segunda-feira, 23 de março de 2015

Estudando a Epístola de Tiago - Parte 04

Ninguém, sendo tentado, diga: De Deus sou tentado; porque Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta.
Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência.
Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte.
Não erreis, meus amados irmãos. Tiago 1:13-16
Tiago nos traz a ideia de um homem que procura um pretexto para seus fracassos em perseverar e manter-se constante. O autor vai de encontro a este pensamento afirmando que Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta.” Há alguns crentes que vivem à busca da fonte de suas tentações em outro, e esta tentativa de buscá-la para além de nós mesmos, leva somente à frustração e rancor. A maneira única e correta de enfrentarmos a instabilidade, à qual estamos sujeitos, é encarando a realidade de que a fonte desta inconstância está em nós mesmos.

Calvino diz, em sua exposição de Tiago, pagina 10: 

Mas toda a doutrina da Escritura parece ser inconsistente com esta passagem; pois ela nos ensina que os homens são cegados por Deus, são entregues a uma mente réproba, e abandonados às paixões vergonhosas e imundas. A isto eu respondo que Tiago fora induzido a negar que somos tentados por Deus provavelmente pela seguinte razão – porque os infiéis, a fim de criarem uma escusa, armavam-se com os testemunhos da Escritura. Mas há duas coisas a serem notadas aqui: quando a Escritura atribui a cegueira ou dureza de coração a Deus, ela não Lhe designa o princípio desta cegueira, nem faz d’Ele o autor do pecado, atribuindo-Lhe a culpa; e é apenas nestas duas coisas que Tiago se detém. A Escritura afirma que os réprobos são entregues a paixões depravadas; mas, será porque o Senhor deprava ou corrompe seus corações? De modo nenhum; pois os corações deles estão sujeitos a paixões depravadas porque já são corruptos e viciosos. Mas, como Deus cega ou endurece, não é Ele o autor ou ministro do mal? Sim, mas deste modo Ele castiga os pecados, e confere uma justa recompensa aos infiéis, que se recusaram a ser governados pelo Seu Espírito (Rm 1:26).

Então, Tiago segue afirmando que homem algum que sente um impulso para pecar, deverá dizer: De Deus sou tentado. Deus não nos levará ao pecado, a desejá-lo, a praticá-lo. Ele é um Deus santo, e dizer que é n’Ele que surge esta tentação se faz uma desculpa vil e blasfema, pois Seu plano de redenção é justamente para destruir o pecado, ao enviar Seu Filho.


Na nossa caminhada enfrentamos provações, mas sua finalidade é a santidade. Somos expostos a nós mesmos, quanto ao que somos. Mas trazer à luz aquilo que está oculto em nossos corações não é o mesmo que sermos seduzidos aos desejos da carne para nos tornarmos corruptos, da tentação ao pecado. Assim, lançar a culpa da corrupção da alma no Criador é algo que não tem fundamento, pois é a nossa própria inclinação ímpia. Deus não é autor das nossas más ações, sendo que não tenta nem seduz o homem ao que é pecaminoso, não leva outros a pecar. Doutra forma, como Deus não é levado a fazer algo que configura pecado, não conduz outros ao pecado, porque Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta”.

quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência

“Mas cada um é tentado (ou, seduzido) quando, pela sua própria paixão, é atraído (ou seja, do que é bom) e apanhado por uma isca (ou, engodo)”.

Não adianta a busca numa causa exterior, pois é íntima esta inclinação e impulso para o pecado. A tentação seduz pelas suas ilusões, ela atrai o homem; e este engodo está na própria natureza do homem. Não há como nos livrarmos da culpa!

Em seu livro, ‘Tiago, Transformando provas em triunfo’, Hernandes Dias Lopes, na página 26, comenta:
A palavra que Tiago usou para “desejo”, epithymia, não necessariamente tem um sentido de desejo mau e impuro. Podemos transformar um desejo legítimo em um desejo pecaminoso. A cobiça é a tentativa de satisfazer um desejo fora da vontade de Deus. Comer é normal, glutonaria é pecado. Dormir é normal, preguiça é pecado. Sexo no casamento é normal, sexo fora do casamento é pecado. Os desejos devem estar sob controle, e não no controle. Devemos controlar os desejos, não estes a nós.
Assim, o homem, é primeiro apartado do seu caminho que deve trilhar, e, em seguida, envolvido e pego por aquilo que lhe agrada e preenche, mas que, por fim, da mesma forma que a isca de um anzol, atrativa à vítima que tem seus sentidos nela, possui em si um fim de morte, um anzol mortal. É interessante notar que nesta senda, muitos se enveredam, e tal é sua ilusão e envolvimento naquilo que o atraiu, pouco importará o número de exortações que receba, não verá mal na tragédia que está metido. Seu envolvimento cegou seus sentidos para a realidade do pecado e seu fim: “Porque o salário do pecado é a morte” Romanos 6:2

Então surge um pensamento errado, que é resultado de uma concordância da vontade; o seu resultado é um ato pecaminoso, culminando no julgamento de Deus.

Neste desenvolvimento, Tiago não quer dizer que o pecado está relacionado a atos exteriores, pois, não estaria se fosse assim, em conformidade com as Escrituras; a exemplo disso: “Ouvistes que foi dito aos antigos: Não cometerás adultério. Eu, porém, vos digo, que qualquer que atentar numa mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela.” Mateus 5:27-28

Ele não alivia a realidade do pecado, levando-nos a pensar que a paixão, desejos corruptos, sufocados, mas bem vivos dentro do homem, não fossem pecados com mesma gravidade daqueles outros.

Na verdade, o pecado não surge depois, mas Tiago apresenta seu desenvolvimento gradual (já está lá); seu nascedouro está em desejos e afeições depravados, tendo sua raiz nas paixões inerentes ao homem. Tiago apresenta, como que, a história do pecado, seu curso, onde não há uma fase onde ele é mais ou menos pecado, mas que no todo é pecado em si. Por fim, há a colheita, que é de perdição eterna, único fruto que produz o pecado, daquele que está separado de Deus.

Diz Calvino, no seu comentário em Tiago, página 12:
Por onde é refutado o desvario daqueles que concluem, a partir destas palavras, que o pecado não é mortal enquanto não irrompe, como dizem, em um ato exterior. E também não é disto que Tiago trata; mas o seu objetivo era apenas este – ensinar que está em nós a raiz da nossa própria destruição.
Quando lemos as palavras de Tiago, observamos o quão grave é o pecado, e da mesma forma, como é fácil sermos envolvidos por ele, se ignorarmos seus ardis. Quando lemos a exortação do apostolo Paulo: “Aquele, pois, que cuida estar em pé, olhe não caia.” 1 Coríntios 10:12, devemos refletir sobre o engano que nos metemos quando o equívoco de que o pecado a ser evitado é aquele que é visto, sendo que na realidade seu nascedouro é bem anterior a isto, e está enraizado nas atrações que muitas vezes procuramos ocultar de tantos, para dar o “ar de santidade”, tão comum na cultura evangélica, erro que torna tais crentes em homens cumpridores de leis com corações não transformados.

Não erreis” Deus é o Autor de todo bem, Ele é a fonte, e isto está de acordo com Sua natureza; Ele não desperta em nós o desejo para o pecado, e a tentação que nos conduz a isso não tem sua fonte no Senhor. Estamos rodeados de pensamentos que procuram nos induzir de que não temos culpa, e somos estimulados a procurar fora os culpados pelos nossos erros, fracassos, pecado. Uma geração que questiona desrespeitosamente, inquirindo o Criador, como se Este estivesse submetido ao homem e sua forma. - Não! Não é de agora que a depravação do homem é diminuída, criando o homem bom, o homem capaz em si mesmo e livre para suas escolhas, o promotor da paz e de um mundo melhor e sem a necessidade de Deus.

A mesma voz que ecoou no Jardim, estimulando a transferência da culpa... continua a soar no coração do homem, que sempre se justifica, de uma forma ou de outra, negando a existência de Deus pelo mal que acontece ou atribuindo-Lhe a culpa para estar sempre isento da sua condenação iminente.
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Estudos na Epístola de Tiago
Por Madson Flôres Queiroz
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