estamos encerrados neste corpo mortal (Rm 7:24), de modo que não fazemos o bem que queremos, ainda sentimos o pecado que habita em nós (Rm 7;21-23), e a carne que luta contra o Espírito (Gl 5:17). Este é o porquê, com respeito a nós, estamos ainda contaminados no corpo e na alma (1 Co 4:4; Fp 3:9). Mas visto que temos fé, somos unidos (1 Co. 6:17), vinculados (Ef 4:16; Cl 2:19), confirmados (Cl 2:7), enxertados em Jesus Cristo (Rm 6:5). Nele, desde o primeiro momento de Sua concepção no ventre da virgem Maria (Mt 1:20; Lc 1:35), nossa natureza é mais completamente restaurada e santificada (Hb. 2:10,11), do que mesmo quando criada pura em Adão; visto que Adão foi feito somente a imagem de Deus (Gn 1:27; 1 Co 15:47), considerando que Cristo é verdadeiro Deus, que assumiu nossa forma humana, concebido pelo poder do Espírito Santo. Esta santificação da natureza humana em Jesus Cristo é computada como nossa, pela fé. Assim, a corrupção natural remanescente que mesmo depois da regeneração ainda habita em nós, não pode entrar na nossa conta (Rm 8:1-3). O nosso mundanismo está coberto e tragado pela santidade de Jesus Cristo, que é muito mais poderoso para santificar-nos diante de Deus, do que a corrupção natural para nos contaminar.

Auxílio contra a segunda tentação:

“Temos ou não fé?”

Numa segunda tentação Satanás irá então responder que Jesus Cristo não morreu por todos os pecadores, visto que nem todos serão salvos. Temos então que recorrer a nossa fé, e replicar-lhe que na verdade somente crentes receberão o fruto do sofrimento e sacrifício de Jesus Cristo. Mas, ao invés de nos perturbar, isto nos dá segurança, pois sabemos que temos fé (Rm 8:15; 1 Co 2:12-16; 1 Jo 4:13). Como dissemos antes, não é suficiente ter uma crença vaga e confusa que Jesus Cristo veio tirar os pecados do mundo. Mas é necessário que cada pessoa aplique a si mesma, aproprie-se de Jesus Cristo através da fé, de forma que cada uma delas conclua: Estou em Jesus Cristo pela fé, dai porque não posso perecer, e estou certo da minha salvação (Rm 8:1,38,39; 1 Co 2:16; 1 Jo 5:19,20). Assim, para confirmar que repelimos Satanás nas três investidas da primeira tentação, e para resistir a se-gunda, é necessário saber se temos esta fé ou não. O meio é retornar dos efeitos para causa que as produz. Assim sendo, os efeitos que Jesus Cristo produz em nós, quando nos apos-samos dEle pela fé, são dois. Em primeiro lugar, há o testemunho que o Espírito Santo concede ao nosso espírito de que somos filhos de Deus, e nos capacita a clamar com convicção “Abba, Pai” (Rm 8:15-16; Gl 4:6). Em segundo lugar, devemos entender que quando aplicamos Jesus Cristo a nós, pela fé, isto não é através de alguma tola e vã fantasia e imaginação, mas de fato e de verdade, apesar de espiritualmente (Rm 6:14; 1 Jo 1:6; 2:5; 3:7). Do modo pelo qual a alma produz seus efeitos quando está naturalmente unida ao corpo, assim, quando pela fé, Jesus Cristo habita em nós espiritualmente, Seu poder revela e produz lá, Sua graça, o que é descrito nas Escrituras pelas palavras “regeneração” e “santificação”, e nos faz novas criaturas com respeito às qualidades que podemos ter (Jo 3:3; Ef 4:21-24). Esta regeneração, ou seja, um novo começo e nova criação, é dividida em três partes. Do mesmo modo como a corrupção natural, que nos mantêm cativos, tanto alma quanto corpo, produz em nós pecado e morte (Rm 7:13), assim o poder de Jesus Cristo, fluindo e penetrando em nós com eficácia, como se tomando posse de nós, produz em nós três efeitos: a mortificação do pecado, ou seja, desta corrupção natural que a Escritura chama de “velho homem”, seu sepultamento, e, finalmente, a ressurreição do novo homem. O apóstolo Paulo, em particular, descreve estas coisas detalhadamente (Rm 6 e vários outros textos; cf. 1 Pe 4:1-2). A mortificação da corrupção, ou do pecado, é um resultado de Jesus Cristo em nós. Pouco a pouco, Ele destrói esta maldita corrupção de nossa natureza, de forma que se torna menos poderosa para produzir em nós seus efeitos: os movimentos, as aprovações e as outras ações contrárias a vontade de Deus. O sepultamento do velho homem é um resultado do mesmo Jesus Cristo (Rm 6:4; Cl 2:12; 3:3-4). Pelo Seu poder, o velho homem, que recebeu um golpe mortal, pouco a pouco vai sendo aniquilado. (...). Para este fim, as aflições, com as quais o Senhor nos visita, servem grandemente (2 Co. 4:16); Ele nos visita igualmente com provas espirituais e físicas as quais devemos diligentemente fazer uso, a fim de mortificar, mais e mais, a rebelião da carne, que luta contra o Espírito (1 Co 9:27; Gl 5:17). Por fim, para os crentes, a primeira morte é a completa mortificação e sepultamento do pecado, pois coloca um fim à guerra da carne contra o Espírito (Fp 3:20,21). A ressurreição do novo homem, este homem cujas qualidades e faculdades são verdadeira-mente renovadas, é o terceiro efeito do mesmo Jesus Cristo vivendo em nós. Mortificando em nossa natureza, aquilo que era corrompido, Ele então, nos concede um novo poder e nos recria. Assim, nosso entendimento e julgamento, iluminados pela pura graça do Espírito Santo (Ef. 1:18), e governado pelo novo poder que nós recebemos de Jesus Cristo (Rm 8:14), começamos a entender e aprovar aquilo que, anteriormente, era tolo para nós (1 Co 2:14) e abominável (Rm 8:7). Então, em segundo lugar, a vontade é retificada para odiar o pecado e aceitar a justiça (Rm 6:6). Finalmente, todas as faculdades do homem começam a evitar aquilo que Deus havia proibido, e a seguir tudo que Ele havia ordenado. (Rm 7:22; Fp 2:13). Estes são, portanto, os dois efeitos produzidos por Jesus Cristo em nós. Se nós os experimentamos, a conclusão é infalível: temos fé, e conseqüentemente, temos Jesus Cristo vivendo em nós eternamente. Portanto, é evidente que cada crente deve vigiar, antes de tudo, para manter, pela contínua súplica, este testemunho mencionado acima, que o Espírito de Deus dá aos Seus; ele também deve desenvolver, através de um contínuo exercício de boas obras para as quais sua vocação o chama, o dom da regeneração o qual recebeu (Rm 12:9-16). Neste sentido é dito que aquele que é nascido de Deus não peca (1 Jo 5:18), o que quer dizer, ele não dedica-se a pecar, mas resiste mais e mais, tendo correspondente-mente mais certeza de sua eleição e chamado (2 Pe 1:10). Assim, para conhecermos esta regeneração, é necessário vir aos seus frutos. O homem sendo liberto da escravidão do pecado, isto é, da sua natural corrupção, começa a, agradecido pelo poder de Jesus Cristo que habita nele, produzir os bons frutos, os quais chamamos “boas obras”. Este é o motivo pelo qual dizemos, e com razão, que a fé não pode existir sem boas obras, como o sol sem luz ou o fogo sem calor (1 Jo 2:9; Tg 2:14-17)
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Este artigo, de Theodore Beza, foi tomado do capítulo 4, seções 1-13, do seu livro The Christian Faith. Este livro foi um “best seller” durante a Reforma Protestante e surgiu em 1558.

Traduzido por Rev. Paulo Anglada.
Revisado por Rev, Ewerton B. Tokashiki - 26 de Março de 2014.
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