quarta-feira, 3 de junho de 2015

Autonegação


I. Não nos pertencemos, somos do Senhor
1.A lei divina contém um plano adequado e ordenado para a regulação de nossa vida; porém nosso Pai celestial quer dirigir os homens por meio de um princípio-chave excelente.
É dever de todo crente apresentar seu corpo como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, como indica a Escritura. Nisto consiste a verdadeira adoração.
O princípio da santidade nos leva à seguinte exortação: “Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.”
É muito importante estarmos consagrados e dedicados ao Senhor, pois isso significa que pensamos, falamos, meditamos ou fazemos qualquer coisa tendo como motivo principal a glória de Deus.
Recordemos que àquilo que é sagrado não se pode aplicar usos impuros sem cometer séria injustiça e agravo a Deus. 
2.Se não nos pertencemos a nós mesmos, mas pertencemos ao Senhor, devemos fugir daquelas coisas que lhe desagradam e processar nossas obras e nossos feitos como tudo aquilo que Ele aprova.
Baseando-nos no fato de que não nos pertencemos, teríamos que aceitar que nem nossa razão nem nossa vontade deveriam guiar-nos em nossos pensamentos e ações.
Se não nos pertencemos, não temos que buscar a satisfação dos apetites de nossa carne.
Se não nos pertencemos, então, esqueçamos de nós mesmos e de nossos interesses o quanto nos seja possível.
Pertencemos a Deus; portanto, deixemos de lado nossa conveniência e vivamos para Ele, permitindo que Sua sabedoria guie e domine todas as nossas ações.
Se pertencemos ao Senhor, deixemos que cada parte de nossa existência seja dirigida por Ele. Esta deve ser nossa meta suprema. 
3.Quanto tem avançado aquele homem que tem aprendido a não pertencer-se a si mesmo, nem a ser governado por sua própria razão, mas que rende e submete sua mente a Deus!
O veneno mais efetivo que leva os homens à mina é o fato de jactarem-se em si mesmos, no poder e na sabedoria humana. A única saída para safarem-se deste auto-engano é simplesmente seguir as instruções do Senhor.
Nosso primeiro passo deveria ser o de aplicar toda nossa força a serviço do Senhor. 
4.O serviço do Senhor não só implica uma autêntica obediência, como também a vontade de pôr a parte os desejos pecaminosos e render-se completamente ao governo do Espírito Santo.
A transformação de nossas vidas por meio do Espírito Santo é o que Paulo chama de renovação da mente. Este é o verdadeiro princípio da vida que os filósofos deste mundo desconhecem.
Os filósofos pagãos põem a razão como o única guia da vida, da sabedoria e da conduta, porém a filosofia cristã nos requer que rendamos nossa razão ao Espírito Santo, o que significa que já não vivemos para nós mesmos, mas que Cristo vive e reina em nosso ser. Ver Rom. 4.23; Gál. 2.20.
II. Buscar a glória de Deus implica numa autonegação
1.Não busquemos nossos próprios interesses, mas antes aquilo que compraz ao Senhor e contribui para promover sua glória.
Há uma grande vantagem em praticamente esquecermos de nós mesmos e em deixarmos de lado todo o aspecto egoísta; pois assim podemos enfocar nossa devota atenção a Deus e a Seus mandamentos.
Quando a Escritura nos diz para que descartemos todas as considerações pessoais e egoístas, não só exclui de nossas mentes o desejo de riquezas, de poder e favor dos homens, como também faz desvanecer de nossa imaginação as falsas ambições, os apetites por glória humana e outras maldades secretas.
Todo crente deve ter o desejo fervoroso de contar com Deus em cada momento de sua vida. 
2.Um cristão medirá todas as suas ações por meio da lei de Deus, seus pensamentos secretos estarão sujeitos à sua divina vontade.
Se um homem tem aprendido a depender de Deus em cada empreendimento de sua vida, estará liberto de todos os seus desejos vãos.
A negação de nós mesmos, que tem sido tão diligentemente ordenada por Cristo aos seus apóstolos desde o princípio, terminará dominando os desejos de nossos corações.
Esta negação de nós mesmos não deixará lugar para o orgulho, a arrogância, a vanglória, a avareza, a licenciosidade, o amor à luxúria, ao luxo; ou qualquer outra coisa nascida do amor ao “Eu”.
Sem o princípio da autonegação o homem é levado à indulgência pelos vícios mais grotescos sem um mínimo de vergonha, e se é que há alguma aparência de virtude nele, a mesma se desvanece por uma paixão desordenada que busca sua própria glória.
Mostra-me um só homem que sem crer na santa lei de Deus e na autonegação, mesmo assim pratica a virtude entre os homens. 
3.Todos aqueles que não têm sido influenciados pelo princípio da autonegação, têm procurado de algum modo seguir a virtude, porém, o têm feito com o desejo de conseguir o louvor por parte dos demais homens.
Ainda que os filósofos sustentem que a virtude é algo desejável por si mesma, se enaltecem em sua arrogância, demonstrando que não desejam a virtude e sim terem uma oportunidade de exercitar seu orgulho.
Deus não se compraz em absoluto com aqueles que são ambiciosos e altivos, cujos corações estão cheios de orgulho e presunção. Desses homens, o senhor disse já terem sua recompensa neste mundo, e que as prostitutas e os fariseus (arrependidos) estão mais próximos que eles do reino dos céus. 
4.Incontáveis são os obstáculos do homem que deseja fazer o que é correto e, ao mesmo tempo, resiste em negar o seu “Eu”.
Desde a antigüidade se sabe que há todo um mundo de vícios escondidos na alma humana, porém a autonegação cristã é o remédio para acabar com todos.
Só há libertação para o homem que renuncia a seu egoísmo, e cuja única meta é agradar ao Senhor e fazer o que é bom diante de Seus olhos.
III. Autonegação significa sobriedade, justiça e devoção
1.O apóstolo Paulo, nos dá um breve sumário de uma vida bem regrada quando diz a Tito: “Porque a graça de Deus se manifestou para todos os homens. Ela nos ensina a renunciar à impiedade e às paixões mundanas e a viver de maneira sensata, justa e piedosa nesta era presente, enquanto aguardamos a bendita esperança: a gloriosa manifestação de nosso grande Deus e salvador, Jesus Cristo, que se entregou por nós a fim de nos remir de toda maldade e purificar para si mesmo um povo particularmente seu, dedicado à prática de boas obras” (Tit. 2.11-14).
Paulo declara que necessitamos da graça de Deus como estímulo para nossas vidas, porém, para chegarmos a uma verdadeira adoração, devemos nos despojar dos seguintes obstáculos: primeiro, a falta de devoção à qual estamos fortemente inclinados, como também da concupiscência da carne que nos angustia e nos aflige.
A falta de piedade e devoção não só dá lugar às superstições como a tudo aquilo que impede o santo temor a Deus. As concupiscências mundanas representam ou simbolizam as afecções carnais.
Paulo nos exorta a deixarmos de lado nossos desejos anteriores, os quais estão em conflito permanente com as duas tábuas da lei, e que renunciemos a todos os ditados de nossa própria razão e vontade. 
2.O apóstolo resume todas as ações da nova vida em três grupos: sobriedade, justiça e piedade.
Indubitavelmente a sobriedade significa castidade e temperança, como também o uso puro e frugal das bênçãos temporais, incluindo a paciência na pobreza.
A retidão inclui todos os deveres da justiça, de modo que cada homem receba o que lhe é devido.
A piedade nos separa da contaminação do mundo e, por meio da verdadeira santidade, nos une a Deus.
Quando as virtudes da sobriedade, justiça e piedade estão firmemente unidas, produzem uma absoluta perfeição. 
3.Nada é mais difícil do que deixar de lado os pensamentos carnais, submeter e renunciar a nossos falsos apetites, e consagrarmo-nos a Deus e a nossos irmãos, vivendo assim uma vida de anjos num mundo de corrupção.
Para livrar nossas mentes de todo engano, Paulo chama nossa atenção para a esperança de uma bendita imortalidade; nos anima para que saibamos que nossa esperança não é em vão.
Assim como Cristo apareceu uma vez como Redentor, Ele virá outra vez para nos mostrar os benefícios da salvação que temos obtido.
O Senhor Jesus Cristo despoja nossa mente dos encantos que nos cegam, e nos impede de voltarmos a desejá-los, dando-nos um justo zelo pela glória celestial.
Cristo também nos exorta para que vivamos como estrangeiros e peregrinos neste mundo, de modo a não perdermos nossa herança nos céus. Ver Tit. 2.11-14.
IV. A verdadeira humildade significa respeito pelos demais
1.A autonegação se refere em parte aos homens mas principalmente a Deus.
Quando a escritura ordena a conduzir-nos de tal maneira para com nossos semelhantes, de modo a darmos preferência aos demais antes que a nós mesmos, nos está dando um mandamento de tal envergadura que não podemos recebê-lo a menos que primeiro sejamos curados de nossa natureza pecaminosa.
Se Deus tem derramado sobre nós um dom excelente, e se, porém, imaginamos que ele mesmo se deve a nosso próprio mérito, acabaremos insuflados de orgulho. 
2.Todos estamos cheios de vícios que escondemos dos demais cuidadosamente, e nos enganamos pensando que são coisas pequenas e triviais, tanto quanto às vezes os estimamos como verdadeiras virtudes.
Se os mesmos talentos que admiramos em nós mesmos (ou ainda melhores) os vemos em nosso próximo, com toda malignidade os depreciamos e os temos em pouco-caso, para assim não termos que reconhecer a superioridade de nossos semelhantes.
Se os outros têm algum vício, não nos preocupamos somente em criticá-los aguda e severamente, como também nos permitimos exagerá-los com todo nosso ódio.
Do ódio, passamos à insolência, pois desejamos ser mais excelentes do que o resto da humanidade, imaginando não pertencermos ao comum do povo, considerando aos demais como seres inferiores. 
3.O pobre se rende ao rico, o povo comum àqueles que crêem serem superiores, os servos a seus senhores, os ignorantes aos estudiosos; porém, não há ninguém que não se julgue superior aos demais.
Cada um adula-se a si mesmo e erige um verdadeiro reinado em seu “ego” interior.
Todos desejamos agradar-nos a nós mesmos e censurarmos as idéias e conduta de nossos semelhantes, e no caso de surgir alguma discordância, tudo se converte em uma verdadeira explosão de veneno.
Consideramos as outras pessoas amáveis e encantadoras enquanto não nos contradizem, porém, quantos de nós nos mantemos em calma e de bom humor se os demais nos perturbam ou nos irritam? 
4.Para poder vivermos felizes, temos de arrancar de nosso coração os maus pensamentos e desejos de falsa ambição e amor-próprio desde as mesmas raízes.
Se prestamos atenção às instruções das Escrituras, observaremos que nossos talentos não nos pertencem, mas que são dons que o senhor nos dá em Sua graça infinita.
Se nos orgulhamos de nossos talentos, estamos sendo ingratos para com Deus. “Pois, quem toma você diferente de qualquer outra pessoa? O que você tem que não tenha recebido? E se o recebeu, por que se orgulha, como se assim não fosse?” (1Cor. 4.7.)
Devemos observar e sermos conscientes de nossas falhas, de modo verdadeiramente humilde. Fazendo assim, não nos encheremos de orgulho, do contrário, teremos grandes razões para nos sentirmos abatidos. 
5.Por outro lado, quando vemos algum dom de Deus em outra pessoa, não devemos estimar somente o dom, mas também, o seu possuidor, pois seria uma maldade de nossa parte roubar de nosso irmão a honra que lhe tem sido dada por Deus.
Tem-nos ensinado a passar por alto as falhas dos demais, mas não a fomentá-las por meio da adulação.
Nunca deveríamos injuriar a outros por suas faltas, pois é nosso dever mostrar amor e respeito para com todos.
Se prestamos atenção à honra e a reputação dos demais, quem quer que eles sejam, aprenderemos a nos conduzir, não somente com moderação e excelente humor, mas também com educação e um amplo sentido da amizade.
Nunca chegaremos à verdadeira humildade de nenhum outro modo que não seja humilhando-nos e honrando nosso próximo do mais profundo dos nossos corações. Ver Rom. 12.10; Fil. 2.4; 1Cor.4.7.
V. Devemos buscar o bem dos demais crentes
1.Como é extremamente difícil nos preocuparmos com o bem do nosso vizinho, a menos que deixemos de lado todas as considerações egoístas e esqueçamos de nós mesmos!
Como podemos levar a cabo os deveres que Paulo nos ensina como obras de amor, a menos que renunciemos a nós mesmos e dediquemo-nos aos demais?
“O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade.” (1Cor.13.4-6.) 
2.Ainda que somente se nos ordenasse a não buscarmos nosso próprio benefício, deveríamos, contudo, seguir exercendo uma considerável pressão sobre nossa velha natureza, pois está tão fortemente inclinada a amar o próprio “Eu”, que não estaria facilmente disposta a deixar de lado seus interesses egoístas.
Busquemos, outro sim, o benefício dos demais, e ainda de maneira voluntária, renunciemos a nossos direitos pelo bem de nosso próximo.
As Escrituras exigem de nós e nos advertem a considerarmos que qualquer favor que obtenhamos do Senhor, o temos recebido com a condição de que o apliquemos em benefício comum da Igreja.
Temos de compartilhar liberalmente e agradavelmente todos e cada um dos favores do Senhor com os demais, pois isto é a única coisa que os legitima.
Todas as bênçãos de que gozamos são depósitos divinos que temos recebido com a condição de distribuí-los aos demais.
Não podemos imaginar uma incumbência mais apropriada a uma sugestão mais poderosa que esta. 
3.De acordo com as Escrituras, nossos talentos pessoais devem ser comparados com os poderes conferidos aos membros do corpo humano.
Nenhum membro do corpo mantém sua força para si mesmo, nem a aplica para seu uso exclusivo, mas somente para o proveito dos demais. De igual modo, nenhum membro da Igreja recebe vantagens de sua própria atividade, mas através de sua cooperação com a totalidade do corpo de crentes.
Qualquer habilidade que um fiel cristão tenha, deve dedicá-la ao serviço de seus companheiros crentes, como também submeter, com toda sinceridade, seus próprios interesses ao bem-estar comum da Igreja.
Apropriemo-nos desta regra com boa vontade e amabilidade, para que quando tivermos a ocasião de ajudarmos aos demais, possamos nos comportar como quem, algum dia, dará conta de seus próprios atos, recordando sempre que a distribuição dos benefícios se determinará em harmonia com a lei do amor.
Em primeiro lugar, não deveríamos intentar promover o bem dos demais, buscando o nosso próprio, mas, antes, preferir o bem dos outros pelo que isso significa em si mesmo. 
4.A lei do amor não só concerne aos grandes benefícios, pois, desde a antigüidade, Deus nos tem ordenado que a recordemos e a ponhamos em prática mesmo nos pequenos favores da vida.
Deus ordenou ao povo de Israel que Lhe oferecesse os primeiros frutos de milho, como uma mostra solene de que lhe era ilegítimo gozar de uma bênção que primeiramente não houvesse sido oferecida a Ele.
Se os dons de Deus não são parte de nossa vida santificada e não os dedicamos com nossas próprias mãos a seu autor, seríamos culpados de um abuso pecaminoso se deles descartássemos tal dedicação.
VI. Devemos buscar o bem de todos, amigos e inimigos
1.Conhecendo nossa predisposição natural, o apóstolo nos ensina a que não nos cansemos de fazer o bem, e ademais acrescenta que “o amor é paciente,... não se irrita.” (1Cor. 13.4-5.)
Deus nos manda fazer o bem a todos os homens sem exceção, ainda que a maioria não seja merecedora, se a julgarmos de acordo com seus próprios méritos.
Também nesta ocasião, a Escritura nos ajuda com um excelente argumento, ensinando-nos a não pensar no valor real do homem, mas só em sua criação, feita conforme a imagem de Deus. A Ele devemos toda honra e o amor de nosso ser.
Ademais, nós que formamos parte da família da fé, somos os que mais podemos apreciar a imagem de Deus, porque Ele a tem renovado e restaurado em nós por meio do Espírito de Cristo. 
2.De modo que se alguém aparece diante de vocês necessitando de seus amáveis serviços, não há razão alguma em recusar-lhes tal ajuda.
Suponhamos que seja um estranho que necessita de nossa ajuda; mesmo por ser estranho, o Senhor tem posto nele Seu próprio selo e lhe tem feito como alguém de tua própria família; portanto, te proíbe de desprezar tua própria carne e sangue.
Suponhamos que seja vil e indigno; ainda assim, o Senhor lhe destinou como adorno, Sua própria imagem.
Suponhamos que não tenha nenhuma obrigação de servi-lo; ainda assim, o Senhor o tem colocado com se fosse Seu próprio substituto, de modo que nos sintamos obrigados pelos numerosos e incontáveis benefícios recebidos.
Suponhamos que seja alguém indigno do mais mínimo esforço a seu favor, porém a imagem de Deus nele é digna de dispormos a nós mesmos e nossas posses a ele.
Se ele não tem te mostrado amabilidade, mas que, pelo contrário, tem te maltratado com injúrias e insultos, ainda assim não há razão para não rodeá-lo com teu afeto e fazê-lo objeto de toda classe de favores.
Você poderia dizer que ele merece um trato muito diferente, porém, o que é que nos ordena o Senhor, não é que perdoemos as ofensas de todos os homens e que remetamos a causa a Deus? 
3.Este é o único caminho para obter aquilo que não só é dificultoso, mas que também é repugnante à natureza humana: amar a quem nos odeia, corresponder às injúrias com amabilidade e devolver bênçãos por insultos.
Recordemos sempre que não temos de pensar continuamente nas maldades do homem, mas, antes, darmos conta de que ele é portador da imagem de Deus.
Se com nosso amor cobrimos e fazemos desaparecer as faltas do próximo, considerando a beleza e a dignidade da imagem de Deus nele, seremos induzidos a ama-lo de coração. Ver Heb. 12.16; Gal. 6.10; Is. 58.7; Mat. 5.44; Luc. 17.3 e 4.
VII. Uma boa conduta cívica não é suficiente
1.Se não cumprirmos com todos os deveres do amor, nunca poderemos praticar uma negação real do Eu.
Estes deveres não os cumpre aquele cristão que realiza seu serviço de uma forma meramente externa, sem omitir um detalhe sequer, mas aquele que atua tomando como base o sincero princípio do amor.
Pode acontecer que o homem desempenhe seus deveres de acordo com suas melhores habilidades, porém, se seu coração não esta naquilo que faz, lhe falta muito para chegar à sua meta.
Estes são conhecidos por serem muito liberais, e ainda assim nunca têm dado nada sem manifestar sua cólera, orgulho, ou ainda sua insolência.
Em nossos dias estamos tão submergidos dentro desta espécie de calamidade, que quase ninguém é capaz de dar uma miserável esmola sem uma atitude de arrogância ou desdém.
A corrupção de nossos tempos é tão grande que não teria sido tolerada pelos próprios pagãos. 
2.Ao praticar uma caridade, os cristãos deveriam ter mais do que um rosto sorridente, uma expressão amável, uma linguagem educada.
Em primeiro lugar, deveriam se colocar no lugar daquela pessoa que necessita de ajuda, e simpatizarem-se com ela como se fossem eles mesmos que estivessem sofrendo. Seu dever é mostrar uma verdadeira humanidade e misericórdia, oferecendo sua ajuda com espontaneidade e rapidez como se fosse para si mesmos.
A piedade que surge do coração fará com que se desvaneça a arrogância e o orgulho, e nos prevenirá de termos uma atitude de reprovação ou desdém para com o pobre e o necessitado.
Quando um membro de nosso corpo físico está enfermo, e todo o organismo tem que se pôr em ação para restaurá-lo e voltar à saúde, não temos uma atitude de desprezo em relação a esse membro enfermo, nem cuidamos ou sustentamo-lo por obrigação, mas com nossa melhor vontade. 
3.A ajuda mútua que as diferentes partes do corpo oferecem umas às outras, não é considerada pela lei da natureza como um favor, mas, sim, como algo lógico e normal, cuja negativa seria cruel. Portanto, se um homem tem realizado um serviço a outro, não deve considerar-se livre de todas as suas demais obrigações. Por exemplo, se alguém é rico e tem dado parte de sua propriedade, porém em troca se nega a ajudar a outros em seus problemas, não pode considerar-se escusado de haver cumprido com todas as suas obrigações.
Por mais importante que seja, cada homem deve dar-se conta que é devedor a seu próximo, e que o amor lhe manda dar até o limite de sua capacidade.
VIII. Não há felicidade sem a bênção de Deus
1.Analisemos de forma mais detalhada este aspecto da autonegação e sua relação com Deus. Não se faz necessário repetir os muitos comentários que já foram feitos anteriormente, porém, será suficiente assinalar como este aspecto da autonegação pode nos tomar agradáveis e pacientes.
Em primeiro lugar, as Escrituras chamam nossa atenção para o fato de que, se desejamos sossego e tranqüilidade em nossas vidas, temos que render nós mesmos e tudo que temos à vontade de Deus. Ao mesmo tempo, posto que é nosso Salvador e Senhor de nossas vidas, deveríamos render-lhe todos os nossos afetos. Nossa natureza carnal, em sua forma natural, desenfreada e cobiçosa, anela as riquezas e o poder, a honra e a vaidade, e tudo aquilo que enche nossa existência de uma pompa vazia e inútil.
Por outro lado, tememos e nos aborrecemos com a pobreza, o anonimato e a humildade, e tratamos de evitar estas coisas por todos os meios possíveis.
Não é difícil ver em nossos dias como as pessoas se ufanam, seguindo os desejos e ditados de suas próprias mentes, para conseguir tudo aquilo que sua ambição e condições exigem. 
2.Os crentes devem ter sempre em mente o fato de que tudo que compreende e rodeia nossa vida, depende única e exclusivamente da bênção do Senhor.
Às vezes pensamos que podemos alcançar facilmente as riquezas e as honras com nossos próprios esforços, ou por meio do favor dos demais; porém, tenhamos sempre presente que estas coisas não são nada em si mesmas, e que não poderemos abrir caminho por nossos próprios meios, a menos que o Senhor queira nos prosperar. 
3.Por outro lado, esta bênção nos abrirá o caminho para que sejamos prósperos e felizes, não importando as diversidades que possam vir. Ainda que sejamos capazes de obter certa medida de bem-estar e fama sem a bênção divina, como sucede com muitas pessoas mundanas, vemos que estas pessoas estão sob a ira de Deus, portanto, não podem desfrutar da menor partícula de felicidade.
Assim, pois, chegamos à conclusão de que não podemos obter nada sem a bênção divina, e ainda que pudéssemos consegui-lo, acabaria sendo uma calamidade para nossas vidas.
Reflitamos então e não sejamos tolos em esperar aquelas coisas que nos trariam mais infortúnios.
IX. Não devemos estar ansiosos por obter riquezas e honras
1.Se cremos que todo desejo de prosperidade e bem-estar devem- se basear somente na bênção divina, e que sem ela só podemos esperar misérias e calamidades, também temos de entender que não temos que estar ansiosos em tratar de conseguir tudo apoiando-nos na nossa diligência e aptidão, dependendo do favor dos homens ou confiando na “boa sorte”. Esperemos sempre no Senhor; Ele nos dirigirá de modo que possamos obter a bênção que tem reservada para nossas vidas.
Se esperamos em Deus, já não temos que ter pressa em conseguir as riquezas e a honra por meios duvidosos, enganando a nosso próximo ou servindo-nos de subterfúgios, mas antes nos abster destas coisas que nos apartam do caminho da vontade de Deus. 
Pois quem pode esperar a ajuda divina ou a bênção divina sobre a fraude, o roubo ou outros atos desonestos?
2.A bênção divina vem somente sobre aqueles que são puros em seus pensamentos e justos em seus atos, influindo em todo aquele que procura manter-se afastado da corrupção e da maldade.
Todo crente deve sentir desejos de manter-se afastado da falsa ambição e da busca inadequada de grandezas e honras.
Pois não seria vergonhoso confiar na ajuda divina se, ao mesmo tempo, estamos no meio de assuntos que contradizem Sua Palavra?
Longe está de Deus prosperar com Sua bênção o que antes tem amaldiçoado com sua boca. 
3.Finalmente, se não temos o êxito que esperamos, não devemos nos impacientar nem detestar nossa condição, qualquer que esta seja, porque esta atitude denota uma rebelião contra Deus, quem reparte a cada um segundo Sua sabedoria e santa vontade.
Em conclusão, aquele que retém a bênção de Deus, da forma que temos descrito, não ira atrás daquelas coisas que o homem mundano cobiça, e não usará aqueles métodos dos quais já sabe que não vai tirar proveito.
Por outro lado, um verdadeiro cristão não deverá atribuir nenhuma prosperidade à sua própria diligência, trabalho ou boa sorte, mas antes ter sempre presente que Deus é quem próspera e abençoa.
Se tem podido realizar somente pequenos progressos, ou se permanece, entretanto, atrás de outros que seguem adiante, deverá suportar sua pobreza com tranqüilidade e moderação, e não com rebeldia e exasperação, como faz um homem do mundo. 
4.O verdadeiro cristão possui uma doce consolação que lhe proporciona mais satisfação que o maior dos bem-estares humanos, pois está convencido de que todos seus assuntos são regulados pelo Senhor, seguindo Seu eterno propósito para com os Seus.
Davi, que seguia a Deus e se rendia às Suas ordenanças, disse o seguinte: “Senhor, o meu coração não se elevou nem os meus olhos se levantaram; não me exercito em grandes assuntos, nem em coisas muito elevadas para mim. De certo fiz calar e sossegar a minha alma, qual criança desmamada, para com sua mãe, tal é a minha alma para comigo.” (Sal. 131.1 e 2.)
X. O Senhor é justo em todos os Seus atos
1.Este não é o único caso em que os crentes deveriam ser pacientes e temerosos de Deus, pois é necessário viver desta forma em todas as circunstâncias da vida.
Não há ninguém que tenha se negado a si mesmo corretamente, a menos que esteja rendido totalmente ao Senhor e queira deixar cada detalhe de sua existência em Suas mãos. 
Se temos esta predisposição mental, as coisas que nos sucedem jamais farão nos sentir abandonados nem tampouco acusaremos a Deus por nossa sorte.
2.Se considerarmos a enorme quantidade de acidentes aos quais estamos sujeitos, veremos o quão necessário é exercitarmos nossa mente desta maneira.
Enfermidades de todos os tipos tocam nossos débeis corpos, uma atrás da outra: ou a pestilência nos enclausura, ou os desastres da guerra nos atormentam.
Em outra ocasião, as geadas e os granizos destroem nossas colheitas, e ainda somos ameaçados pela escassez e a pobreza.
Em vista destes acontecimentos, as pessoas maldizem suas vidas, e até o dia em que nasceram; culpam ao sol e às estrelas, e ainda censuram e blasfemam a Deus, como se Ele fora cruel e injusto. 
3.Porém o crente fiel, ainda que em meio a estas circunstâncias, meditará nas misericórdias e nas bondades paternais de Deus.
Se vê que seus amados lhe são arrebatados e seu lar se encontra solitário, não cessará de bendizer a Deus, e considerará que a graça de Seu Pai celestial não o deixará desolado.
Se vê suas terras de cultivo e seus vinhedos destroçados pela geada ou pelo granizo, e ele e sua família ameaçados pela fome, não se desanimará nem estará insatisfeito, antes, persistirá em sua firme confiança: estamos sob o cuidado protetor de nosso Deus, somos “as ovelhas de seu pasto”, pelo que Ele nos suprirá de tudo aquilo que necessitamos.
Se alguém está acometido de enfermidade, não se deprimirá com amargura, nem se impacientará e se queixará contra Deus, mas antes, considerará a justiça e a bondade de seu Pai Eterno e crescerá na paciência, enquanto é castigado e corrigido. 
4.Resumindo, se sabemos que qualquer coisa que nos ocorra é ordenada por Deus, a receberemos com um coração pacífico e agradecido, não sendo culpáveis de resistir orgulhosamente aos desígnios do Senhor, a quem uma vez nos temos encomendado juntamente com tudo que possuímos.
Longe estará do coração dos cristãos aceitar o tolo e distorcido consolo dos filósofos pagãos, que tentam se endurecer contra as adversidades, culpando a si mesmos da sorte e do destino.
Os tais consideram que estar desgostoso com a porção que nos toca é uma loucura, porque existe um poder cego e cruel no mundo que afeta a todos, dignos e indignos.
Todavia, o princípio da devoção é que só Deus é o Guia e Governador Supremo, tanto na prosperidade como na adversidade, e que nunca se precipita, mas, antes, que distribui todo bem e todo mal com a máxima justiça e eqüidade. (Ver Sal. 79.13.) 
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Fonte: livro, A Verdadeira Vida Cristã, Editora Novo Século. Disponível para download
Por: João Calvino
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