quinta-feira, 30 de abril de 2015

O Genocídio Armênio, 100 anos [03/04]

Os principais responsáveis pelo planejamento do genocídio foram os membros Comitê União e Progresso, partido político nacionalista que aglutinava os chamados “Jovens Turcos”. Entre os nomes mais influentes estão os dos ministros de Estado Mehmet Talaat Paxá e Ismail Enver Paxá. 
A estratégia do governo otomano foi bem arquitetada. As mortes por inanição no interior do Império permitiam que as autoridades alegassem que os armênios estavam morrendo por condições oriundas do cenário de guerra. As potências ocidentais, envolvidas na I Guerra Mundial, afora alguns protestos formais, pouco fizeram para impedir as matanças.
Reações

Não só os armênios foram perseguidos pelo Império Otomano e nos primeiros dias da República da Turquia. Também os gregos do Dardanelos e Mar Negro; os curdos foram reprimidos a ponto de serem classificados como “turcos das montanhas”; os assírios foram dizimados e os poucos que restaram tiveram que fugir do país.

Esse foi o preço da “ocidentalização” da Turquia: a exclusão dos elementos destoantes da moderna república. Kemal “Ataturk” ainda promoveu reformas de caráter cultural: trocou o alfabeto árabe pelo latino, aboliu o califado e converteu o país em um Estado laico, proibiu os ritos sufis e os dervixes, redigiu um novo Código Civil, etc. Além disso, Kemal e suas reformas procuraram apagar qualquer vestígio de povos não turcos do país. Assim, os armênios sofreram também um genocídio cultural: cerca de 2.500 cidades foram perdidas, 4 mil igrejas desativadas e depredadas, 30 mil manuscritos destruídos, além de mudança de nomes da fauna, flora e cidades que remetessem a alguma origem armêmia.

Contudo, não se pode culpar todo o povo turco pelo genocídio. Muitos cidadãos otomanos e turcos reprovavam a prática do governo e sofreram retaliações. O comandante do Terceiro Batalhão ordenou, por exemplo, que todo turco que prestasse auxílio aos armênios fosse morto diante de sua casa e essa deveria ser incendiada. Se algum funcionário público fosse suspeito de ter prestado auxílio aos armênios, deveria ser demitido e levado ao Conselho de Guerra.

A posição da Armênia era estratégica tanto para a Rússia quanto para a Turquia. Se mesmo antes da I Guerra os armênios já sofriam com as desconfianças turcas, após o início do conflito não demorou para Constantinopla acusá-los de traição, alegando colaboração com os russos e com os inimigos ocidentais. Entretanto, nem a Europa nem os russos se importavam verdadeiramente com os armênios a ponto de impedir o massacre promovido pelo governo otomano. Após o final da I Guerra, os russos adentraram no que seria o território armênio e repeliram as tropas turcas, mas não por altruísmo ou generosidade, mas para conquistar uma importante posição geográfica no Cáucaso e Ásia Menor. Em todo caso, a ofensiva russa salvou cerca de 250 mil armênios.

O caso Tehlirian

Soghomon Tehlirian vivenciou, aos 18 anos de idade, a deportação de todo seu povoado em uma das caravanas de armênios e presenciou a morte de seus pais e irmãos pelos soldados que deveriam proteger a caravana.

Tehlirian sobreviveu ao ataque porque desmaiou e foi tomado como morto. Quando acordou, ele encontrou vários corpos espalhados a sua volta. Fugiu para um vilarejo onde conseguiu abrigo com uma família de curdos, mas teve que fugir devido às perseguições que recomeçaram naquela região.

A incapacidade do Império Otomano ou das potências de punir criminalmente os mandantes do genocídio armênio motivou a Federação Revolucionária Armênia, em seu nono congresso, a executar os culpados pela tragédia que se abateu sobre os armênios. Começou assim a Operação Nêmeses.

O sobrevivente Tehlirian foi um dos jovens recrutados para executar Talaat Paxá, que residia em Berlim, depois de fugir do Império Otomano para não ser executado por ordem dos tribunais de Istambul. Após receber orientações e observar a rotina de seu alvo, Tehlirian atira em Talaat Paxá e aguarda em frente ao corpo que jazia no chão até a polícia chegar e prendê-lo. Mesmo sendo réu confesso e preso em flagrante, o jovem armênio foi inocentado pela justiça da República de Weimar após inúmeros depoimentos, testemunhas e provas indicarem que ele havia matado aquele que havia organizado o extermínio de todo o seu povo. Também pesaram a favor de Tehlirian as sequelas mentais causadas pelo genocídio.

A República da Turquia foi fundada em 1922. Seus fundadores, sobretudo Mustafá Kemal, não acreditavam que os sobreviventes armênios conseguiriam reivindicar justiça estando espalhados em várias partes do mundo. Por décadas, as autoridades turcas recusaram-se a responder perguntas sobre o genocídio armênio. Parecia que a causa armênia seria arquivada na memória das vítimas e das testemunhas.

O que o governo turco não poderia prever era que as comunidades organizadas na diáspora e na Armênia Soviética se uniriam em um determinado momento em prol do reconhecimento do que havia acontecido na I Guerra. Assim, a causa armênia se institucionalizou e, como resultado, a Turquia teve que mudar seu discurso e estratégia. Ignorar apenas não seria mais suficiente. Se discurso turco num primeiro momento alegava desconhecimento absoluto da questão armênia, num segundo momento havia a distorção múltipla dos fatos, desvirtuando a verdade acerca de um plano premeditado e sistemático de genocídio. O Estado turco patrocinou a reescrita de sua própria história a fim de apagar a presença armênia na Anatólia.

Orhan Pamuk e o Artigo 301

Um Artigo no Código Penal da Turquia (Artigo 301) possibilita a configuração de crime se alguém denegrir o Estado turco e suas instituições ou ofender publicamente a identidade turca com pena que pode chegar a até três anos de prisão. Alguns intelectuais e escritores turcos que defendem o reconhecimento do genocídio já foram enquadrados nesse artigo.

Entre eles o escritor mais proeminente da Turquia, Orhan Pamuk, que em 2006 foi o primeiro turco a receber um primeiro Nobel na história. O que deveria ser motivo de orgulho para o governo turco passou a ser ameaça após a declaração de Pamuk em 2005: “Trinta mil curdos e um milhão de armênios foram mortos nestas terras, e ninguém senão eu ousa falar sobre isso” em uma entrevista à publicação Das Magazin da Suíça. Um processo foi aberto contra o escritor pelo advogado ultranacionalista Kemal Kerinçsiz, mas as acusações foram retiradas em 22 de janeiro de 2006.

Contudo, o estrago já havia sido feito. Manifestações contra Pamuk foram organizadas nas quais seus livros foram queimados. A campanha de ódio obrigou o escritor a sair do próprio país. Regressou mais tarde para se defender das acusações. Em entrevista a BBC, ele disse que queria defender a liberdade de expressão, a única esperança da Turquia para chegar a um acordo com a sua história: “O que aconteceu aos armênios otomanos em 1915 é algo importante que foi escondido da nação turca, é um tabu. Mas temos que ser capazes de falar sobre o passado.” As acusações contra Pamuk causaram reações no mundo todo. Oito autores mundialmente renomados como José Saramago, Gabriel García Márquez, Günter Grass, Umberto Eco, Carlos Fuentes, Juan Goytisolo, John Updike e Mario Vargas Llosa emitiram uma declaração conjunta de apoio a Pamuk e condenaram as acusações contra ele como uma violação dos direitos humanos.

Hrant Dink

Hrant Dink era um cidadão turco de origem armênia, editor-chefe do semanário bilíngue Agos (Ակօս) e colunista dos diários Zaman e BirGün. Conhecido por suas opiniões a respeito da reconciliação entre a Turquia e a Armênia e pela defesa dos direitos humanos, ele era frequentemente apontado como antinacionalista, tendo sido ameaçado de morte diversas vezes, bem como processado (nos termos do artigo 301) e condenado em um tribunal turco em razão de suas críticas à postura do Estado turco quanto ao reconhecimento do genocídio e da diáspora armênia. Em 19 de Janeiro de 2007, em frente à redação do Agos, no centro de Istambul, Hrant Dink foi assassinado a tiros. No dia seguinte, o assassino foi identificado pela polícia turca como sendo o jovem Ogün Samast, de 17 anos, que após preso confessou a autoria do crime. A morte do jornalista repercutiu internacionalmente como um fato negativo tanto na reaproximação entre a Turquia e a Armênia quanto na entrada da Turquia na União Europeia. A reação da população turca foi imediata: centenas de milhares de pessoas marcharam em Istambul em um protesto contra o assassinato aos gritos de “Todos nós somos armênios, todos nós somos Hrant Dink”.

França e Suíça

A França tentou, por duas vezes, um projeto que puniria quem negasse o genocídio armênio. Na mais recente das tentativas, o projeto foi aprovado pelo Parlamento, porém o Supremo Tribunal Federal derrubou a lei julgando-a inconstitucional. Em reação a esses projetos, milhares de manifestantes na capital turca queimaram bandeiras francesas durante dois protestos contra a votação na Assembleia Nacional em Paris. A imprensa turca criticou duramente a decisão da França com títulos como “Igualdade, Fraternidade e Estupidez”.

A Suíça, por outro lado, julgou e condenou dezessete cidadãos turcos, entre eles doze residentes na Suíça, acusados de negarem o genocídio. Os acusados foram enquadrados em artigo do Código Penal suíço sobre discriminação racial, com pena de prisão ou multa para quem, publicamente, “negar, minimizar ou procurar justificar um genocídio ou outro crime contra a Humanidade”. A queixa na Suíça foi devido a divergências entre turcos e armênios na Suíça. Duas organizações armênias fizeram uma petição pedindo o reconhecimento e a condenação do genocídio. Uma organização turca reagiu declarando “totalmente sem fundamento a comparação com o Holocausto o deslocamento de populações armênias”.

Os Protocolos turco-armênios

No dia 10/10/2009, Armênia e Turquia chegam a um acordo para o restabelecimento de relações diplomáticas. Nesse dia, foram assinados protocolos que previam a normalização das relações e a reabertura das fronteiras entre os dois países. Porém, o texto colocava em xeque o reconhecimento do genocídio, que seria alvo de apreciação de especialistas, o que irritou toda a diáspora armênia. O presidente da República da Armênia, Serzh Sargsyan, tentou apaziguar os ânimos, explicando que “ter relações com a Turquia não deve, de forma nenhuma, pôr em dúvida a realidade do Genocídio… É um fato bem conhecido e que deve ser reconhecido”. Os protocolos também não esclarecem qual é o status de Nagorno-Karabakh.
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