sábado, 20 de junho de 2015

Pacientes e levando a cruz

I. Levar a cruz é mais difícil do que negar-se a si mesmo
1.0 cristão fiel tem de elevar-se a um nível superior no qual Cristo chama cada um de Seus discípulos a “tomar a cruz”.
Todos aqueles a quem o Senhor tem escolhido e recebido na companhia de seus santos, devem preparar-se para uma vida dura, difícil, laboriosa e cheia de incontáveis penas.
É a vontade do nosso pai celestial que Seus filhos passem por todas estas vicissitudes para assim, poder prová-los.
Assim aconteceu com Jesus Cristo Seu primogênito e assim será com todos nós Seus filhos.
Cristo, que foi Seu Filho bem-amado, em quem o Pai tinha contentamento, não viveu sem provas nem tristezas, mas foi grandemente afligido por elas. Toda a sua vida foi uma cruz perpétua.
2.O apóstolo explica a razão pela qual foi necessário que aprendesse a obediência por meio daquelas coisas que padeceu: “E ainda que era Filho, aprendeu a obediência pelo que padeceu...”.
Por que haveríamos então de nos livrar dessa situação na qual Cristo, nosso exemplo e modelo, teve que submeter-se por amor a nós?
O apóstolo Paulo nos ensina que o destino de todos os filhos de Deus é de serem conforme a Sua imagem.
Quando experimentamos esta provas e calamidades, temos por consolo sermos participantes dos sofrimentos de Cristo. Ao passarmos por muitas tribulações, recordemos daquele que se entregou a um abismo de maldades e se elevou à glória do céu.
3.Paulo disse que se conhecermos a “participação de seus sofrimentos”, também entenderemos “o poder de sua ressurreição” e a participação de sua morte, portanto, estaremos preparados para compartilhar sua gloriosa ressurreição.
O quanto nos ajudam estes conceitos a superarmos a amargura da cruz!
Quanto mais somos afligidos pelas adversidades, mais será confirmada nossa comunhão com Cristo.
Por meio dessa comunhão, as contrariedades se convertem em bênçãos, e portanto são de grande ajuda para promover nossa felicidade e salvação. Ver Mat. 16.24; 3.17; 17.5; Heb. 5.8; Rom. 8.29; Atos 14.22; Fil. 3.10.
II. A cruz nos toma humildes
1.Nosso Senhor não foi obrigado a levar a cruz exceto para provar a obediência a Seu Pai. Porém há muitas razões pelas quais nós devemos viver sob a contínua influência da cruz.
Primeiro, posto que somos inclinados por natureza a depositar total confiança em nossas próprias capacidades, a menos que aprendamos lições de nossa própria estupidez, formaríamos uma noção exagerada de nossa força, dando por certo que, passemos o que passarmos, seguiremos permanecendo invencíveis.
Com este tipo de atitude, nos encheríamos, como estúpidos, de uma confiança carnal e vã insuflando-nos de orgulho contra Deus, como se nosso poder fosse suficiente e pudéssemos prescindir de Sua graça.
Não há nenhuma maneira melhor de reprimir esta vaidade do que provando o quanto somos estúpidos e o quanto é frágil e vulnerável nossa natureza humana. Neste caso, é necessário passar pela experiência da aflição. Portanto, Ele nos aflige com humilhação, pobreza, perda de entes queridos, enfermidades ou outras provações.
2.Os mais santos, sabendo que somente podem ser fortes na graça do Senhor, têm um conhecimento mais profundo de si mesmos uma vez que têm passado por muitas provas e dificuldades na vida. O mesmo Davi teve que dizer: “Eu dizia na minha prosperidade: não vacilarei jamais.” (Sal. 30.6.)Davi afirma que a prosperidade havia obnubilado de tal forma seus sentidos, que deixou de pôr seus olhos na graça de Deus, da qual deveria depender continuamente. Em vez disso, creu que poderia andar por suas próprias forças e imaginou que não cairia jamais.
3.Se isto ocorreu a este grande profeta, qual de nós não deveria ser cuidadoso e temeroso?Se em meio à prosperidade muitos santos foram congratulados com perseverança e paciência, quando a adversidade quebrou suas resistências, viram que se enganaram a si mesmos.Advertidos de tais debilidades por tantas evidências, os crentes recebem uma grande bênção por meio da humilhação.Despojados assim de sua estúpida confiança na carne, se refugiam em Deus, e uma vez que o têm feito, experimentam a presença e a comunhão da divina proteção, que lhes é uma fortaleza inexpugnável.
III. A cruz nos torna esperançosos
1.A isto se refere Paulo quando disse em Romanos 5.3,4: “Não isso, mas também nos gloriamos nas tribulações, porque sabemos que a tribulação produz perseverança; a perseverança, um caráter aprovado; e o caráter aprovado esperança.”
Os cristãos experimentam por si mesmos que a promessa de Deus em ajudá-los nas tribulações é certa, e assim persistem na sua paciência apoiados na fortaleza do Senhor, e não em suas próprias forças.
A paciência, portanto, faz os santos suportarem suas provas, sabendo que Deus lhes dará o auxílio que tem prometido em qualquer momento que o necessitem.
Isto também confirma suas esperanças, pois nós cristãos seríamos ingratos se não confiássemos nosso futuro a Deus, a quem conhecemos que é firme e imutável. Agora vemos que fonte inesgotável flui da cruz.
Se descartarmos as falsas opiniões que temos sobre as nossas próprias virtudes e descobrirmos a hipocrisia que nos engana com suas adulações, nosso orgulho natural e pernicioso se desmoronará.
Uma vez abatidos e para que não tropecemos ou nos deprimamos em nosso desespero, o Senhor nos ensina a confiar exclusivamente nEle.
Desta vitória, reuniremos novas esperanças, pois quando o Senhor cumpre Suas promessas, confirma Sua verdade para o futuro. 
2.Ainda que estas foram as únicas razões, já são suficientes para mostrar-nos quão necessárias são as aflições da cruz.
Ser arrebatados do amor ao nosso “ego” resulta em um fato sumamente proveitoso, pois assim nos damos conta de nossa própria debilidade, deixando de confiar em nós mesmos para começar a pôr toda nossa confiança em Deus.
Entregando-nos e dependendo somente do Senhor, poderemos perseverar vitoriosamente até o fim, e continuarem sua graça, sabendo que Ele é fiel e verdadeiro em todas as Suas promessas. Assim poderemos experimentar a certeza de Sua Palavra, de maneira que nossa esperança se firme cada vez mais.
IV. A cruz nos ensina a obediência
1.O Senhor tem ainda uma outra razão para afligir seus filhos, a de provar sua paciência e ensinar-lhes a obediência.
Certamente, os cristãos não podem mostrar outra obediência a não ser aquela recebida pelas mãos de Deus; Ele se agrada em provar e demonstrar as graças que tem conferido a Seus santos, pois, de outro modo, permaneceriam ocultas e seriam inúteis.
Quando os servos de Deus manifestam abertamente seus dons de fortaleza e firmeza em meio a seus sofrimentos, a Escritura lhes confirma que Deus esta provando-os em sua paciência.
Vejamos o que diz Gênesis 22.1: “E aconteceu depois destas coisas que provou Deus a Abraão...” O patriarca provou que sua devoção era autêntica pois, não recusou sacrificar a seu filho Isaque.
Por este motivo, Pedro declara que nossa fé é provada por meio das tribulações, assim como se prova o ouro por meio do fogo. 
2.Quem pode negar a necessidade que este precioso dom da paciência, que o crente tem recebido de Deus, seja aperfeiçoado na prática de maneira que o Senhor possa ver os crentes no exercício do mesmo? Ademais, se não fosse assim, nunca chegaríamos a apreciá-lo como é devido.
Deus mesmo atua a tempo para que estas virtudes não cheguem a ser obscuras e inúteis, oferecendo-nos uma ocasião para pô-las em prática.
Esta é, sem dúvida, uma das melhores razões para provar aos santos, que é por meio da aflição que aprendem a exercitar a paciência. 
3.Os cristãos também são instruídos por meio da cruz para a obediência, porque desta maneira aprendem a seguir os desejos de Deus e não os seus próprios.
Se tudo fosse conforme os seus desejos, não entenderiam o que na realidade significa seguir a Deus.
Sêneca disse que havia um antigo costume pelo qual se exortava as pessoas a sobressaírem-se das adversidades recordando estas palavras: “Segue a Deus.”
Isto implica que o homem se submete ao jugo de Deus só quando voluntariamente aceita a disciplina com a humildade de uma criancinha.
Portanto, se é razoável que nos mostremos obedientes a nosso Pai celestial em todas as coisas, não podemos negar-lhe o direito de usar o meio que Ele escolhe para acostumar Seus filhos a praticar esta obediência. Ver Gen. 22.1,2 e 1 Ped. 1.7.
V. A cruz contribui para a disciplina
1.Amiúde, não entendemos o quão necessária é esta obediência para nós, a menos que também consideremos o quanto nossa carne anela despojar-se de ter sobre si o jugo do Senhor, para tão logo sermos tratados com ternura e indulgência.
Conosco ocorre o mesmo que com os cavalos rebeldes, que se no início são mimados e tolerantes, se tomam ariscos e indomáveis e não têm nenhuma consideração para com seus cavalheiros, aos quais deveriam estar submetidos.
Em outras palavras, aqueles erros pelos quais o Senhor se queixava do povo de Israel, se vê continuamente em cada um de nós: Quando nos “enchemos de orgulho”, nos voltamos contra Ele, que tem cuidado e rodeia-nos de carinho.
A bondade do Senhor deve levar-nos a considerar e amar a sua misericórdia e benignidade, porém, como somos tão ingratos, se faz necessário que sejamos restringidos por alguma espécie de disciplina que quebre nossa vontade obstinada. 
2.Deus não quer que sejamos altivos quando adquirimos riquezas, nem que nos tomemos orgulhosos ao sermos honrados. Tampouco que sejamos insolentes quando formos bem-sucedidos com prosperidade e saúde, pois o mesmo Senhor, quando considera conveniente, faz uso da cruz para frear, restringir e submeter a arrogância de nossa carne.
Nosso Pai procede em nos aplicar a disciplina por vários meios que resultam úteis e saudáveis para cada um de nós.
Nem todos somos afligidos pela mesma enfermidade, nem todos temos, de maneira rigorosa, necessidade da mesma cura. Esta é a razão pela qual vemos diferentes pessoas sendo disciplinadas por diferentes cruzes. O grande Médico celestial toma a responsabilidade de cuidar de todos os Seus pacientes. A alguns, Ele aplica um tratamento mais suave, e a outros, purifica por meio de um tratamento mais rigoroso, porém, não deixa ninguém sem disciplina, pois todo o mundo, sem exceção, está enfermo. (Deut. 32.15.)
VI. A cruz traz arrependimento
1.Ademais, é necessário que nosso misericordioso Pai não só preveja nossa debilidade futura, mas que também corrija nossas ofensas passadas, para nos manter no caminho da obediência.
Quando a aflição nos chega, devemos examinar imediatamente nossa vida pregressa, pois ao fazê-lo, certamente descobriremos que merecemos a disciplina que temos recebido.
Contudo, não deveríamos tirar a conclusão de que a todos se exorta primeiramente a paciência, pelo fato de que necessitamos recordar nossos pecados.
A Escritura nos dá melhores razões quando nos diz que na adversidade “somos corrigidos pelo Senhor, para que não sejamos condenados com o mundo”. 
2.Conseqüentemente, ainda que na mais amarga de nossas provas, deveríamos desfrutar da misericórdia e bondade de nosso Pai, pois nem ainda nas circunstâncias mais duras, Ele deixa de se preocupar com nosso bem-estar.
Deus não nos aflige para nos destruir ou arruinar, mas, antes, para nos livrar da condenação do mundo.
Este pensamento nos leva a um outro versículo da Escritura: “Não menospreze, filho meu, a repreensão de Deus, nem te canses de Sua correção; porque Deus exorta a quem ama, como o pai ao filho a quem quer.”
Quando reconhecemos o corretivo de um pai, não deveríamos nos mostrar dóceis, antes que imitar a atitude desses homens encolerizados que se têm endurecido em suas mesmas maldades?
Se o Senhor não nos atraísse a Ele, por meio da correção quando temos falhado, nos deixaria perecer junto com o mundo. Como disse na Epístola aos Hebreus: “Porém se estais sem disciplina, da qual todos têm sido participantes, sois bastardos e não filhos.” 
3.Se não estamos de acordo com Deus somos realmente perversos, pois Ele nos mostra continuamente Seu amor e benevolência, e Sua grande preocupação por nossa salvação.
A Escritura estabelece esta diferença entre os crentes e os que não são; estes, como velhos escravos de sua incurável perversidade, não podem suportar a correção, porém aqueles, como autênticos filhos de berço nobre, procedem com arrependimento e aceitam a correção.
Agora se nos toca decidir de que lado queremos estar.
Tendo havido tratado deste tema em outras páginas, basta dizer, de maneira breve, o que lhe concerne. Ver 1 Cor. 11.32; Prov. 3.11,12; Heb. 12.8.
VII. A perseguição traz consigo o favor de Deus
1.0 favor do Senhor é uma fonte de singular consolação para todo aquele crente que sofre “perseguição por causa da justiça”. Em tais ocasiões deveríamos dar conta de que Deus nos honra, fazendo-nos objeto da ministração de Seu consolo e misericórdia.
Quando menciono a “perseguição por causa da justiça”, não só me refiro àquelas ocasiões em que sofremos por causa do evangelho, mas também àquelas quando as pessoas se opõem à nossa defesa por qualquer causa justa.
Ao defender a verdade de Deus contra as mentiras de Satanás, ou proteger pessoas boas e inocentes contra as injustiças e as injúrias, é possível que sejamos vítimas do aborrecimento e do ódio do mundo, de maneira que nossas vidas, nossas posses, ou ainda nossa reputação, fiquem em perigo.
Todavia, não deveríamos nos afligir nem nos considerar miseráveis quando estamos no serviço de Deus, pois Ele, de sua própria boca, nos chama de bem-aventurados. É verdade que a pobreza em si mesma é uma miséria, e igualmente se pode dizer do exílio, do desprezo, da vergonha e da prisão; e de todas as calamidades a morte é a última e a pior. Porém quando Deus nos cobre com Seu favor, todas estas coisas obram para nossa felicidade e nosso bem-estar.
Estejamos pois contentes com a aprovação de Cristo, do que com a falsa opinião de nossa carne. Então nos regozijaremos com os apóstolos, que se consideravam “felizes por haverem sido tidos por dignos de padecer afrontas por causa de Cristo”. 
2.Que dizer de tudo isto?
Se sendo inocentes e tendo uma boa consciência, nos vemos despojados de nossos bens terrenais, por causa da maldade do mundo, devemos nos concentrar no aumento de nossas verdadeiras riquezas com Deus, nos céus. Se temos que sair de nosso país, seremos recebidos em uma íntima relação com Deus.
Se somos atormentados e desprezados, mais enraizados em Cristo estaremos ao recorrermos a Ele.
Se somos cobertos de reprovação e vergonha, receberemos maior glória no reino de Deus.
Deveríamos estar envergonhados em considerar os valores eternos em menor conta do que as coisas corruptíveis e os prazeres passageiros da vida presente. Ver Mat. 2.10; Atos 5.41.
VIII. A perseguição deveria produzir regozijo espiritual
1.Posto que a Escritura nos conforta várias vezes, nas provas e penúrias que experimentamos em defesa de uma causa justa, podemos, portanto, ser acusados de ingratos se não recebermos estas provas, vindas das mãos de Deus, com resignação e regozijo espiritual; principalmente pelo fato de que este tipo de aflição, ou cruz, é própria daqueles que crêem.
De acordo com o que disse Pedro, o Senhor Jesus Cristo será glorificado por meio de nosso sofrimento.
Como para algumas mentes independentes, um tratamento desdenhoso é mais suportável do que cem mortes, Paulo nos adverte que não é somente perseguição o que nos espera, mas também o ostracismo, porque “temos posto nossa esperança no Deus vivo”.
Em outra passagem o apóstolo nos faz recordar que, seguindo seu exemplo, prossigamos “em meio à glória e à desonra, calúnias e da boa fama”. 
2.Por outro lado, não nos pede que estejamos alegres enquanto nos move o sentimento de compaixão e amargura.
Os santos não poderiam experimentar nenhuma paciência em levar a cruz, a menos que não fossem perturbados pela compaixão e afligidos pelo sofrimento.
Por exemplo, se não há angústia na pobreza, ou agonia na enfermidade, ou dor nos insultos, ou horror na morte, que valor teria o fato de olhar estas aflições com indiferença?
Todavia, posto que cada uma delas, por meio de sua própria amargura, naturalmente humilha nosso coração, os cristãos fiéis mostram sua verdadeira fortaleza resistindo e sobrepondo-se à sua aflição, sem se importarem com o quanto devam se esforçar para consegui-lo.
Estes filhos de Deus serão pacientes quando forem provocados com fúria, e por temor a Deus, se absterão de responder a esta situação de maneira arrebatada ou irascível.
Manifestarão seu regozijo e alegria quando, ao serem feridos e entristecidos pela amargura, descansarem na consolação espiritual de Deus. Ver 1 Ped. 4.14; 1 Tim. 4.10; 2 Cor. 6.8,9.
IX. Nossa cruz não deveria nos tomar indiferentes
1.Paulo tem descrito amplamente esta luta espiritual dos crentes contra suas emoções naturais de desgosto, enquanto tratam de se conduzirem com paciência e moderação: “...somos pressionados, mas não esmagados; ficamos perplexos, mas não desesperados; somos perseguidos, mas não abandonados, abatidos, mas não destruídos.” (2 Cor. 4.8,9.)
É evidente que o fato de levar a cruz pacientemente não significa endurecer-se a si mesmo, ou que não sintamos nenhuma compaixão. De acordo com os filósofos estoicos, um homem nobre é alguém que tenha deixado de lado sua humanidade, e que não permite ser afetado por nenhum tipo de adversidade nem prosperidade, nem sequer o regozijo ou a tristeza, mas que atua tão firmemente como um rocha.
Que proveito há nessa orgulhosa sabedoria?
Estes filósofos têm representado uma imagem da paciência que nunca tem sido encontrada entre os homens, e que, por outro lado, não pode existir, e em seu desejo de encontrar essa classe de paciência tão singular, tem-na afastado da vida humana. 
2.Atualmente há entre os cristãos modernos alguns estoicos que acham ruim orar, gemer, ou ainda lamentar-se na solidão.
Essas opiniões geralmente vêm de homens que são mais sonhadores que práticos, as quais em conseqüência não podem produzir nada senão fantasias. 
3.Nós não compartilhamos com uma filosofia tão rígida e tão dura, à qual nosso Senhor e Mestre Jesus tem condenado em palavras e exemplos.
Nosso Salvador gemeu e chorou por Suas próprias calamidades e pelas dos demais, e não ensinou a Seus discípulos a comportarem-se ante as mesmas de forma diferente.
O Senhor disse: “Em verdade, em verdade vos digo, que chorareis e lamentareis, e o mundo se alegrará; vós vos entristecereis.”
E para que nenhum homem chame a tristeza de vício, Ele tem pronunciado uma bênção sobre aqueles que gemem. 
4.E não é para espantar-se, pois se Ele tivesse condenado todas lágrimas, que poderíamos pensar então daquele de cujo corpo brotaram lágrimas de sangue?
Se cada temor fosse rotulado de incredulidade, que nome daríamos à ansiedade, sobre a qual lemos na Escritura, que mergulhou nosso Senhor em profunda tristeza?
Se toda tristeza é desagradável, como poderíamos ser tolerantes com a confissão de que Sua alma estava triste “até a morte”? Ver João 16.20; Mat. 5.5; Luc. 22.44.
X. A cruz é necessária para nossa submissão
1.Estas coisas devem mencionar-se para que as mentes devotas sejam guardadas do desespero e não renunciem a seus desejos de paciência porque não podem deixar de lado suas inclinações naturais de tristeza. O fim daqueles que deixam que sua paciência se deslize até cair na indiferença é o desespero. Estas mesmas pessoas dizem que um homem é forte e valente quando faz de si mesmo um bloco de granizo incapaz de sentir qualquer coisa.
Pelo contrário, a Escritura louva aos santos por sua paciência, quando são severamente afligidos por causa das adversidades, porém, não quebrados e esmagados por elas; quando estão afligidos, seus corações estão cheios de alegria espiritual; quando, sob o peso da ansiedade e exaustão, saltam de alegria ao experimentar a consolação divina. 
2.Ao mesmo tempo existe um verdadeiro conflito em seus corações, porque seus sentimentos naturais lhes fazem temer, tratando de evitar o que resulta hostil para sua experiência.
Apesar disso, nosso zelo pela devoção luta, através de nossas dificuldades, de maneira que nos voltemos obedientes à divina vontade.
O Senhor falou sobre este conflito quando se dirigiu a Pedro da seguinte maneira: “Em verdade, em verdade te digo: Quando eras mais jovem, guiavas a ti mesmo e ias para onde querias; mas quando fores velho, estenderás tuas mãos, e seguirás a outro que te levará aonde não queres.”
Não é provável que Pedro, quando foi chamado a glorificar a Deus por meio de sua morte, fosse levado ao martírio com desgosto e aversão. Se fosse assim, seu martírio teria sido de muito pouco louvor e glória para o Senhor.
Ao contrário, devemos reconhecer que, por mais que Pedro tivesse se submetido à divina vontade com todo o fervor de seu coração, não havia se despojado de seus sentimentos humanos, motivo pelo qual foi perturbado por um conflito interno.
Seguramente quando pensava na morte sangrenta que lhe esperava, se estremecia por causa do temor, pensando talvez na possibilidade de agradavelmente escapar dela.
Todavia, quando considerava que fora Deus quem lhe havia chamado para morrer desta maneira, seu temor se anulava e se submetia à vontade do Senhor com alegria. 
3.Portanto, se desejamos ser discípulos de Cristo, devemos reverenciar a Deus de tal maneira que possamos triunfar sobre todas as inclinações contrárias e submeter-nos com alegria a Seu plano.
Desta forma, permanecer constantes em nossa paciência, por mais grande que seja a agonia mental ou qualquer outra classe de aflição que tenhamos.
A adversidade nunca deixará de nos ferir com seu aguilhão.
Quando somos afligidos por enfermidade, devemos gemer e orar por nossa recuperação.
Quando somos arrasados pela pobreza, nos sentimos sós e aflitos.
Quando somos oprimidos, desprezados e ofendidos, nos sentimos entristecidos e oprimidos.
Quando temos de assistir ao funeral de nossos amigos, derramamos muitas lágrimas. 
4.Todavia, não esqueçamos este pensamento consolador: O Senhor planejou nossas provações, de maneira que temos de nos submeter a Ele.
Ainda nos piores momentos de agonia, gemidos e lágrimas, animemo-nos com esta reflexão, de modo que nossos corações possam suportar tranqüilamente as aflições que flagelam nosso ser.
XI. A cruz é necessária para a nossa salvação
1.Agora que temos estabelecido que a principal consideração para levar-nos a cruz é a vontade divina, devemos finalmente assinalar, de maneira breve, a diferença entre a paciência filosófica e a cristã.
Muitos poucos filósofos têm alcançado um entendimento suficientemente elevado que lhes permita compreender que estamos sujeitos às aflições pela vontade divina, ou que é nosso dever nos submetermos a ela.
Ainda aqueles que têm chegado mais próximos, não entendem outra coisa a não ser isto: a resignação é um mal necessário.
Que significa isto, se não que devemos nos submeter a Deus, pelo fato de qualquer esforço em resistir-Lhe ser vão?
Se obedecemos a Deus somente por necessidade, deixaremos de fazê-lo tão pronto consigamos escapar-Lhe. 
2.A Escritura nos ordena considerar a divina vontade à luz de um conceito diferente; primeiramente, consistente com a justiça e a equidade; e logo destinada ao aperfeiçoamento de nossa salvação.
As exortações cristãs à paciência são as seguintes: Seja o fato de sermos afligidos pela pobreza, exílio, prisão, ostracismo, enfermidades, perda de entes queridos ou calamidades semelhantes, devemos recordar que nenhuma destas coisas se sucedem sem a vontade e a providência de Deus; e ainda, que Ele não faz nada que não seja absolutamente justo.
Por acaso não merecem os inumeráveis pecados que cometemos a cada dia, uma disciplina muito mais severa do que a que nosso Deus nos inflige em sua misericórdia?
Não é razoável o pensamento de que nossa carne tenha de estar submetida, e que tenhamos de nos acostumar a um jugo, de maneira que nossos impulsos carnais não nos dominem e nos levem a um caráter não temperante?
Não são dignas de suportar a justiça e a verdade de Deus, as causas de nossos pecados?
Não podemos murmurar ou nos rebelar sem cairmos na iniquidade.
Não dê ouvidos ao gélido refrão dos filósofos que diz que temos que nos submeter por necessidade, antes, prestemos atenção a este chamado eficiente e vivo: Temos de obedecer porque é incorreto resistir.
Aprendamos a usufruir pacientemente, porque a impaciência é uma rebelião contra a justiça de Deus. 
3.Posto que só é do nosso agrado aquilo que imaginamos proveitoso e próspero para nós, nosso Pai misericordioso nos conforta ensinando-nos que é necessário levarmos a cruz para promover nossa salvação.
Se vemos claramente que as adversidades são boas para nós, por que, então, não suportá-las com corações tranqüilos e agradecidos?
Se levarmos nossas cruzes pacientemente, não nos renderemos ante elas por necessidade, antes, nos submeteremos sabendo que resultam em nosso benefício.
A conclusão destas considerações é que quanto mais somos oprimidos pela cruz, maior será nossa alegria espiritual, e inevitavelmente a esta alegria se junta a gratidão.
Se o louvor e a ação de graças ao Senhor devem surgir de um coração alegre e rejubilante, e não há nada que deva reprimir tais emoções, então é evidente que Deus neutralizará a amargura da cruz por meio da alegria do espírito. 
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Fonte: livro, A Verdadeira Vida Cristã, Editora Novo Século. Disponível para download
Por: João Calvino
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