segunda-feira, 1 de junho de 2015

A obediência humilde, verdadeira imitação de Cristo

A Escritura é a regra da vida
1.A meta da nova vida em Cristo é que os filhos de Deus exibam a “melodia e harmonia de Deus em sua conduta. Que melodia? A canção do Deus de justiça. Que harmonia? A harmonia entre a justiça de Deus e nossa obediência.
Andando unicamente na maravilhosa lei de Deus, podemos estar seguros de nossa adoção como filhos do Pai.
A lei de Deus contém em si mesma a dinâmica da nova vida por meio da qual Deus restaura sua imagem em nós; porém, por natureza somos preguiçosos e negligentes, portanto, necessitamos da ajuda e do estímulo de um princípio que nos guie em nossos esforços. Um arrependimento sincero de coração não garante que não venhamos a nos desviar do caminho reto. E como agravante, muitas vezes nos encontramos perplexos e desconcertados. Busquemos pois, na Escritura o princípio fundamental para reformar e orientar nossa vida. 
2.A escritura contém um grande número de exortações, e para tratar de todas elas necessitaríamos de um grande volume. Os Pais da Igreja escreveram grandes obras sobre as virtudes necessárias à vida cristã. São escritos de um significado tão valioso que nem os eruditos mais hábeis poderiam esgotar as profundidades de uma só virtude. Todavia, para uma devoção pura, não é necessário ler as excelentes obras dos Pais da Igreja, mas somente entender a regra básica da Bíblia.1 
3.Ninguém deveria tirar a conclusão de que a brevidade de um tratado sobre a conduta cristã faz com que os escritos elaborados por outras pessoas sejam supérfluos, ou que sua filosofia não tenha valor.
Todavia, os filósofos estão acostumados a falar dos princípios gerais e regras específicas, porém as escrituras têm uma ordem própria. Os filósofos são ambiciosos e, por conseguinte, demonstram uma estranha lucidez e uma hábil ingenuidade; porém a Escritura tem uma esplêndida precisão e uma certeza que supera todos os filósofos.
Os filósofos, amiúde, fazem demonstrações comovedoras, porém o Espírito Santo tem um método diferente (direto, simples e compreensível), o qual não deve ser subestimado.2
A santidade é o princípio-chave
1.O plano das escrituras para a vida de um cristão é duplo: primeiro, que sejamos instruídos na lei para amar a retidão, porque por natureza, não estamos inclinados a fazê-lo; segundo, que aprendamos umas regras simples porém importantes, de modo a não desfalecermos nem nos debilitarmos em nosso caminho.
Das muitas recomendações excelentes que a Escritura faz, não ha nenhuma melhor que este princípio: “Sede santos porque eu sou santo.”
Quando andávamos espalhados como ovelhas sem pastor, e perdidos no labirinto do mundo, Cristo nos chamou e nos reuniu para que pudéssemos nos voltar a Ele. 
2.Ao ouvir qualquer menção de nossa união mística com Cristo, deveríamos recordar que o único meio para desfrutá-la é a santidade. A santidade não é um mérito por meio do qual podemos obter a comunhão com Deus sem um dom de Cristo, o qual nos capacita para estarmos unidos a Ele e a segui-lo.
É a própria glória de Deus que não pode ter nada a ver com a iniqüidade e a impureza; portanto, se queremos prestar atenção à sua exortação, é imprescindível que tenhamos este princípio sempre presente.
Se no transcurso de nossa vida cristã queremos seguir vinculados aos princípios mundanos, para que então fomos resgatados da iniqüidade e da contaminação deste mundo?
Se desejamos pertencer a seu povo, a santidade do Senhor nos admoesta a que vivamos na Jerusalém santa de Deus. Jerusalém é uma terra santa, portanto, não pode ser profanada por habitantes de conduta impura.
O salmista disse: Jeová, quem habitará em teu tabernáculo? Quem morará em teu monte santo? O que anda em integridade, faz justiça e fala a verdade em seu coração.”
O santuário do altíssimo deve manter-se imaculado. Ver Lev. 19.2; 1 Ped. 1.16; Is. 35.10; Sal. 15.1, 2 e 24.3, 4.
A santidade significa obediência total a Cristo
1.A escritura não nos ensina somente o princípio da santidade, como também nos diz que Cristo é o caminho a este princípio.
Posto que o Pai nos tem reconciliado consigo mesmo por meio de Cristo, nos ordena que sejamos conformes à sua imagem. Àqueles que pensam que os filósofos têm um sistema melhor de conduta, lhes pediria que nos mostrem um plano mais excelente que obedecer e seguir a Cristo.
A virtude mais sublime de acordo com os filósofos é viver a vida de acordo com a natureza, porém a Escritura nos demonstra Cristo como nosso modelo e exemplo perfeito.
Deveríamos exibir o caráter de Cristo em nossas vidas, pois o que pode ser mais efetivo para nosso testemunho e de mais valor para nós mesmos? 
2.O senhor nos tem adotado para que sejamos Seus filhos sob a condição de que revelemos uma imitação de Cristo, que é o Mediador de nossa adoção.
A menos que nos consagremos de maneira devota e ardente à justiça de Cristo, não só nos afastaremos de nosso Criador, como também estaremos renunciando voluntariamente ao nosso salvador. 
3.A Escritura acompanha sua exortação com as promessas sobre as incontáveis bênçãos de Deus e o fato eterno e consumado da nossa salvação.
Portanto, posto que Deus tem revelado a si mesmo como Pai, se não nos comportarmos como seus filhos seremos culpados da ingratidão mais desprezível.
Posto que Cristo nos tem unido ao seu corpo como membros, deveríamos desejar fervorosamente não desagradá-lo em nada. Cristo, nosso cabeça, tem ascendido aos céus; por tanto deveríamos deixar para trás os desejos da carne e elevar nossos corações a Ele.
Posto que o Espírito Santo nos tem consagrado como templos de Deus, proponhamos a nós mesmos, em nossos corações, não profanar Seu santuário, antes manifestar Sua glória.
Tanto nossa alma como nosso corpo estão destinados a herdar uma coroa incorruptível. Devemos, então, manter ambos puros e sem mancha até o dia do nosso Senhor.
Estes são os melhores fundamentos para um código correto de conduta. Os filósofos nunca se elevam por sobre a dignidade natural do homem, porém, a Escritura aponta-nos nosso salvador sem mancha, Cristo Jesus. Ver Rom. 6.4; 8.29.
Um cristianismo externo não é suficiente
1.Perguntemos àqueles que não possuem nada mais que a membresia de uma igreja, e que apesar disto desejam ser chamados de cristãos, como podem glorificar o sagrado nome de Cristo?
Somente aquele que tem recebido o verdadeiro conhecimento de Deus, por meio da Palavra do Evangelho, pode chegar a ter comunhão com Cristo.
O apóstolo disse que ninguém que não tenha posto de lado a velha natureza, com sua corrupção e suas concupiscências, pode dizer que tenha recebido o verdadeiro conhecimento de Cristo.
O conhecimento externo de Cristo é só uma crença perigosa, não importando o quão eloqüentes possam ser as pessoas que o têm. 
2.O evangelho não é uma doutrina da fala, mas de vida. Não se pode assimilá-lo por meio da razão e da memória, única e exclusivamente, pois só se chega a compreendê-lo totalmente quando Ele possui toda a alma e penetra no mais profundo do coração.
Os cristãos nominais devem parar de insultar a Deus jactando-se de serem aquilo que não são.
Devemos nos ater em primeiro lugar no conhecimento de nossa fé, pois esta é o princípio de nossa salvação.
A menos que nossa fé ou religião promovam uma mudança em nosso coração e em nossas atitudes nos transformando em novas criaturas, não nos será de muito proveito.
3.Os filósofos condenam e excluem de sua companhia todos aqueles que professam conhecer a arte de viver a vida, considerando-os apenas como crianças gaguejantes.
Com muito mais razão os cristãos deveriam detestar aqueles que têm o Evangelho em seus lábios, porém não em seus corações.
Comparadas com as convicções, os afetos e a energia sem limites dos verdadeiros crentes, as exortações dos filósofos são frias e sem vida. Ver Efes. 4.20 e ss.
O progresso espiritual é necessário
1.Não devemos insistir em uma perfeição absoluta em nossos companheiros cristãos por mais que lutemos por consegui-la nós mesmos.
Seria injusto requerermos uma perfeição evangélica antes de constatarmos se uma pessoa é verdadeiramente cristã.
Se instituíssemos uma norma de perfeição total para os cristãos, não existiria nenhuma igreja, posto que todos nós estamos muito longe de sermos verdadeiramente cristãos ideais. Afinal, teríamos que recusar a muitos que só podem fazer um progresso lento.
2.A perfeição deve ser a meta final a qual nos dirigir e o propósito supremo em nossas vidas.
Não é justo que atemos um compromisso com Deus, em que tratemos de cumprir parte de nossas obrigações omitindo outras, segundo nosso gosto e capricho.
Antes de tudo, o Senhor deseja sinceridade em Seu serviço e simplicidade de coração, sem engano nem falsidade.
Uma mente dividida está em conflito com a vida espiritual, posto que esta implica uma devoção sincera a Deus em busca de santidade e retidão.
Ninguém, nesta prisão terrena do corpo, tem suficiente força própria para seguir adiante com uma constante vigilância e cuidado. Ademais, a grande maioria dos cristãos padece de uma debilidade tal que se desviam ou se detêm em seu progresso espiritual, tendo em conseqüência avanços muito lentos e escassos.
3.Deixemos que cada um proceda de acordo com a habilidade que lhe foi dada e continue assim, a peregrinação que tem empenhado.
Não há homem tão infeliz e inapto e que, pouco a pouco, não tenha conseguido um pequeno progresso.
Não cessemos de fazer todo o possível para irmos incessantemente mais adiante no caminho do Senhor; e não nos desesperemos por causa de nossas escassas conquistas.
Ainda que não cheguemos no nível espiritual que esperamos ou desejamos, nossa labuta não está perdida se é que o dia de hoje ultrapassa em qualidade espiritual o dia de ontem.
4.A única condição para o verdadeiro progresso espiritual é a de que permaneçamos sinceros e humildes.
Mantenhamos em mente nossa meta final e avancemos sobre ela com toda a nossa vontade. Não caiamos no orgulho nem nos entreguemos às paixões pecaminosas.
Exercitemos com diligência para alcançarmos uma norma mais alta de santidade, até que tenhamos chegado ao melhor de nossa qualidade espiritual, na qual devemos persistir ao longo de nossa vida. Somente chegaremos à perfeição absoluta quando, libertos deste corpo corruptível, formos admitidos por Deus em Sua presença.
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Notas
1. Aqui Calvino insere: “Não sou a pessoa certa para escrever copiosamente, já que amo a brevidade. É provável que o intente no futuro; de todas as formas, deixarei esta tarefa aos outros.”
2. Evidentemente Calvino está pensando aqui em 1 Cor. 1.3.

Fonte: livro, A Verdadeira Vida Cristã, Editora Novo Século. Disponível para download.
Por: João Calvino
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