quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

A Doutrina da Trindade [25/29]



NAS ESCRITURAS, DESDE A PRÓPRIA CRIAÇÃO, SE ENSINA UMA ESSÊNCIA ÚNICA DE DEUS, QUE EM SI CONTÉM TRÊS PESSOAS

25. A essência única de Deus é comum às Três Pessoas

Mas, nisto enganam-se redondamente, visto que sonham com três individuações, cada uma das quais possuindo parte da essência. Ora, somos ensinados nas Escrituras que Deus, no que respeita à essência, é um só e único, e daí ser ingênita a essência tanto do Filho quanto do Espírito. Como, porém, o Pai é primeiro em ordem e de si gerou sua Sabedoria, com razão, como disse pouco antes, é tido por princípio e fonte da Deidade em seu todo. Desse modo Deus, tomado o termo em acepção não particularizada, é ingênito, e de igual modo ingênito é o Pai com respeito à sua pessoa.

Além disso, julgam estultamente que podem concluir de nossa opinião deduzir-se uma quaternidade, pois nos atribuem, falsa e caluniosamente, o constructo de sua cerebração, como se supuséssemos que de uma essência única procedem, dir-se-ia por derivação, três pessoas, quando claramente transparece de nossos escritos que da essência não eliminamos as pessoas, mas, já que nela residem, lhes interpomos distinção. Se as pessoas fossem separadas da essência, talvez o arrazoado fosse provável, mas, nesse caso, haveria uma trindade de deuses, não de pessoas, as quais o Deus único e uno em si contém. Assim fica solucionada sua fútil questão, a saber, se para formar-se a Trindade concorra ou não a essência, como se imaginássemos procederem dela três deuses.

Quanto à objeção que levantam, de que assim haverá uma Trindade sem Deus, ela nasce dessa mesma obtusidade, porque, embora a essência não concorra à distinção de pessoas, como parte ou membro da Trindade, contudo as pessoas não subsistem sem ela ou fora dela, porquanto não só o Pai, se não fosse Deus, não podia ser Pai, mas também o Filho de outra sorte não seria Filho, a não ser porque é Deus. Portanto, afirmamos que a Deidade, em acepção absoluta, existe em si mesma, do quê confessamos que também o Filho, até onde é Deus, existe por si mesmo, distinguida a acepção de pessoa; mas, até onde ele é o Filho, afirmamos que procede do Pai. Conseqüentemente, sua essência carece de princípio; da pessoa, porem, Deus mesmo é o princípio. E de fato os escritores ortodoxos, quantos no passado falaram da Trindade, atribuíram este termo somente às pessoas, uma vez que é não só erro absurdo, mas ainda seria impiedade excessivamente crassa abranger-se a essência na própria distinção das pessoas. Ora, aqueles que querem que na Trindade concorram estes três: a Essência, o Filho e o Espírito, torna-se manifesto que aniquilam a essência do Filho e do Espírito, visto que, de outra sorte, as partes, entre si fundidas, deixariam de subsistir como tais, o que é vicioso em toda a distinção.

Finalmente, se Pai e Deus fossem sinônimos, então o Pai seria o deificador, nada no Filho restaria senão uma sombra, nem seria a Trindade outra coisa senão a conjunção do Deus único e uno com duas coisas criadas.
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Por: João Calvino
Fonte: As Institutas. Volume I, capítulo XIII
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