quarta-feira, 29 de abril de 2015

O Genocídio Armênio, 100 anos [02/04]

“Genocídio” segundo o dicionário Merriam-Webster é a “deliberada e sistemática destruição de um grupo racial, político ou cultural”. O genocídio armênio, período sombrio da história, ocorreu entre 1915 e 1923 totalizando cerca de um milhão e meio de armênios mortos por ordens do governo otomano. 
Turcos, armênios, curdos, gregos, judeus e outros povos conviveram por séculos no Império Otomano. No século 19, o império começava a perder seus territórios na Europa e, com o início da 1ª Guerra Mundial, o governo otomano temia perder também as terras ocupadas historicamente pelos armênios na Ásia Menor. Além disso, os armênios estavam situados na fronteira entre os impérios otomano e russo, o que interessava a ambos pela posição estratégica de guerra. 
O governo dos Jovens Turcos implantou a política do panturquismo. O objetivo era instaurar no Império Otomano uma política que valorizasse os povos turcos e turco-descendentes em detrimento de outras etnias, sobretudo aquelas que adotavam o cristianismo, como os armênios, gregos e assírios.
O Genocídio

Em 1913, os Jovens Turcos se irritam com o fato das grandes potências estarem dando atenção à questão armênia e pressionarem por reformas. Em novembro de 1914, o Império Otomano entrou na I Guerra Mundial ao lado das Potências Centrais. No front de batalha, Enver Paxá saiu em campanha para cercar e destruir o exército russo no Cáucaso e Sarıkamısh a fim de recuperar territórios perdidos para a Rússia após a guerra turco-russa de 1877-1878. As forças de Enver Paxá foram exterminadas na Batalha de Sarikamısh. Retornando à Constantinopla, Enver culpou publicamente os armênios pela sua derrota desmoralizante no Cáucaso. Segundo ele, os armênios da região teriam lutado com os russos contra os otomanos.

O início do plano de extermínio

O início do genocídio começou com o desarmamento da população armênia, logo após a derrota em Sarikamısh. O governo otomano emitia pedidos para que os armênios entregassem suas armas em benefício do esforço de guerra. Logo em seguida, começou a censura aos serviços postais estrangeiros, estava cessada a comunicação no campo de batalha e na Turquia todas as cartas enviadas deveriam passar pela aprovação de um órgão do governo.

No dia 25 de fevereiro de 1915, o ministro de guerra Enver Paxá enviou uma ordem a todas as unidades militares dizendo que os armênios nas forças ativas otomanas deveriam ser desmobilizados e inscritos no desarmado Batalhão Trabalhista (em turco: amele taburlari). Enver justificou a decisão baseada no “medo de que eles colaborassem com os russos”. Muitos armênios trabalharam até a exaustão, morrendo em decorrência da desumana jornada de trabalho.

Em 19 de abril de 1915, Cevdet Bey exigiu que a cidade de Van imediatamente entregasse-lhe 4 mil soldados sob o pretexto de conscrição. No entanto, era claro para a população armênia que seu objetivo era massacrar os homens aptos de Van para que não houvesse defesa ao plano de extermínio que viria. Cevdet Bey já havia usado seu poder anteriormente em vilarejos próximos. Alegando busca por armamentos, o líder otomano iniciou um grande massacre na região. Os armênios ofereceram 500 soldados e uma quantia em dinheiro para Cevdet Bey isentar muitos outros do serviço militar, mas o turco acusou os armênios de tentarem iniciar uma “rebelião” e demonstrou sua determinação em “aniquilar” a qualquer custo. “Se os rebeldes atirarem um único tiro”, disse ele, “vou matar todo homem cristão, mulheres e [apontando para o joelho] toda criança até essa altura”.

Em 20 de Abril de 1915 iniciou-se a resistência de Van, quando uma mulher armênia foi assediada e dois homens armênios que vieram socorrê-la foram mortos por soldados turcos. Os defensores armênios protegiam 30 mil residentes e 15 mil refugiados em uma área de cerca de um quilometro quadrado com 1.500 homens armados que eram abastecidos com 300 rifles, mil pistolas e armas antigas. O conflito na cidade durou até que o General russo Yudenich fosse em socorro dos armênios.

Desde 1914, autoridades otomanas já haviam começado a propaganda para descrever os armênios que viviam no Império Otomano como uma ameaça à segurança do país. Na noite de 24 de Abril de 1915, o governo otomano capturou e prendeu aproximadamente 250 intelectuais e líderes da comunidade armênia, no que ficou conhecido como Domingo Vermelho.

As detenções começaram na noite de 24 para 25 de Abril. Entre 235 e 270 líderes armênios de Constantinopla (sacerdotes, médicos, editores, jornalistas, advogados, professores, políticos, entre outros) foram presos após uma instrução do Ministério do Interior. Em uma segunda “remessa” o número de presos subiu para aproximadamente 550.

A maioria das deportações era da capital. No fim de Agosto de 1915, cerca de 150 armênios com nacionalidade russa foram deportados da Constantinopla para Ancara e Mudshur.

A ação de 24 de Abril de 1915 foi operada pelo chefe de polícia de Constantinopla, Bedri Bey. Poucos detidos foram libertados na mesma semana, como o escritor Alexander Panossian (1859-1919), antes mesmo de serem transferidos para Anatólia. A maioria dos presos foi enviada à estação ferroviária de Haydarpaşa. Após esperar por 10 horas eles foram enviados de por trem na direção de Ancara. O trem seguia com 220 armênios. Um condutor de trem armênio conseguiu uma lista com os nomes dos deportados, que foi entregue ao Patriarca Armênio de Constantinopla, Zaven Der Yeghiayan, que tentou, em vão, salvar o máximo de armênios possíveis. O único embaixador estrangeiro a ajudá-lo em seus esforços foi o embaixador dos Estados Unidos, Henry Morgenthau. Depois de uma jornada de trem de 20 horas, os deportados chagaram em Sincanköy (perto de Ancara) ao meio-dia de terça-feira. Na estação Ibrahim o diretor da Penitenciária Central de Constantinopla fez a triagem. Os deportados foram divididos em dois grupos.

Um grupo foi enviado para Çankırı e o outro para Ayas. Quase todos dos enviados a Ayas foram mortos vários meses mais tarde em desfiladeiros perto de Ancara. Apenas dez deportados deste grupo foram receberam permissão para voltar à capital a partir de Ayas. Um grupo de 20 retardatários presos em 24 de Abril chegou a Çankırı entre 7 e 8 de maio de 1915. Cerca de 150 presos políticos foram detidos em Ayas e cerca de 150 intelectuais presos em Çankırı.

Os enviados a Çankırı obtiveram permissão de continuar na cidade vivendo de suas próprias rendas, com a condição de continuarem sob supervisão, enquanto os enviados para Ayas foram mantidos presos na guarnição. Um primeiro comboio com 56 prisioneiros deixou Çankırı no dia 11 ou 18 de julho sem sobreviventes. Um segundo comboio, com 30 deportados, deixou Çankırı em 19 de agosto. Dois deles sobreviveram (um deles Aram Adonian).

No total, doze deportados tiveram a permissão de voltar à capital a partir de Çankırı, após intervenção de pessoas influentes, como o próprio embaixador Morgenthau.

Em maio de 1915, Mehmet Talaat Paxá solicitou que o gabinete e o Grão-Vizir Said Halim Paxá legalizassem uma medida para realocação de armênios em outros locais, em resposta ao que ele chamou de “motins e massacres armênios, que aumentaram em alguns lugares no país”. No dia 29 de maio de 1915, o comitê central do CUP aprovou a Lei Temporária de Deportação (“Lei Tehcir”), concedendo aos militares autorização para deportar qualquer um que eles sentissem que poderia ser uma ameaça à segurança nacional. A “Lei Tehcir” trouxe algumas medidas que respeitavam as propriedades dos deportados, mas em setembro uma nova lei seria proposta. Segundo a Lei das “Propriedades Abandonadas” o governo otomano tomava posse de todas as propriedades e bens “abandonados” pelos armênios. O parlamentar representativo otomano Ahmed Riza protestou contra essa legislação:

“É ilegal designar os bens armênios como ‘bens abandonados’ já que os armênios, os proprietários, não abandonaram suas propriedades voluntariamente; eles foram forçosamente removidos de seus domicílios e exilados. Agora o governo se esforça para vender os bens deles… Se nós somos um regime constitucional funcionando conforme uma lei constitucional nós não podemos fazer essa atrocidade. Agarre-me pelo braço, retire-me da minha vila, então venda meus bens e propriedades, esse tipo de coisa nunca deve ser permitido. Nem a consciência dos otomanos nem a lei podem permitir isso.”

Em 13 de setembro de 1915 o parlamento otomano aprovou a “Lei Temporária de Expropriação e Confiscação”, estabelecendo que toda propriedade, incluindo terras, gado e casas pertencente aos armênios seria confiscada pelas autoridades.

O confisco de propriedades e o massacre de armênios indignou grande parte do mundo ocidental. Nos Estados Unidos, o The New York Times noticiava quase todo dia a matança em massa do povo armênio, descrevendo o processo como “sistemático”, “autorizado” e “organizado pelo governo”. Theodore Roosevelt mais tarde caracterizaria como “o mais importante crime de guerra”.

Colocava-se na praça central de cada povoado um aviso no qual dizia que a população devia partir para a “recolocação”. O pretexto consistia em fazer os armênios acreditarem que a população seria levada a uma zona de exclusão bélica, que os protegeria dos efeitos da guerra em curso. Mas “o objetivo da deportação é o nada”, segundo palavras atribuídas ao próprio Talaat Paxá. Estavam planejadas todas as rotas de deportação: ao norte seriam jogados no Mar Negro; os que viviam no centro da Anatólia, seriam levados sem comida e caminhando até o deserto de Der El Zor. Os métodos de aniquilamento eram realmente espantosos e não se respeitava nem o gênero nem a idade das vítimas. As ordens de Talaat esclareciam que crianças não deveriam viver nem no ventre de suas mães.

O Rio Eufrates apresentou, durante dias, uma cor vermelha causada pelas centenas de cadáveres que boiavam nas suas águas. Outros milhares de mulheres e crianças terminaram servindo nos haréns turcos, dando origem a incontáveis cidadãos turcos que até hoje desconhecem sua origem armênia.

Os armênios foram removidos para o deserto sírio. Uma boa parte das evidências sugere que o governo otomano não forneceu nenhuma instalação ou suporte para sustentar os armênios durante sua deportação, nem quando eles eventualmente chegassem ao destino, principalmente em Aleppo. Em Agosto de 1915, o The New York Times repetiu uma informação anônima de que “as estradas de Eufrates estão repletas de cadáveres de exilados, e os que sobreviverem estão destinados à morte certa”.

As tropas otomanas que acompanhavam os armênios não só permitiam que outros roubasse-os, matasse-os e estuprasse-os como também participavam desses atos. Desprovidos de seus pertences e marchando pelo deserto, centenas de milhares de armênios morreram, muitos de fome e esgotamento.

As ordens recebidas do ministro do interior, Talaat eram tão desumanas que alguns soldados turcos e chefes do exército não podiam acreditar no que os estava sendo pedido e pediam explicações e esclarecimentos. O resultado: foram fuzilados aqueles que se negaram a responder às ordens.

Acredita-se que 25 grandes campos de concentração existiram, sob o comando de Şükrü Kaya, braço direito de Talaat Pasha. A maioria dos campos era situada perto das fronteiras da moderna Turquia, Iraque e Síria e alguns eram usados temporariamente como covas gerais e foram deixados de ser usados no outono de 1915. Alguns autores também afirmam que os campos de Lale, Tefridje, Dipsi, Del-El e Ra’s al-‘Alin foram construídos especificamente para aqueles que tinham uma expectativa de vida de poucos dias.

Embora todos os campos estivessem ao ar livre a matança em massa em campos secundários não era limitada a mortes diretas, mas também à queima de corpos vivos. Eitan Belkind era um membro Nili que se infiltrou no exército otomano como um oficial. Ele foi nomeado para o quartel general de Camal Paxá. Ele alega ter testemunhado a queima de 5 mil armênios. Hasan Maruf, do exército otomano, descreve como uma população de uma vila foi levada inteira e depois queimada.

O comandante do Terceiro Exército relatou uma queima tão grande da população de uma vila inteira perto de Mush: “O método mais rápido para se livrar das mulheres e crianças concentradas em vários campos era queimá-las. Prisioneiros que aparentemente testemunharam algumas dessas cenas ficaram horrorizados e enlouquecidos de lembrar as cenas. Eles disseram aos russos que o mau cheiro da carne humana queimada permaneceu no ar por muitos dias depois”. Os alemães, aliados dos otomanos, também testemunharam a forma que os armênios foram queimados de acordo com o historiador israelense Bat Ye’or, que escreveu: “Os alemães, aliados dos turcos na I Guerra Mundial, […] viram como civis foram presos em igrejas e queimados ou reunidos em massa em campos, torturados até a morte e reduzidos a cinzas”. Ocorreram também, por parte de médicos turcos, casos de mortes por envenenamento, através de injeções de morfina e equipamentos de gases tóxicos utilizados em escolas para matar crianças armênias, além de forjarem documentos de mortes por causas naturais.

Oscar S. Heizer, o cônsul americano em Trabzon, relata: “Muitas das crianças foram colocadas em botes, levadas e jogadas ao mar”. O cônsul italiano de Trabzon em 1915, Giacomo Gorrini, escreve: “Eu vi milhares de mulheres e crianças inocentes serem colocados em botes que eram virados no Mar Negro”. Do oficial Alemão Von Sanders:

“As ordens que recebi estavam assinadas por Enver Paxá e tinham um teor mais leve. Às vezes eram totalmente despropositadas e impossíveis de serem executadas. Por exemplo, certa vez chegou uma ordem para afastar todos os judeus e armênios do Estado-Maior. Evidentemente ela não foi cumprida porque necessitávamos dos armênios e dos judeus como intérpretes. Com frequência recebíamos ordens absurdas.”

O Comitê União e Progresso criou uma “organização especial” que participou da destruição da comunidade armênia otomana. A organização adotou esse nome em 1913 e funcionou com uma roupagem de forças especiais. Mais tarde, em 1914, o governo otomano anistiou criminosos das prisões centrais para que se engajassem nessa nova organização recém-formada. Mais tarde, eles foram encarregados de escoltar os comboios com armênios deportados. Vehib Paxá, comandante do Terceiro Exército Otomano, chamou os integrantes da organização especial de “carniceiros da espécie humana”.

Grupos de resistência de armênios impediram que o plano de extermínio fosse ainda mais danoso. Outros sobreviveram porque se escondiam em meio aos cadáveres durante as deportações ou porque foram amparados por turcos e curdos que não concordavam com a política genocida de Constantinopla, sob risco de serem mortos por socorrerem refugiados.

O pós-guerra

Após ser derrotado na I Guerra Mundial, o Império Otomano viu-se muito perto de seu fim. Enquanto isso, muitos armênios tentavam voltar às suas cidades, sem suspeitar que no início dos anos 1920, na tentativa de fundar a República da Turquia, muitos deles seriam novamente expulsos ou mortos. Embora os Jovens Turcos tenham sido condenados à pena de morte por organizar e executar o massacre do povo armênio, Talaat, Enver, Cemal e Nazim fugiram do país. Enquanto isso, Mustafá Kemal assume o poder no país e irá continuar a política de perseguição de armênios até 1923.

Kemal e seu exército retomaram Marash, Hadjin, Urfa e outras regiões da Cilícia que estavam sob controle francês e abrigavam armênios retornados do exílio na Síria. Em Aintab, ocorreu uma disputa com os armênios que não estavam dispostos a retirar-se novamente de suas terras. Os armênios ingenuamente tinham um lema: “Mère des Armeniens France notre espérance” (Mãe dos Armênios, a França é nossa esperança), ignorando os vários acordos que posteriormente os franceses firmariam com Ancara outorgando os protetorados de Musa Dagh e arredores. Kemal se empossou de Aintab, à qual rebatizaram Gaziantep.

As potências protegiam os interesses da Turquia para garantir o acesso aos poços de petróleo de Baku e Iraque e evitar a expansão soviética pelo Oriente Médio. Assim foi firmado o Tratado de Lausanne em 1923 que firmou as atuais fronteiras da República da Turquia.
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