quinta-feira, 30 de abril de 2015

Os Cânones de Dort (1618-1619)



CONCLUSÃO

Esta é a declaração clara, simples, e sincera da doutrina ortodoxa com respeito aos Cinco Artigos de Fé disputados na Holanda; e esta é a rejeição dos erros pelos quais as Igrejas têm sido perturbadas, por algum tempo. O Sínodo de Dort julga a presente declaração e as rejeições serem tiradas da Palavra de Deus e conforme as Confissões das Igrejas Reformadas. Assim torna-se evidente que alguns agiram muito impropriamente e contrário à toda verdade, equidade e amor, desejando persuadir o povo do seguinte:

  • A doutrina das Igrejas Reformadas com relação à predestinação e assuntos relacionados com ela, por seu caráter e tendência, desvia os corações dos homens da verdadeira religião.
  • Ela é um ópio do diabo para a carne, bem como uma fortaleza para Satanás, onde permanece à espera por todos, fere multidões atingindo mortalmente a muitos com os dardos tanto de desespero quanto de falsa segurança.
  • Faz de Deus o autor injusto do pecado, um tirano e hipócrita; é nada mais do que um renovado Estoicismo, Maniqueísmo, Libertinismo e Islamismo.
  • Conduz a um pecaminoso descuido porque faz as pessoas crer que nada pode impedir a salvação dos eleitos, não importando como vivam, e que portanto podem, tranqüilamente, cometer os crimes mais horríveis. Por outro lado, se os reprovados tivessem produzido todas as obras dos santos, isto não poderia nem ao menos contribuir para a salvação deles.
  • A mesma doutrina ensina que Deus tem predestinado e criado a maior parte da humanidade para a condenação eterna só por um ato arbitrário de sua vontade sem levar em conta qualquer pecado.
  • Da mesma maneira pela qual a eleição é a fonte e a causa da fé e boas obras, a reprovação é a causa da incredulidade e impiedade.
  • Muitos filhos inocentes de pais crentes são arrancados do seio de suas mães e, tiranicamente lançados no inferno, de tal modo que nem o sangue de Cristo, nem o batismo nem as orações da Igreja no ato do batismo lhes podem ser proveitosos.

Há muitas outras coisas semelhantes que as Igrejas Reformadas não apenas não confessam mas também repelem de todo coração.

Portanto, este Sínodo de Dort conclama em nome do Senhor a todos os que piedosamente invocam o nosso Salvador Jesus Cristo, que não julguem a fé das Igrejas Reformadas a partir das calúnias juntadas daqui e dali, nem tão pouco a partir de declarações pessoais de alguns professores, modernos ou antigos, que muitas vezes são citadas em má fé, distorcidas e explicadas de forma oposta ao seu sentido real.

Mas deve-se julgar a fé das Igrejas Reformadas pelas Confissões públicas destas Igrejas, e pela presente declaração da ortodoxa doutrina, confirmada pelo consenso unânime de cada um dos membros de todo o Sínodo.

Além do mais, o Sínodo adverte os caluniosos para que considerem o severo julgamento de Deus à espera deles, por falar falso testemunho contra tantas igrejas e contra as Confissões delas, e por conturbar as consciências dos fracos e por tentar colocar em suspeito, aos olhos de muitos, a comunidade dos verdadeiros crentes.

Finalmente, este Sínodo exorta todos os conservos no evangelho de Cristo a comportar-se em santo temor e piedade diante de Deus, quando lidarem com esta doutrina em escolas e igrejas.

Ao ensiná-la, tanto pela palavra falada quanto escrita, devem procurar a glória de Deus, a santidade de vida, e a consolação das almas aflitas. Seus pensamentos e palavras sobre a doutrina devem estar em concordância com a Escritura, de acordo com a analogia da fé. E devem abster-se de usar qualquer frase que exceda os limites prescritos pelo genuíno sentido das Escrituras.

Sagradas para não dar aos frívolos sofistas boas oportunidades para atacar ou caluniar a doutrina das Igrejas Reformadas.

Que o Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, o qual está sentado à direita do Pai e envia seus dons aos homens, nos santifique na verdade. Que Ele traga à verdade os que se desviaram dela, cale a boca dos caluniosos da sã doutrina e equipe os ministros fiéis da sua Palavra com o Espírito de sabedoria e discrição, para que tudo que falem possa ser para a glória de Deus e a edificação dos ouvintes. Amém.
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Os Cânones de Dort abordam cinco tópicos doutrinários em 59 artigos: (1) A predestinação divina; (2) A morte de Cristo e a redenção do homem; (3-4) A corrupção do homem e sua conversão a Deus; (5) A perseverança dos santos. As principais ênfases do documento são as seguintes: Deus elege e reprova não com base na previsão de fé ou incredulidade, mas por sua vontade soberana; a morte de Cristo foi suficiente para todos, mas é eficaz somente para os eleitos; mediante a queda, a humanidade ficou totalmente corrompida; a graça de Deus atua eficazmente para converter os descrentes, embora não o faça por coerção; Deus preserva os crentes de modo que não podem decair totalmente da graça. Essas declarações foram resumidas em algumas expressões conhecidas como “os cinco pontos do calvinismo”: Depravação total, Eleição incondicional, Expiação limitada, Graça irresistível e Perseverança dos santos, cujas iniciais em inglês formam a palavra “Tulip”.

O Sínodo de Dort marcou um importante ponto de transição na história da fé reformada na Holanda. Estabeleceu definitivamente o calvinismo como a teologia da igreja holandesa e também tornou oficiais a Confissão Belga e o Catecismo de Heidelberg. Os cânones, que foram assinados por todos os delegados, expressaram o consenso de uma significativa diversidade teológica e representaram o triunfo de um calvinismo moderado, sendo considerados uma das melhores expressões da ortodoxia protestante.
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O Genocídio Armênio, 100 anos [03/04]

Os principais responsáveis pelo planejamento do genocídio foram os membros Comitê União e Progresso, partido político nacionalista que aglutinava os chamados “Jovens Turcos”. Entre os nomes mais influentes estão os dos ministros de Estado Mehmet Talaat Paxá e Ismail Enver Paxá. 
A estratégia do governo otomano foi bem arquitetada. As mortes por inanição no interior do Império permitiam que as autoridades alegassem que os armênios estavam morrendo por condições oriundas do cenário de guerra. As potências ocidentais, envolvidas na I Guerra Mundial, afora alguns protestos formais, pouco fizeram para impedir as matanças.
Reações

Não só os armênios foram perseguidos pelo Império Otomano e nos primeiros dias da República da Turquia. Também os gregos do Dardanelos e Mar Negro; os curdos foram reprimidos a ponto de serem classificados como “turcos das montanhas”; os assírios foram dizimados e os poucos que restaram tiveram que fugir do país.

Esse foi o preço da “ocidentalização” da Turquia: a exclusão dos elementos destoantes da moderna república. Kemal “Ataturk” ainda promoveu reformas de caráter cultural: trocou o alfabeto árabe pelo latino, aboliu o califado e converteu o país em um Estado laico, proibiu os ritos sufis e os dervixes, redigiu um novo Código Civil, etc. Além disso, Kemal e suas reformas procuraram apagar qualquer vestígio de povos não turcos do país. Assim, os armênios sofreram também um genocídio cultural: cerca de 2.500 cidades foram perdidas, 4 mil igrejas desativadas e depredadas, 30 mil manuscritos destruídos, além de mudança de nomes da fauna, flora e cidades que remetessem a alguma origem armêmia.

Contudo, não se pode culpar todo o povo turco pelo genocídio. Muitos cidadãos otomanos e turcos reprovavam a prática do governo e sofreram retaliações. O comandante do Terceiro Batalhão ordenou, por exemplo, que todo turco que prestasse auxílio aos armênios fosse morto diante de sua casa e essa deveria ser incendiada. Se algum funcionário público fosse suspeito de ter prestado auxílio aos armênios, deveria ser demitido e levado ao Conselho de Guerra.

A posição da Armênia era estratégica tanto para a Rússia quanto para a Turquia. Se mesmo antes da I Guerra os armênios já sofriam com as desconfianças turcas, após o início do conflito não demorou para Constantinopla acusá-los de traição, alegando colaboração com os russos e com os inimigos ocidentais. Entretanto, nem a Europa nem os russos se importavam verdadeiramente com os armênios a ponto de impedir o massacre promovido pelo governo otomano. Após o final da I Guerra, os russos adentraram no que seria o território armênio e repeliram as tropas turcas, mas não por altruísmo ou generosidade, mas para conquistar uma importante posição geográfica no Cáucaso e Ásia Menor. Em todo caso, a ofensiva russa salvou cerca de 250 mil armênios.

O caso Tehlirian

Soghomon Tehlirian vivenciou, aos 18 anos de idade, a deportação de todo seu povoado em uma das caravanas de armênios e presenciou a morte de seus pais e irmãos pelos soldados que deveriam proteger a caravana.

Tehlirian sobreviveu ao ataque porque desmaiou e foi tomado como morto. Quando acordou, ele encontrou vários corpos espalhados a sua volta. Fugiu para um vilarejo onde conseguiu abrigo com uma família de curdos, mas teve que fugir devido às perseguições que recomeçaram naquela região.

A incapacidade do Império Otomano ou das potências de punir criminalmente os mandantes do genocídio armênio motivou a Federação Revolucionária Armênia, em seu nono congresso, a executar os culpados pela tragédia que se abateu sobre os armênios. Começou assim a Operação Nêmeses.

O sobrevivente Tehlirian foi um dos jovens recrutados para executar Talaat Paxá, que residia em Berlim, depois de fugir do Império Otomano para não ser executado por ordem dos tribunais de Istambul. Após receber orientações e observar a rotina de seu alvo, Tehlirian atira em Talaat Paxá e aguarda em frente ao corpo que jazia no chão até a polícia chegar e prendê-lo. Mesmo sendo réu confesso e preso em flagrante, o jovem armênio foi inocentado pela justiça da República de Weimar após inúmeros depoimentos, testemunhas e provas indicarem que ele havia matado aquele que havia organizado o extermínio de todo o seu povo. Também pesaram a favor de Tehlirian as sequelas mentais causadas pelo genocídio.

A República da Turquia foi fundada em 1922. Seus fundadores, sobretudo Mustafá Kemal, não acreditavam que os sobreviventes armênios conseguiriam reivindicar justiça estando espalhados em várias partes do mundo. Por décadas, as autoridades turcas recusaram-se a responder perguntas sobre o genocídio armênio. Parecia que a causa armênia seria arquivada na memória das vítimas e das testemunhas.

O que o governo turco não poderia prever era que as comunidades organizadas na diáspora e na Armênia Soviética se uniriam em um determinado momento em prol do reconhecimento do que havia acontecido na I Guerra. Assim, a causa armênia se institucionalizou e, como resultado, a Turquia teve que mudar seu discurso e estratégia. Ignorar apenas não seria mais suficiente. Se discurso turco num primeiro momento alegava desconhecimento absoluto da questão armênia, num segundo momento havia a distorção múltipla dos fatos, desvirtuando a verdade acerca de um plano premeditado e sistemático de genocídio. O Estado turco patrocinou a reescrita de sua própria história a fim de apagar a presença armênia na Anatólia.

Orhan Pamuk e o Artigo 301

Um Artigo no Código Penal da Turquia (Artigo 301) possibilita a configuração de crime se alguém denegrir o Estado turco e suas instituições ou ofender publicamente a identidade turca com pena que pode chegar a até três anos de prisão. Alguns intelectuais e escritores turcos que defendem o reconhecimento do genocídio já foram enquadrados nesse artigo.

Entre eles o escritor mais proeminente da Turquia, Orhan Pamuk, que em 2006 foi o primeiro turco a receber um primeiro Nobel na história. O que deveria ser motivo de orgulho para o governo turco passou a ser ameaça após a declaração de Pamuk em 2005: “Trinta mil curdos e um milhão de armênios foram mortos nestas terras, e ninguém senão eu ousa falar sobre isso” em uma entrevista à publicação Das Magazin da Suíça. Um processo foi aberto contra o escritor pelo advogado ultranacionalista Kemal Kerinçsiz, mas as acusações foram retiradas em 22 de janeiro de 2006.

Contudo, o estrago já havia sido feito. Manifestações contra Pamuk foram organizadas nas quais seus livros foram queimados. A campanha de ódio obrigou o escritor a sair do próprio país. Regressou mais tarde para se defender das acusações. Em entrevista a BBC, ele disse que queria defender a liberdade de expressão, a única esperança da Turquia para chegar a um acordo com a sua história: “O que aconteceu aos armênios otomanos em 1915 é algo importante que foi escondido da nação turca, é um tabu. Mas temos que ser capazes de falar sobre o passado.” As acusações contra Pamuk causaram reações no mundo todo. Oito autores mundialmente renomados como José Saramago, Gabriel García Márquez, Günter Grass, Umberto Eco, Carlos Fuentes, Juan Goytisolo, John Updike e Mario Vargas Llosa emitiram uma declaração conjunta de apoio a Pamuk e condenaram as acusações contra ele como uma violação dos direitos humanos.

Hrant Dink

Hrant Dink era um cidadão turco de origem armênia, editor-chefe do semanário bilíngue Agos (Ակօս) e colunista dos diários Zaman e BirGün. Conhecido por suas opiniões a respeito da reconciliação entre a Turquia e a Armênia e pela defesa dos direitos humanos, ele era frequentemente apontado como antinacionalista, tendo sido ameaçado de morte diversas vezes, bem como processado (nos termos do artigo 301) e condenado em um tribunal turco em razão de suas críticas à postura do Estado turco quanto ao reconhecimento do genocídio e da diáspora armênia. Em 19 de Janeiro de 2007, em frente à redação do Agos, no centro de Istambul, Hrant Dink foi assassinado a tiros. No dia seguinte, o assassino foi identificado pela polícia turca como sendo o jovem Ogün Samast, de 17 anos, que após preso confessou a autoria do crime. A morte do jornalista repercutiu internacionalmente como um fato negativo tanto na reaproximação entre a Turquia e a Armênia quanto na entrada da Turquia na União Europeia. A reação da população turca foi imediata: centenas de milhares de pessoas marcharam em Istambul em um protesto contra o assassinato aos gritos de “Todos nós somos armênios, todos nós somos Hrant Dink”.

França e Suíça

A França tentou, por duas vezes, um projeto que puniria quem negasse o genocídio armênio. Na mais recente das tentativas, o projeto foi aprovado pelo Parlamento, porém o Supremo Tribunal Federal derrubou a lei julgando-a inconstitucional. Em reação a esses projetos, milhares de manifestantes na capital turca queimaram bandeiras francesas durante dois protestos contra a votação na Assembleia Nacional em Paris. A imprensa turca criticou duramente a decisão da França com títulos como “Igualdade, Fraternidade e Estupidez”.

A Suíça, por outro lado, julgou e condenou dezessete cidadãos turcos, entre eles doze residentes na Suíça, acusados de negarem o genocídio. Os acusados foram enquadrados em artigo do Código Penal suíço sobre discriminação racial, com pena de prisão ou multa para quem, publicamente, “negar, minimizar ou procurar justificar um genocídio ou outro crime contra a Humanidade”. A queixa na Suíça foi devido a divergências entre turcos e armênios na Suíça. Duas organizações armênias fizeram uma petição pedindo o reconhecimento e a condenação do genocídio. Uma organização turca reagiu declarando “totalmente sem fundamento a comparação com o Holocausto o deslocamento de populações armênias”.

Os Protocolos turco-armênios

No dia 10/10/2009, Armênia e Turquia chegam a um acordo para o restabelecimento de relações diplomáticas. Nesse dia, foram assinados protocolos que previam a normalização das relações e a reabertura das fronteiras entre os dois países. Porém, o texto colocava em xeque o reconhecimento do genocídio, que seria alvo de apreciação de especialistas, o que irritou toda a diáspora armênia. O presidente da República da Armênia, Serzh Sargsyan, tentou apaziguar os ânimos, explicando que “ter relações com a Turquia não deve, de forma nenhuma, pôr em dúvida a realidade do Genocídio… É um fato bem conhecido e que deve ser reconhecido”. Os protocolos também não esclarecem qual é o status de Nagorno-Karabakh.
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A Obra do Espírito Santo - 15ª mensagem

As Primícias do Espírito e a Redenção da Cultura



Leandro Lima
Ano: 2014
30ª Edição da Conferência Fiel para Pastores e Líderes - Brasil
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quarta-feira, 29 de abril de 2015

03. O Ministério dos Anjos Hoje - Augustus Nicodemus

8 E aconteceu que, exercendo ele o sacerdócio diante de Deus, na ordem da sua turma,
9 Segundo o costume sacerdotal, coube-lhe em sorte entrar no templo do Senhor para oferecer o incenso.
10 E toda a multidão do povo estava fora, orando, à hora do incenso.
11 E um anjo do Senhor lhe apareceu, posto em pé, à direita do altar do incenso.
12 E Zacarias, vendo-o, turbou-se, e caiu temor sobre ele.
13 Mas o anjo lhe disse: Zacarias, não temas, porque a tua oração foi ouvida, e Isabel, tua mulher, dará à luz um filho, e lhe porás o nome de João.
14 E terás prazer e alegria, e muitos se alegrarão no seu nascimento,
15 Porque será grande diante do Senhor, e não beberá vinho, nem bebida forte, e será cheio do Espírito Santo, já desde o ventre de sua mãe.
16 E converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor seu Deus,
17 E irá adiante dele no espírito e virtude de Elias, para converter os corações dos pais aos filhos, e os rebeldes à prudência dos justos, com o fim de preparar ao Senhor um povo bem disposto.
18 Disse então Zacarias ao anjo: Como saberei isto? pois eu já sou velho, e minha mulher avançada em idade.
19 E, respondendo o anjo, disse-lhe: Eu sou Gabriel, que assisto diante de Deus, e fui enviado a falar-te e dar-te estas alegres novas.
20 E eis que ficarás mudo, e não poderás falar até ao dia em que estas coisas aconteçam; porquanto não creste nas minhas palavras, que a seu tempo se hão de cumprir.
21 E o povo estava esperando a Zacarias, e maravilhava-se de que tanto se demorasse no templo.
22 E, saindo ele, não lhes podia falar; e entenderam que tinha tido uma visão no templo. E falava por acenos, e ficou mudo.
23 E sucedeu que, terminados os dias de seu ministério, voltou para sua casa. Lucas 1. 8-23

Por Rev. Augustus Nicodemus Lopes
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O Genocídio Armênio, 100 anos [02/04]

“Genocídio” segundo o dicionário Merriam-Webster é a “deliberada e sistemática destruição de um grupo racial, político ou cultural”. O genocídio armênio, período sombrio da história, ocorreu entre 1915 e 1923 totalizando cerca de um milhão e meio de armênios mortos por ordens do governo otomano. 
Turcos, armênios, curdos, gregos, judeus e outros povos conviveram por séculos no Império Otomano. No século 19, o império começava a perder seus territórios na Europa e, com o início da 1ª Guerra Mundial, o governo otomano temia perder também as terras ocupadas historicamente pelos armênios na Ásia Menor. Além disso, os armênios estavam situados na fronteira entre os impérios otomano e russo, o que interessava a ambos pela posição estratégica de guerra. 
O governo dos Jovens Turcos implantou a política do panturquismo. O objetivo era instaurar no Império Otomano uma política que valorizasse os povos turcos e turco-descendentes em detrimento de outras etnias, sobretudo aquelas que adotavam o cristianismo, como os armênios, gregos e assírios.
O Genocídio

Em 1913, os Jovens Turcos se irritam com o fato das grandes potências estarem dando atenção à questão armênia e pressionarem por reformas. Em novembro de 1914, o Império Otomano entrou na I Guerra Mundial ao lado das Potências Centrais. No front de batalha, Enver Paxá saiu em campanha para cercar e destruir o exército russo no Cáucaso e Sarıkamısh a fim de recuperar territórios perdidos para a Rússia após a guerra turco-russa de 1877-1878. As forças de Enver Paxá foram exterminadas na Batalha de Sarikamısh. Retornando à Constantinopla, Enver culpou publicamente os armênios pela sua derrota desmoralizante no Cáucaso. Segundo ele, os armênios da região teriam lutado com os russos contra os otomanos.

O início do plano de extermínio

O início do genocídio começou com o desarmamento da população armênia, logo após a derrota em Sarikamısh. O governo otomano emitia pedidos para que os armênios entregassem suas armas em benefício do esforço de guerra. Logo em seguida, começou a censura aos serviços postais estrangeiros, estava cessada a comunicação no campo de batalha e na Turquia todas as cartas enviadas deveriam passar pela aprovação de um órgão do governo.

No dia 25 de fevereiro de 1915, o ministro de guerra Enver Paxá enviou uma ordem a todas as unidades militares dizendo que os armênios nas forças ativas otomanas deveriam ser desmobilizados e inscritos no desarmado Batalhão Trabalhista (em turco: amele taburlari). Enver justificou a decisão baseada no “medo de que eles colaborassem com os russos”. Muitos armênios trabalharam até a exaustão, morrendo em decorrência da desumana jornada de trabalho.

Em 19 de abril de 1915, Cevdet Bey exigiu que a cidade de Van imediatamente entregasse-lhe 4 mil soldados sob o pretexto de conscrição. No entanto, era claro para a população armênia que seu objetivo era massacrar os homens aptos de Van para que não houvesse defesa ao plano de extermínio que viria. Cevdet Bey já havia usado seu poder anteriormente em vilarejos próximos. Alegando busca por armamentos, o líder otomano iniciou um grande massacre na região. Os armênios ofereceram 500 soldados e uma quantia em dinheiro para Cevdet Bey isentar muitos outros do serviço militar, mas o turco acusou os armênios de tentarem iniciar uma “rebelião” e demonstrou sua determinação em “aniquilar” a qualquer custo. “Se os rebeldes atirarem um único tiro”, disse ele, “vou matar todo homem cristão, mulheres e [apontando para o joelho] toda criança até essa altura”.

Em 20 de Abril de 1915 iniciou-se a resistência de Van, quando uma mulher armênia foi assediada e dois homens armênios que vieram socorrê-la foram mortos por soldados turcos. Os defensores armênios protegiam 30 mil residentes e 15 mil refugiados em uma área de cerca de um quilometro quadrado com 1.500 homens armados que eram abastecidos com 300 rifles, mil pistolas e armas antigas. O conflito na cidade durou até que o General russo Yudenich fosse em socorro dos armênios.

Desde 1914, autoridades otomanas já haviam começado a propaganda para descrever os armênios que viviam no Império Otomano como uma ameaça à segurança do país. Na noite de 24 de Abril de 1915, o governo otomano capturou e prendeu aproximadamente 250 intelectuais e líderes da comunidade armênia, no que ficou conhecido como Domingo Vermelho.

As detenções começaram na noite de 24 para 25 de Abril. Entre 235 e 270 líderes armênios de Constantinopla (sacerdotes, médicos, editores, jornalistas, advogados, professores, políticos, entre outros) foram presos após uma instrução do Ministério do Interior. Em uma segunda “remessa” o número de presos subiu para aproximadamente 550.

A maioria das deportações era da capital. No fim de Agosto de 1915, cerca de 150 armênios com nacionalidade russa foram deportados da Constantinopla para Ancara e Mudshur.

A ação de 24 de Abril de 1915 foi operada pelo chefe de polícia de Constantinopla, Bedri Bey. Poucos detidos foram libertados na mesma semana, como o escritor Alexander Panossian (1859-1919), antes mesmo de serem transferidos para Anatólia. A maioria dos presos foi enviada à estação ferroviária de Haydarpaşa. Após esperar por 10 horas eles foram enviados de por trem na direção de Ancara. O trem seguia com 220 armênios. Um condutor de trem armênio conseguiu uma lista com os nomes dos deportados, que foi entregue ao Patriarca Armênio de Constantinopla, Zaven Der Yeghiayan, que tentou, em vão, salvar o máximo de armênios possíveis. O único embaixador estrangeiro a ajudá-lo em seus esforços foi o embaixador dos Estados Unidos, Henry Morgenthau. Depois de uma jornada de trem de 20 horas, os deportados chagaram em Sincanköy (perto de Ancara) ao meio-dia de terça-feira. Na estação Ibrahim o diretor da Penitenciária Central de Constantinopla fez a triagem. Os deportados foram divididos em dois grupos.

Um grupo foi enviado para Çankırı e o outro para Ayas. Quase todos dos enviados a Ayas foram mortos vários meses mais tarde em desfiladeiros perto de Ancara. Apenas dez deportados deste grupo foram receberam permissão para voltar à capital a partir de Ayas. Um grupo de 20 retardatários presos em 24 de Abril chegou a Çankırı entre 7 e 8 de maio de 1915. Cerca de 150 presos políticos foram detidos em Ayas e cerca de 150 intelectuais presos em Çankırı.

Os enviados a Çankırı obtiveram permissão de continuar na cidade vivendo de suas próprias rendas, com a condição de continuarem sob supervisão, enquanto os enviados para Ayas foram mantidos presos na guarnição. Um primeiro comboio com 56 prisioneiros deixou Çankırı no dia 11 ou 18 de julho sem sobreviventes. Um segundo comboio, com 30 deportados, deixou Çankırı em 19 de agosto. Dois deles sobreviveram (um deles Aram Adonian).

No total, doze deportados tiveram a permissão de voltar à capital a partir de Çankırı, após intervenção de pessoas influentes, como o próprio embaixador Morgenthau.

Em maio de 1915, Mehmet Talaat Paxá solicitou que o gabinete e o Grão-Vizir Said Halim Paxá legalizassem uma medida para realocação de armênios em outros locais, em resposta ao que ele chamou de “motins e massacres armênios, que aumentaram em alguns lugares no país”. No dia 29 de maio de 1915, o comitê central do CUP aprovou a Lei Temporária de Deportação (“Lei Tehcir”), concedendo aos militares autorização para deportar qualquer um que eles sentissem que poderia ser uma ameaça à segurança nacional. A “Lei Tehcir” trouxe algumas medidas que respeitavam as propriedades dos deportados, mas em setembro uma nova lei seria proposta. Segundo a Lei das “Propriedades Abandonadas” o governo otomano tomava posse de todas as propriedades e bens “abandonados” pelos armênios. O parlamentar representativo otomano Ahmed Riza protestou contra essa legislação:

“É ilegal designar os bens armênios como ‘bens abandonados’ já que os armênios, os proprietários, não abandonaram suas propriedades voluntariamente; eles foram forçosamente removidos de seus domicílios e exilados. Agora o governo se esforça para vender os bens deles… Se nós somos um regime constitucional funcionando conforme uma lei constitucional nós não podemos fazer essa atrocidade. Agarre-me pelo braço, retire-me da minha vila, então venda meus bens e propriedades, esse tipo de coisa nunca deve ser permitido. Nem a consciência dos otomanos nem a lei podem permitir isso.”

Em 13 de setembro de 1915 o parlamento otomano aprovou a “Lei Temporária de Expropriação e Confiscação”, estabelecendo que toda propriedade, incluindo terras, gado e casas pertencente aos armênios seria confiscada pelas autoridades.

O confisco de propriedades e o massacre de armênios indignou grande parte do mundo ocidental. Nos Estados Unidos, o The New York Times noticiava quase todo dia a matança em massa do povo armênio, descrevendo o processo como “sistemático”, “autorizado” e “organizado pelo governo”. Theodore Roosevelt mais tarde caracterizaria como “o mais importante crime de guerra”.

Colocava-se na praça central de cada povoado um aviso no qual dizia que a população devia partir para a “recolocação”. O pretexto consistia em fazer os armênios acreditarem que a população seria levada a uma zona de exclusão bélica, que os protegeria dos efeitos da guerra em curso. Mas “o objetivo da deportação é o nada”, segundo palavras atribuídas ao próprio Talaat Paxá. Estavam planejadas todas as rotas de deportação: ao norte seriam jogados no Mar Negro; os que viviam no centro da Anatólia, seriam levados sem comida e caminhando até o deserto de Der El Zor. Os métodos de aniquilamento eram realmente espantosos e não se respeitava nem o gênero nem a idade das vítimas. As ordens de Talaat esclareciam que crianças não deveriam viver nem no ventre de suas mães.

O Rio Eufrates apresentou, durante dias, uma cor vermelha causada pelas centenas de cadáveres que boiavam nas suas águas. Outros milhares de mulheres e crianças terminaram servindo nos haréns turcos, dando origem a incontáveis cidadãos turcos que até hoje desconhecem sua origem armênia.

Os armênios foram removidos para o deserto sírio. Uma boa parte das evidências sugere que o governo otomano não forneceu nenhuma instalação ou suporte para sustentar os armênios durante sua deportação, nem quando eles eventualmente chegassem ao destino, principalmente em Aleppo. Em Agosto de 1915, o The New York Times repetiu uma informação anônima de que “as estradas de Eufrates estão repletas de cadáveres de exilados, e os que sobreviverem estão destinados à morte certa”.

As tropas otomanas que acompanhavam os armênios não só permitiam que outros roubasse-os, matasse-os e estuprasse-os como também participavam desses atos. Desprovidos de seus pertences e marchando pelo deserto, centenas de milhares de armênios morreram, muitos de fome e esgotamento.

As ordens recebidas do ministro do interior, Talaat eram tão desumanas que alguns soldados turcos e chefes do exército não podiam acreditar no que os estava sendo pedido e pediam explicações e esclarecimentos. O resultado: foram fuzilados aqueles que se negaram a responder às ordens.

Acredita-se que 25 grandes campos de concentração existiram, sob o comando de Şükrü Kaya, braço direito de Talaat Pasha. A maioria dos campos era situada perto das fronteiras da moderna Turquia, Iraque e Síria e alguns eram usados temporariamente como covas gerais e foram deixados de ser usados no outono de 1915. Alguns autores também afirmam que os campos de Lale, Tefridje, Dipsi, Del-El e Ra’s al-‘Alin foram construídos especificamente para aqueles que tinham uma expectativa de vida de poucos dias.

Embora todos os campos estivessem ao ar livre a matança em massa em campos secundários não era limitada a mortes diretas, mas também à queima de corpos vivos. Eitan Belkind era um membro Nili que se infiltrou no exército otomano como um oficial. Ele foi nomeado para o quartel general de Camal Paxá. Ele alega ter testemunhado a queima de 5 mil armênios. Hasan Maruf, do exército otomano, descreve como uma população de uma vila foi levada inteira e depois queimada.

O comandante do Terceiro Exército relatou uma queima tão grande da população de uma vila inteira perto de Mush: “O método mais rápido para se livrar das mulheres e crianças concentradas em vários campos era queimá-las. Prisioneiros que aparentemente testemunharam algumas dessas cenas ficaram horrorizados e enlouquecidos de lembrar as cenas. Eles disseram aos russos que o mau cheiro da carne humana queimada permaneceu no ar por muitos dias depois”. Os alemães, aliados dos otomanos, também testemunharam a forma que os armênios foram queimados de acordo com o historiador israelense Bat Ye’or, que escreveu: “Os alemães, aliados dos turcos na I Guerra Mundial, […] viram como civis foram presos em igrejas e queimados ou reunidos em massa em campos, torturados até a morte e reduzidos a cinzas”. Ocorreram também, por parte de médicos turcos, casos de mortes por envenenamento, através de injeções de morfina e equipamentos de gases tóxicos utilizados em escolas para matar crianças armênias, além de forjarem documentos de mortes por causas naturais.

Oscar S. Heizer, o cônsul americano em Trabzon, relata: “Muitas das crianças foram colocadas em botes, levadas e jogadas ao mar”. O cônsul italiano de Trabzon em 1915, Giacomo Gorrini, escreve: “Eu vi milhares de mulheres e crianças inocentes serem colocados em botes que eram virados no Mar Negro”. Do oficial Alemão Von Sanders:

“As ordens que recebi estavam assinadas por Enver Paxá e tinham um teor mais leve. Às vezes eram totalmente despropositadas e impossíveis de serem executadas. Por exemplo, certa vez chegou uma ordem para afastar todos os judeus e armênios do Estado-Maior. Evidentemente ela não foi cumprida porque necessitávamos dos armênios e dos judeus como intérpretes. Com frequência recebíamos ordens absurdas.”

O Comitê União e Progresso criou uma “organização especial” que participou da destruição da comunidade armênia otomana. A organização adotou esse nome em 1913 e funcionou com uma roupagem de forças especiais. Mais tarde, em 1914, o governo otomano anistiou criminosos das prisões centrais para que se engajassem nessa nova organização recém-formada. Mais tarde, eles foram encarregados de escoltar os comboios com armênios deportados. Vehib Paxá, comandante do Terceiro Exército Otomano, chamou os integrantes da organização especial de “carniceiros da espécie humana”.

Grupos de resistência de armênios impediram que o plano de extermínio fosse ainda mais danoso. Outros sobreviveram porque se escondiam em meio aos cadáveres durante as deportações ou porque foram amparados por turcos e curdos que não concordavam com a política genocida de Constantinopla, sob risco de serem mortos por socorrerem refugiados.

O pós-guerra

Após ser derrotado na I Guerra Mundial, o Império Otomano viu-se muito perto de seu fim. Enquanto isso, muitos armênios tentavam voltar às suas cidades, sem suspeitar que no início dos anos 1920, na tentativa de fundar a República da Turquia, muitos deles seriam novamente expulsos ou mortos. Embora os Jovens Turcos tenham sido condenados à pena de morte por organizar e executar o massacre do povo armênio, Talaat, Enver, Cemal e Nazim fugiram do país. Enquanto isso, Mustafá Kemal assume o poder no país e irá continuar a política de perseguição de armênios até 1923.

Kemal e seu exército retomaram Marash, Hadjin, Urfa e outras regiões da Cilícia que estavam sob controle francês e abrigavam armênios retornados do exílio na Síria. Em Aintab, ocorreu uma disputa com os armênios que não estavam dispostos a retirar-se novamente de suas terras. Os armênios ingenuamente tinham um lema: “Mère des Armeniens France notre espérance” (Mãe dos Armênios, a França é nossa esperança), ignorando os vários acordos que posteriormente os franceses firmariam com Ancara outorgando os protetorados de Musa Dagh e arredores. Kemal se empossou de Aintab, à qual rebatizaram Gaziantep.

As potências protegiam os interesses da Turquia para garantir o acesso aos poços de petróleo de Baku e Iraque e evitar a expansão soviética pelo Oriente Médio. Assim foi firmado o Tratado de Lausanne em 1923 que firmou as atuais fronteiras da República da Turquia.
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terça-feira, 28 de abril de 2015

O Genocídio Armênio, 100 anos [01/04]

Hoje, a principal luta de milhões de armênios e não armênios é pelo reconhecimento mundial das atrocidades cometidas pelos Jovens Turcos durante a I Guerra Mundial como um genocídio. Até agora, mais de vinte países reconhecem a existência do genocídio armênio. Porém, o Brasil não figura nessa lista. Todos os anos, na semana do dia 24 de abril, manifestações públicas em memória das vítimas do genocídio são organizadas em São Paulo, com o objetivo de dar visibilidade ao acontecimento histórico, à luta do povo armênio e pedir reconhecimento aos governos de Brasil e Turquia, dentro dos marcos democráticos e pacíficos. Como diziam os armênios mobilizados em 2005, “não há ódio, só mágoa”.
Panorama

O panorama histórico do genocídio

Frequentemente, ao tentarem “justificar” o genocídio, muitos turcos alegam uma “traição” armênia da relação de quase 600 anos entre ambos os povos no Império Otomano.

De fato, armênios, turcos e outros povos conviveram por séculos no território otomano, mas essa história não teve um final feliz para alguns desses. Muitos armênios auxiliaram no progresso cultural, econômico e político do Império. Alguns membros da comunidade armênia chegaram a ocupar cargos importantes da administração otomana.

No século 19, o Império foi gradativamente perdendo terreno na Europa, o que levou as autoridades a temerem a fragmentação total do país caso a onda de independência atingisse a Ásia Menor. Para evitar a destruição do Império, os Jovens Turcos alimentaram as ideias de panturquismo, que preconizavam a união dos povos de raízes turcas (azerbaijanos, turcomanos, uzbeques, etc.). Os armênios, povo não turco e cristão, eram um empecilho físico a esse plano. Ademais, ideias nacionalistas oriundas da Europa atingiram os armênios no final do século 19, tornando-os mais hostis ao nacionalismo turco e ajudando a organizá-los para resistir às tentativas de turquificação oriundas de Constantinopla.

Altos impostos, tratamento desigual, saques constantes e outras situações começaram a fazer parte do cotidiano dos armênios, que já não suportavam mais ser considerados cidadãos de segunda classe em suas próprias terras. Algumas vilas e cidades se rebelaram contra a violência imperial, mas foram rapidamente sufocadas pelas tropas otomanas. Tais eventos foram usados como justificativa pelo governo dos Jovens Turcos para atacarem o povo armênio, afirmando que eram revoltosos e traidores.

Os massacres promovidos pelo Sultão Abdul-Hamid II

Mas a situação extrema entre turcos e armênios não é um acontecimento isolado a partir de 1915. Já no final do século XIX, muitos armênios foram mortos por ordens do Sultão Abdul-Hamid II. O governo de Abdul-Hamid II marcou o princípio do fim do Império Otomano, como também o início do que seria chamada de “Causa Armênia”. Milhares de armênios seriam massacrados (algumas estatísticas apontam para 300 mil mortos), o que faria com que o sultão ficasse conhecido como o “Sultão Vermelho”.

Em um cenário de perdas de territórios otomanos, o nacionalismo das minorias crescia pelo país, despertando reivindicações de direitos iguais a todos os povos e até mesmo de autonomia. O governo otomano entendeu essas manifestações como uma ameaça à existência do Império. Nos anos 1890, os armênios pediam que as promessas de reformas do Império Otomano fossem cumpridas, exigindo melhor tratamento para as minorias e o estabelecimento de uma constituição.

Em 1894, num cenário de aumento da repressão por parte do sultão, algumas cidades armênias organizaram autodefesas, como em Sassun, onde partidários do partido político armênioHenchakian disseminavam ideias de autonomia e resistência. A Federação Revolucionária Armênia foi outro grupo criado no mesmo período, também pela autonomia dos armênios otomanos, e teve papel importante na organização de grupamentos armados que impediam o assalto das vilas e cidades armênias por grupos curdos patrocinados pelo sultão.

Em resposta à resistência em Sassun, o governador de Mush incitou os turcos locais contra os armênios. O sultão enviou tropas otomanas para apoiarem os grupos curdos e a violência se espalhou por toda a região. Um dos acontecimentos mais chocantes ocorreu na cidade de Urfa, onde quase três mil armênios morreram queimados após a Igreja onde eles estavam abrigados ter sido incendiada pelos turcos.

A maior parte do massacre de armênios ocorreu entre 1895 e 1897. O Sultão considerava a matança a melhor maneira de pôr fim à questão armênia e acreditava que poderia exterminar os revolucionários ou expulsá-los do Império. O governo otomano fechou instituições armênias e restringiu os movimentos políticos.

Tanto o sultão, quanto posteriormente os Jovens Turcos, consideravam os armênios como aliados das potências ocidentais, que buscavam a ruína do Império para dominar suas riquezas. Essas, por sua vez, consideravam o Império Otomano “o homem doente da Europa”, utilizaram dos massacres de armênios para enfraquecer a imagem do sultão e do Império mundo afora. Enquanto pressionavam o sultão por reformar o Império e torná-lo mais receptivo ao capital europeu, britânicos e alemães disputavam quem iria construir as lucrativas ferrovias otomanas rumo a Mesopotâmia.

A queda do Sultão

Enquanto isso, as perdas territoriais continuavam a acontecer e o descontentamento interno para o sultão só crescia. Em Salônica, um movimento político liberal e secular se organizava para mudar os rumos da política e otomana e, eventualmente, remover Abdul-Hamid II do trono. Esse movimento foi a gênese do Comitê União e Progresso e seus membros, quase todos jovens oficiais do exército ou filhos de importantes funcionários do governo, ficaram conhecidos como Jovens Turcos.

Em 1908, as esperanças armênias por igualdade no Império renasceram quando um golpe de Estado encabeçado pelos Jovens Turcos destronou Abdul-Hamid II e restaurou a constituição otomana. Os jovens queriam uma reforma administrativa do decadente Império Otomano para modernizá-lo ao estilo europeu. O movimento era uma coalizão formada de dois grupos distintos: os constitucionalistas seculares e os nacionalistas. Os primeiros, mais liberais, aceitavam o apoio das minorias como os armênios; enquanto os últimos eram mais hostis aos armênios por conta dos recorrentes pedidos de intervenção que esses fizeram junto às potências.

Porém, a situação do Império não melhorou. Territórios continuavam a serem perdidos e a insatisfação popular não melhorou, o que levou os Jovens Turcos a radicalizarem a sua agenda. A ala nacionalista ganhou espaço dentro do Comitê União e Progresso e o discurso que pregava a união dos povos turcos contra os elementos estrangeiros se espalhava pelo país.

Em reuniões secretas do Comitê, importantes ideólogos e lideranças dos Jovens Turcos discutiam o destino dos armênios e como eles eram o inimigo interno, impossível de “turquificar” e cuja existência ameaçava o Império.

Uma tentativa de contragolpe aconteceu em 1909. Alguns militares otomanos aderiram a estudantes religiosos com o propósito de devolver o controle do país ao Sultão e às regras da lei islâmica. Revoltas e combates eclodiram entre as forças reacionários e as forças do Comitê, até que os Jovens Turcos conseguiram abafar o levante.

Enquanto isso, na cidade de Adana, o clima tenso chegou aos bairros armênios, apoiadores dos Jovens Turcos nos primeiros momentos. Perseguições contra armênios em Adana e se espalharam pela província, o que motivou a intervenção de tropas imperiais. Quando as tropas do exército otomano chegaram, em vez de tentar acalmar a violência, tomaram parte na pilhagem de propriedades armênias na província. Estima-se que entre 15 e 30 mil armênios tenham sido mortos durante o “Massacre de Adana”. Após a onda de violência, muitos armênios perderam as esperanças nos Jovens Turcos e na proposta modernizante que esses pregavam e iniciaram sua própria luta.

Contudo, alguns setores da cúpula do Comitê União e Progresso começavam a organizar um plano secreto contra os armênios a ser implementado em momento oportuno, que viria a ser o início da I Guerra Mundial. O plano consistia em um grande massacre, mais organizado e letal que os que já haviam sido registrados na época do Sultão Abdul-Hamid II. O plano foi planejado, premeditado, planificado e sistematicamente executado: desarmar-se-ia a população, retirar-se-ia os intelectuais e lideranças armênias, matar-se-ia todos os homens armênios e far-se-ia as “caravanas para a morte”.
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segunda-feira, 27 de abril de 2015

Escolas Cristãs

Presidente de uma associação de escolas cristãs, o Rev. Mauro Meister nos fala um pouco do que significar ter uma escola confessional em um país laico.

Assista à entrevista realizada com a ajuda do voluntário Yago Martins durante a Conferência Fiel para Pastores e Líderes de 2014:


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Os Cânones de Dort (1618-1619)



CAPÍTULO 5

A PERSEVERANÇA DOS SANTOS

1. Aqueles que, de acordo com o seu propósito, Deus chama à comunhão do seu Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, e regenera pelo seu Santo Espírito, Ele certamente os livra do domínio e da escravidão do pecado. Mas nesta vida, Ele não os livra totalmente da carne e do corpo de pecado (Rom 7:24).

2. Portanto, pecados diários de fraqueza surgem e até as melhores obras dos santos são imperfeitas. Estes são para eles constante motivo para humilhar-se perante Deus e refugiar-se no Cristo crucificado. Também são motivo para mais e mais mortificar a carne através do Espírito de oração, e através dos santos exercícios de piedade, e ansiar pela meta da perfeição. Eles fazem isto até que possam reinar com o Cordeiro de Deus nos céus, finalmente livres deste corpo de morte.

3. Por causa dos seus pecados remanescentes e também por causa das tentações do mundo e de Satanás, aqueles que têm sido convertidos não poderiam perseverar nesta graça, se deixados ao cuidado de suas próprias forças. Mas Deus é fiel: misericordiosamente os confirma na graça, uma vez conferida sobre eles, e poderosamente preserva a eles na sua graça até o fim.

4. O poder de Deus, pelo qual Ele confirma e preserva os verdadeiros crentes na graça, é tão grande que isto não pode ser vencido pela carne. Mas os convertidos nem sempre são guiados e movidos por Deus, e assim eles poderiam, em certos casos, por sua própria culpa, se desviar da direção da graça, e ser seduzidos pelos desejos da carne e segui-los. Devem, portanto, vigiar constantemente e orar para que não caiam em tentação. Quando não vigiarem e orarem, eles podem ser levados pela carne, pelo mundo e por Satanás para sérios e horríveis pecados. Isto ocorre também muitas vezes pela justa permissão de Deus. A lamentável queda de Davi, Pedro e outros santos, descrita na Sagrada Escritura, demonstra isto.

5. Por tais pecados grosseiros, entretanto, eles causam a ira de Deus, se tornam culpados da morte, entristecem o Espírito Santo, suspendem o exercício da fé, ferem profundamente suas consciências e algumas vezes perdem temporariamente a sensação da graça. Mas quando retornam ao reto caminho por meio de arrependimento sincero, logo a face paternal de Deus brilha novamente sobre eles.

6. Pois Deus, que é rico em misericórdia, de acordo com o imutável propósito da eleição, não retira completamente o seu Espírito dos seus, mesmo em sua deplorável queda. Nem tão pouco permite que venham a cair tanto que recaiam da graça da adoção e do estado de justificado. Nem permite que cometam o pecado que leva à morte, isto é, o pecado contra o Espírito Santo e assim sejam totalmente abandonados por Ele, lançando-se na perdição eterna.

7. Pois, em primeiro lugar, em tal queda, Deus preserva neles sua imperecível semente da regeneração, a fim de que esta não pereça nem seja lançada fora. Além disto, através da sua Palavra e seu Espírito, certamente Ele os renova efetivamente para arrependimento. Como resultado eles se afligem de coração com uma tristeza para com Deus pelos pecados que têm cometido; procuram e obtêm pela fé, com coração contrito, perdão pelo sangue do Mediador; e experimentam novamente a graça de Deus, que é reconciliado com eles, adorando sua misericórdia e fidelidade. E de agora em diante eles se empenham mais diligentemente pela sua salvação com temor e tremor.

8. Assim, não é por seus próprios méritos ou força mas pela imerecida misericórdia de Deus que eles não caiam totalmente da fé e da graça e nem permaneçam caídos ou se percam definitivamente. Quanto a eles, isto facilmente poderia acontecer e aconteceria sem dúvida. Porém, quanto a Deus, isto não pode acontecer, de modo nenhum. Pois seu decreto não pode ser mudado, sua promessa não pode ser quebrada, seu chamado em acordo com seu propósito não pode ser revogado. Nem o mérito, a intercessão e a preservação de Cristo podem ser invalidados, e a selagem do Espírito tão pouco pode ser frustrada ou destruída.

9. Os crentes podem estar certos e estão certos desta preservação dos eleitos para salvação e da perseverança dos verdadeiros crentes na fé. Esta certeza é de acordo com a medida de sua fé, pela qual eles crêem com certeza que são e permanecerão verdadeiros e vivos membros da Igreja, e que têm o perdão de pecados e a vida eterna.

10. Esta certeza não vem de uma revelação especial, sem ou fora da Palavra, mas vem da fé nas promessas de Deus, que Ele revelou abundantemente em sua Palavra para nossa consolação. Vem também do testemunho do Espírito Santo, testificando com o nosso espírito de que somos filhos e herdeiros de Deus; e finalmente, vem do zelo sério e santo por uma boa consciência e por boas obras. E se os eleitos não tivessem neste mundo a sólida consolação de obter a vitória e esta garantia infalível da glória eterna, seriam os mais miseráveis de todos os homens (Rom 8:16,17).

11. No entanto, a Escritura testifica que os crentes nesta vida têm de lutar contra várias dúvidas da carne e, sujeitos a graves tentações, nem sempre sentem plenamente esta confiança da fé e certeza da perseverança. Mas Deus, que é Pai de toda a consolação, não os deixa ser tentados além de suas forças, mas com a tentação proverá também o livramento e pelo Espírito Santo novamente revive neles a certeza da perseverança (I Cor. 10:13).

12. Entretanto, esta certeza de perseverança não faz de maneira nenhuma que os verdadeiros crentes se orgulhem e se acomodem. Ao contrário, ela é a verdadeira raiz da humildade, reverência filial, verdadeira piedade, paciência em toda luta, orações fervorosas, firmeza em carregar a cruz e confessar a verdade e alegria sólida em Deus. Além do mais, a reflexão deste benefício é para eles um estímulo para praticar séria e constantemente a gratidão e as boas obras, como é evidente nos testemunhos da Escritura e nos exemplos dos santos.

13. Quando pessoas são levantadas de uma queda (no pecado) começa a reviver a confiança na perseverança. Isto não produz descuido ou negligência na piedade delas. Em vez disto produz maior cuidado e diligência para guardar os caminhos do Senhor, já preparados, para que, andando neles, possam preservar a certeza da perseverança. Quando fazem isto o Deus reconciliado não retira de novo sua face delas por causa do abuso da sua bondade paternal (a contemplação dela é para os piedosos mais doce que a vida e sua retirada mais amarga que a morte), e elas não cairão em tormentos mais graves da alma (Ef. 2:10).

14. Tal como agradou a Deus iniciar sua obra da graça em nós pela pregação do evangelho, assim Ele a mantém, continua e aperfeiçoa pelo ouvir e ler do Evangelho, pelo meditar nele, pelas suas exortações, ameaças, e promessas, e pelo uso dos sacramentos.

15. Deus revelou abundantemente em sua Palavra esta doutrina da perseverança dos verdadeiros crentes e santos, e da certeza dela, para a glória do seu Nome e para a consolação dos piedosos. Ele a imprime nos corações dos crentes, mas a carne não pode entendê-la. Satanás a odeia, o mundo zomba dela, os ignorantes e hipócritas dela abusam, e os heréticos a ela se opõem. A Noiva de Cristo, entretanto, sempre tem-na amado ternamente e defendido constantemente como um tesouro de inestimável valor. Deus, contra quem nenhum plano pode se valer e nenhuma força pode prevalecer, cuidará para que a Igreja possa continuar fazendo isso. Ao único Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, sejam a honra e a glória para sempre. Amém!

REJEIÇÃO DE ERROS

Havendo explicado a doutrina ortodoxa, o Sínodo rejeita os seguintes erros:

Erro 1 - A perseverança dos verdadeiros crentes não é resultado da eleição ou um dom de Deus obtido pela morte de Cristo. É uma condição da nova aliança, que o homem deve cumprir pela sua livre vontade antes da assim chamada eleição decisiva, e justificação.

Refutação - A Escritura Sagrada testifica que a perseverança provém da eleição e é dada aos eleitos pelo poder da morte, ressurreição e intercessão de Cristo: "a eleição o alcançou; e os mais foram endurecidos" (Rom 11:7). Também: "Aquele que não poupou a seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura não nos dará graciosamente com Ele todas as coisas? Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? É Cristo quem morreu, ou antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus, e também intercede por nós. Quem nos separará do amor de Cristo?" (Rom 8:32-35)

Erro 2 - Deus de fato provê os crentes de suficientes forças para perseverar, e está pronto para preservar tais forças nele, se este cumprir seu dever; mas ainda que todas estas coisas tenham sido estabelecidas, que são necessárias para perseverar na fé e que Deus usa para preservar a fé, ainda assim dependerá da vontade humana se perseverar ou não.

Refutação - Esta idéia é abertamente pelagiana. Enquanto deseja libertar o homem, o faz usurpador da honra de Deus. Combate o consenso geral da doutrina evangélica que retira do homem todo motivo de orgulho e atribui todo louvor por este benefício somente à graça de Deus. É também contrário ao apóstolo que declara: "...o qual também vos confirmará até ao fim, para serdes irrepreensíveis no dia de nosso Senhor Jesus Cristo" (1 Cor 1:8).

Erro 3 - Crentes verdadeiramente regenerados não só podem perder completa e definitivamente a fé justificadora, a graça e a salvação, mas de fato as perdem freqüentemente e assim se perdem eternamente.

Refutação - Esta opinião invalida a graça, justificação, regeneração e contínua preservação por Cristo. Ela é contrária às palavras expressas do apóstolo Paulo: "Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco, pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores. Logo, muito mais agora, sendo justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira" (Rom 5:8,9). É contrária ao apóstolo João: "Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática do pecado; pois o que permanece nele é a divina semente; ora, esse não pode viver pecando porque é nascido de Deus" (1 Jo 3:9). Também é contrária às palavras de Jesus Cristo: "Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, eternamente, e ninguém as arrebatará da minha mão. Aquilo que meu Pai me deu é maior do que tudo; e da mão do Pai ninguém pode arrebatar" (Jo 10:28,29).

Erro 4 - Verdadeiros crentes regenerados podem cometer o pecado que leva à morte ou o pecado contra o Espírito Santo.

Refutação - Após o apóstolo João ter falado no 5º capítulo de sua 1ª carta, versos 16 e 17, sobre aqueles que pecam para morte e de ter proibido de orar por eles, logo acrescenta no verso 18: "Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não vive em pecado, antes, Aquele que nasceu de Deus o guarda, e o maligno não lhe toca."

Erro 5 - Sem uma revelação especial não podemos ter nesta vida, nenhuma certeza da perseverança futura.

Refutação - Por tal doutrina o seguro consolo dos crentes verdadeiros nesta vida é tirado, e as dúvidas dos seguidores do papa são novamente introduzidas na igreja. As Escrituras Sagradas, entretanto, sempre deduzem esta segurança, não a partir de uma revelação especial e extraordinária, mas a partir das marcas dos filhos de Deus e das promessas mui firmes dEle. Especialmente o apóstolo Paulo ensina isto:"...nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus que há em Cristo Jesus nosso Senhor" (Rom 8:39). E João escreve: "E aquele que guarda os seus mandamentos permanece em Deus, e Deus nele. E nisto conhecemos que Ele permanece em nós, pelo Espírito que nos deu" (1 Jo 3:24).

Erro 6 - Por sua própria natureza a doutrina da certeza da perseverança e da salvação causa falsa segurança e prejudica a piedade, os bons costumes, orações e outros santos exercícios. Ao contrário, é louvável duvidar desta certeza.

Refutação - Esta falsa doutrina ignora o efetivo poder da graça de Deus e a operação do Santo Espírito, que habita em nós. Contradiz o apóstolo João que, em palavras explícitas, ensina o contrário: "Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque havemos de vê-Lo como ele é. E a si mesmo se purifica todo o que nele tem esta esperança, como ele é puro." (1 Jo 3:2,3) Ainda mais, ela é refutada pelos exemplos dos santos tanto no Antigo como no Novo Testamento, que, não obstante estarem certos de sua perseverança e salvação, continuaram em oração e outros exercícios de piedade.

Erro 7 - A fé daqueles que crêem apenas por um tempo não é diferente da fé justificadora e salvadora, a não ser com respeito à sua duração.

Refutação - Em Mt 13:20-23 e Lc 8:13-15 Cristo mesmo indica claramente, além da duração, uma tríplice diferença entre os que crêem só por um tempo e os verdadeiros crentes. Ele declara que o primeiro recebe a semente em terra rochosa, mas o último em bom solo, ou seja, em bom coração; que o primeiro é sem raiz, mas o último tem firme raiz; que o primeiro não tem fruto, mas o último produz fruto em várias medidas, constante e perseverantemente.

Erro 8 - Não é absurdo o fato de alguém, tendo perdido sua primeira regeneração, nascer de novo e mesmo freqüentemente nascer de novo.

Refutação - Esta doutrina nega que a semente de Deus, pela qual somos nascidos de novo, seja incorruptível. Isto é contrário ao testemunho do apóstolo Pedro: "...pois fostes regenerados, não de semente corruptível, mas de incorruptível..." (I Ped. 1:23).

Erro 9 - Cristo em lugar algum orou para que os crentes perseverassem infalivelmente na fé.

Refutação - Isto contradiz ao próprio Cristo, que diz: "Eu, porém, roguei por ti" (Pedro) "para que a tua fé não desfaleça." (Lc 22:32). Também contradiz o apóstolo João que declara que Cristo não orava somente pelos apóstolos, mas também por todos aqueles que viessem a crer por meio da palavra deles: "Pai Santo, guarda-os em teu nome, que me deste...Não peço que os tires do mundo; e, sim, que os guardes do mal." (Jo 17:11,15).

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Os Cânones de Dort abordam cinco tópicos doutrinários em 59 artigos: (1) A predestinação divina; (2) A morte de Cristo e a redenção do homem; (3-4) A corrupção do homem e sua conversão a Deus; (5) A perseverança dos santos. As principais ênfases do documento são as seguintes: Deus elege e reprova não com base na previsão de fé ou incredulidade, mas por sua vontade soberana; a morte de Cristo foi suficiente para todos, mas é eficaz somente para os eleitos; mediante a queda, a humanidade ficou totalmente corrompida; a graça de Deus atua eficazmente para converter os descrentes, embora não o faça por coerção; Deus preserva os crentes de modo que não podem decair totalmente da graça. Essas declarações foram resumidas em algumas expressões conhecidas como “os cinco pontos do calvinismo”: Depravação total, Eleição incondicional, Expiação limitada, Graça irresistível e Perseverança dos santos, cujas iniciais em inglês formam a palavra “Tulip”.

O Sínodo de Dort marcou um importante ponto de transição na história da fé reformada na Holanda. Estabeleceu definitivamente o calvinismo como a teologia da igreja holandesa e também tornou oficiais a Confissão Belga e o Catecismo de Heidelberg. Os cânones, que foram assinados por todos os delegados, expressaram o consenso de uma significativa diversidade teológica e representaram o triunfo de um calvinismo moderado, sendo considerados uma das melhores expressões da ortodoxia protestante.
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Confissão Belga

ARTIGO 27

A IGREJA CATÓLICA OU UNIVERSAL

Cremos e confessamos uma só igreja católica ou universal1. Ela é uma santa congregação e assembléia2 dos verdadeiros crentes em Cristo, que esperam toda a sua salvação de Jesus Cristo3, lavados pelo sangue dEle, santificados e selados pelo Espírito Santo4.

Esta igreja existe desde o princípio do mundo e existirá até o fim. Pois, Cristo é um Rei eterno, que não pode estar sem súditos5. Esta santa igreja é mantida por Deus contra o furor do mundo inteiro6, mesmo que ela, às vezes, por algum tempo, seja muito pequena e na opinião dos homens, quase desaparecida7. Assim, Deus guardou para si, na perigosa época de Acabe, sete mil homens, que não tinham dobrado os joelhos a Baal8.

Esta santa igreja também não está situada, fixada ou limitada em certo lugar, ou ligada a certas pessoas, mas ela está espalhada e dispersa pelo mundo inteiro9. Contudo, está integrada e unida, de coração e vontade, no mesmo Espírito, pelo poder da fé10.

1 Gn 22:18; Is 49:6; Ef 2:17-19. 2 Sl 111:1; Jo 10:14,16; Ef 4:3-6; Hb 12:22,23. 3 Jl 2: 32; At 2:21. 4 Ef 1:13; Ef 4:30. 5 2Sm 7:16; Sl 89:36; Sl 110:4; Mt 28:18,20; Lc 1:32. 6 Sl 46:5; Mt 16:18. 7 Is 1:9; 1Pe 3:20; Ap 11:7. 8 1Rs 19:18; Rm 11:4. 9 Mt 23:8; Jo 4:21-23; Rm 10:12,13. 10 Sl 119:63; At 4:32; Ef 4:4.

ARTIGO 28

O DEVER DE JUNTAR-SE À IGREJA

Esta santa assembléia é a congregação daqueles que são salvos, e fora dela não há salvação1. Cremos, então, que ninguém, qualquer que seja a posição ou qualidade, deve viver afastado dela e contentar-se com sua própria pessoa. Mas cada um deve se juntar e se reunir a ela2, mantendo a unidade da igreja, submetendo-se a sua instrução e disciplina3, curvando-se diante do jugo de Jesus Cristo4 e servindo para a edificação dos irmãos5, conforme os dons que Deus concedeu a todos, como membros do mesmo corpo6.

Para observar melhor tudo isto, o dever de todos os fiéis é, conforme a Palavra de Deus, separar-se daqueles que não pertencem a igreja7, e juntar-se a esta assembléia8 em todo lugar onde Deus a tenha estabelecido. Este dever deve ser cumprido, mesmo que os governos e as leis das autoridades o contrariem e mesmo que a morte ou a pena corporal sejam a consequência disto9.

Por isso, todos os que se separam desta igreja ou não se juntam a ela, contrariam a ordem de Deus.

1 Mt 16:18,19; At 2:47; Gl 4:26; Ef 5:25-27; Hb 2:11,12; Hb 12:23. 2 2Cr 30:8; Jo 17:21; Cl 3:15. 3 Hb 13:17. 4 Mt 11:28-30. 5 Ef 4:12. 6 1Co 12:7,27; Ef 4:16. 7 Nm 16:23-26; Is 52:11,12; At 2:40; Rm 16:17; Ap 18:4. 8 Sl 122:1; Is 2:3; Hb 10:25. 9 At 4:19,20.

ARTIGO 29

AS MARCAS DA VERDADEIRA IGREJA, DE SEUS MEMBROS E DA FALSA IGREJA

Cremos que se deve discernir diligentemente e com muito cuidado, pela Palavra de Deus, qual é a verdadeira igreja, visto que todas as seitas, que atualmente existem no mundo, se chamam igreja, mas sem razão1. Não falamos aqui dos hipócritas que, na igreja, se acham entre os sinceros fiéis; contudo, não pertencem à igreja, embora sejam membros dela2. Mas queremos dizer que se deve distinguir o corpo e a comunhão da verdadeira igreja, de todas as seitas que se dizem igreja.

As marcas para conhecer a verdadeira igreja são estas: ela mantém a pura pregação do Evangelho3, a pura administração dos sacramentos4 como Cristo os instituiu, e o exercício da disciplina eclesiástica para castigar os pecados5. Em resumo: ela se orienta segundo a pura Palavra de Deus6, rejeitando todo o contrário a esta Palavra7 e reconhecendo Jesus Cristo como o único Cabeça8. Assim, com certeza, se pode conhecer a verdadeira igreja; e a ninguém convém separar-se dela.

Aqueles que pertencem à igreja podem ser conhecidos pelas marcas dos cristãos, a saber: pela fé9 e pelo fato de que eles, tendo aceitado Jesus Cristo como único Salvador, fogem do pecado e seguem a justiçal0, amando Deus e seu próximo11, não se desviando para a direita nem para a esquerda e crucificando a carne, com as obras dela12. Isto não quer dizer, por ém , que eles não têm ainda grande fraqueza, mas, pelo Espírito, a combatem, em todos os dias de sua vida 13, e sempre recorr em ao sangue, à morte, ao sofrimento e à obediência do Senhor Jesus. NEle eles têm a remissão dos pecados, pela fél4.

Quanto à falsa igreja, ela atribui mais poder e autoridade a si mesma e a seus regulamentos do que à Palavra de Deus e não quer submeter-se ao jugo de Cristo15. Ela não administra os sacramentos como Cristo ordenou em sua Palavra, mas acrescenta ou elimina o que lhe convém. Ela se baseia mais nos homens que em Cristo. Ela persegue aqueles que vivem de maneira santa, conforme a Palavra de Deus, e que lhe repreendem os pecados, a avareza e a idolatria16.

É fácil conhecer estas duas igrejas e distingui-las uma da outra.

1 Ap 2:9. 2 Rm 9:6. 3 Gl 1:8; 1Tm 3:15. 4 At 19:3-5; 1Co 11:20-29. 5 Mt 18:15-17; 1Co 5:4,5,13; 2Ts 3:6,14; Tt 3:10. 6 Jo 8:47; Jo 17:20; At 17:11; Ef 2:20; Cl 1:23; 1Tm 6:3. 7 1Ts 5:21; lTm 6:20; Ap 2:6. 8 Jo 10:14; Ef 5:23; C1 1:18. 9 Jo 1:12; 1Jo 4:2. 10 Rm 6:2; Fp 3:12. 11 1Jo 4:19-21. 12 Gl 5:24. 13 Rm 7:15; G1 5:17. 14 Rm 7:24,25; 1Jo 1: 7-9. 15 At 4:17,18; 2Tm 4:3,4; 2Jo: 9. 16 Jo 16:2.

ARTIGO 30

O GOVERNO DA IGREJA

Cremos que esta verdadeira igreja deve ser governada conforme a ordem espiritual, que nosso Senhor nos ensinou na sua Palavra1. Deve haver ministros ou pastores para pregarem a Palavra de Deus e administrarem os sacramentos2; deve haver também presbíteros3 e diaconos4 para formarem, com os pastores, o conselho da igreja5. Assim, eles devem manter a verdadeira religião e fazer com que a verdadeira doutrina seja propagada, que os transgressores sejam castigados e contidos, de forma espiritual, e que os pobres e os aflitos recebam ajuda e consolação, conforme necessitam6.

Desta maneira, tudo procederá, na igreja, em boa ordem, quando forem eleitas pessoas fiéis7, conforme a regra do apóstolo Paulo na carta a Timóteo8.

1 At 20:28; Ef 4:11,12; 1Tm 3:15; Hb 13:20, 21. 2 Lc 1:2; Lc 10:16; Jo 20:23; Rm 10:14; 1Co 4:1; 2Co 5:19,20; 2Tm 4:2. 3 At 14:23; Tt 1:5. 4 1Tm 3:8-10. 5 Fp 1:1; 1Tm 4:14. 6 At 6:1-4; Tt 1:7-9. 7 1Co 4:2. 8 1Tm 3.

ARTIGO 31

OS OFÍCIOS NA IGREJA

Cremos que os ministros da palavra de Deus, os presbíteros e os diáconos devem ser escolhidos para seus ofícios1 mediante eleição legítima pela igreja, sob invocação do nome de Deus e em boa ordem, conforme a palavra de Deus ensina.

Por isso, cada membro deve cuidar para não se apoderar do ofício por meios ilícitos, mas deve esperar a hora em que é chamado por Deus, a fim de ter, assim, a certeza de que sua vocação vem do Senhor2.

Quanto aos ministros da Palavra, eles têm, onde quer que estejam, igual poder e autoridade, porque todos são servos de Jesus Cristo3, o único Bispo universal e o único Cabeça da igreja4.

Além disto, a santa ordem de Deus não pode ser violada ou desprezada. Dizemos, portanto, que cada um deve ter respeito especial pelos ministros da Palavra e presbíteros da igreja, em razão do trabalho que realizam5. Cada um deve viver em paz com eles, tanto quanto possível, sem murmuração, contenda ou discórdia.

1 At 1:23,24; At 6:2,3. 2 At 13:2; 1Co 12: 28; 1Tm 4:14; 1Tm 5:22; Hb 5:4. 3 2Co 5:20; 1Pe 5:1-4. 4 Mt 23:8,10; Ef 1:22; Ef 5:23. 5 1Ts 5:12,13; 1Tm 5:17; Hb 13:17.
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Esse valioso documento foi escrito numa época em que os protestantes dos Países Baixos sofriam intensa repressão da Espanha católica que dominava a região. Seu autor foi o pastor reformado Guido de Brès ou Guy de Bray (c. 1522-1567), que, após passar alguns anos na Inglaterra como refugiado (1548-1552), retornou à Bélgica, foi pastor em Tournay e pregou em toda a região, tendo de fugir novamente em 1561, ano em que escreveu A Confissão. Ele deplorava as tendências anárquicas de muitos correligionários e insistia na importância de obedecer aos magistrados, tendo trabalhado com Guilherme de Orange, o futuro libertador dos Países Baixos. Durante o cerco de Valenciennes, não conseguiu convencer os radicais a se renderem e foi executado por rebelião.

A confissão foi escrita em francês e encaminhada pelo autor a diversos estudiosos e teólogos, que fizeram pequenas modificações. Também conhecida como Confessio Belgica ou Confissão da Valônia, foi endereçada ao rei Filipe II na esperança de atenuar a feroz perseguição contra a Reforma. Seu objetivo foi mostrar às autoridades espanholas que os reformados não eram rebeldes, mas cristãos cumpridores da lei. Imediatamente foi traduzida para o holandês (1562) e depois para o alemão (1566).

Recebida entusiasticamente pelas igrejas reformadas dos Países Baixos, a confissão foi adotada por sínodos reunidos em Antuérpia (1566), Wesel (1568) e Emden (1571), tido como o sínodo de fundação da Igreja Reformada da Holanda. Foi adotada em definitivo pelo Sínodo Nacional de Dort, em 1618. Tornou-se um dos três padrões doutrinários dessa Igreja, ao lado do Catecismo de Heidelberg e dos Cânones de Dort (as Três Formas de Unidade). O historiador Philip Schaff a considerou, “como um todo, a melhor afirmação simbólica do sistema calvinista de doutrina, à exceção da Confissão de Westminster”.
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