sexta-feira, 3 de abril de 2015

Um Chamado à Reforma

A reforma da igreja de acordo com a Escritura é sempre incompleta na terra.

Ecclesia reformata reformanda est ("A igreja, tendo sido reformada, ainda é para ser reformada”). Isto se segue do fato que a Escritura é um padrão absoluto e perfeito, enquanto a igreja em qualquer ponto de sua história na terra ainda é imperfeita e envolvida no pecado e erro.

Este processo de reforma deve ser contínuo até o fim do mundo. Em nenhum ponto do presente a igreja pode parar e dizer: “Cheguei. Até aqui, mas não mais daqui!”. Somente no céu a igreja triunfante dirá isto.

Neste processo de reforma, há certos estágios históricos e certos marcos proeminentes de progresso alcançado. A Confissão de Fé de Westminster, por exemplo, marca o progresso verdadeiro na reforma da igreja até o tempo quando esta confissão foi formulada.

Nós nunca podemos considerar este processo como terminado em nossos dias, ou em qualquer ponto na história terrena da igreja. Devemos sempre esquecer as coisas que ficarão para trás e seguir em frente para as coisas que estão no futuro; devemos sempre nos esforçar para apreender isso, pelo qual somos apreendidos de Cristo Jesus. A doutrina, adoração, governo, disciplina, atividades missionárias, instituições educacionais, publicações e a vida prática da igreja – todas estas coisas devem ser progressivamente reformadas de acordo com a Escritura.

A Reforma sempre foi um processo passo a passo, e deve necessariamente ser assim. Os zelotes tentariam alcançar tudo de uma vez só, mas eles somente batem a sua cabeça contra uma parede de pedra. Deus opera por processo histórico – um processo gradual, contínuo – e devemos nos conformar à maneira de operar de Deus.

A reformação escriturística da igreja é o fruto de submissão ao Espírito Santo falando na Escritura.

Não somente é requerido um avanço no estudo da Escritura, além dos marcos do passado, mas uma busca autocrítica da parte da igreja é requerida. Os padrões subordinados da igreja devem ser sempre sujeitos a exame e reexame à luz da Escritura. Isto está implicado em nossa confissão de que somente a Escritura é infalível. Se somente a Escritura é infalível, então, tudo mais deve ser constantemente testado e re-testado pela Escritura.

Não somente os padrões oficiais da igreja, mas sua vida, programas, atividades, instituições e publicações devem ser sujeitadas a uma penetrante autocrítica sobre a base da Escritura. Estes devem ser sempre testados e re-testados à luz da Palavra de Deus. Tal autocrítica da parte da igreja é a contraparte corporativa da auto-examinação à qual Deus, em Sua Palavra, chama cada Cristão a fazer individualmente.

Tal autocrítica da parte da igreja é difícil. Ela requer esforço, inteligência, aprendizagem, sacrifício, grande humildade e renúncia e absoluta honestidade. Ela requer lealdade à Escritura, uma lealdade que esteja disposta a caminhar o tanto que for necessário para ser fiel à Palavra de Deus – uma lealdade verdadeiramente heroica e radical à Escritura.

Tal autocrítica da parte da igreja pode ser embaraçosa e mesmo dolorosa. Pode significar que a igreja, como Cristão no Progresso do Peregrino de Bunyan, pode se encontrar no “Prado do Caminho Errado”, e ter que retraçar os seus passos humilde e dolorosamente até que esteja de volta novamente à Estrada do Rei. Tal autocrítica da parte da igreja pode devastar interesses ou projetos especiais de pessoas individuais ou grupos na igreja. Pode demonstrar que as características particulares dos padrões da igreja, vida ou programa não estão completamente em harmonia com a Palavra de Deus, e devem ser reconsiderados e trazidos à harmonia com esta Palavra.

Para estas e pessoas similares, a autocrítica da parte da igreja é freqüentemente negligenciada e até mesmo fortemente oposta. Aqueles que a advogam ou buscam tomá-la para si são provavelmente representados como extremistas, fanáticos, entusiastas, visionários, problemáticos, e seus semelhantes. Todavia, foi por tal autocrítica que os reformadores do passado conseguiram reformar a igreja. Homens como Lutero, Calvino, Knox, Melville, Cameron e Renwick estavam preocupados somente sobre o julgamento de Deus em Sua Palavra. Eles não foram dissuadidos pelos julgamentos adversos e por atitudes de homens.

Quando ousou realmente olhar para si mesma no espelho da Palavra de Deus, com toda seriedade, a igreja tem estado em sua grandiosidade, e se tornado influente no mundo. Tem ido adiante com nova vida e vigor. Por outro lado, quando a igreja tem hesitado ou recusado olhar para si mesma no espelho da Palavra de Deus, ela tem sido fraca, estagnada, decadente, ineficaz e sem influência.

A constante autocrítica denominacional sobre a base da Escritura é um dever. Mas é isto realmente tomado com seriedade? Quanto zelo, quanto interesse – eu até mesmo direi, quanta tolerância – há para com ela, hoje?

Há uma tendência constante em cada igreja para considerar o presente estado dos assuntos como normais e corretos. Dessa forma, o que é na realidade mero costume vem a ter virtualmente a força e a influência de princípio, enquanto os assuntos de princípio vêm a ser tratado como se fossem convenções ou costumes humanos, tendo somente a autoridade da aprovação usual ou popular. A sanção do uso atual é considerada como suficiente para estabelecer um assunto como correto, legítimo ou até mesmo necessário. E, inversamente, a ausência do uso atual é considerada como suficiente para provar que o assunto é incorreto e impróprio. Este tipo de estagnação, esta atitude de se considerar o "status quo" como normal, fecha a porta contra todo o verdadeiro progresso na reforma da igreja. Porque o "status quo" é sempre pecaminoso. Ele sempre falha em cumprir os requerimentos da Palavra de Deus. É sempre algo menos do que Deus realmente requer da igreja. Visto que o "status quo" é pecaminoso, ele pode ser considerado como complacência - muito menos pode o mesmo considerado como o ideal para a igreja. É um pecado fazer do “status quo" absoluto.

O "status quo" sempre necessita se arrepender. Não importa quão agradável possa ser, ele ainda é pecaminoso e necessita se arrepender. Considerar o "status quo" com complacência é um dos maiores pecados da igreja em nossos dias - um pecado que deve entristecer o Espírito Santo, um pecado que certamente impede a igreja de fazer seu verdadeiro e apropriado progresso na reforma de acordo com a Escritura. Uma igreja dominada por esta ideia não pode realmente ir para frente. Pode realmente deslizar para trás, em deserção e apostasia. Na melhor das hipóteses mover-se-á somente num círculo fixo, sempre voltando para o lugar de onde partiu.

Deus nos chama para buscar a reforma na igreja em nossos dias.

As igrejas da América, em geral, movimentaram-se num círculo fixo durante a sua história passada. Poderíamos também dizer que elas se movimentaram num círculo vicioso. O padrão tem sido uma queda seguida por um reavivamento seguido por uma queda, e assim por diante. Não é feito verdadeiro progresso. O melhor que pode ser feito, pelo jeito, é conseguir sair de um buraco após outro. Nada é mais prevalecente do que este tipo de estagnação na igreja. Nada é mais difícil do que conseguir qualquer característica da estrutura ou atividade da igreja realmente examinada e reformada à luz da Palavra de Deus.

O verdadeiro progresso significa edificar sobre os fundamentos lançados no passado. Mas o progresso verdadeiro não significa estar preso pela mão morta de erros e imperfeições do passado. Há somente uma verificação legítima do verdadeiro progresso, e esta é a verificação da própria Escritura. A verdadeira reforma da igreja é a reforma sobre a base da Escritura. É uma reforma dentro dos limites da Escritura, não uma reforma além da Escritura.

As agências oficiais, publicações e as instituições são para refletir uma seção transversal da opinião como ela realmente existe na igreja, como o "English as she is spoke" ("Inglês como ele é falado") de Mark Twain? Ou são para examinar os padrões da igreja e manter aquela linha na confrontação do público? Ou são para abrir o caminho na autocrítica denominacional sobre a base da Escritura? São elas para traçar um novo caminho, indo adiante para um novo território à luz da Palavra?

Estas são questões difíceis e sérias. A tendência é de se contornar e ignorar questões como estas. Estas questões são raramente confrontadas. A tendência é preferencialmente considerar o "status quo" como normal. Ou, se não o atual "status quo", então, de qualquer maneira as realizações do passado são consideradas como normais. Se pudermos apenas voltar para o estado das coisas nos "bons e velhos tempos" e manter aquele padrão, então, tudo seria agradável.

Mas, desejamos isto? Onde estivemos? Este é 1959. Como seremos escusados de falhar em avançar além de nossos antepassados no entendimento das Escrituras? Como poderemos dizer que a reforma da igreja foi completada em 1560, em 1638, ou até mesmo em 1950? O que temos feito desde então? Estão enterrados num lenço os nossos talentos?

Não é difícil admitir que há alguns males na igreja que necessitam de correções. Mas a tendência é dizer que se pudermos apenas voltar para a base sólida de uma ou duas gerações atrás, tudo seria justamente como deveria ser. O que mais alguém poderia pedir? Podemos apenas segurar esta linha por todo o tempo que vier. Mas não estaríamos fazendo o nosso dever dado por Deus. Nossos antepassados reformaram a igreja no seu tempo; Deus nos chamou para reformá-la no nosso tempo. Não podemos descansar sobre os nossos lauréis. Devemos batalhar por nós mesmos, pela fé, sobre a base da Palavra de Deus.

A verdadeira reforma busca a verdade e a honra de Deus acima de todas as outras considerações.

Vivemos numa era pragmática, uma era impaciente com a verdade, uma era preocupada principalmente com os resultados práticos. É uma era impaciente com aqueles que avaliam a verdade acima dos resultados. Nossa era quer resultados e está totalmente disposta a crer que figos crescem em abrolhos, se pensar que vê os figos.

Ouvi, quando alguém procurou trazer alguma característica da igreja sob o julgamento crítico da Escritura, a objeção de que o tempo não era oportuno. “Você pode estar certo”, diria o objetor, “mas este é um tempo oportuno para trazer tal assunto?” Ora, nós deveríamos entender que a verdade é sempre oportuna, que o tempo oportuno nunca poderá vir. Que uma estação mais conveniente nunca poderá chegar. Sempre haverá alguma razão que pode ser urgida por não se empreender a reforma da igreja de acordo com a Palavra de Deus. Deus é o Deus da verdade. Ele é luz, e nEle não há trevas nenhuma. Cristo é Rei do reino da verdade. Para este fim Ele nasceu, para que pudesse testemunhar a verdade. Aquele que é da verdade ouve a Sua voz.

A tão pronta disposição para se aceitar o “status quo” como normal é um dos grandes obstáculos no caminho da real reforma e progresso da igreja hoje. Esta atitude é pecaminosa porque é cega para com a verdadeira corrupção do “status quo”. Ela falha em perceber que o “status quo” sempre necessita se arrepender, sempre necessita ser perdoado pela graça divina, e sempre necessita ser reformado pela igreja na terra. Falha em perceber que a verdade da declaração de Agostinho de que todo bem menor envolve um elemento de pecado!

De forma básica, esta completa aceitação do “status quo” como normal procede de uma ideia errada de Deus, uma ideia que falha em lidar com Sua santidade e pureza, e de uma ideia errada da Escritura, uma ideia que falha em perceber o caráter absoluto da Escritura como o padrão da igreja.

Colocar a verdade e a honra de Deus em primeiro lugar, acima de todas as outras considerações, sejam quais forem, requer uma grande consagração moral. Neste assunto, é verdade tanto da igreja como o é do indivíduo, que aquele que perder a sua vida por causa de Cristo, encontra-la-á.
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Este artigo, tirado da Blue Banner Faith and Life (como republicado na Banner of Truth, Agosto de 1959), é de propriedade do Sínodo do RPCNA, e é reimpresso aqui com sua cordial permissão. Reimpresso de New Horizons, Julho de 2002.

Nota do editor: Johannes G. Vos foi um ministro na Igreja Presbiteriana Reformada da América do Norte e ensinou Bíblia no Colégio de Genebra por muitos anos. Este artigo apareceu primeiramente no Blue Banner Faith and Life, o qual ele estabeleceu e editou. Embora escrito em 1959, é tão relevante para a igreja de hoje como sempre o foi.

Tradução livre: Felipe Sabino de Araújo Neto
Fonte: Monergismo
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