sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Antologia [08/12]

Por São João Crisóstomo
ca. 347, Antioquia a 14 de setembro de 407, Comana Pôntica

Amor à Pobreza
1. Como não ter por suma loucura acumular tudo lá onde o que se deposita se perde e se corrompe, e não deixar nem a mais ínfima parte ali onde há de permanecer intacto e até crescer? E onde, além disso, havemos de viver por toda a eternidade! É por isso que os gentios não crêem no que lhes dizemos, pois querem que lhes demonstremos a nossa doutrina, não pelas nossas palavras, mas pelas nossas obras. Quando nos vêem construir magníficas casas e plantar jardins e construir termas e comprar campos, não conseguem persuadir-se de que estamos a preparar a nossa viagem para outra cidade. Se assim fosse, argumentam, [os cristãos] venderiam tudo o que possuem aqui e o depositariam ali, e assim pensam em função do que costuma acontecer na vida. Com efeito, podemos observar que os grandes ricaços adquirem casas, campos e tudo o mais principalmente nas cidades onde pretendem passar a vida. Nós, porém, fazemos o contrário: a terra que havemos de abandonar dentro de pouco, matamo-nos por possuí-Ia, e por umas braças a mais, ou por umas construções, não somente entregamos o nosso dinheiro, mas até o nosso sangue; mas para comprar o céu, custa-nos imenso desprender-nos até do supérfluo, e isso quando poderíamos comprá-lo a preço muito baixo e, uma vez comprado, possuí-lo eternamente. Portanto, se ali aparecermos nus, sofreremos o suplício definitivo, e o sofreremos não apenas por causa da nossa pobreza, mas por termos empobrecido os outros. Porque, quando os pagãos vêem que aqueles que foram iniciados em tão altos mistérios põem todo o seu afã no que é terreno, também eles o abraçam com redobrado ardor, com o que não fazem senão acumular brasas sobre a nossa cabeça. Se nós, que deveríamos ensiná-los a desprezar tudo o que é visível, somos os primeiros a excitar-lhes a cobiça, como poderemos salvar-nos, réus que somos da perdição dos outros? (Homilias sobre São Mateus, 12, 5) 
2. "Como é possível isto [fugir da tirania do dinheiro]?", dir-me-eis. Metendo no vosso coração outro amor diferente: o amor dos céus. Aquele que aspira à realeza, despreza a avareza. (Homilias sobre São Mateus, 12, 6) 
3. Por que queres que aconteça contigo o mesmo que aconteceu com Nabucodonosor? Este levantou uma estátua a si mesmo, e da madeira, da forma insensível, esperava que lhe adviria um acréscimo de fama. O vivo queria receber novo brilho daquilo que não tem vida: compreendes o excesso da sua loucura? Porque, crendo que iria honrarse a si mesmo, cobriu-se de ignomínia. Efetivamente, como não considerar ridículo um homem que tem mais confiança num objeto inanimado que em si mesmo e na alma viva que há nele, e por isso exalta a tal grau de preeminência a madeira e procura ser glorificado não pelos seus costumes, mas por algumas peças reunidas? É exatamente como aqueles que pretendem brilhar pelo pavimento da sua casa, ou por uma bela escadaria, ao invés de brilharem pela sua condição de homens. Nabucodonosor tem hoje muitos imitadores entre nós. Ele quis ser admirado pela sua famosa estátua; outros querem agora ser admirados pelas suas vestes, pela sua casa, pelas suas mulas, pelos seus carros, pelas colunas que sustentam os seus palácios. E, como perderam o seu ser de homens, andam de cá para lá, buscando por toda a parte uma glória que é o cúmulo do ridículo. (Homilias sobre São Mateus, 4, 10) 
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Fonte: Monergismo
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A Doutrina da Trindade [27/29]


NAS ESCRITURAS, DESDE A PRÓPRIA CRIAÇÃO, SE ENSINA UMA ESSÊNCIA ÚNICA DE DEUS, QUE EM SI CONTÉM TRÊS PESSOAS

27. Irineu está longe de legitimar a tese dos que negam a deidade de Cristo 

O fato de compendiarem numerosas referências de Irineu, nas quais ele afirma que o Pai de Cristo é o único e eterno Deus de Israel, ou constitui vergonhosa ignorância, ou a máxima improbidade. Pois deveriam ter atentado para o fato de que o santo varão tinha estado a haver-se e a defrontar-se com fanáticos que negavam que o Pai de Cristo fosse aquele Deus que falara outrora por intermédio de Moisés e dos profetas; ao contrário, ele lhes era não sei que espectro produzido da corrupção do mundo. Conseqüentemente Irineu se concentra inteiramente nisto: tornar patente que na Escritura não se proclama outro Deus senão o Pai de Cristo, e que se cogita erroneamente outro, e daí não é de maravilhar-se se conclui tantas vezes que o Deus de Israel não era outro senão aquele que é celebrado por Cristo e pelos apóstolos. Assim também agora, quando se tem de resistir a erro diverso, diremos, com verdade: o Deus que apareceu outrora aos patriarcas não foi outro senão Cristo. Todavia, se alguém objeta ter sido o Pai, terá resposta imediata: enquanto propugnamos pela deidade do Filho, de modo nenhum excluímos o Pai.

Se os leitores derem ouvidos a este parecer de Irineu, cessará toda contenção, visto que, na verdade, toda lide facilmente se dirime do capítulo sexto do livro III, onde o piedoso varão insiste neste ponto específico: “Aquele que, em acepção absoluta e não particularizada, na Escritura é chamado Deus, esse é verdadeiramente o Deus único, e Cristo, com efeito, é chamado Deus em acepção absoluta.” Lembremo-nos de que esta foi a base de sua argumentação, como transparece de todo o desenvolvimento da matéria, e especialmente do capítulo quarenta e seis do livro II: Pai não é, enigmática e parabolicamente, chamado quem na verdade não seja Deus. Acresce que, em outro lugar, Irineu contende por que os profetas e apóstolos, conjuntamente, postularam como Deus tanto o Filho quanto o Pai. Mas, em seguida, ele define como Cristo, que de tudo é Senhor, e Rei, e Deus, e Juiz, recebeu poder daquele que é Deus de todas as coisas, isto é, com respeito a sua sujeição, visto que foi humilhado até a morte de cruz. Entretanto, pouco depois afirma que o Filho é o Artífice do céu e da terra, que por intermédio de Moisés outorgou a lei e apareceu aos patriarcas.

Ora, se alguém vociferar, dizendo que para Irineu o Pai era o único Deus de Israel, redarguirei que o mesmo escritor ensina claramente que Cristo subsiste com ele [o Pai] como um e o mesmo, assim também lhe atribui o vaticínio de Habacuque: “Do sul virá Deus” [Hc 3.3]. Ao mesmo aplica-se o que se lê no capítulo nove do livro IV: “Portanto, o próprio Cristo é com o Pai o Deus dos vivos.” E no capítulo doze do mesmo livro, interpreta que Abraão crera em Deus porque Cristo é o Autor do céu e da terra e Deus único.
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Por: João Calvino
Fonte: As Institutas. Volume I, capítulo XIII
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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

A Natureza da Igreja - 2ª Mensagem

Invencível - Triunfante

Invencível - Triunfante from Ministério Fiel on Vimeo.

John MacArthur
Ano: 1995
11ª Edição da Conferência Fiel para Pastores e Líderes
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Martírio de cristãos pelo Estado Islâmico: uma reflexão bíblica


A maioria de nós leu a história dos 21 cristãos egípcios sequestrados na Líbia. Um vídeo do Estado Islâmico mostrou cerca de 12 deles sendo decapitados, e é quase certo que todos eles foram assassinados.

Não estamos surpresos

Jesus nos disse para esperar perseguição, ensinando os seus discípulos que os incrédulos nos odiariam assim como o odiaram (João 15.18-20).

Jesus previu que alguns daqueles nos matariam, pensariam estar oferecendo serviço a Deus (João 16.2).

Embora a maioria de nós não venha a perder a própria vida em nome de Cristo, não devemos ficar surpresos se isso acontecer. Todos nós precisamos estar prontos para entregar as nossas vidas por Cristo. “Se alguém vem a mim e não aborrece a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs e ainda a sua própria vida, não pode ser meu discípulo” (Lucas 14.26).

Somos mais que vencedores

Jesus nos chama a ser fiéis até a morte para receber a coroa da vida (Apocalipse 2.10).

Jesus também nos chama a nos alegrarmos quando perseguidos, pois é grande honra morrer pelo nosso Senhor e Salvador, e a nossa recompensa excederá em muito o nosso sofrimento (Mateus 5.10-12; Atos 5.41). Naturalmente, podemos ficar temerosos e assustados com tal possibilidade, preocupados de que não tenhamos a força para sofrer. E não temos a força em nós mesmos, mas Deus promete ser conosco no fogo e na água (Isaías 43.2), e promete nos dar graça para suportar o que há de mais difícil. “Deus pode fazer-vos abundar em toda graça, a fim de que, tendo sempre, em tudo, ampla suficiência, superabundeis em toda boa obra” (2 Coríntios 9.8).

Ao morrer em nome de Cristo, ao não amar as nossas próprias vidas mesmo mediante a morte, não somos perdedores, mas vencedores; não somos vencidos pelo mal. Pelo contrário, somos “mais que vencedores” (Romanos 8.37; Apocalipse 12.11). Aqueles que são mortos em nome de Cristo ressuscitam e reinam com Jesus Cristo (Apocalipse 20.4).

Choramos com os que choram

Paulo diz que “o viver é Cristo, e o morrer é lucro” (Filipenses 1.21). Ainda assim, a questão não é simplista, e a vida não é fácil. Nós choramos com aqueles que choram (Romanos 12.15). Paulo disse que se Epafrodito tivesse morrido, ele teria experimentado “tristeza sobre tristeza” (Filipenses 2.27). A tristeza enche os corações daqueles que ficam.

Oramos tanto pelos nossos inimigos quanto pelos nossos irmãos e irmãs que sofrem

Precisamos de uma graça especial para orar pela salvação daqueles que praticaram tamanho mal.

Também oramos pelos nossos irmãos e irmãs que sofrem ao redor do mundo; pedimos que Deus conceda a eles alegria, força e perseverança para suportar até o fim.

Oramos para que Deus os proteja e sustente a sua igreja.

Oramos pelo justo juízo de Deus

Ao mesmo tempo, assim como os mártires debaixo do altar em Apocalipse 6.9-11, nós clamamos: “Até quando, ó Soberano Senhor?” Quando tu agirás com justiça para com este mundo? Quando tu vindicarás os teus santos e julgará os perversos por amor ao teu grande nome?

O dia do juízo está chegando, o dia em que tudo será ajustado. Enquanto isso, Deus está chamando muitos mais para serem seus filhos, mesmo dentre aqueles que nos perseguem. Nós louvamos a Deus tanto pelo seu amor salvador quanto pelo seu justo juízo, e oramos: “Vem, Senhor Jesus” (Apocalipse 22.20).

Os assassinos afirmaram que aquela atrocidade era “uma mensagem assinada com sangue para a nação da cruz”. Criamos a capa de Facebook abaixo para declaramos nas redes sociais nossa fé naquele que foi fiel até a morte e morte de cruz.
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Por: Tom Schreiner. © 2015 The Gospel Coalition. Original: Tom Schreiner: A Biblical Meditation on the ISIS Execution of 21 Christians.

Tradução: Alan Cristie. Revisão: Vinícius Musselman Pimentel. © 2015 Ministério Fiel. Todos os direitos reservados. Website: MinisterioFiel.com.br.
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Maior líder muçulmano da Arábia Saudita pede a destruição de todas as igrejas cristãs


Perseguição aos cristãos no Oriente Médio pode resultar em conflito global

sheik Abdul Aziz bin Abdullah, o grão-mufti da Arábia Saudita, maior líder religioso do país onde Maomé nasceu, declarou que é “necessário destruir todas as igrejas da região”.

Tal comentário do líder muçulmano foi uma resposta ao questionamento de uma delegação do Kuwait, onde um membro do parlamento recentemente também pediu que igrejas cristãs fossem “removidas” do país.

O grão-mufti salientou que o Kuwait era parte da Península Arábica, e por isso seria necessário destruir todas as igrejas cristãs de lá.

“Como acontece com muitos muftis antes dele, o sheik baseou sua fala na famosa tradição, ou hadith, que o profeta do Islã teria declarou em seu leito de morte: ‘Não pode haver duas religiões na Península [árabe]’. Isso que sempre foi interpretado que somente o Islã pode ser praticado na região”, explicou Raymond Ibrahim, especialista em questões islâmicas.

A importância dessa declaração não deve ser subestimada, enfatiza Ibrahim: “O sheik Abdul Aziz bin Abdullah não é um líder muçulmano qualquer que odeia as igrejas. Ele é o grão-mufti da nação que levou o Islã para o mundo. Além disso, ele é o presidente do Conselho Supremo dos Ulemás [estudiosos islâmicos] e presidente do Comitê Permanente para a Investigação Científica e Emissão de Fatwas. Quando se trata do que o Islã prega, suas palavras são imensamente importantes ”.

No Oriente Médio, os cristãos já estão enfrentando perseguição maior, incluindo a morte, nos últimos meses. Especialmente nos países onde as facções militares islâmicas têm aproveitado o vácuo de poder criado pelas revoluções da chamada “Primavera árabe”, como Egito, Líbia e Tunísia, Jordânia, Marrocos, Síria e Iêmen.

Os cristãos coptas, por exemplo, que vivem no Egito há milênios estão relatando níveis mais elevados de perseguição de muçulmanos. No Norte de África, os muçulmanos prometeram erradicar o cristianismo em alguns países, como a Nigéria. No Iraque, onde os cristãos tinham algumas vantagens durante o governo do forte Saddam Hussein, populações cristãs inteiras fugiram. O Irã também tem prendido crentes e fechado igrejas mais do que de costume.

Ibrahim escreveu ainda em sua coluna: “Considerando a histeria que aflige o Ocidente sempre que um indivíduo ofende o Islã, por exemplo, uma pastor desconhecido qualquer, imagine o que aconteceria se um equivalente cristão do grão-mufti, digamos o papa, declarasse que todas as mesquitas da Itália devem ser destruídas, imaginem o frenesi da mídia ocidental. Imediatamente todos os veículos gritariam insistentemente “intolerância” e “islamofobia”, exigiriam desculpas formais e apelariam para uma reação dos políticos”.

O estudioso acredita que uma onda de perseguição sem precedentes está prestes a ser iniciada na região, que ainda testemunha Israel e Irã viverem ameaçando constantemente fazerem ataques. O resultado disso pode ser um conflito de proporções globais.
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Por Jarbas Aragão
Traduzido e adaptado de Arabian Business e WND
Fonte: Gospel Prime
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terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

A Obra do Espírito Santo - 10ª mensagem

O Espírito Santo como Senhor e Aquele que dá a vida


R. C. Sproul Jr.
Ano: 2014
30ª Edição da Conferência Fiel para Pastores e Líderes - Brasil
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Os Cânones de Dort - Aula 07/10


Por Franklin Ferreira
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Memórias de Jonathan Edwards - Capítulo 3


PRODUÇÕES RELIGIOSAS INICIAIS – “MISCELÂNEAS” – NOTAS SOBRE AS ESCRITURAS – INÍCIO DE SUA PREGAÇÃO – RESOLUÇÕES

Uma preocupação consciente com o dever apareceu grandemente tanto nos primeiros quanto nos últimos dias de Jonathan Edwards. Na infância, o espírito de amor e obediência o guiava totalmente; e como aprendiz, descobriu cada disposição honrável para si, encorajando as pessoas que ansiosamente auxiliavam no seu progresso, e naquilo que era justamente considerado como a mais calorosa de suas incomuns realizações. A criança, o jovem, o homem, todos apresentaram à vista a mesma mente superior, em diferentes graus de avanço, mas ainda assim, semelhantes indicativas das mesmas excelências gerais.

Enquanto estava na faculdade, prestou a mais assídua e bem sucedida atenção a todos os seus deveres designados, e, em particular, ao estudo da filosofia mental e física. Contudo, ainda encontrou tempo para buscar um caráter mais elevado e espiritual. Sua inteira educação, desde a mais tenra infância, e os conselhos dos pais, bem como seus próprio sentimentos, o motivaram a essas buscas.

Ler a Bíblia diariamente, e lê-la em conexão com outros livros religiosos, diligente e atentamente, no Dia do Senhor, era, nos primeiros dias da Nova Inglaterra, o dever habitual de toda criança. E a família de seu pai, ainda que atenta ao devido cultivo da mente e dos costumes, não havia perdido nem um pouco da severidade e do cuidado que caracterizavam os peregrinos. Os livros que ele achou na casa de seu pai, a conversa dos ministros que sempre recorriam a sua casa, os costumes do tempo, bem como a mais imediata influência da instrução e exemplo paternal, naturalmente incitavam uma mente como a sua para a precoce contemplação e investigação de muitas das verdades e princípios da teologia. Também tinha testemunhado na congregação de seu pai, antes de sua admissão na faculdade, diversos reavivamentos extensos da religião. E em dois deles as impressões sobre sua mente haviam sido extraordinariamente profundas e solenes. O nome familiarmente dado pelo povo comum da Nova Inglaterra a estes eventos – “uma atenção religiosa,” e “uma atenção geral para a religião” – indica a natureza deles. Uma pessoa pessoalmente familiarizada com estes eventos não precisa ser informada de que, durante seu progresso, as grandes verdades da religião, como ensinadas nas Escrituras, e como explicadas nos escritos dos teólogos, tornam-se os objetos do interesse geral e intenso, e de estudo prático minucioso. Ou ainda que o conhecimento adquirido por todo um povo em tais tempos, em um período comparativamente curto, com frequência excede as aquisições de muitos anos anteriores. Com todas estas coisas em vista não surpreende que a estes dois tipos de leitura ele tenha se devotado muito cedo, com grande diligência e sucesso.

Duas de suas primeiras Resoluções se relacionam a esse assunto, nas quais se propõe “a estudar as Escrituras tão contínua, constante e frequentemente a ponto de poder encontrar e claramente perceber a mim mesmo crescendo no conhecimento dela.” Nunca perdeu de vista esta resolução. Em 8 de junho de 1723, também propôs que, a qualquer momento que se achasse em uma disposição débil e relaxada, leria novamente sua própria obra “Anotações e Reflexões de Natureza Religiosa,” a fim de animá-lo ao seu dever. Estas “Anotações e Reflexões” eram muito numerosas. O primeiro manuscrito de suas “Miscelâneas” está em formato de fólio [livro numerado por folhas (frente e verso) e não por páginas], e consiste de quarenta e quatro folhas de papel almaço, escritas separadamente, e costuradas. Quando iniciou a obra, obviamente não suspeitava do tamanho que ela tomaria, nem tinha ele formado o plano final de arranjo. Intitulou o primeiro artigo como “Da Santidade”, e tendo finalizado-o, e rabiscado um linha de separação através da página, começou o segundo: “Da mediação e satisfação de Cristo.” O mesmo ocorre com o terceiro e quarto. O quinto ele escreve, sem uma linha de separação, em grandes letras: “Felicidade Espiritual.” Após este, o assunto de cada novo artigo está impresso, ou escrito, em letras grandes. Seu primeiro artigo foi escrito na segunda página de uma folha de papel solta; e tendo escrito na segunda, terceira e quarta páginas, voltou para a primeira. Começou a numerar seus artigos pelas letras do alfabeto, a, b, c, e tendo finalizado, iniciou com uma letra dupla, aa, bb, cc. Quando a sequência estava findada, descobrindo que sua obra estava alargada, tomou os números regulares 1, 2, 3, etc., e a este plano, tanto em relação aos assuntos quanto aos números, posteriormente deu prosseguimento.

O início da obra está escrito em uma caligrafia notavelmente pequena e arredondada, quase a mesma com a qual são escritas suas primeiras produções. Isto se estende até por volta de 150 artigos, e, após isso, mudou perceptivelmente para uma caligrafia de algum modo mais formada e fluente. Estes parecem obviamente ter sido escritos durante os últimos anos de sua vida na faculdade, e dos anos de sua residência na faculdade, no Bacharelado de Artes. Largas porções desta obra serão encontradas na presente edição de suas Obras, e um número daquelas dos primeiros artigos. Tais são as Observações Miscelâneas e as Anotações Miscelâneas, vol. ii, pág. 459 e as Miscelâneas, pág 525. Nestas serão encontrados muitos de seus mais originais e profundos pensamentos e discussões sobre assuntos teológicos.

Seu estudo regular e diligente da sagrada Escritura cedo o levou a descobrir que ele abria diante de si um campo quase ilimitado de investigação e pesquisa. Algumas passagens ele descobriu terem sido traduzidas incorretamente. Muitas eram bastante obscuras, e difíceis de explicar. Em muitas havia aparentes inconsistências e contradições. Muitas haviam sido há muito empregadas como provas de doutrinas e princípios, aos quais não faziam nenhuma referência possível. As palavras e frases, bem como os sentimentos e narrativas, em um aspecto, ele via ilustrados e interpretados por outro. Percebeu que o Antigo Testamento, em sua linguagem, história, doutrinas e culto, em sua alusão a costumes e maneiras, em suas profecias, tipos e imagens, era introdutório e explicativo para o Novo [Testamento]; enquanto que o Novo, ao apresentar a plena completude de todo o plano e desígnio de seu Autor comum, desvendava a verdadeira intenção e relação de cada parte do Antigo. Encarando o volume sagrado com a mais alta veneração, pareceu ter resolvido, enquanto era membro da faculdade, que iria, até onde fosse possível, ficar possuído, em cada parte que lia, do verdadeiro sentido de seu Autor. Com esta perspectiva, começou sua “Notas sobre as Escrituras”, obviamente tornando sua regra padrão estudar cada passagem que ele lia que apresentava a menor dificuldade para a sua mente, ou que soubesse ter sido reputada difícil por outros, até que tal dificuldade fosse satisfatoriamente removida.

O resultado de suas investigações ele regularmente, e à época, confiava à escrita; a princípio em meias folhas separadas, em formato A5. Tendo, porém, descoberto a inconveniência deste método em seus outros escritos juvenis, logo formou pequenos panfletos de folhas, que posteriormente foram transformadas em volumes. Alguns dos artigos, cerca de cinquenta, parecem ter sido escritos enquanto ainda estava na faculdade. O restante, enquanto se preparava para o ministério e durante sua vida subsequente. Que ele não tinha suspeitas do tamanho que a obra tomaria é evidente, e se posteriormente planejou a sua publicação, como uma ilustração das mais difíceis e obscuras passagens da Bíblia, talvez não possa ser determinado com certeza. Alguns dos artigos de natureza histórica ou mitológica são marcados com aspas dos escritos de outros, e estão omitidos na presente edição de suas Obras. O leitor, após investigar a obra, ficará satisfeito que sejam frutos de sua própria investigação, e que seu modo de remover as dificuldades era – não como é com frequência, com disfarce ou má representação delas, mas lhes dando sua plena força, e encarando-as com argumentos limpos. Talvez nenhuma coleção de notas sobre as Escrituras tão originais possa ser encontrada. A partir do número prefixado a cada artigo, se descobrirá ser fácil selecionar aquelas que foram resultado de seus labores iniciais. Tal plano de investigar e explicar as dificuldades do livro sagrado, em período tão precoce da vida, provavelmente não encontra exemplo igual, e demonstra uma maturidade de realizações morais e intelectuais raramente igualada. Entre as mais interessantes e capazes destas investigações se descobrirá a discussão sobre o sacrifício da filha de Jefté (Jz 11:29-40) e sobre o princípio apresentado por Paulo em Romanos 8:28: Todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus. Esta, por estar contida em sua carta ao Sr. Gillespie, de 4/9/1747, está omitida nas notas sobre as Escrituras.

A classe da qual foi um membro terminou seu curso superior regular em setembro de 1720, antes que tivesse dezessete anos de idade. Nesse período, e por um longo tempo posterior, o único exercício - à exceção das Teses Latinas, dadas no início da classe de bacharelado - era o Salutatory [uma declamação de boas vindas], o qual também era um Valedictory [uma declamação de despedida, geralmente ao final da graduação], uma Oração em Latim. Ele foi premiado neste exercício, por ter obtido o mais alto conceito como erudito entre os membros de sua classe.

Ele residiu na faculdade por quase dois anos depois de sua primeira formação, preparando-se para o ofício do ministério. Após isso, tendo passado pelos testes de costume, recebeu a licença para pregar. Isto ocorreu aos dezenove anos de idade. Devido a uma solicitação de diversos ministros na Nova Inglaterra, a quem foi confiado que agissem em prol dos presbiterianos em Nova York, ele foi para aquela cidade no início de agosto de 1722, e lá pregou, com grande aceitação, por cerca de oito meses. Enquanto esteve lá, residiu alegremente na casa da Sra. Smith, que, juntamente com seu filho, o Sr. John Smith, ele considerava como pessoas de piedade incomum e pureza de vida. Com eles formou uma íntima amizade cristã. Lá também encontrou um número considerável de pessoas, membros daquela igreja, que exibiam o mesmo caráter. Com estes aproveitou, em alto grau, todas os deleites e vantagens do relacionamento cristão. Sua ligação pessoal a eles tornou-se forte, e o interesse deles nele como homem e pregador foi tal que calorosamente solicitaram que com eles permanecessem pelo resto da vida. Declinar deste cândido convite foi muito aflitivo para seus sentimentos; entretanto, devido à pequenez dessa congregação, e de algumas dificuldades peculiares que a acompanhavam, não pensou que houvesse uma perspectiva racional de utilidade e conforto lá. Após uma despedida muito dolorosa dos seus bons amigos, sob cujo hospitaleiro teto tinha residido por tanto tempo e com tanta felicidade, deixou a cidade em 26 de abril, de barco, e alcançou a residência de seu pai na quarta-feira, dia primeiro de maio. Lá passou o verão em rigoroso estudo, durante o qual foi de novo solicitamente requisitado pela congregação em Nova York, para que retornasse àquela cidade, e se estabelecesse entre eles. Contudo, suas perspectivas anteriores não se alteraram, portanto, ainda que fortemente inclinado por seus sentimentos para satisfazê-los, não pôde aceder a seus desejos. É provável que em nenhuma outra época de sua vida teve mais altas vantagens para a contemplação e deleite espiritual do que no período antes mencionado. Ele foi a Nova York em uma disposição deleitosa de mente. Lá encontrou um pequeno rebanho de Cristo, constrangido com o senso de sua própria fraqueza a “habitar juntamente em unidade,” e a sentir um senso prático de dependência de Deus. Estava no meio de uma família, cuja influência diária servia apenas para refrescar e santificar. Também tinha muito tempo livre para leitura religiosa, meditação, e oração. Nestas circunstâncias, a presente do Consolador parece ter sido uma realidade diária; do que encontrou evidência naquela pureza de coração que capacita os que a possuem a ver Deus, na paz que vai além de todo entendimento, e na alegria da qual não participa o estranho [Pv 14:10].

Durante sua preparação para o ministério, sua residência em Nova York, e a residência subsequente na casa de seu pai, ele formou uma série de resoluções, perfazendo o número de setenta, que destinavam-se obviamente a si próprio somente, para regular seu próprio coração e vida, mas também eram apropriadas, devido à simplicidade cristã e ao caráter espiritual, a serem extremamente úteis para outros. Destas, as primeiras trinta e quatro foram escritas antes de 18 de dezembro de 1722, o tempo no qual seu Diário, como agora existe, começa. O tempo em particular e a ocasião da composição das demais, serão encontrados nesta mui interessante narrativa, na qual também estão muitas outras regras e resoluções, direcionadas à regulação de suas próprias afeições, de talvez igual excelência. Deve ser lembrado que foram todas escritas antes dos seus vinte e dois anos de idade. Uma vez que era inteiramente avesso à toda profissão [pública] e ostentação; e uma vez que estas resoluções eram claramente dedicadas para serem vistas por ninguém, senão por ele mesmo – à exceção do olho que é onisciente – elas podem ser consideradas com justiça como a base de sua conduta e caráter, o plano pelo qual governava tanto as ações públicas quanto as secretas de sua vida. Como tais, interessarão profundamente ao leitor, não apenas por desvelarem a mais íntima mente de seu autor, mas à medida em que mostram, de maneira muito notável e convincente para a consciência qual é a verdadeira base da excelência grandiosa e distinta.

Ele estava muito bem familiarizado com a fraqueza e fragilidade humana, mesmo onde as intenções são muito sinceras, para adentrar em quaisquer resoluções precipitadamente, ou devido à confiança em sua própria força. Portanto, na abertura, olhou para Deus por ajuda, quem somente pode conceder sucesso no uso dos melhores meios, e na pretendida realização dos melhores propósitos. Isto ele põe no cabeçalho de todas as outras importantes regras: que sua inteira dependência estava na graça de Deus, enquanto ainda se propõe a recorrer à frequente e séria investigação delas, a fim de que pudessem se tornar o guia habitual de sua vida.

RESOLUÇÕES
Estando sensível de que sou incapaz de fazer qualquer coisa sem a ajuda de Deus, eu, humildemente rogo que, pela Sua graça, me capacite a manter estas Resoluções, até onde forem conforme sua vontade, por amor de Cristo. 
Lembre-se de ler estas Resoluções uma vez por semana. 
  1. Resolvi, Que farei o que quer que ache seja para a maior glória de Deus, e meu próprio bem, ganho, e prazer, durante toda minha existência, sem qualquer consideração acerca do tempo, quer agora, ou daqui a muitas miríades de eras. Resolvi, fazer o que quer que ache ser meu dever, e para o bem e vantagem da humanidade em geral. Resolvi assim o fazer, sejam quais forem as dificuldades que encontre, quantas e por maiores que sejam.
  2. Resolvi, Continuamente me esforçar para descobrir alguma nova maneira e invenção para promover as coisas pré-mencionadas.
  3. Resolvi, Se alguma vez cair e permanecer na apatia, a ponto de negligenciar qualquer porção destas Resoluções, arrepender-me de tudo que possa me lembrar, quando cair em mim.
  4. Resolvi, Nunca fazer qualquer tipo de coisa, seja na alma ou no corpo, menos ou mais, a não ser o que tenda para a glória de Deus, nem vivenciá-la, ou permiti-la, se puder evitá-la.
  5. Resolvi, nunca perder um instante do tempo, mas aproveitá-lo do mais frutífero modo que puder.
  6. Resolvi, viver utilizando todas as minhas forças, enquanto viver.
  7. Resolvi, Nunca fazer qualquer coisa que temeria fazer se fosse a última hora de minha vida.
  8. Resolvi, Agir, em todos os aspectos, tanto na fala quanto na ação, como se ninguém fosse tão vil quanto eu, e como se houvesse cometido os mesmos pecados, ou tivesse as mesmas enfermidades ou faltas que os outros; e que não deixarei que o conhecimento de suas faltas promova nada em mim, senão vergonha, e que se provem apenas como ocasião para minha confissão de meus próprios pecados e misérias a Deus. Vid. 30 de julho.
  9. Resolvi, pensar bastante, em todas as ocasiões, sobre minha morte, e das circunstâncias comuns que a acompanham.
  10. Resolvi, quando sentir dores, pensar nas dores do martírio, e do inferno.
  11. Resolvi, quando pensar em alguma questão na teologia, a ser solucionada, imediatamente fazer o que puder em relação à solução, se as circunstâncias não impedirem.
  12. Resolvi, se nisso tiver prazer como satisfação do orgulho, ou vaidade, ou por qualquer motivo semelhante, imediatamente deixar de lado.
  13. Resolvi, esforçar-me para descobrir objetos idôneos de liberalidade e caridade.
  14. Resolvi, nunca fazer algo por vingança.
  15. Resolvi, nunca permitir mínimos movimentos de ira direcionados a seres irracionais.
  16. Resolvi, nunca falar mal de ninguém, na medida em que isto tenderá para sua maior ou menor desonra, por nenhum motivo a não ser por algum bem real.
  17. Resolvi, que viverei do modo pelo qual desejarei ter vivido quando vier a morrer.
  18. Resolvi, viver de tal modo, a todo tempo, como achar ser o melhor nas minhas mais devotas disposições, e quando tenho as mais claras noções das coisas do evangelho e do outro mundo.
  19. Resolvi, nunca fazer algo que temeria fazer se esperasse que não haveria mais de uma hora para que ouvisse a última trombeta.
  20. Resolvi, manter a mais severa temperança no comer e no beber.
  21. Resolvi, nunca fazer algo que, se visse em outra pessoa, me desse um justo motivo para desprezá-la, ou de alguma maneira ter pensamentos maldosos a respeito dela.
  22. Resolvi, esforçar-me para obter para mim mesmo o máximo de felicidade possível no mundo vindouro, e isto com todo poder, força, vigor e veemência, até mesmo com violência [veja Mt 11:12, na ARC] de que seja capaz, ou que possa exercer sobre mim mesmo, de qualquer modo imaginável.
  23. Resolvi, frequentemente tomar alguma ação deliberada, que parece improvável de ser realizada para a glória de Deus e rastreá-la de volta até às suas intenções, desígnios e propósitos originais; e se descobrir que não tenha sido para a glória de Deus, reputá-la como uma quebra da quarta Resolução.
  24. Resolvi, quando fizer alguma ação patentemente maligna, traçá-la de volta até chegar a sua causa original; e, então, tanto lutar cuidadosamente para não mais realizá-la, quanto fazê-lo pela oração, com toda força contra a sua origem.
  25. Resolvi, examinar, cuidadosa e constantemente o que há em mim que me faz, por pouco que seja, duvidar do amor de Deus; e, após esse exame, direcionar toda minha força contra isso.
  26. Resolvi, lançar fora as coisas que descobrir abaterem minha segurança [da salvação].
  27. Resolvi, nunca omitir algo voluntariamente, exceto se tal omissão for para a glória de Deus. Também resolvi examinar minhas omissões.
  28. Resolvi, estudar as Escrituras tão constante, firme e frequentemente, a ponto de poder descobrir e claramente perceber a mim mesmo crescendo no conhecimento dela.
  29. Resolvi nunca contar como uma oração, nem deixar passar por oração, nem ao menos como um pedido de oração o que for feito de tal modo que eu não possa esperar que Deus o responderá; nem como confissão algo que eu não espere que Deus aceitará.
  30. Resolvi, lutar a cada semana para ser levado a um lugar mais alto na religião, e a um mais alto exercício da graça do que tive na semana anterior.
  31. Resolvi, nunca dizer nada contra qualquer criatura, senão quando for perfeitamente coerente com o mais alto grau da honra cristã, e com o amor pela humanidade, e com a mais rebaixada humildade, e com o senso de minhas próprias faltas e falhas, e conforme à Regra de Ouro; sempre, quando tiver dito algo contra alguém, resolvi sondar rigorosamente a isto pelo teste desta Resolução.
  32. Resolvi, ser rigorosa e firmemente fiel à minha crença, para que o disposto em Pv 20:6: “Mas o homem fidedigno, quem o achará?” não seja parcialmente cumprido em mim.
  33. Resolvi, fazer o que puder para promover, manter e preservar a paz, quando isto puder ser feito sem um prejuízo correspondente em outros aspectos. 26 de dez. 1722.
  34. Resolvi, nas narrativas, nunca falar senão o que for a pura e simples verdade.
  35. Resolvi, a qualquer momento que questionar se fiz o que era meu dever fazer, de tal modo que minha paz e calma seja por isto perturbada, registrar isso, bem como por que maneira a questão foi resolvida. 18 de dez. 1722.
  36. Resolvi, Nunca falar mal de ninguém, exceto se tiver um bom motivo em particular para isso. 19 de dez. 1722.
  37. Resolvi, inquirir a cada noite, e quando for me deitar, em que fui negligente, - que pecado cometi, - e em que tenho negado a mim mesmo; isso também ao fim de cada semana, mês e ano. 22 e 26 de dez., 1722.38. Resolvi, jamais proferir algo que seja cômico, ou matéria de riso, no Dia do Senhor. 23 de dez., 1722, Dia do Senhor, à noite.
  38. Resolvi, nunca fazer algo de que eu questione a licitude, ou que pretenda, ao mesmo tempo, considerar e examinar posteriormente se aquilo é lícito ou não; a menos que eu questione a licitude da omissão.
  39. Resolvi, inquirir, toda noite antes de ir dormir, se agi do melhor modo possível, com respeito ao comer e ao beber. 7 de jan. 1723.
  40. Resolvi, perguntar a mim mesmo, ao final de cada dia, semana, mês e ano, em que poderia, de algum modo, ter agido melhor. 11 de jan., 1723.
  41. Resolvi, frequentemente renovar a minha dedicação a Deus, que foi feita no meu batismo, e que solenemente renovei quando fui recebido na comunhão da igreja, e que solenemente refiz nesta data de 12 de janeiro de 1723.
  42. Resolvi, nunca, daqui por diante, até eu morrer, agir como se pertencesse de algum modo a mim mesmo, mas sim inteira e totalmente a Deus. Sábado, 12 de jan., 1723.
  43. Resolvi, que nenhum outro fim senão o da religião terá alguma influência em quaisquer de minhas ações; e que não tomarei nenhuma atitude, em circunstância alguma, senão a que tenha como propósito a religião. 12 de janeiro, 1723.
  44. Resolvi, nunca permitir qualquer prazer ou dor, alegria ou luto, nem afeição alguma, nem qualquer grau de afeição, nem qualquer circunstância a ela relacionada, senão o que for favorável à religião. 12 e 13 de jan., 1723.
  45. Resolvi, jamais permitir a menor medida de preocupação ou inquietação a meu pai ou mãe. Resolvi, não permitir também os efeitos disso, até mesmo a menor alteração da fala, ou movimento dos meus olhos; e também a ser especialmente cuidadoso nisso com relação aos demais membros de nossa família.
  46. Resolvi, me esforçar ao máximo para negar tudo o que não seja condizente com um temperamento totalmente doce e benevolente, tranquilo, pacífico, contente e relaxado, compassivo e generoso, humilde e manso, submisso e bondoso, diligente e frutífero, caridoso e mesmo paciente, moderado, perdoador e sincero. Resolvi fazer, a todo tempo, o que tal temperamento me conduzir a fazer; e examinar estritamente, ao final de cada semana, se assim o tenho feito. Na manhã do Dia do Senhor. 5 de maio, 1723.
  47. Resolvi, constantemente, com máxima cortesia e diligência, e o mais severo escrutínio, investigar o estado de minha alma, para que saiba se verdadeiramente tenho um interesse em Cristo ou não; para que, quando vier a morrer, não tenha nenhuma negligência nesse assunto de que possa me arrepender. 26 de maio, 1723.
  48. Resolvi, que isso [o exposto na Resolução anterior] jamais ocorrerá, se puder evitá-lo.
  49. Resolvi que agirei do modo que pensar ter sido o melhor e mais prudente, quando chegar ao mundo porvir. 5 de julho, 1723.
  50. Resolvi que agirei de tal modo, em todo os aspectos, do modo que desejaria ter agido, se ao fim viesse a ser condenado. 8 de julho, 1723.
  51. Frequentemente ouço pessoas idosas dizerem como viveriam, se pudessem viver suas vidas novamente: Resolvi, que viverei de tal maneira como puder pensar ter desejado viver, supondo que viva até à velhice. 8 de julho, 1723.
  52. Resolvi, aproveitar cada oportunidade, quando estiver em minhas melhores e mais felizes disposições de mente, para lançar e aventurar minha alma ao Senhor Jesus Cristo, confiar e entregar-me, e consagrar-me inteiramente a ele; para que por esse modo possa estar certo de minha segurança, sabendo que confio em meu Redentor. 8 de julho, 1723.
  53. Resolvi, que quando ouvir algo falado favoravelmente de alguma pessoa, se achar que isso seria louvável em mim, esforçar-me para imitá-la. 8 de julho, 1723.
  54. Resolvi, esforçar-me ao máximo para agir como puder pensar que o faria, se já houvesse visto a felicidade do céu e os tormentos do inferno. 8 de julho, 1723.
  55. Resolvi, nunca abandonar, e, nem sequer por um instante, negligenciar minha luta contra minhas corrupções, independentemente das derrotas que sofra.
  56. Resolvi, quando sentir as desgraças e adversidades, examinar se fiz o meu dever, e resolver fazê-lo e deixar que o evento ocorra como a Providência o ordenar. Não irei, até onde puder, me preocupar com nada, a não ser com meu dever e meu pecado. 9 de junho, e 13 de julho, 1723.
  57. Resolvi, não apenas me refrear de uma aparência de desgosto, petulância e ira na conversação, mas exibir um ar de amor, alegria e benignidade. 27 de maio e 13 de julho, 1723.
  58. Resolvi, quando estiver mais consciente das provocações à uma disposição irritada e à ira, que lutarei o máximo para me sentir e agir de boa vontade; sim, nesses momentos, resolvi manifestar boa natureza, embora pense que em outros aspectos isso seria desvantajoso, do mesmo modo que poderia ser imprudente em outras ocasiões. 12 de maio, 11 e 13 de julho.
  59. Resolvi, quando meus sentimentos começarem a parecer, por pouco que seja, desordenados, quando estiver cônscio da menor inquietude interior, ou da menor irregularidade exterior, então me submeterei ao mais estrito exame. 4 e 13 de julho, 1723.
  60. Resolvi, que não darei lugar àquela torpeza que descubro afrouxar e relaxar minha mente de estar plena e fixamente colocada na religião, seja qual for a desculpa que para isso tenha, ao pensar que o que minha torpeza me inclinar a fazer é o melhor a ser feito, e coisas semelhantes. 21 de maio e 13 de julho, 1723.
  61. Resolvi, nada fazer senão o que for meu dever, e, de acordo com Ef 6:6-8 [não servindo à vista, como para agradar a homens, mas como servos de Cristo, fazendo, de coração, a vontade de Deus; 7 servindo de boa vontade, como ao Senhor e não como a homens, 8 certos de que cada um, se fizer alguma coisa boa, receberá isso outra vez do Senhor, quer seja servo, quer livre.], fazê-lo alegre e voluntariamente, como ao Senhor e não a homens: sabendo que qualquer boa coisa que o homem faz, o mesmo se receberá do Senhor. 25 de junho e 13 de julho, 1723.
  62. Na hipótese de que jamais houve um indivíduo no mundo, a qualquer tempo, que foi propriamente um cristão completo, que tenha sido em todos os aspectos de um caráter justo, tendo o cristianismo sempre brilhando em seu verdadeiro esplendor, e mostrando-se excelente e amável, de qualquer parte e ângulo observado: Resolvi, agir de tal maneira que lute com todas as minhas forças para ser esse cristão, ainda que seja o único de minha época. 14 de jan. e 13 de jun., 1723.
  63. Resolvi, quando descobrir aqueles “gemidos inexprimíveis”, de que fala o apóstolo, e o que fala o salmista sobre “consumida está a minha alma por desejar”, que irei promovê-los com o máximo de minhas forças; e que não serei remisso em prontamente me esforçar para liberar meus desejos; nem deixarei de perseverar nesse sentido. 23 de jul. e 10 de ago., 1723.
  64. Resolvi, nisto me exercitar, por toda a minha vida, isto é, com a maior abertura de que seja capaz, declarar meus caminhos a Deus, e abrir minha alma para ele: todos os meus pecados, tentações, dificuldades, dores, esperanças, desejos, e tudo, e cada circunstância, de acordo com o sermão do Dr. [Thomas] Manton no salmo 119. 26 de jul. e 10 de ago., 1723.
  65. Resolvi, que me esforçarei sempre para manter um aspecto benigno, no agir e no falar, em todos os lugares, e em todas as companhias, exceto se meu dever exigir que faça o contrário.
  66. Resolvi, após aflições, inquirir elas me trouxeram de bom, e o que poderia ter obtido delas.
  67. Resolvi, confessar francamente a mim mesmo tudo o que achar em mim, quer de enfermidade ou pecado; e, se isto também se relacionar à religião, também confessar tudo a Deus, e implorar o seu auxílio. 23 de jul. e 10 de ago., 1723.
  68. Resolvi, sempre fazer aquilo que desejaria ter feito quando vir outros realizando. 11 de ago. 1723.
  69. Que sempre haja algo benevolente em tudo o que eu falar. 17 de agosto de 1723.
Estas foram as excelentes Resoluções tomadas por Jonathan Edwards em um período precoce de sua vida, e que foram posteriormente encaradas por ele não como registros menos importantes, mas como contendo os maiores princípios de sua vida espiritual. Um profundo e extenso conhecimento do coração é manifesto nessas Resoluções; uma convicção de seus defeitos; uma vívida apreensão de seus perigos; e um intenso cuidado de que todas as suas inclinações fossem em direção a Deus, e a toda coisa exigida pela sua santa vontade. Há uma notável ternura de consciência descoberta em cada exemplo que foi declarado. O homem que pôde assim escrever não era alguém que poderia facilmente menosprezar o pecado, ou que poderia adentrar em qualquer de seus caminhos sem a imediata reprovação de uma consciência ofendida. Este santo homem tremia mesmo ao contemplar à distância o pecado; não poderia voluntariamente se aproximar e contemplar suas seduções. Acostumado a respirar uma atmosfera santa, a menor nuvem de corrupção imediatamente afetava sua disposição espiritual. Não conhecia felicidade senão a que estava conectada com uma consciência vazia de ofensa. Todas estas regras eram as sugestões da consciência de um caráter altamente iluminado. Também indicam um senso constante da presença e das observações exatas do Perscrutador de todos os corações. Ele vivia como se visse o que é invisível; tinha o Senhor sempre diante de si, o encorajando em todas as ocasiões para um ávido zelo pela glória de Deus, o objeto maior para o qual desejava viver tanto na terra quanto no céu, objeto que quando era comparado a todas as outras coisas à sua vista elas nada mais eram do que ninharias. Se isso era alcançado, todos os seus desejos eram satisfeitos; mas se era perdido, ou alcançado imperfeitamente, sua alma se enchia de angústia. Essas Resoluções dão amplo testemunho do quanto o autor adentrou no espírito de 1 Co 10:31: “Quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus.” Também ilustram suas opiniões sobre a importância da consistência do caráter. Ele não se contentava com visões corretas da verdade, ou qualquer tipo de profissão exterior, aparte da santa consistência de caráter. Estudava, admirava e exibia a influência do evangelho; um andar “digno da vocação para a qual foi chamado” era o objeto elevado ao qual ardentemente aspirava. Ele bem sabia que se requer dos seguidores de Cristo que “preservem a palavra da vida,” que brilhem como luzeiros do mundo, que instruam pelos seus exemplos bem como por suas palavras; e desejava honrar a Deus apresentando aos membros do reino espiritual, e também ao mundo, um modelo que pudesse declarar a realidade e beleza da religião. Além disso, é manifesto a partir destas Resoluções, que sua mente era muito ansiosa para avançar diariamente em cada ramo da santidade. Havia nele um princípio espiritual ativo, que o fazia romper com todos os obstáculos do caminho. Não conseguia se contentar quando ainda restava nele um pecado, enquanto uma graça estava em falta, ou um mero dever realizado, porém imperfeitamente. Aspirava pela santa perfeição do mundo celestial, e antecipava com alegria aquele dia em que despertaria com a semelhança divina. Não é surpresa que, com estes sentimentos e opiniões tenha alcançado um caráter exaltado raramente igualado e talvez nunca superado.

As Resoluções que deram ensejo a estas reflexões são provavelmente “para pessoas de qualquer idade, mas em especial para as jovens, o melhor resumo não inspirado do dever cristão, a melhor instrução para altas realizações na virtude evangélica, que a mente humana até aqui foi capaz de formar.” Elas desvendam o próprio caráter de seu autor, e são admiravelmente calculadas para aprimorar o caráter de todo leitor que teme o pecado, e se regozija na pureza da vontade Divina.
_______________
Por Sereno E. Dwight
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A Natureza da Igreja - 1ª Mensagem

Prometida Antes dos Tempos Eternos


John MacArthur
Ano: 1995
11ª Edição da Conferência Fiel para Pastores e Líderes
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domingo, 22 de fevereiro de 2015

Testemunho do irmão de dois cristãos coptas mortos pelo Estado Islâmico

A morte de 21 cristãos coptas egípcios pelas mãos dos terroristas do Estado Islâmico desencadeou uma série de ações militares em retaliação à barbárie, mas também despertou o interesse da mídia por ouvir os parentes dos mártires decapitados em uma praia da Líbia.

Um programa de televisão da emissora SAT7Arabic entrevistou o irmão de dois dos homens mortos pelo Estado Islâmico, e as palavras de testemunho desse homem foram surpreendentes.

O vídeo do testemunho foi publicado com legendas em português no canal da Igreja Batista Betel de Mesquita no YouTube, com tradução Martha Christo da Silva. 

Na entrevista, Beshir revela que seus irmãos, Bishoy e Samuel, tinham 25 e 23 anos respectivamente, e os trata como mártires. Questionado como se sentia a respeito do triste episódio, Beshir diz que a perseguição aumentou sua fé em Deus. 

Em uma demonstração de amor ao próximo, Beshir contou que os familiares dos mártires executados pelos extremistas muçulmanos não estavam de luto, mas sim, celebrando o fato de que seus parentes se mantiveram fiéis a Jesus Cristo até o fim, e que haviam perdoado os executores. 

Ele revelou que sua mãe havia dito que, se encontrasse com um dos assassinos de seus filhos, o convidaria para entrar em sua casa, oraria por ele para que Deus o abrisse seus olhos sobre os ensinos equivocados que recebeu e o diria que o Estado Islâmico ajudou aqueles cristãos a entrarem no Reino dos Céus. 

O apresentador e a plateia do programa ouviram atentamente as palavras de Beshir, e não esconderam a emoção por estarem em contato com uma das pessoas que mais sofreram com o crime do Estado Islâmico, mas que não deixou que isso jogasse fora a transformação proporcionada pelo Evangelho.



Texto: Tiago Chagas
Fonte: Gospel+
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Eu creio nos 5 solas da Reforma


Somos uma igreja herdeira da Reforma protestante do século XVI. Os 5 pilares da nossa herança são:
Sola Scriptura: somente a Escritura SagradaSolus Christus: somente em CristoSola gratia: somente a graçaSola fide: somente a fé Soli Deo gloria: somente a Deus toda glória 
1. Somente a Escritura Sagrada: é a nossa única fonte e regra de fé e prática.

O calvinismo possui o seu sistema doutrinário centrado na Escritura Sagrada. Desde a Reforma do século XVI foi ensinada a doutrina da sola Scriptura – ou seja, que a Escritura é a única fonte e regra de autoridade. Entretanto, a autoridade da Escritura resultado do fato dela ser a Palavra de Deus. John H. Armstrong corretamente observa que “a autoridade é encontrada no próprio Deus soberano. O Deus que ‘soprou’ as palavras por meio dos escritores humanos está por trás de toda afirmação, toda doutrina, toda promessa e toda ordem contidas na Escritura”.[1] Se rejeitarmos a Escritura Sagrada estamos desprezando a vontade preceptiva de Deus.

A Bíblia tem autoridade porque ela é revelação da vontade de Deus. Por isso, “as inspiradas Escrituras, revelando a vontade transcendente de Deus em forma escrita e objetiva, são a regra de fé e conduta através da qual Jesus exerce sua autoridade divina na vida do crente.”[2] Em outras palavras, esta doutrina significa que a base da nossa doutrina, forma de governo de igreja, culto e todas as esferas da vida, não se fundamentam no tradicionalismo, no subjetivismo, no relativismo, no pragmatismo, ou no pluralismo, mas é extraída somente na Escritura Sagrada. Cremos que suficientemente ela é a verdade absoluta, porque somente a Escritura é a Palavra de Deus (2 Tm 3:16-17; 2 Pe 1:19-20).

2. Somente Cristo: o único mediador da nossa salvação. 

O nosso Senhor Jesus se fez um de nós para ser o nosso substituto. Ele é o nosso único representante diante de Deus. O Pai firmou o pacto da redenção que estipulava que o Filho viesse ao mundo para cumprir a sua vontade (Jo 4:34; 6:38-40; 10:10). A Confissão de Fé de Westminster declara que 
aprouve a Deus em seu eterno propósito, escolher e ordenar o Senhor Jesus, seu Filho Unigênito, para ser o Mediador entre Deus e o homem, o Profeta, Sacerdote e Rei, o Cabeça e Salvador de sua Igreja, o Herdeiro de todas as coisas e o Juiz do Mundo; e deu-lhe desde toda a eternidade um povo para ser sua semente e para, no tempo devido, ser por ele remido, chamado, justificado, santificado e glorificado.[3]
Não temos outro mediador pelo qual possamos ser reconciliados com Deus, a não ser Jesus Cristo (At 4:11-12; 1 Tm 2:5). A sua obra lhe confere autoridade para declarar justo todos quantos o Pai lhe deu (Jo 6:37,39,65). Toda a obra expiatória de Jesus é suficiente para a nossa salvação (Rm 8:1). Somente através da perfeita obra de Cristo seremos salvos. A nossa culpa e merecida condenação caiu sobre ele (Hb 2:10). A sua obediência ativa cumpriu todas as exigências da Lei, bem como submetendo passivamente à condenação, fez com que pela sua humilhação, obtivesse plena satisfação da justiça de Deus. O Pai retirou o seu consolo e derramou sobre Cristo a sua ira divina, punindo nele o nosso pecado. As nossas iniquidades estavam sobre o Filho, e a justa ira de Deus veio sobre o nosso pecado na cruz (Hb 2:10). Jesus tornou-se amaldiçoado em nosso lugar sobre o madeiro (2 Co 5:21). O Filho de Deus sofreu os tormentos do inferno intensivamente na cruz, o que sofreríamos extensivamente na eternidade. Cremos que a sua morte expiatória na cruz satisfez a justiça de Deus e, eliminou completamente a nossa condenação futura (Rm 3:24-25), redimindo-nos de todos os nossos pecados (Ef 1:7).

3. Somente a graça: a única causa da nossa aceitação.

Cremos que a salvação do homem não é resultado de algum mérito pessoal (Rm 3:20, 24, 28; Ef 2:1-10). Todo ser humano possui uma disposição moral totalmente corrompida, de modo que, ele é incapaz de satisfazer perfeitamente a Lei de Deus (Tg 2:8-10). O empenho de merecer a salvação pelas boas obras somente resulta em condenação. Sem a graça a nossa predisposição natural é somente para o pecado (Rm 7:13-25).

A Escritura nos revela que todo ser humano em seu estado natural é inimigo de Deus (Rm 3:23; 5:10). O teólogo puritano Stephen Charnock observou que “todo pecado é uma espécie de amaldiçoar a Deus no coração. O homem tenta destruir e banir Deus do coração, não realmente, mas virtualmente; não na intenção consciente de cada iniquidade, mas na natureza de cada pecado.”[4] A dureza de coração lhe é normal, porque ele está rígido como uma pedra (Ez 36:26-27).

O livre arbítrio perdeu-se com a Queda.[5] Esta capacidade de agir contrário à própria natureza foi perdida com a escravidão do pecado. No início, Adão criado em santidade, foi capaz de escolher contrário à sua inclinação natural de perfeita santidade e, decidiu pecar. O primeiro homem livremente passou a agir de acordo com a escravidão dos desejos mais fortes da sua alma corrompida pela iniquidade. Ele é livre, mas a sua liberdade é usada tendenciosamente para pecar conforme os impulsos de sua inclinação para o pecado. Se ele for deixado para si mesmo, ele sempre agirá de acordo com a sua disposição interna, ou seja, naturalmente escolherá pecar (Rm 1: 24-32; 3:9-18; 7:7-25; Gl 5:16-21; Ef 2:1-3).

A nossa salvação é resultado da ação da livre e soberana graça do nosso Deus. A Confissão de Fé de Westminster declara que
todos aqueles que Deus predestinou para a vida, e só esses, é ele servido, no tempo por ele determinado e aceito, chamar eficazmente pela sua palavra e pelo seu Espírito, tirando-os por Jesus Cristo daquele estado de pecado e morte em que estão por natureza, e transpondo-os para a graça e salvação. Isto ele o faz, iluminando os seus entendimentos espiritualmente a fim de compreenderem as coisas de Deus para a salvação, tirando-lhes os seus corações de pedra e dando lhes corações de carne, renovando as suas vontades e determinando-as pela sua onipotência para aquilo que é bom e atraindo-os eficazmente a Jesus Cristo, mas de maneira que eles vêm mui livremente, sendo para isso, dispostos pela sua graça.[6]
Somente a ação soberana e eficaz do Espírito Santo é capaz de regenerar corações implantando uma nova disposição santa. O resultado é a libertação da escravidão do pecado. Esta obra Deus a realiza pela graça somente.

4. Somente a fé: é o único instrumento de posse da nossa salvação.

A fé é o meio normal pelo qual o Espírito Santo aplica o processo da salvação nos eleitos. Entretanto, devemos lembrar que a fé é dom de Deus e não uma virtude humana (Rm 4:5; 10:17; Ef 2:8-9; Fp 1:9). O Breve Catecismo de Westminster define este dom: “fé em Jesus Cristo é uma graça salvadora, pela qual o recebemos e confiamos só nele para a salvação, como ele nos é oferecido no Evangelho.” O Catecismo de Heidelberg esclarece que
a verdadeira fé é a convicção com que aceito como verdade tudo aquilo que Deus nos revelou em sua Palavra. É também a firme certeza de que Deus garantiu – não só aos outros como também a mim – perdão de pecados, justiça eterna, e salvação por pura graça e somente pelos méritos de Cristo. O Espírito Santo realiza essa fé em meu coração por meio do evangelho.[7]
Por isso, a teologia reformada entende que a verdadeira fé é o resultado de um iluminado conhecimento, da plena concordância verdade e da firme confiança na Palavra de Deus.

A justificação vem pela fé somente na obra de Cristo. Nenhum homem pode ser salvo, a não ser que creia na expiação realizada por Cristo, confiando exclusivamente nele (Rm 1:17; Tt 3:4-7; 1 Jo 5:1). A justiça de Cristo que é imputada sobre nós concede, garante e mantém-nos aceitos na comunhão eterna de Deus.

A verdadeira fé conduz as boas obras que evidenciam a salvação e glorificam a Deus. A salvação é pela fé somente, mas a fé salvadora nunca está sozinha. A fé salvadora produz amor prático ao próximo, santidade pessoal em obediência à Palavra de Deus. A Escritura Sagrada declara que “pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Ef 2:10).

5. Somente a Deus toda glória: o único objetivo da nossa salvação.

Cremos no único Deus, que é Senhor da história e do universo, “que faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade” (Ef 1:11). É nossa convicção que a finalidade principal da vida não é necessariamente o bem-estar, a saúde física, a prosperidade, a felicidade, ou mesmo a salvação do homem, mas, a glória de Deus e na manifestação de todos os seus atributos. Johannes G. Vos comentando o Catecismo Maior de Westminster observa que “quem pensa em gozar a Deus sem o glorificar corre o risco de supor que Deus existe para o homem, e não o homem para Deus. Enfatizar o gozar a Deus mais do que o glorificar a Deus resultará num tipo de religião falsamente mística ou emocional.”[8] Deus não existe para satisfazer as necessidades do homem, embora ele o faça por amor de si mesmo (Ez 20:14). O homem foi criado para o louvor da glória de Deus (Rm 11:36; Ef 1:6-14).[9]

É verdade que a glória de Deus transcende ao nosso entendimento, mas ela pode ser percebida pela sua manifestação na criação e pela revelada Palavra da Deus. João Calvino no início de suas Institutas escreve que
a soma total da nossa sabedoria, a que merece o nome de sabedoria verdadeira e certa, abrange estas duas partes: o conhecimento que se pode ter de Deus, e o de nós mesmos. Quanto ao primeiro, deve-se mostrar não somente que há um só Deus, a quem é necessário que todos prestem honra e adorem, mas também que Ele é a fonte de toda verdade, sabedoria, bondade, justiça, juízo, misericórdia, poder e santidade, para que dele aprendamos a ouvir e a esperar todas as coisas. Deve-se, pois, reconhecer, com louvor e ação de graças, que tudo dele procede.[10]
Mas, por que a nossa felicidade depende da glória de Deus? Simplesmente porque a nossa dignidade e satisfação dependem de vivermos sem a insensatez, vícios e destruição causados pelo pecado. Somente quando obedecemos à vontade de Deus, segundo as Escrituras, podemos andar aceitáveis em sua presença e desfrutar dos benefícios das suas promessas. Aurélio Agostinho em sua obra Confissões declarou que “Tu o incitas para que sinta prazer em louvar-te; fizeste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em ti.”[11] Assim, quanto maior for a nossa satisfação em Deus, ele será mais glorificado em nós!

O soberano Senhor não compartilha a sua glória com ninguém! O nosso orgulho é uma ofensa gravíssima ao nosso Deus. Não é em vão que ele denúncia a sua rejeição aos soberbos (Tg 4:6-10). Somente ele é o Altíssimo, enquanto o pecador consegue em suas fúteis pretensões ser apenas uma ilusória altivez. Não podemos esquecer de que somos chamados para ser servos do seu reino, e de que toda a abrangência de nossa vida está ao seu serviço (Rm 11:36).

O profeta Jeremias disse que “assim diz o SENHOR: não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem se glorie o forte na sua força; não se glorie o rico nas suas riquezas; mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em entender, e em me conhecer, que eu sou o SENHOR, que faço benevolência, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o SENHOR.” (Jr 9:23-24). Assim, em compromisso, confessamos que “porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém.” (Rm 11:36). 
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Por Rev. Ewerton B. Tokashiki

NOTAS:
[1] John H. Armstrong, “A autoridade da Escritura” in: Bruce Bickel, ed., Sola Scriptura numa época sem fundamentos, o resgate do alicerce bíblico (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2000), p. 90.
[2] Carl F.H. Henry, “A autoridade da Escritura” in: Philip W. Comfort, ed., A origem da Bíblia (Rio de Janeiro, CPAD, 1998), p. 28.
[3] Confissão de Fé de Westminster VIII.1.
[4] Stephen Charnock, The Existence and the Attributes of God (Grand Rapids, Baker Books, 2000), vol. 1, p. 93.
[5] A tradição agostiniana/calvinista interpreta a doutrina do livre arbítrio da seguinte forme: “o livre arbítrio é dividido em quatro modos, por causa dos quatro estados do homem. No primeiro estado a vontade do homem era livre para o bem e para o mal. No estado caído o homem é livre somente para o mal. O homem nascido de novo, ou o homem em estado de graça, é livre do mal e para o bem, pela graça de Deus somente, mas imperfeitamente. No estado de glória ele será perfeitamente livre do mal para o bem. No estado de inocência o homem era capaz de não pecar [posse non peccare]. No estado de miséria ele é incapaz de não pecar. No estado de graça, o pecado não pode governar o homem. No estado de glória ele se tornará incapaz de pecar.” Johannes Wollebius, Compendium Theologicae Christianae in: John W. Beardslee III, ed., Reformed Dogmatics (Grand Rapids, Baker Books, 1977), p. 65. Este manual de teologia de Wollebius [1586-1629] influenciou os teólogos que elaboraram os Padrões de Westminster.
[6] Confissão de Fé de Westminster, X.1.
[7] Catecismo de Heidelberg, Domingo 7, perg./resp. 21.
[8] Johannes G. Vos, Catecismo Maior de Westminster Comentado (Editora Os Puritanos), pág. 32.
[9] Breve Catecismo de Westminster, perg./resp. 1.
[10] João Calvino, Institutas, (edição estudo de 1541), vol. I, p. 55.
[11] Santo Agostinho, Confissões (Editora Paulus), vol. 10, p. 19.

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Via: Bereianos
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Os Cânones de Dort - Aula 06/10


Por Franklin Ferreira
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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Antologia [07/12]

Por São João Crisóstomo
ca. 347, Antioquia a 14 de setembro de 407, Comana Pôntica

Luta Interior
1. Mal somos atingidos por uma doença corporal, não deixamos de tentar nada, até nos vermos livres da moléstia; estando, no entanto, a nossa alma doente, às vezes, tudo são vacilações e atrasos [...]: fazemos do necessário acessório, e do acessório necessário. Deixamos aberta a fonte dos males e desejamos secar os arroios. (Homilias sobre São Mateus, 14, 3) 
2. O que quero é pedir-vos e suplicar-vos novamente que imiteis pelo menos as crianças pequenas na escola. Estas, antes de mais nada, aprendem a forma das letras; depois começam a distinguir as cursivas, e assim, passo a passo, chegam a aprender a ler. Façamos nós o mesmo: dividindo em partes a virtude, aprendamos primeiro a não imprecar, não perjurar, não maldizer; a seguir, passando à letra seguinte, a não invejar ninguém, a não amar os corpos, a não nos entregarmos à gula e a embriaguez, a não ser cruéis, a não ser indolentes. Depois, passando às letras espirituais, estudemos a continência, a mortificação do ventre, a castidade, a justiça, o desprezo da glória; sejamos modestos, contritos de coração, e, ligando essas virtudes umas às outras, escrevamo-las na nossa alma.
Podemos exercitar todas essas coisas na nossa própria casa: com os amigos, com a mulher e com os filhos. Para já, comecemos com o mais simples, como, por exemplo, não deprecar. Estudemos constantemente esta letra na nossa própria casa. Sem dúvida, não nos faltarão em casa pessoas que venham perturbar este estudo: é o escravo que vos irrita; a mulher que, com o seu mau humor, vos tira do sério; e o menino que, com as suas travessuras e rebeldias, vos faz prorromper em ameaças e imprecações. Pois bem, se em casa, aguilhoados constantemente por todos estes, conseguirdes não ser arrastados a dizer imprecações, facilmente saireis indenes também em praça pública. Mais ainda: se em casa não insultares a tua mulher nem o teu escravo nem outro qualquer, conseguirás não insultar absolutamente ninguém.
É verdade que a tua mulher muitas vezes se põe a louvar fulano e a chorar como uma desgraçada, e te dá assim razões suficientes para prorromperes em maldições contra o outro. Mas tu não te irrites nem maldigas o louvado, antes suporta tudo generosamente. Se ouvires os teus escravos louvarem igualmente outros senhores, também não te perturbes, mas permanece sempre sereno. Seja a tua casa um lugar de combate e adestramento na virtude. Bem exercitado em casa, sustentarás com muita destreza os combates em praça pública. (Homilias sobre São Mateus, 11, 8) 
3. Não há nada, por fácil que seja, que a nossa tibieza não apresente como difícil e pesado; como nada há tampouco tão difícil e penoso que o nosso fervor e determinação não o torne fácil e leve. (Tratado sobre a compunção, 1, 5) 
4. [As tentações] servem em primeiro lugar para que percebas que agora és mais forte. Depois, para que tenhas moderação e humildade, e não te empertigues pela grandeza dos dons recebidos, porque as tentações podem muito bem reprimir o teu orgulho. Além disso, a malícia do demônio, que talvez duvide de que realmente o abandonaste, pode pela prova das tentações ter plena certeza de que te afastaste dele definitivamente. Quarto motivo: as tentações tornam-te mais forte do que o ferro mais bem temperado. Quinto: dão-te a melhor prova de como são preciosos os tesouros que te foram confiados, porque, se o diabo não tivesse visto que agora estás constituído na mais alta honra, não te atacaria. (Homilias sobre São Mateus, 13, I)
5. O grave não é que aquele que luta, caia, mas que permaneça caído. O grave não é ser ferido na guerra, mas desesperar-se depois de receber o golpe e não cuidar da ferida. Um mercador não deixa de navegar por ter sofrido naufrágio certa vez e perdido a carga. Retoma ao mar e desafia as ondas e atravessa os oceanos, e acaba por recuperar a sua riqueza. E assim vemos também muitos atletas que, depois de grandes quedas, conseguiram ser coroados; e muitas vezes aconteceu que um soldado, que primeiro havia dado as costas ao inimigo, depois voltou atrás e lutou como um valente e venceu o inimigo. Muitos, por fim, que negaram a Cristo forçados pela violência dos tormentos tornaram depois ao combate e saíram deste mundo cingindo a coroa do martírio. Se cada um destes se tivesse deixado tomar pelo desalento ao primeiro golpe, não teria alcançado os bens que alcançou mais tarde. Assim também tu, querido Teodoro, não deves precipitar-te a ti mesmo no abismo só porque te afastaste um pouco do teu estado. Não. Resiste valorosamente e retoma depois ao lugar de onde saíste, e não tenhas por desonra teres um dia recebido esse golpe. Se visses um soldado que retoma ferido da guerra não o considerarias desonrado; desonra é lançar fora as armas e deixar o campo de batalha. Mas enquanto a pessoa se mantiver firme no seu posto e se empenhar em combater, mesmo que seja ferida, mesmo que tenha de retroceder alguns passos, ninguém será tão insensato nem tão inexperiente nas coisas da guerra que se atreva a lançar-lho em rosto. Não ser ferido é próprio somente daqueles que não lutam; mas aqueles que se lançam com grande ímpeto contra o inimigo, é natural que vez por outra sejam atingidos por um golpe e caiam. Isto é o que te aconteceu agora: quiseste matar a serpente de um só golpe e foste mordido por ela. Mas, anima-te; com um pouco de vigilância, não ficará o menor rasto dessa ferida e até, com a graça de Deus, conseguirás esmagar a cabeça da serpente. (Exortação 2 a Teodoro, 1)  
6. Quando falta a nossa cooperação, cessa também a ajuda divina. (Homilias sobre São Mateus, 50, 2) 
7. Um chefe no campo de batalha estima mais o soldado que, depois de ter fugido, volta e ataca com ardor o inimigo, que o que nunca voltou as costas, mas também nunca realizou uma ação valorosa. (Comentário à primeira Carta aos Coríntios, 3)
8. Para que servem umas plantas que depressa florescem e pouco depois murcham? Não, o Senhor exige dos seus uma resistência constante. (Homilias sobre São Mateus, 33, 5) 
9. As árvores que crescem em lugares sombreados e livres de ventos, enquanto externamente se desenvolvem com aspecto viçoso, tornam-se moles e quebradiças, e qualquer coisa as fere facilmente; ao contrário, as que vivem nos cumes dos montes mais altos, agitadas por muitos e fortes ventos, sempre expostas à intempérie e às inclemências, batidas por fortes tempestades e cobertas de neves constantes, tornam-se mais robustas que o ferro. (Homilia sobre a glória na tribulação)
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Fonte: Monergismo
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