quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Memórias de Jonathan Edwards - Capítulo 1


NASCIMENTO – PARENTESCO – PRIMEIROS AVANÇOS RELIGIOSOS – SÉRIAS IMPRESSÕES E RELATO DE SUA EXPERIÊNCIA

Poucos indivíduos já apareceram na igreja de Deus que mereceram, e, de fato, receberam, mais altos tributos de respeito do que Jonathan Edwards. Seus poderes intelectuais eram incomuns, e sua diligência no cultivo desses poderes está fortemente marcada nessa vasta extensão da maior parte do conhecimento que ele possuía. Se o considerarmos como se igualando a Hartley, Locke e Bacon, na escala do intelecto, pouco temos a temer de que sua habilitação a tal distinção seja contestada. Sua mente poderosa captava com facilidade aqueles assuntos nos quais outros falhavam. Ele via a verdade quase intuitivamente, e era igualmente afiado na detecção do erro em todos os seus variados contornos. Este homem distinto reivindica admiração, não meramente com base na força incomum dos poderes intelectuais, e pela intensa aplicação da mente, recompensada com realizações proporcionais, mas também como um servo muito humilde e devoto de Cristo. Trazia tudo o que havia recebido ao seu serviço, e vivia apenas para Ele. Sua alma era, de fato, um templo do Espírito Santo, e sua vida manifestava uniformemente toda a simplicidade, pureza, desinteresse e o caráter elevado do evangelho de Cristo. A glória de Deus era seu objeto supremo, seja quando ocupado em seus exercícios devocionais, seus estudos, suas relações sociais, o ofício de seu ministério pastoral, ou nas publicações de seus escritos. Todos os motivos inferiores parecem não ter tido qualquer influência detectável sobre ele. Enquadrava-se plenamente na linguagem expressiva de Paulo: “Pois o amor de Cristo nos constrange,” “Para mim, o viver é Cristo.” Seu exemplo pessoal instruirá, animará e encorajará por muito tempo, e seus escritos necessariamente serão muito altamente estimados enquanto prevalecer o amor pela verdade.

Foi com justiça observado que: “O número daqueles homens que produziram grandes e permanentes mudanças no caráter e condição da humanidade, e estamparam sua própria imagem nas mentes das gerações subsequentes, é comparativamente pequeno. E, até mesmo desse pequeno número, o grosso deve sua superior eficiência, ao menos em parte, a circunstâncias externas, enquanto que a muitos poucos pode-se atribuí-lo à simples força do próprio intelecto. Contudo, aqui e ali, pode-se achar um indivíduo que, pela sua mera energia mental, mudou o curso do pensamento e sentimento humano, e conduziu a humanidade adiante nesse novo e melhor caminho que abriu para a sua vista.Jonathan Edwards foi um desses indivíduos. Nascido em uma colônia obscura, no meio de um ermo, e educado em um seminário que dava seus primeiros passos, passou a melhor parte de sua vida como pastor de uma vila fronteiriça, e o restante como missionário para os índios, em um acampamento ainda mais humilde. Ele descobriu, e desvendou um sistema do governo moral divino tão novo, tão claro, tão pleno, que, logo na sua primeira revelação, nem necessitou de algum auxílio de seus amigos, nem temeu oposição alguma de seus inimigos, e, por fim, constrangeu um mundo relutante a se curvar em cortesia à sua verdade.”

Jonathan Edwards nasceu no dia 5 de outubro de 1703, em Windsor, às margens do [Rio] Connecticut. Seu pai, o Rev. Timothy Edwards, era pastor daquele lugar há cerca de 60 anos. Timothy Edwards morreu em janeiro de 1758, aos 89 anos de idade, menos de dois meses antes de seu único filho. Era um homem de grande piedade e prática. No dia 6 de novembro de 1694, casara-se com Esther Stoddard, filha do reverenciado e celebrado Solomon Stoddard, de Northampton, quando esta tinha 23 anos. Viveram juntos como casados por mais de 63 anos. A Sra. Edwards, mãe de nosso autor, nascera em 2 de julho de 1672, e viveu até quase os noventa anos de idade, (alguns anos a mais que seu filho); um exemplo notável de pouca perda dos poderes mentais em tão avançada idade. Este venerável casal teve onze filhos: um homem, o objeto destas memórias, e dez mulheres, quatro das quais eram mais velhas, e seis mais novas que ele.

Devido ao caráter altamente espiritual e às realizações intelectuais de seus pais, se poderia naturalmente esperar que sua educação primária fosse acompanhada de vantagens incomuns. E assim aconteceu. Muitas foram as preces apresentadas pela afeição paternal para que esse único e amado filho pudesse ser cheio do Espírito Santo, que conhecesse desde a infância as Santas Escrituras e fosse grande aos olhos do Senhor. Aqueles que, com esse fervor e constância, o recomendavam a Deus, manifestavam igual diligência em treiná-lo para Deus. A oração estimulava a ação, e a ação, por seu turno, era novamente encorajada pela oração. O círculo doméstico era um cenário de súplica, e também de instrução. Na residência de tais servos exemplares de Deus, a instrução abundava. Aquilo que o olho via, bem como o que o ouvido ouvia, formava uma lição. Nada havia no exemplo dos que ensinavam que diminuísse a força da instrução. Nada havia nos hábitos sociais que fosse contrário às lições de sabedoria, e infundissem aqueles princípios que, após anos, produziam o fruto da tolice e do pecado. Ao contrário, havia tudo para alargar, purificar e elevar o coração, e ao mesmo tempo treinar a mente para aqueles exercícios do pensamento, dos quais somente se podem esperar eminentes realizações.

As fiéis instruções religiosas de seus pais “o tornaram, quando criança, familiarmente íntimo com Deus e com Cristo, com seu próprio caráter e dever, com o caminho da salvação, e com a natureza daquela vida eterna que, começando na terra, é aperfeiçoada no céu.” Suas orações não foram esquecidas, e seus esforços não permaneceram sem efeito. No progresso da infância, ele foi, em diversos momentos, objeto de fortes impressões religiosas. “Isso foi particularmente verdadeiro alguns anos antes de ir para a faculdade, durante um poderoso reavivamento da religião na congregação de seu pai. Ele, e dois outros rapazes de sua idade, que tinham os mesmos sentimentos que ele, levantaram uma tenda em um lugar muito retirado, num pântano, para servir como lugar de oração, e se retiravam para ali para a oração social. Isso continuou por um longo período; mas as impressões, ao fim, desapareceram, e, em sua própria opinião, não foram seguidas por quaisquer efeitos permanentes de uma natureza salutar.”

O período exato quando considerou ter entrado na vida religiosa, não menciona em lugar algum, nem foi achado qualquer registro da época em que fez a pública profissão da religião. Até mesmo a igreja a qual se afiliou certamente não teria sido conhecida, não fora o fato de que, em uma ocasião, alude a si mesmo como membro da igreja em East Windsor. Baseado em várias circunstâncias, parece que o tempo em que se uniu a ela não foi muito distante da época de sua partida para a faculdade. Das opiniões e sentimentos de sua mente sobre esse assunto tão importante, tanto antes quanto após esse evento, há um relato bastante satisfatório e instrutivo que foi achado entre seus papéis, escritos por sua própria mão, cerca de vinte anos depois, para seu uso privado. É como se segue:

Tive uma variedade de preocupações e exercícios acerca da minha alma desde a minha infância; mas tive duas temporadas mais notáveis de despertamento, antes que encontrasse com aquela mudança pela qual fui trazido a estas novas disposições, e a este novo senso das coisas, que tenho tido desde então.

A primeira vez foi quando eu era um garoto, alguns anos antes de ir para a faculdade, em uma época de notável despertamento na congregação de meu pai. Fui, então, profundamente afetado por muitos meses, e me preocupava com as coisas da religião, e com a salvação de minha alma e abundava nos deveres religiosos. Costumava orar em secreto, cinco vezes ao dia, e gastava muito tempo em conversas religiosas com outros garotos, e costumávamos nos encontrar para orarmos juntos. Experimentava não sei que tipo de deleite na religião. Minha mente muito se ocupava nisso, e tinha muito prazer na justiça própria, e era meu deleite abundar nos deveres religiosos. Eu, com alguns colegas de escola, nos ajuntamos e construímos uma tenda em um pântano, em um lugar bastante retirado, para servir como lugar de oração. Além disso, tinha lugares secretos particulares na floresta, para onde costumava me retirar, e era, de tempos em tempos, muito afetado. Minhas afeiçoes pareciam ser vívidas e facilmente movidas, e eu parecia estar em meu momento mais feliz quando me ocupava nos deveres religiosos. Estou pronto a pensar que muitos são enganados com essas afeições, e com esse tipo de deleite, como então eu tinha na religião, e o confundem com a graça.

Mas, com o passar do tempo, minhas convicções e afeições se deterioraram, e eu perdi inteiramente todas aquelas afeições e deleites, e abandonei a oração secreta, ao menos quanto a qualquer preferência constante por ela. Retornei como um cão ao seu vômito, e continuei nos caminhos do pecado. Na realidade, às vezes me sentia muito incomodado, especialmente na última parte do meu tempo na faculdade, quando agradou a Deus me atingir com a pleurisia [infecção das pleuras pulmonares], com a qual me trouxe à beira do túmulo, e me sacudiu sobre o abismo do inferno. E não demorou muito tempo após minha recuperação, antes que caísse novamente nos meus antigos caminhos de pecado. Mas Deus não permitiria que continuasse com aquela tranquilidade. Tinha grandes e violentas lutas interiores, até que, após muitos conflitos com as inclinações ímpias, repetidas resoluções e compromissos, com os quais me obrigava, por votos, a Deus, fui levado a romper completamente com todos os caminhos ímpios e com todas as formas de pecado exterior conhecidas, e a me aplicar na busca da salvação, e a praticar muitos deveres religiosos, mas sem aquele tipo de afeição e deleite que anteriormente tinha experimentado.

Minha preocupação agora gerava mais lutas e conflitos internos, e autorreflexão. Fiz da busca da salvação a principal ocupação da minha vida. Contudo, parece a mim que a buscava de um modo miserável, o que me fez algumas vezes desde então questionar se alguma vez produziu algo que fosse salvífico, estando pronto a duvidar se tal busca miserável alguma vez teve sucesso. Fui, realmente, levado à busca da salvação, de uma maneira inédita. Senti uma inclinação para romper com todas as coisas do mundo, para obter um interesse em Cristo. Minha preocupação continuava e prevalecia, com muitos pensamentos esforçados e lutas interiores. Contudo, nunca parecia ser apropriado expressar essa preocupação pelo nome de terror.

Desde a minha infância, minha mente esteve repleta de objeções contrárias à doutrina da soberania de Deus, em escolher os que quisesse para a vida eterna e rejeitar os que lhe agradasse, deixando-os perecer eternamente, e serem para todo o sempre atormentados no inferno. Costumava parecer uma doutrina horrível para mim. Mas, me lembro muito bem o tempo quando pareci estar convencido, e plenamente satisfeito quanto à soberania de Deus, e sua justiça em dispor desta maneira eternamente dos homens, de acordo com sua boa vontade soberana. Mas nunca consegui dar um relato de como, ou por quais meios, fui assim convencido, nem ao menos imaginar, à época, nem muito tempo depois, que houve uma extraordinária influencia do Espírito de Deus nisso. Somente que agora via mais longe, e minha razão apreendeu a justiça e razoabilidade disso. Contudo, minha descansou, e pôs um fim em todos aqueles sofismas e objeções.

E houve uma maravilhosa alteração em minha mente, com respeito à doutrina da soberania de Deus, daquele dia até hoje, de modo que eu raramente achei, desde então, sequer uma pequena objeção contraria, no sentido mais absoluto, ao fato de Deus mostrar misericórdia a quem ele tem misericórdia, e endurecer quem lhe apraz. A soberania e justiça absoluta de Deus, com respeito à salvação e condenação, é no que minha mente parece descansar segura, tanto quanto em qualquer coisa que vejo com meus olhos; ao menos é assim, às vezes. Mas tive, com frequência, desde essa primeira convicção, outro tipo de senso da soberania de Deus, diferente do que tive antes. Com frequência, desde então, tive não apenas uma convicção, mas uma deliciosa convicção. A doutrina me parece sempre extremamente agradável, brilhante e doce. A soberania absoluta é o que amo atribuir a Deus. Mas minha primeira convicção não era essa.

A primeira ocasião que me lembro desse tipo de deleite doce e interior em Deus e nas coisas divinas, no qual tenho vivido bastante desde então, foi ao ler estas palavras: “1 Timóteo 1:17 Assim, ao Rei eterno, imortal, invisível, Deus único, honra e glória pelos séculos dos séculos. Amém!”

Enquanto as lia, veio à minha alma, e era como se, por assim dizer, fosse disseminado através dela, um senso da glória do Ser Divino; um novo senso, bem diferente de qualquer outro que experimentara antes. Nunca quaisquer palavras da Escritura pareceram para mim como aquelas. Pensei comigo mesmo que Ser excelente era aquele, e como eu seria feliz se pudesse desfrutar desse Deus, e ser arrebatado por ele para o céu; e ser, por assim dizer, tragado para sempre! Continuava falando, e, por assim dizer, cantando, estas palavras da Escritura a mim mesmo. E fui orar a Deus para que pudesse desfrutá-lo; e orei de um modo bastante diferente do que costumava fazer, com uma nova espécie de afeição. Mas nunca me veio ao pensamento que houvesse algo de especial, ou de natureza salvífica nisto.

Mais ou menos a partir desse tempo comecei a ter um novo tipo de apreensão e ideias de Cristo, e da obra da redenção, e do glorioso caminho da salvação por ele. Um doce senso interior das coisas, às vezes, vinha ao meu coração; e minha alma foi conduzida a agradáveis visões e contemplações dessas coisas. E minha mente estava grandemente ocupada em gastar meu tempo na leitura e meditação sobre Cristo, sobre a beleza e excelência de sua pessoa, e o amável caminho da salvação pela livre graça nele. Não achei nenhum livro tão deleitoso para mim, quanto os que tratavam desses assuntos. Aquelas palavras de Cânticos 2:1, costumavam estar abundantemente comigo: Eu sou a rosa de Sarom, o lírio dos vales. As palavras pareciam para mim docemente representar a amabilidade e beleza de Jesus Cristo. Todo o livro de Cânticos costumava ser agradável para mim, e eu sempre estava ocupado na leitura dele, naquela época. E achava, de tempos em tempos, uma doçura interior, que me conduzia em minhas contemplações. Isto não sei expressar de outro modo, senão por uma calma, doce abstração da alma de todas as preocupações deste mundo; e, às vezes, um tipo de visão, ou ideias e imaginações fixas de estar sozinho nas montanhas, ou em algum ermo solitário, longe de toda humanidade, docemente conversando com Cristo, e envolvido e absorvido em Deus. O senso que tive das coisas divinas, com frequência, inflamava repentinamente, por assim dizer, uma doce chama em meu coração, um ardor de alma, que não sei como expressar.

Não muito tempo depois que comecei a experimentar essas coisas, fiz um relato a meu pai de algumas delas, que tinham se passado em minha mente. Fui bastante afetado pela conversa que tivemos, e quando ela terminou, fui para longe, sozinho, a um lugar solitário no pasto de meu pai, para contemplação. E, enquanto andava por lá, e olhava para o céu e as nuvens, veio à minha mente um senso tão doce da gloriosa majestade e graça de Deus, que não sei como expressar. Parecia ver a ambas em uma união doce; majestade e mansidão juntas: era uma majestade doce, gentil e santa. E também uma mansidão majestosa, uma doçura terrível, uma gentileza alta, grandiosa e santa.

Depois disso, meu senso das coisas divinas gradualmente aumentou, e se tornou mais e mais vívido, e tive mais dessa doçura interior. A aparência de todas as coisas foi alterada; parecia haver, por assim dizer, uma calma, doce amostra ou exibição da glória divina, em quase todas as coisas. A excelência de Deus, sua sabedoria, sua pureza e amor pareciam se mostrar em todas as coisas: no sol, lua e estrelas; nas nuvens e no céu azul; na grama, flores, árvores; na água e toda a natureza, que costumavam prender grandemente minha mente.

Com frequência, costumava sentar e olhar a lua por um longo tempo; e, durante o dia, gastava muito tempo vendo as nuvens e o céu, para contemplar a doce glória de Deus nestas coisas. Enquanto isso, cantava, com uma voz baixa, minhas contemplações do Criador e Redentor. E havia poucas coisas, entre todas as obras da natureza, que fossem tão doces quanto o trovão e o relâmpago, que anteriormente haviam sido tão terríveis para mim. Antes, geralmente era aterrorizado de modo incomum com o trovão, e costumava ser tomado pelo terror quando via uma tempestade com trovões surgindo. Mas agora, ao contrário, isso me regozijava. Eu sentia Deus, se posso assim dizer, no primeiro surgimento de uma tempestade; e costumava aproveitar a oportunidade, em tais tempos, para me preparar a fim de ver as nuvens, e os relâmpagos brincarem, e ouvir a voz majestosa e terrível dos trovões de Deus, que, muitas vezes, era extremamente agradável, me levando à doces contemplações de meu grande e glorioso Deus. Enquanto estava assim ocupado, sempre me parecia natural cantar ou recitar minhas meditações; ou falar meu pensamento por meio de solilóquios em uma voz cantante.

Sentia, então, grande satisfação quanto ao meu bom estado; mas aquilo não me contentava. Tinha veementes desejos de alma por Deus e por Cristo, e por mais santidade, com a qual meu coração desejava estar cheio, e pronto a explodir. Isto sempre trazia à minha mente as palavras do salmista: Sl 119:20: “Consumida está a minha alma por desejar.” Sempre sentia uma tristeza e lamentava no coração que não tivesse me tornado para Deus mais cedo, para que tivesse tido mais tempo de crescer em graça. Minha mente estava enormemente fixada nas coisas divinas; quase que perpetuamente na contemplação delas. Passava a maior parte do meu tempo pensando nelas, ano após ano. Frequentemente, andava sozinho pelas florestas, em lugares solitários, para meditação, solilóquios, oração e conversa com Deus; e era sempre meu costume, em tais tempos, cantar minhas contemplações. Estava constantemente em oração exclamatória, onde quer que estivesse. A oração parecia natural para mim, como o suspiro por onde as chamas internas do meu coração saíam.

As delícias que agora sentia nas coisas da religião eram de um tipo bastante diferente daquelas anteriormente mencionadas, que tive quando garoto, e o que tive então era tão sem noção quanto um cego de nascença tem das cores agradáveis e belas. Elas eram de uma natureza mais interior, pura, animadora da alma e refrescante. Aqueles deleites anteriores nunca alcançaram o coração; e nem surgiram de qualquer visão da excelência divina das coisas de Deus, ou de qualquer sabor de satisfação da alma pelo bem que concede a vida que havia nelas.

Meu senso das coisas divinas pareceram aumentar gradualmente, até que fui pregar em Nova York, o que se deu cerca de um ano e meio depois que este senso começou. Enquanto estava lá, senti este senso de modo muito claro, em grau muito maior do que tinha sentido antes. Meus desejos por Deus e pela santidade cresceram bastante. Puro e humilde, santo e celestial, o cristianismo parecia extremamente amável para mim. Sentia um desejo ardente de ser, em tudo, um cristão completo; e de ser conformado à bendita imagem de Cristo; e que pudesse viver, em todas as coisas, de acordo com as normas puras, doces e benditas do evangelho. Tinha uma sede ávida por progresso nestas coisas. Isto me levava a perseguir e a me esforçar por elas. Era minha luta contínua, noite e dia, e minha investigação constante, saber como eu poderia ser mais santo, e viver mais santamente. E como poderia me tornar ainda mais filho de Deus, e discípulo de Cristo. Eu agora buscava um aumento da graça e da santidade, e uma vida santa, com muito mais avidez do que havia buscado a graça antes de alcançá-la. Costumava estar continuamente a me examinar, e a estudar e planejar os caminhos e meios prováveis para que vivesse uma vida santa, com maior diligência e veemência do que qualquer coisa que já buscara em minha vida. Contudo, ainda tinha muita dependência de minha própria força, o que, posteriormente, provou ser de grande dano para mim. Minha experiência ainda não me mostrara, como tem feito desde então, minha extrema fraqueza e impotência, de todos os modos; e as profundezas sem fim da corrupção secreta e do engano que havia em meu coração. Contudo, persisti com minha ávida procura por mais santidade e conformidade com Cristo.

O céu que eu desejava era um céu de santidade; estar com Deus e gastar minha eternidade no amor divino, e na santa comunhão com Cristo. Minha mente estava bastante absorta com as contemplações do céu, e com as delícias de lá, com o viver em perfeita santidade, humildade e amor. E, na época, costumava parecer uma grande parte da felicidade do céu que lá os santos pudessem expressar seu amor por Cristo. A mim me parecia grande obstáculo e peso que o que eu sentia por dentro não pudesse expressar como desejava. O ardor interior de minha alma parecia estar travado e trancado, e não podia livremente se inflamar como deveria. Pensava sempre em como, no céu, esta fonte poderia livre e plenamente fluir e se expressar. O céu parecia extremamente deleitoso, como um mundo de amor; e onde toda a felicidade consistia em viver no puro, humilde, celestial e divino amor.

Lembro-me dos pensamentos que tinha então acerca da santidade. Às vezes, dizia a mim mesmo: ‘Certamente sei que amo a santidade, tal como o evangelho prescreve.’ Parecia-me que nela nada havia senão aquilo que era arrebatadoramente amável; a mais alta beleza e amabilidade – uma beleza divina; muito mais pura que qualquer coisa aqui da terra; e que tudo o mais era como lama e corrupção em comparação com ela.

A santidade, como então escrevi em algumas de minhas contemplações a seu respeito, parecia ser de uma natureza doce, agradável, charmosa, serena e calma. Ela trazia uma pureza, brilho, paz e arrebatamento inexprimível para a alma. Em outras palavras, era o que tornava a alma semelhante ao jardim de Deus, com todo tipo de flores agradáveis, desfrutando de uma doce calma, e dos raios suaves e vívidos do sol. A alma do verdadeiro cristão, como então escrevi nas minhas meditações, se mostrava como uma florzinha branca que vemos na primavera do ano: pequena e humilde sobre o solo, desabrochando para receber os agradáveis raios da glória do sol; regozijando-se, por assim dizer, em um calmo arrebatamento; exalando em volta uma doce fragrância; permanecendo pacífica e amorosamente em meio às outras flores, todas semelhantemente abrindo seus botões para beber da luz do sol. Não havia nenhuma parte da criatura que me fizesse ter um senso tão grande de sua amabilidade como a humildade, o quebrantamento do coração e a pobreza de espírito; e não havia nada pelo que ansiasse mais avidamente. Meu coração desejava ardentemente me rebaixar diante de Deus, no pó, para que pudesse ser nada e Deus ser tudo, para que eu fosse como uma criancinha.

Enquanto estava em Nova York, às vezes, era muito afetado com as reflexões sobre minha vida passada, considerando como demorei para que pudesse ser verdadeiramente religioso, e como tinha sido ímpio até então. E, uma vez que pensava, chorava abundantemente, e por um tempo considerável.

No dia 12 de janeiro de 1723, fiz uma solene dedicação de mim mesmo a Deus e a escrevi. Entregava-me, e a tudo que tinha, para Deus, para não pertencer no futuro, em nenhum aspecto, a mim mesmo; para agir como alguém que não tem direito a si mesmo, em nenhum aspecto. E fiz um voto solene de tomar a Deus como minha inteira porção e felicidade, a não buscar a nada mais como qualquer parte de minha felicidade, nem agir como se fosse; e a tomar sua lei como regra constante de minha obediência. Dispus-me a lutar com todas as minhas forças contra o mundo, a carne e o diabo, até o fim de minha vida. Mas tenho razão para me humilhar infinitamente quando considero o quanto falhei em responder a minhas obrigações.

Tive, à época, muitas conversas religiosas e doces com a família com quem vivia, com o Sr. John Smith e sua piedosa mãe. Meu coração estava ligado em afeição àqueles em que havia sinais da verdadeira piedade. Não podia suportar nem mesmo pensar em outras companhias que não fossem a dos santos e discípulos do bendito Jesus. Tinha grandes desejos pelo avanço do reino de Cristo no mundo, e minhas orações secretas costumavam, em grande parte, ser ocupadas com isso. Se ouvisse a menor sugestão de qualquer coisa que acontecera em alguma parte do mundo, que me parecia, por algum aspecto ou outro, ser favorável aos interesses do reino de Cristo, minha alma prontamente se agradava, e isto muito me animava e refrescava. Costumava estar pronto a ler os jornais públicos, principalmente com este propósito, para ver se conseguia achar alguma notícia favorável aos interesses da religião [cristã] no mundo.

Retirava-me com frequência para um lugar solitário, às margens do rio Hudson, a alguma distância da cidade, para a contemplação das coisas divinas e conversação secreta com Deus; e tinha muitas horas doces por lá. Às vezes, o Sr. Smith e eu andávamos por lá juntos, para conversar sobre as coisas de Deus; e nossa conversa costumava girar em torno do avanço do reino de Cristo no mundo, e das gloriosas coisas que Deus realizaria por sua igreja nos últimos dias.

Tinha então, e em outros tempos, o maior deleite nas Sagradas Escrituras, acima de qualquer livro. Muitas vezes, ao lê-la, cada palavra parecia tocar meu coração. Sentia uma harmonia entre algo no meu coração e aquelas doces e poderosas palavras. Parecia sempre ver muita luz exibida em cada frase, e um alimento tão refrescante comunicado que não conseguia ir adiante na leitura. Com frequência, me detinha muito tempo em uma frase, para ver as maravilhas contidas ali; porém, quase todas as frases pareciam estar cheias de maravilhas.

Voltei de Nova York em abril de 1723, e tive uma despedida bastante dolorosa da Sra. Smith e seu filho. Meu coração parecia afundar dentro de mim, enquanto deixava a cidade e a família onde tinha desfrutado tantos dias doces e agradáveis. Vim de Nova York a Wethersfield de barco e, enquanto navegava, mantive a vista na cidade enquanto pude. Contudo, naquela noite, após esta dolorosa partida, fui grandemente confortado em Deus em West Chester, onde desembarcamos para nos alojarmos. Também tive um tempo agradável durante toda a viagem para Saybrook. Era doce para mim pensar em encontrar queridos cristãos no céu, onde não mais haveria despedida. Em Saybrook, desembarquei para me alojar no sábado, e lá guardei o Dia do Senhor, no qual tive um doce e refrescante tempo enquanto andava sozinho nos campos.

Depois que cheguei à minha casa, em Windsor, permaneci bastante tempo em disposição de mente semelhante a que tive em Nova York; apenas algumas vezes sentia meu coração pronto a afundar de saudades pelos meus amigos de lá. Meu auxílio estava nas contemplações do estado celestial, como descubro no meu diário de 1º de maio de 1723. Era um consolo pensar nesse estado, onde há plenitude de alegria; onde reina celestial, calmo e deleitoso amor, sem misturas; onde há continuamente as mais queridas expressões deste amor; onde há o desfrute das pessoas amadas, sem que jamais haja despedidas; onde aquelas pessoas que neste mundo parecem tão amáveis serão verdadeira e inexprimivelmente mais amáveis, e cheias de amor por nós. E quão secretamente os amantes mútuos se unirão para cantar os louvores de Deus e do Cordeiro! Como nos encherá de alegria pensar que este gozo, este doces exercícios, jamais cessarão, mas durarão por toda a eternidade!”

Assim profundas, decididas e poderosas eram as operações da divina graça sobre a mente deste eminente servo de Cristo. Que o seu entendimento era muito iluminado nas coisas de Deus, e seu coração profundamente afetado por elas, são circunstâncias que de imediato chamarão a atenção de todo observador sério. Havia nele uma santa ansiedade para obter o mais satisfatório testemunho de uma mudança de coração. Com este propósito, ele examinava íntima e diligentemente a si mesmo; não tinha inclinação alguma para evitar este autoexame. O exame pessoal parece ter sido considerado por ele ao mesmo tempo como algo agradável e um exercício importante. Muitos crentes professos se revoltam com o pensamento de tal pesquisa interior. Eles se contentam em olhar (e isso apressadamente) as coisas exteriores, mas não olham para dentro, ainda que esta negligência ponha em perigo seu bem eterno. Os sentimentos com os quais os homens encaram o dever do exame pessoal podem, com justiça, ser vistos como um critério preciso de seu estado espiritual, pois, em proporção à preocupação deles com a eternidade, estarão suas disposições em testar a si mesmos. Em outras palavras, na mesma medida em que a graça existe, haverá um desejo de investigar plenamente sua existência e progresso.

Após uma revisão da declaração dada pelo Sr. Edwards quanto às suas primeiras experiências religiosas, é evidente que ele não era dos que se satisfazem com quaisquer bases insuficientes: nenhuma indicação de descuido ou presunção pode ser discernida. Ele se olhava com um santo zelo; pensava, lia, conversava e, acima de tudo, orava, para que pudesse ser capacitado a mais acuradamente sondar o próprio coração, e assim escapar do perigo do autoengano, e ser convencido por provas que passaria pelo teste do julgamento de Deus; que era um filho da luz, objeto de santidade e herdeiro da glória. E assim, estudando a si mesmo sob a penetrante luz da Palavra, e das graciosas influências do Espírito de Deus, adquiriu este exato conhecimento dos variados exercícios e amostras exteriores do caráter cristão, o que o capacitou, em anos posteriores a, com tanta habilidade, separar aparências ilusórias daquilo que é sólido, e marcar a forte diferença entre o mero professo do nome de Cristo, e do verdadeiro participante do poder do evangelho. Foi nestes anos iniciais de sua vida que estas perspectivas corretas foram formadas, estas mesmas que, mais tarde, se expandiram em seu tratado admirável sobre as Afeições Religiosas.
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Por Sereno E. Dwight
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