sábado, 20 de junho de 2015

Mateus 11.20-24 ensina o Molinismo (Conhecimento Médio)?

Ao teólogo Jesuíta Luis de Molina é, geralmente, atribuído a posição e origem do Molinismo, embora Fonseca e Lessius compartilhem das mesmas ideias. Eles usam textos tais como Mateus 11 para mostrar que Deus tem “Conhecimento Médio”. Em nossos dias, William Lane Craig afirma o mesmo, e a [denominação] The Baptist Faith and Message parece resumir o Molinismo: “O perfeito conhecimento [de Deus] se estende a todas as coisas, passadas, presentes e futuras, incluindo as decisões futuras de suas criaturas livres” (Artigo 2).

O Molinismo, em poucas palavras, declara que Deus tem três tipos de conhecimento: natural, médio e livre.

1) Conhecimento Natural é o conhecimento de Deus de todos os mundos possíveis (tudo que diz respeito ao que é necessário e possível no entendimento de Deus).

2) Conhecimento Livre é o conhecimento de Deus deste mundo atual. Por um “ato livre”, ele é capaz de conhecer o que ele conhece absolutamente (Até agora estamos bem, mas Molina diz que esse conhecimento (livre) não é alguma coisa que seja essencial em Deus).

3) O Conhecimento Médio declara que Deus não pode conhecer os atos livres futuros dos homens da mesma maneira que ele conhece outras coisas absolutamente.

Assim, de acordo com Molina, este Conhecimento Médio é dependente dos atos livres que os homens farão. Portanto Deus, em sua onisciência, espera pelo atos dos homens e, então, escolhe salvá-los com base em suas escolhas de serem salvos.

Agora, voltemos ao texto da questão (que está entre outros textos-provas de Êxodo 13.17; 1 Samuel 23.8-14; Jeremias 23.21, 22; 1 Coríntios 2.8).
Mateus 11.20-24: “Então começou ele a lançar em rosto às cidades onde se operou a maior parte dos seus prodígios o não se haverem arrependido, dizendo: Ai de ti, Corazim! ai de ti, Betsaida! porque, se em Tiro e em Sidom fossem feitos os prodígios que em vós se fizeram, há muito que se teriam arrependido, com saco e com cinza. Por isso eu vos digo que haverá menos rigor para Tiro e Sidom, no dia do juízo, do que para vós. E tu, Cafarnaum, que te ergues até aos céus, serás abatida até aos infernos; porque, se em Sodoma tivessem sido feitos os prodígios que em ti se operaram, teria ela permanecido até hoje. Eu vos digo, porém, que haverá menos rigor para os de Sodoma, no dia do juízo, do que para ti.”
Primeiro, o Conhecimento Médio é uma não-realidade. O conhecimento de Cristo é simplesmente natural (conhecimento de Deus de todos os mundos possíveis), não médio.

Segundo, Mateus 11 apenas prova o conhecimento de Deus de contrafactuais, não conhecimento médio. Como Travis Campbell, em Conhecimento Médio: Uma Crítica Reformada, declara:
Na melhor das hipóteses, as passagens frequentemente usadas pelos defensores do conhecimento médio provam, se provam alguma coisa, apenas “que Deus, conhecendo todas as causas, tanto as livres como as necessárias, sabe o que qualquer criatura fará em quaisquer condições. Mesmo nós sabemos que se pusermos fogo à pólvora, seguir-se-á uma explosão.” (A.A. Hodge, Outlines of Theology [Carlisle, Pa.: Banner of Truth, 1972], 148). Em outras palavras, essas passagens bíblicas nos mostram apenas que Deus conhece a natureza dos agentes livres tão bem que, fossem os agentes colocados em outras circunstâncias, Deus sabia exatamente que eles fariam. E isso não reconcilia conhecimento médio com libertarianismo, mas com compatibilismo. Mais importante ainda, é certamente possível que Deus conhece esta informação logicamente apenas posterior ao decreto divino, eliminando assim a necessidade do conhecimento médio. Portanto, há pouca, se há alguma, garantia bíblica para scientia media.
Bastante interessante, Craig admite este ponto, dizendo:
Desde que a Escritura não reflete sobre esse assunto, quase nenhum texto-prova pode provar que o conhecimento de Deus de contrafactuais é obtido logicamente antes de seu decreto divino. Isto é assunto para reflexão da teologia filosófica, não para exegese bíblica. Então, embora seja claramente anti-bíblico negar que Deus tenha conhecimento simples e mesmo conhecimento de contrafactuais, aqueles que negam o conhecimento médio não pode ser acusado de ser anti-bíblico (Craig, "Middle Knowledge View," 125.)
Terceiro, os defensores do Conhecimento Médio não podem deixar de fora, como Paul Harvey diria, “o resto da história”.
Mateus 11.25-27: “Naquele tempo, respondendo Jesus, disse: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim te aprouve. Todas as coisas me foram entregues por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar.”
O Conhecimento Médio aqui é condenado. Quando Jesus diz, “Pai, Senhor do céu e da terra”, ele está dizendo que Deus em sua soberania tinha, em seu agrado, ocultado conhecimento de alguns e revelado esse mesmo conhecimento a outros. Mateus 11 não fala sobre Deus não conhecendo qualquer coisa até que o homem fizesse alguma coisa. Pelo contrário, já as conhece e apenas não quer revelá-las até/se ele desejar. Mateus capítulo 11 está ensinando sobre o justo julgamento porvir (Mt 11.15-19). Observe que isso não aconteceu ainda, mas Cristo sabe que irá acontecer. Isto não é conhecimento médio, mas conhecimento natural e conhecimento livre para justamente agir como Deus vê e prepara segundo sua vontade.

Deus é soberano sobre todas as coisas (Prov. 16:33; Mat. 10:29; Rom. 11:36; Ef. 1:11 etc.), até mesmo sobre as decisões humanas (Prov. 20:24; 21:1). Embora Deus não tente ninguém ao pecado (Tiago 1:13), Ele ainda está agindo em todas as coisas, de indivíduos à nações, para o fim que Ele tem desejado (Is. 46:10-11). O propósito de Deus não depende do homem (At 17:24-26), nem Deus descobre ou aprende (1 Jo 3:20; Jó 34:21-22; Sal. 50:11; Prov. 15:3). Todas as coisas são decretadas pelo conselho infinitamente sábio de Deus (Rom. 11:33-36).

A Confissão de Fé de Westminster substancia a posição ortodoxa no Capítulo III. 1 – 3, Dos Decretos de Deus:
I. Desde toda a eternidade, Deus, pelo muito sábio e santo conselho da sua própria vontade, ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece, porém de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou contingência das causas secundárias, antes estabelecidas.
Isa. 45:6-7; Rom. 11:33; Heb. 6:17; Sal.5:4; Tiago 1:13-17; I João 1:5; Mat. 17:2; João 19:11; At.2:23; At. 4:27-28 e 27:23, 24, 34.II. Ainda que Deus sabe tudo quanto pode ou há de acontecer em todas as circunstâncias imagináveis, ele não decreta coisa alguma por havê-la previsto como futura, ou como coisa que havia de acontecer em tais e tais condições.
At. 15:18; Prov.16:33; I Sam. 23:11-12; Mat. 11:21-23; Rom. 9:11-18.III. Pelo decreto de Deus e para manifestação da sua glória, alguns homens e alguns anjos são predestinados para a vida eterna e outros preordenados para a morte eterna.
I Tim.5:21; Mar. 5:38; Jud. 6; Mat. 25:31, 41; Prov. 16:4; Rom. 9:22-23; Ef. 1:5-6.
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Por Dr. Joseph R. Nally, D.D., M.Div. é editor teológico no Third Millennium Ministries (IIIM).
Tradução: Rev. Gaspar de Souza
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