sexta-feira, 6 de março de 2015

Estudando a Epístola de Tiago - Parte 02

 
Tiago, servo de Deus, e do Senhor Jesus Cristo, às doze tribos que andam dispersas, saúde.
Meus irmãos, tende grande gozo quando cairdes em várias tentações;
Sabendo que a prova da vossa fé opera a paciência.
Tenha, porém, a paciência a sua obra perfeita, para que sejais perfeitos e completos, sem faltar em coisa alguma. Tiago 1:1-4
O servo de Deus e de Cristo (1.1)

Para os cristãos daquela época, não se fazia necessária muita explicação sobre o autor da carta. ‘Tiago’ (1.1), é como se apresenta, e a comunidade entende que era o líder da Igreja de Jerusalém, quem falava. Logo neste primeiro versículo, Tiago nos dá um exemplo de liderança, ao referir a si mesmo como, ‘servo de Deus, e do Senhor Jesus Cristo’, sem mencionar sua liderança naquela Igreja. Servo (doulos), literalmente um servo cativo ou escravo. Em toda a carta encontra subtendido esse entendimento, quando relacionado a Deus, onde as obras de um cristão não são guiadas por ele mesmo, mas conduzidas conforme a vontade Deus. Um adorador, um homem ligado a Deus, dependente d’Ele, pertencente ao Senhor. ‘servo de Deus, e do Senhor Jesus Cristo’: Tiago se identifica como alguém que serve a Deus e reconhece a divindade de Jesus Cristo. Interessante observar que ‘servo de Deus’ é um termo comum no Antigo Testamento, e que aqui, Tiago o corrobora em sua carta, relacionando-o também ao Filho. Em seu livro, ‘Tiago, Transformando provas em triunfo’, Hernandes Dias Lopes, na página 14, comenta:
De incrédulo a crente, de crente a líder, de líder a servo de Cristo. Ele não se apresenta como irmão do Senhor, mas como seu servo. Ele é um homem humilde. Essa é a transformação que o evangelho produz! E impossível alguém ser um verdadeiro cristão sem primeiro ser humilde de espírito. Charles Spurgeon diz que Deus não deseja nada de nós, exceto nossas próprias necessidades. Não é o que temos, mas o que não temos que é o primeiro ponto de contato entre nossa alma e Deus.
Um novo povo, um só povo (1.1) ‘às doze tribos que andam dispersas’

São os receptores desta carta. Provavelmente faz parte aqui, aqueles que se converteram na pregação de Pedro, e dispersos após a morte de Estevão. Sua referencia é a cristãos judeus, espalhados entre as nações, mas também poderia incluir aqueles gentios, que agora reunidos num mesmo corpo em Cristo, fazem o Israel espiritual. A mesma saudação usada aqui ‘Saúde’ é utilizada na carta de Tiago, como resultado da assembleia que ocorreu em Jerusalém (At 15.23).

Regozijo nas aflições (1.2) ‘Meus irmãos, tende grande gozo quando cairdes em várias tentações;’

Tentações’ (peirasmoi) traz para nós um sentido duplo de provações interiores e exteriores. Nós temos a capacidade de escolher passar ou não por provações? Claro que não! Assim também, não sabemos de fato o que é bom ou não para nossas vidas. Mas o texto nos ensina qual deve ser nossa atitude, comportamento quando elas vêm. Não devemos buscar a dificuldade, provocando-as, mas se surge, entender que devem ser motivo de alegria e não de tristeza, sujeitando-nos a Cristo, confiando que pode nos livrar, guardar e capacitar para enfrentar as provações, aprendendo com elas e viver uma vida de piedade e dependência para com o Senhor. Não é algo fácil manter-se confiante e alegre em meio à provação. Mas o autor procura nos dar motivos para isso, apresentando que estas lutas tem propósito na vida do cristão, são para crescimento, amadurecimento na sua carreira cristã. ‘tende grande gozo’, é que ensina Tiago, pois as provações nos aproximam de Cristo, nos fazem lembrar seu ensinamento: 
Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós. Mateus 5:11 12
Mas o que significa viver esse grande gozo em meio ás provações? Tiago não se refere à tolerância para com as lutas; não se refere a mantermos uma postura carregada de dor interna, mas maquiada por fora: internamente murmurações e cansaço, externamente um ‘semblante cristão’. Não é isso! Trata-se de um comportamento triunfante, passando pelas lutas corajosamente: alegria do Espírito Santo apesar das provações; uma convicção crescente de que apesar das lutas, não estamos sendo subjugados, mas aperfeiçoados no Senhor; uma maior comunhão com Cristo, ao percebermos que Ele está nos conduzindo, nutrindo com Sua graça, que apesar das lutas, do que poderia nos derrubar, vemos Sua mão nos sustentando e cumulando de favor para prosseguir na caminhada cristã e brotando um gozo ao lembrarmos de que estamos desfrutando da “comunhão dos Seus sofrimentos” (Fp 3.10).
Porque para isto sois chamados; pois também Cristo padeceu por nós, deixando-nos o exemplo, para que sigais as suas pisadas. 1 Pedro 2:21
A certeza de que pertencemos a Deus, e que temos a Sua proteção, representa para o cristão fonte de alegria e paz nas provações dessa vida.

Uma ação contínua e progressiva (1.3-4) ‘Sabendo que a prova da vossa fé opera’

O Comentário Bíblico Pentecostal, na página 858, traz uma interessante explicação sobre o gozo nas provações:
Não importa o quanto a resposta de uma pessoa possa ser alegre ou paciente perante os sofrimentos da vida, a maturidade e a plenitude espiritual (sem faltar coisa alguma) não podem ser alcançadas apenas através da determinação e da perseverança humana. Como Tiago enfatizará nos versos seguintes, a sabedoria espiritual só pode ser adquirida como um dom de Deus. Então, considerando que se trata de uma dádiva, não poderá haver lugar para o orgulho ou presunção. Se existe qualquer benefício oculto quando somos expostos a provações, não é porque estas proporcionem a oportunidade para um aperfeiçoamento pessoal ou espiritual. Ao contrário, as provações podem nos trazer alegria porque nos lembram de nossa necessidade de Deus e nos motivam a nos apoiar plenamente em sua força e não na nossa.
A provação produz a paciência; caso fossemos livres dos problemas, das dificuldades normais ao ser humano, não poderíamos desenvolver a paciência, que, sendo a firmeza no suportar as adversidades, não adquiriríamos.

Em Comentário à Epístola de Tiago, Calvino diz:
Certamente tememos as doenças, e a necessidade, e o exílio, e a prisão, e o opróbrio, e a morte, porque as consideramos como males; mas, quando entendemos que elas são transformadas pela bondade de Deus em socorros e auxílios para a nossa salvação, é ingratidão murmurar, e não nos submetermos, de boa vontade, a sermos assim tratados paternalmente.
Aí percebemos a vontade de Deus para o cristão: prosseguindo com constância, e alcançando nesta caminhada uma vida equilibrada de santidade; uma maturidade, não a exemplo daquela que o mundo explica, mas a verdadeira maturidade que não pode estar dissociada da Palavra de Deus, que cumpre seus mandamentos, se submete a eles e tem neles seu prazer. Tiago exorta seus receptores a respeito de uma santidade que representa, não um fim em si mesmo, mas como que o alvo mais elevado da maturidade cristã, ‘para que sejais perfeitos e completos, sem faltar em coisa alguma’ (1.4).
___________________
Estudos na Epístola de Tiago
Por Madson Flôres Queiroz

Obras de referência:
Tiago, Transformando provas em triunfo. Hernandes Dias Lopes. Editora Hagnos
Comentário Bíblico Beacon. Volume 10. CPAD
Comentário Bíblico Pentecostal. Volume 2. CPAD
Calvin’s Commentaries; Epístola de Tiago. João Calvino
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...