terça-feira, 28 de abril de 2015

O Genocídio Armênio, 100 anos [01/04]

Hoje, a principal luta de milhões de armênios e não armênios é pelo reconhecimento mundial das atrocidades cometidas pelos Jovens Turcos durante a I Guerra Mundial como um genocídio. Até agora, mais de vinte países reconhecem a existência do genocídio armênio. Porém, o Brasil não figura nessa lista. Todos os anos, na semana do dia 24 de abril, manifestações públicas em memória das vítimas do genocídio são organizadas em São Paulo, com o objetivo de dar visibilidade ao acontecimento histórico, à luta do povo armênio e pedir reconhecimento aos governos de Brasil e Turquia, dentro dos marcos democráticos e pacíficos. Como diziam os armênios mobilizados em 2005, “não há ódio, só mágoa”.
Panorama

O panorama histórico do genocídio

Frequentemente, ao tentarem “justificar” o genocídio, muitos turcos alegam uma “traição” armênia da relação de quase 600 anos entre ambos os povos no Império Otomano.

De fato, armênios, turcos e outros povos conviveram por séculos no território otomano, mas essa história não teve um final feliz para alguns desses. Muitos armênios auxiliaram no progresso cultural, econômico e político do Império. Alguns membros da comunidade armênia chegaram a ocupar cargos importantes da administração otomana.

No século 19, o Império foi gradativamente perdendo terreno na Europa, o que levou as autoridades a temerem a fragmentação total do país caso a onda de independência atingisse a Ásia Menor. Para evitar a destruição do Império, os Jovens Turcos alimentaram as ideias de panturquismo, que preconizavam a união dos povos de raízes turcas (azerbaijanos, turcomanos, uzbeques, etc.). Os armênios, povo não turco e cristão, eram um empecilho físico a esse plano. Ademais, ideias nacionalistas oriundas da Europa atingiram os armênios no final do século 19, tornando-os mais hostis ao nacionalismo turco e ajudando a organizá-los para resistir às tentativas de turquificação oriundas de Constantinopla.

Altos impostos, tratamento desigual, saques constantes e outras situações começaram a fazer parte do cotidiano dos armênios, que já não suportavam mais ser considerados cidadãos de segunda classe em suas próprias terras. Algumas vilas e cidades se rebelaram contra a violência imperial, mas foram rapidamente sufocadas pelas tropas otomanas. Tais eventos foram usados como justificativa pelo governo dos Jovens Turcos para atacarem o povo armênio, afirmando que eram revoltosos e traidores.

Os massacres promovidos pelo Sultão Abdul-Hamid II

Mas a situação extrema entre turcos e armênios não é um acontecimento isolado a partir de 1915. Já no final do século XIX, muitos armênios foram mortos por ordens do Sultão Abdul-Hamid II. O governo de Abdul-Hamid II marcou o princípio do fim do Império Otomano, como também o início do que seria chamada de “Causa Armênia”. Milhares de armênios seriam massacrados (algumas estatísticas apontam para 300 mil mortos), o que faria com que o sultão ficasse conhecido como o “Sultão Vermelho”.

Em um cenário de perdas de territórios otomanos, o nacionalismo das minorias crescia pelo país, despertando reivindicações de direitos iguais a todos os povos e até mesmo de autonomia. O governo otomano entendeu essas manifestações como uma ameaça à existência do Império. Nos anos 1890, os armênios pediam que as promessas de reformas do Império Otomano fossem cumpridas, exigindo melhor tratamento para as minorias e o estabelecimento de uma constituição.

Em 1894, num cenário de aumento da repressão por parte do sultão, algumas cidades armênias organizaram autodefesas, como em Sassun, onde partidários do partido político armênioHenchakian disseminavam ideias de autonomia e resistência. A Federação Revolucionária Armênia foi outro grupo criado no mesmo período, também pela autonomia dos armênios otomanos, e teve papel importante na organização de grupamentos armados que impediam o assalto das vilas e cidades armênias por grupos curdos patrocinados pelo sultão.

Em resposta à resistência em Sassun, o governador de Mush incitou os turcos locais contra os armênios. O sultão enviou tropas otomanas para apoiarem os grupos curdos e a violência se espalhou por toda a região. Um dos acontecimentos mais chocantes ocorreu na cidade de Urfa, onde quase três mil armênios morreram queimados após a Igreja onde eles estavam abrigados ter sido incendiada pelos turcos.

A maior parte do massacre de armênios ocorreu entre 1895 e 1897. O Sultão considerava a matança a melhor maneira de pôr fim à questão armênia e acreditava que poderia exterminar os revolucionários ou expulsá-los do Império. O governo otomano fechou instituições armênias e restringiu os movimentos políticos.

Tanto o sultão, quanto posteriormente os Jovens Turcos, consideravam os armênios como aliados das potências ocidentais, que buscavam a ruína do Império para dominar suas riquezas. Essas, por sua vez, consideravam o Império Otomano “o homem doente da Europa”, utilizaram dos massacres de armênios para enfraquecer a imagem do sultão e do Império mundo afora. Enquanto pressionavam o sultão por reformar o Império e torná-lo mais receptivo ao capital europeu, britânicos e alemães disputavam quem iria construir as lucrativas ferrovias otomanas rumo a Mesopotâmia.

A queda do Sultão

Enquanto isso, as perdas territoriais continuavam a acontecer e o descontentamento interno para o sultão só crescia. Em Salônica, um movimento político liberal e secular se organizava para mudar os rumos da política e otomana e, eventualmente, remover Abdul-Hamid II do trono. Esse movimento foi a gênese do Comitê União e Progresso e seus membros, quase todos jovens oficiais do exército ou filhos de importantes funcionários do governo, ficaram conhecidos como Jovens Turcos.

Em 1908, as esperanças armênias por igualdade no Império renasceram quando um golpe de Estado encabeçado pelos Jovens Turcos destronou Abdul-Hamid II e restaurou a constituição otomana. Os jovens queriam uma reforma administrativa do decadente Império Otomano para modernizá-lo ao estilo europeu. O movimento era uma coalizão formada de dois grupos distintos: os constitucionalistas seculares e os nacionalistas. Os primeiros, mais liberais, aceitavam o apoio das minorias como os armênios; enquanto os últimos eram mais hostis aos armênios por conta dos recorrentes pedidos de intervenção que esses fizeram junto às potências.

Porém, a situação do Império não melhorou. Territórios continuavam a serem perdidos e a insatisfação popular não melhorou, o que levou os Jovens Turcos a radicalizarem a sua agenda. A ala nacionalista ganhou espaço dentro do Comitê União e Progresso e o discurso que pregava a união dos povos turcos contra os elementos estrangeiros se espalhava pelo país.

Em reuniões secretas do Comitê, importantes ideólogos e lideranças dos Jovens Turcos discutiam o destino dos armênios e como eles eram o inimigo interno, impossível de “turquificar” e cuja existência ameaçava o Império.

Uma tentativa de contragolpe aconteceu em 1909. Alguns militares otomanos aderiram a estudantes religiosos com o propósito de devolver o controle do país ao Sultão e às regras da lei islâmica. Revoltas e combates eclodiram entre as forças reacionários e as forças do Comitê, até que os Jovens Turcos conseguiram abafar o levante.

Enquanto isso, na cidade de Adana, o clima tenso chegou aos bairros armênios, apoiadores dos Jovens Turcos nos primeiros momentos. Perseguições contra armênios em Adana e se espalharam pela província, o que motivou a intervenção de tropas imperiais. Quando as tropas do exército otomano chegaram, em vez de tentar acalmar a violência, tomaram parte na pilhagem de propriedades armênias na província. Estima-se que entre 15 e 30 mil armênios tenham sido mortos durante o “Massacre de Adana”. Após a onda de violência, muitos armênios perderam as esperanças nos Jovens Turcos e na proposta modernizante que esses pregavam e iniciaram sua própria luta.

Contudo, alguns setores da cúpula do Comitê União e Progresso começavam a organizar um plano secreto contra os armênios a ser implementado em momento oportuno, que viria a ser o início da I Guerra Mundial. O plano consistia em um grande massacre, mais organizado e letal que os que já haviam sido registrados na época do Sultão Abdul-Hamid II. O plano foi planejado, premeditado, planificado e sistematicamente executado: desarmar-se-ia a população, retirar-se-ia os intelectuais e lideranças armênias, matar-se-ia todos os homens armênios e far-se-ia as “caravanas para a morte”.
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