domingo, 18 de janeiro de 2015

JE SUIS.

“Disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU.” (Ex 3.14a)
O ataque terrorista a um semanário satírico francês ocorrido no último dia 7/1 em Paris, deixando 12 mortos, tem sido um dos assuntos mais comentados e noticiados em todo o mundo. Os autores do ato terrorista vindicaram o nome de Alá e do profeta Maomé, devido à revista ter retratado o fundador do Islã em charges ofensivas. O atentado à Charlie Hebdo, por sua vez, gerou repúdio em todo o mundo ocidentalizado, especialmente por ter afrontado um de seus principais motivos de orgulho: o exercício da liberdade de expressão.

As primeiras manifestações de apoio à revista, através de declarações, cartazes, publicações em mídias sociais, etc., com os dizeres em francês “je suis Charlie” (eu sou Charlie) imediatamente ganharam corpo e se desdobraram em gestos similares, como o “je suis Ahmed” (uma referência a um dos policiais (que era muçulmano), morto defendendo a tal “liberdade de expressão”, ou o “je ne suis pas Charlie” (uma rejeição ao tom desrespeitoso da publicação atacada).

A reação da própria revista foi repetir a provocação, publicando outra caricatura do profeta Maomé na capa de uma edição histórica com 5 milhões de exemplares, em várias línguas e países (a tiragem normal da revista era 30 mil). Para os porta-vozes da Charlie, uma reafirmação dos ideais liberais. Para muitos líderes muçulmanos, uma declaração de guerra. Os contornos desse fogo cruzado mostram claramente que há muita coisa em jogo. São, de fato, dois deuses e seus seguidores idólatras se digladiando e medindo forças. Por um lado, os seguidores de Maomé, prontos a matar e morrer pela honra do profeta, esperando com isso obter um harém no céu. Pelo outro, os adoradores de um ideal de liberdade individual, inalienável e sem limites, dispostos a imporem tiranicamente seu discurso de tolerância, em busca da pretensa soberania do indivíduo.

A truculência dos primeiros é conhecida e, ainda que neguem, é parte indissociável de sua religião, pois é incentivada pelo próprio Corão. Já a violência dos liberais torna-se evidente quando banalizam e tratam com deferência qualquer culto que concorra com o seu “deus”, que não se curve aos princípios liberais como valor mais importante (mantendo a fé fora da vida pública); e este revide não é apenas ideológico, haja vista as inúmeras incursões bélicas no Oriente Médio. Como todo falso deus, são ambos abomináveis.

Charlie é a utopia do liberalismo, é o deus do mundo ocidentalizado. É o antigo anseio de Adão, de conhecer o bem e o mal e se tornar um deus. Mas o cristão não é Charlie. Ele não adora sua liberdade, embora seja verdadeiramente livre. Livre para agradar a Deus e fazer a vontade d'Ele, não para seguir o pecado. O cristão não é Charlie porque o seu Deus não é Charlie. Qualquer definição semelhante o limitaria absurdamente. Ele, de fato, se revela como auto-existente e princípio de tudo, em quem tudo subsiste. Ele é em si mesmo. “JE SUIS celui qui suis” (Ex 3.14 - versão francesa Louis Segond). EU SOU é o seu nome. O Deus único, vivo e verdadeiro simplesmente é. E somente Ele é.
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Por Rev. Fábio Barreto Cunha
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