quarta-feira, 6 de maio de 2015

Consolo nas aflições [01/17]

INTRODUÇÃO

O trabalho para o qual o servo de Cristo é chamado apresenta múltiplas facetas. Ele não somente prega o Evangelho aos perdidos, alimenta o povo de Deus com o conhecimento e entendimento (Jeremias 3:15), e tira as pedras de tropeço de seu caminho (Isaías 57:14), mas ele também é ordenado a "clamar em alta voz, não se deter, levantar a sua voz como a trombeta, e anunciar ao meu povo a sua transgressão" (Isaías 58:1 e cf. 1 Timóteo 4:2). Enquanto outra parte importante de sua comissão é: "CONSOLAI, consolai o meu povo, diz o vosso Deus" (Isaías 40:1). Que título honroso: "Meu povo!" E que relação confiante: "nosso Deus!" O que é uma tarefa agradável: "consolai o meu povo!" Uma tripla razão pode ser sugerida para a duplicação do encargo. Primeiro, porque às vezes as almas dos crentes se recusam ser consoladas (Salmos 77:2), e o consolo precisa ser repetido. Segundo, colocar este dever mais enfaticamente sobre o coração do pregador, para que ele não seja econômico ao ministrar o consolo. Terceiro, para termos a certeza de que o desejo de coração do próprio Deus é que Seu povo deva sempre se regozijar (Filipenses 4:4). Deus tem um "povo", os objetos de Seu favor especial: um grupo de pessoas que Ele tem em relação íntima que Ele os chama "Meu povo". Muitas vezes eles estão desconsolados: por causa de sua corrupção natural, das tentações de Satanás, do tratamento cruel do mundo, do estado de desprezo da causa de Cristo na terra. O "pai de toda a consolação" (2 Coríntios 1:3) é muito sensível a eles, e é Sua vontade revelada que Seus servos devam curar os quebrantados do coração e derramar o bálsamo de Gileade em suas feridas. É a causa que temos para exclamar: "Quem é Deus semelhante a ti!" (Miquéias 7:18), que tem provido o conforto daqueles que foram rebeldes contra o seu governo e transgressores de Sua lei.

O conteúdo deste pequeno volume têm aparecido de tempos em tempos em nossa revista mensal durante os últimos 30 anos. Eles eram, anteriormente, sermões que pregamos há muito tempo nos Estados Unidos e Austrália. Aqui e lá é um assunto (especialmente onde o assunto da profecia está mais em alta) que não é mais tocado, mas desde que o Senhor teve o prazer de abençoá-los em sua forma original para não poucos de seu povo aflito, não o revisamos. Que isso possa agradá-lo ao falar de paz para eles, para almas aflitas hoje, e a glória será só Dele.

NENHUMA CONDENAÇÃO HÁ
"PORTANTO, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus" (Romanos 8:1)
"Portanto, agora nenhuma condenação há". O oitavo capítulo da epístola aos Romanos conclui a primeira seção desta maravilhosa epístola. Sua palavra de abertura é "Portanto", e pode ser vista de uma forma dupla. Primeiro, ela se conecta com tudo o que foi dito desde 3:21. Uma inferência é agora deduzida a partir de toda a discussão anterior, uma inferência que era, de fato, a grande conclusão que o apóstolo tinha em vista por todo o seu argumento. Porque Cristo foi estabelecido "propiciação pela fé no seu sangue" (3:25); porque Ele "foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação" (4:25); porque pela obediência de um, muitos (os crentes de todas as eras) serão "feitos justos", constituído assim, legalmente, (5:19); porque os crentes estão "mortos" (judicialmente) para o pecado" (6:2), porque estão "mortos" para a condenação do poder da lei (7:4), portanto, AGORA NENHUMA CONDENAÇÃO HÁ".

Mas não é só o "portanto" que deve ser visto como uma conclusão de toda a discussão anterior, também deve ser considerado como tendo uma estreita relação com o que o imediatamente precede. Na segunda metade de Romanos 7 o apóstolo havia descrito o conflito doloroso e incessante que é travado entre as naturezas antagônicas naquele que nasceu de novo, ilustrando isso por uma referência à sua própria experiência pessoal como um cristão. Tendo se retratado com um mestre da pena – sendo ele mesmo o modelo para o quadro – das lutas espirituais do filho de Deus, o apóstolo agora passa a dirigir a atenção para a consolação divina em uma condição tão angustiante e humilhante. A transição do tom desanimado do sétimo capítulo à linguagem triunfante do oitavo aparece surpreendente e abrupta; ainda é bastante lógico e natural. Se é verdade que para os santos de Deus pertence o conflito do pecado e da morte, sob cujo efeito eles choram, também é verdade que sua libertação da maldição e da condenação correspondente é uma vitória no qual eles se alegram. Um contraste muito marcante é, portanto, indicado.

Na segunda metade de Romanos 7 o apóstolo trata do poder do pecado, que opera nos crentes enquanto eles estão no mundo; nos versos de abertura do capítulo oito, ele fala da culpa do pecado do qual eles são totalmente entregues no momento em que são unidos ao Salvador pela fé. Portanto, no versículo 7:24, o apóstolo pergunta: "quem me livrará" do poder do pecado, mas em 8:2 ele diz, "me livrou", ou seja, me tirou a culpa do pecado.

"Portanto, agora nenhuma condenação há". Não é uma questão do nosso coração nos condenar (como em 1 João 3:21), nem de não encontrarmos nada que seja digno; ao invés, é o fato mais abençoado que Deus não condena o que crê em Cristo para a salvação de sua alma. Precisamos distinguir claramente entre a verdade subjetiva e objetiva; entre o que é judicial e o que é experimental; caso contrário, falharemos ao tirar de tais Escrituras, como estas, o conforto e a paz que elas se propõem a transmitir. Não há nenhuma condenação para os que estão em Cristo Jesus. "Em Cristo" é a posição do crente diante de Deus, não sua condição na carne. "Em Adão" eu estava condenado (Romanos 5:12), mas "em Cristo" estou para sempre livre de toda condenação. "Portanto, agora nenhuma condenação há". A qualificação "agora" implica que houve um tempo quando os cristãos, antes de crerem, que estavam sob condenação. Isto foi antes de morrerem com Cristo, morreram judicialmente (Gálatas 2:20) à pena da justa lei de Deus. Este "agora", então, distingue entre dois estados ou condições. Por natureza estávamos "debaixo da (sentença da) lei", mas agora os crentes estão "debaixo da graça" (Romanos 6:14). Por natureza éramos "filhos da ira" (Efésios 2:3), mas agora somos "agradáveis a si no Amado" (Efésios 1:6). Sob a primeira aliança estávamos "em Adão" (1 Coríntios 15:22), mas agora estamos "em Cristo" (Romanos 8:1). Como crentes em Cristo temos a vida eterna, e por isso que "não entraremos em condenação".

Condenação é uma palavra de tremenda importância, e quanto melhor a entendermos mais apreciaremos a maravilhosa graça que nos libertou de seu poder. Nos tribunais dos homens este é um termo que cai com sentença de medo aos ouvidos do criminoso condenado e enche os espectadores de tristeza e horror. Mas no tribunal da Justiça Divina é investido de um significado e conteúdo infinitamente mais solene e inspirador. Nessa corte cada membro da raça caída de Adão é citado. "Em iniquidade formado, em pecado concebido", cada um entra neste mundo em prisão - um criminoso indiciado, um rebelde algemado. Como, então, é possível alguém escapar de tal execução dessa sentença tão pavorosa? Havia apenas um caminho, e esse foi pela remoção do que havia em nós, do que provocou a sentença, ou seja, o pecado. Quando a culpa é removida então haverá "nenhuma condenação". A culpa é removida, retirada, queremos dizer, do pecador que crê? Deixe a Escritura responder: "Assim como está longe o oriente do ocidente, assim afasta de nós as nossas transgressões".

(Salmos 103:12). "Eu, eu mesmo, sou o que apago as tuas transgressões" (Isaías 43:25).

"... lançaste para trás das tuas costas todos os meus pecados" (Isaías 38:17). "E jamais me lembrarei de seus pecados e de suas iniquidades" (Hebreus 10:17).

Mas como a culpa poderia ser removida? Somente ela sendo transferida. A santidade divina não poderia ignorá-lo; mas a graça divina pode e o transferiu. Os pecados dos crentes foram transferidos para Cristo: "... o SENHOR fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos" (Isaías 53:6). "Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós;" (2 Coríntios 5:21).

"Portanto, nenhuma condenação há". O "nenhuma" é enfático. Significa que não há condenação alguma. Nenhuma condenação da lei, ou por conta de corrupção interna, ou porque Satanás pode fundamentar alguma acusação contra mim; não há nada de qualquer origem ou por qualquer motivo. "Nenhuma condenação" significa que nenhuma delas é possível; que nenhuma jamais vai ser imputada. Não há condenação, porque não há acusação (ver 8:33), e não pode haver nenhuma acusação, porque não há imputação do pecado (veja 4:8). "Portanto, nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus".

Ao tratar do conflito entre as duas naturezas do crente, o apóstolo tinha, no capítulo anterior, falado de si mesmo em sua própria pessoa, a fim de mostrar que as maiores realizações na graça não isentam da guerra interna que ele descreve. Mas aqui, no versículo 8:1, o apóstolo muda o número. Ele não diz, nenhuma condenação há para mim, mas "para os que estão em Cristo Jesus". Esta foi a maior benevolência do Espírito Santo. O apóstolo tinha falado aqui no singular, devemos raciocinar que tal abençoada isenção estava bem ajustada a este honrado servo de Deus que apreciava tais privilégios maravilhosos; mas pode não se aplicar a nós. O Espírito de Deus, portanto, moveu o apóstolo a empregar o plural aqui, para mostrar que "nenhuma condenação" é verdadeiro para todos em Cristo Jesus.

"Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus". Estar em Cristo Jesus é ser perfeitamente identificado com Ele na avaliação judicial e nos procedimentos de Deus: e é também ser um com Ele como vitalmente estando unidos pela fé. Imunidade da condenação não depende de qualquer sabedoria sobre a nossa "caminhada", mas unicamente em nosso ser "em Cristo".

"O crente está em Cristo como Noé estava encerrado na arca, com o céu escuro acima e as águas ondulantes abaixo, e nenhuma gota do dilúvio entrou na sua arca, nenhuma rajada da tempestade perturbou a serenidade do seu espírito. O crente está em Cristo como Jacó estava nas roupas do seu irmão mais velho quando Isaque o beijou e o abençoou. Ele está em Cristo como o pobre homicida que foi para a cidade de refúgio, quando perseguido pelo vingador do sangue, e que não pode alcançá-lo para matá-lo" (Dr. Winslow, 1857). E porque ele está "em Cristo", portanto, nenhuma condenação há para ele. Aleluia!
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Traduzido por Edimilson de Deus Teixeira
Fonte: Comfort for Christians de A.W. Pink
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