segunda-feira, 6 de julho de 2015

A desesperança no mundo vindouro

 
I. Não há coroa sem cruz
1.Qualquer que seja a classe de provações que nos aflige, devemos sempre manter a vista na seguinte meta: temos de nos acostumar ao menosprezo [das vaidades] da vida presente, para que possamos meditar na vida futura.
O Senhor sabe que, por natureza, somos inclinados a amarmos este mundo de maneira cega e carnal; portanto, usa excelentes meios para nos atrair até Ele e elevar-nos de nossa negligência, de modo que nosso coração não se apegue demasiado a essa estúpida inclinação.
 
2.Não há, entre nós, ninguém que não lute apaixonadamente durante todo o curso de sua vida por conseguir a imortalidade celestial; nem ninguém que não trate de alcançá-la.
Realmente estamos envergonhados de não sermos melhores que os animais cuja condição, em absoluto, não seria inferior à nossa se não fosse pela esperança da eternidade depois da morte.
Porém, se examinarmos acerca dos planos e empreendimentos ambiciosos, e as ações de cada indivíduo, descobriremos que suas ambições só alcançam o nível desta terra.
Por isso, podemos nos considerar realmente estúpidos, quando permitindo que nossa mente se cegue com o esplendor das riquezas, do poder e da honra, não possa ver nada mais além destas coisas.
Também o coração angustiado e cheio de avareza, ambição e outros maus desejos, não pode elevar-se acima do nível terreno.
Em resumo, quando a alma se encontra envolta em desejos carnais, busca sua felicidade nas coisas desta terra.
 
3.Para resistir a esta inclinação do homem natural, o Senhor nos ensina o que é na verdade a vaidade da vida presente, por meio das varias lições mediadas pela aflição.
Para que os cristãos não se sintam cômodos com uma vida de facilidades e conforto, Deus permite que sejam freqüentemente perturbados por meio de guerras, revoluções, roubos e outras calamidades.
Para que não se apeguem com avidez às riquezas passageiras deste mundo, ou que não venham a depender somente daquilo que possuem, Ele lhes reduz à pobreza, ou limita-lhes à mediocridade, algumas vezes por meio do exílio, outras pela esterilidade da terra, às vezes pelo fogo ou qualquer outro meio.
Para que não sejam demasiado complacentes ou se deleitem em excesso com a vida matrimonial, permite que tenham algum outro desgosto, devido aos defeitos de ambos, marido e mulher, humilha-os através dos filhos, ou lhes aflige com o afã de querer deixar descendência e não poder tê-la, ou até por meio da perda de um filho.
Porém, sendo Deus tão bom e misericordioso com os Seus, por meio das enfermidades e dos perigos lhes ensina o quão inestimáveis e passageiras são as bênçãos terrenas, de maneira que não se encham de vangloria.
 
4.Portanto, entendamos que somente podemos colher favores da cruz quando aprendemos que esta vida, em si mesma, está cheia de dissabores, dificuldades e misérias; que não é uma vida feliz de nenhum ponto de vista, e que as suas chamadas bênçãos são incertas, passageiras e estão mescladas com um sem-fim de adversidades.
Tenhamos, pois, presente que a única coisa que podemos esperar neste mundo é uma luta contínua e atroz; elevemos então nossos olhos ao céu para vermos ali nossa coroa.
Todavia, devemos admitir que nosso coração nunca está disposto a meditar e desejar as bênçãos da vida futura, a menos que tenha aprendido conscienciosamente a deixar de lado as vaidades do mundo presente.
II. Inclinamo-nos a superestimar a vida presente
1.Não há um ponto intermediário entre estes dois extremos: ou subestimamos esta terra, ou então ela terminará possuindo nosso não razoável amor.
Em conseqüência, se temos de algum modo desejos por tudo que pertence à eternidade, coloquemos nossos mais diligentes esforços em nos libertamos destas cadeias temporais.
A vida presente tem numerosas atrações, muito prazer, beleza e encanto para nosso deleite, pelo que se faz necessário que amiúde sejamos apartados dela, de modo a não nos desviarmos em direção à causa de sua fascinação.
Qual seria o resultado de estarmos envoltos, de forma constante, na felicidade que esta vida oferece?
Ainda com todas as maldades que nos rodeiam, nos custa reconhecer que este mundo é um vale de misérias e que é de todo necessário despregar nosso coração das coisas terrenas.
 
2.A vida humana não é nada senão um vapor ou uma sombra.
Até os mundanos têm refrões e ditos que o confirmam, e consideram este conhecimento tão proveitoso, que têm feito muitos provérbios sobre a vida e sua vaidade.
Apesar disto, não há nada que consideremos menos, e que se desvaneça de nossa memória tão rapidamente, como a brevidade da vida. Fazemos enormes esforços para ir atrás de todas as coisas que ela nos oferece, como se na verdade fôssemos imortais.
Se estamos presenciando um funeral, ou andamos no cemitério entre as tumbas, vendo claramente a imagem da morte ante nossos olhos, então filosofamos sobre a brevidade da vida. Porém isto não se sucede todo dia, pelo fato de voltarmos com toda facilidade a nossos pensamentos carnais e mundanos.
 
3.Logo ao nos ausentarmos destes lugares, nossa filosofia se desvanece e continuamos a viver o estúpido sonho de que estaremos vivendo para sempre nesta terra.
Se alguém nos recorda o provérbio que diz que o homem é criatura de um dia, nos interessamos em conhecer esta verdade, porém, com uma falta de atenção tal, que a ideia da vida perpétua neste mundo continua distraindo nossa memória.
 
4.Quem, então, pode negar que necessitamos ser advertidos não por palavras, mas também que devemos nos convencer, por meio de toda evidência possível, de que a vida presente não é senão um caminho cheio de misérias?
Até mesmo depois de estarmos persuadidos desta verdade, nos é muito custoso deixar de nos afeiçoarmos tolamente com este mundo, como se a vida fosse somente uma grande acumulação de bênçãos.
Agora, se é necessário que Deus nos dê mais ensinamentos sobre este assunto, nosso dever é prestar atenção à Sua voz levantando-nos de nossa inércia, voltando nossas costas a este mundo e meditando com todo nosso coração sobre a vida celestial.
III. Não deveríamos desprezar as bênçãos desta vida presente
1.Todavia, nossos constantes esforços para diminuir a estima por este mundo presente, não devem nos levar a odiar a vida ou a sermos mal agradecidos para com Deus. Se bem que esta vida está cheia de incontáveis misérias, não obstante, merece ser contada entre aquelas bênçãos divinas que não devem ser desprezadas.
De modo que, se não pudermos descobrir nada da bondade de Deus nela, estaremos sendo ingratos com nosso Pai.
De maneira especial, para os crentes esta vida deve ser um testemunho da bondade de Deus, posto que tudo nela está destinado a contribuir para sua salvação. 
2.Antes de nos revelar de modo pleno a herança da glória eterna, o Senhor nos mostra sua paternidade em assuntos de menor importância, derramando a cada dia sobre nós um grande número de bênçãos. Posto que esta vida serve para nos ensinar a bondade e a misericórdia divinas, nos atreveríamos a menosprezá-la como se não houvesse nela nenhuma partícula de bem?
Portanto, tenhamos um sentido de apreciação no sentido de classificá- la entre as gratificações e recompensas do amor divino que não devemos menosprezar. 
3.Além das evidências das Escrituras, que são claras e numerosas, a mesma natureza nos impulsiona a dar graças a Deus por ter-nos dado a luz da vida com tudo o que dela se desprende, e os meios necessários para preservá-la.
Mais ainda, se considerarmos que esta vida nos ajuda a nos preparar para a glória do reino celestial, teremos muito mais razões para sermos agradecidos.
O Senhor tem feito com que aqueles que hão de ser coroados nos céus, deverão primeiro combater a boa batalha da fé aqui na terra, para que não celebrem seu triunfo sem haver realmente vencido as dificuldades da guerra e conquistado a vitória.
Outra razão para nossa gratidão é que aqui neste mundo teremos uma mostra da bondade divina, de maneira a nos fazer desejar fervorosamente conhecer a revelação completa da mesma. 
4.Quando chegamos à conclusão de que nossa vida aqui na terra é um dom da misericórdia de Deus, que devemos recordar com gratidão por tudo o que Lhe devemos, então será o tempo para considerar suas infelicidades.
Somente desta maneira seremos libertos de um deleite excessivo e deslocado ao qual temos, como foi dito antes, uma acentuada tendência natural.
IV. O que é a terra se a compararmos com o céu?
1.Toda a glória que devamos diminuir do pecaminoso amor à vida, podemos uni-la ao desejo de um mundo melhor.
Certamente para os pagãos, a maior bênção não é nascer, mas antes o que lhe segue, isto é, morrer imediatamente.
Sem o conhecimento de Deus e a verdadeira religião, o que mais poderiam ver na vida senão infelicidade e miséria?
Tampouco, não há nada de insensato no comportamento dos Escitas, que lastimavam e choravam quando nasciam seus familiares e faziam solenes celebrações em seus funerais.
Todavia, seus costumes não lhes era de nenhum proveito pois, sem o conhecimento da verdadeira fé em Cristo, não entendiam como algo que em si mesmo não é nem apetecível nem desejável pode chegar a ser um meio para o benefício dos crentes devotos.
Chegamos pois à dedução de que o fim dos pagãos é acabar em desespero. 
2.Ao fazerem uma análise desta vida mortal, os crentes deveriam chegar à conclusão de que ela não é nada senão pura miséria.
Exclusivamente ao compararmos o céu e a terra, podemos não só esquecer3 tudo o que esta relacionado com a vida presente, senão, em verdade, rejeitá-la e menosprezá-la.
Posto que o céu é nossa mãe partia, que é a terra senão um lugar de exílio, e esta vida, uma viagem através de um lugar estranho?4
Se deixar este mundo significa ter aberta a entrada para a vida real, que é este mundo senão uma tumba?
Se a libertação do corpo significa uma completa liberdade, o que é este corpo senão uma prisão?
Se desfrutar a presença de Deus é o ápice da felicidade, não é uma infelicidade ter que prescindir dela? Até que tenhamos salgado este mundo, “estamos ausentes do Senhor”.
Portanto se a vida terrena deve ser comparada com a celestial, sem dúvida temos de menosprezá-la e considerá-la um fracasso. 
3.Porém à vida presente não se deve odiar, com exceção de tudo o que nela nos sujeita ao pecado, este ódio não deve aplicar-se à vida mesma.
Por um lado, devemos ter uma atitude de desdém sobre ela, desejando seu fim, se bem que ao mesmo tempo temos de estar preparados para permanecer nela o tempo que o Senhor determinar.
Em outras palavras, esse desalento deveria impedir de sermos presa do temor e da impaciência.
Por isto, a vida é um lugar no qual o Senhor nos tem colocado, e ali devemos estar até que Ele nos chame à sua presença.
Certamente Paulo lamentava estar na prisão de um corpo de carne por mais tempo do que ele desejava, e seu desejo ardente era ser liberto do mesmo.
Ao mesmo tempo, o apóstolo descansava na vontade de Deus, e em uma passagem da Escritura declara que estava preparado tanto para ficar na terra como para partir.
Paulo reconhece que seu dever é glorificar o nome de Deus, seja pela vida ou pela morte, ou seja, de acordo com o que o Senhor determinar o que venha a ser melhor para Sua glória. 
4.Portanto, como disse a Escritura: “Pois se vivemos, para o senhor vivemos; e se morremos, para o senhor morremos.” Deixemos então os limites da nossa vida e nossa morte à Sua decisão e vontade.
Ao mesmo tempo meditemos ardente e continuamente sobre a morte, enquanto depreciamos [as vaidades] da vida presente em comparação com a futura imortalidade.
Finalmente, consintamos que nossa percepção da escravidão do pecado nos permita desejar o abandono desta vida, da maneira que o Senhor assim o desejar. Ver 2Cor. 5.6; Rom. 7.24, 14.7 e 8; Fil. 1.20.
V. Não deveríamos temer a morte, antes, erguer nossas cabeças
1.É terrível ver muitos que se orgulham de ser cristãos, em vez de desejarem a morte, estão tão cheios de medo que até tremem só com a sua menção, como se fosse a maior calamidade que pudesse cair sobre eles.
Não deveríamos nos surpreender se nossos sentimentos naturais se colocam em atitude de alarme ao ouvirem sobre nossa separação desta vida.
Todavia, é intolerável que não haja suficiente luz e devoção no coração do cristão para suprimir todo este temor com uma consolação que o supere por ampla margem.
Se considerarmos que este corpo instável, depravado, corruptível, descartável, frágil e corrupto será desfeito, para que possa ser logo restaurado e transformado em um perfeito, eterno, incorruptível e cheio de glória celestial, não deveria então nossa fé induzir-nos a desejar ardentemente aquilo que nossa mente natural tanto teme?
Se recordarmos que por meio da morte somos chamados de volta do exílio ao nosso verdadeiro lugar, não se encherá o nosso coração de consolação? 
2.Porém, como se tem dito, não há nada neste mundo que não queira ser permanente.
Por esta mesma razão, temos de olhar adiante para a imortalidade futura, onde poderemos ter uma estabilidade de vida tal como não é possível encontrar nesta terra.
Paulo ensina claramente aos crentes a terem um santo desejo com respeito à morte, não para serem simplesmente despojados deste corpo, antes, para serem vestidos com as novas vestimentas da imortalidade.
É possível que os animais, e o resto da criação, ao aperceberem-se de sua vaidade presente, estejam aguardando a ressurreição daquele dia para serem libertos da vaidade, junto com os filhos de Deus; e nós, dotados da razão e com a luz superior do Espírito Santo, e conscientes de nossa existência futura, não sejamos capazes de elevar nossas mentes por cima da corrupção deste mundo? 
3.Todavia, não creio que seja necessário ou aconselhável, para meu propósito presente, discutir contra algo tão ridículo como é o medo da morte.
No começo, eis que já havia declarado não entrar numa discussão complicada sobre os tópicos comuns.
Eu persuadiria a estes corações temerosos a que lessem o tratado de Cipriano sobre a mortalidade, a menos que mereçam falar com os filósofos, para que se envergonhem quando descobrirem o quanto os pagãos depreciam a morte.
Declaramos positivamente que ninguém tem feito nenhum progresso na escola de Cristo, a menos que espere rejubilante o dia de sua morte e da ressurreição final. 
4.Paulo põe este sinal em todos os crentes, e quando a Escritura deseja nos dar um motivo pelo qual sintamos uma autêntica alegria, nos chama, amiúde, nossa atenção sobre ela. “Erguei e levantai vossas cabeças, nos diz o Senhor, “porque vossa redenção está próxima.”
É razoável esperar que as coisas que o Senhor planejou, para nos dar felicidade e nos elevar a um êxtase espiritual, sejam motivos de infelicidade e consternação?
Se este é o nosso caso, por que então seguimos gloriando-nos nEle como nosso Mestre?
Voltemos pois a um são juízo, suportando a oposição dos cegos e néscios desejos de nossa carne. Não duvidemos em aguardar ardentemente Sua segunda vinda, como o acontecimento mais desejável e inspirador de todos.
Não somente temos de desejar a vinda de nosso Senhor, porém, gemer e esperar (o dia do juízo).5
Ele virá outra vez como um Salvador, para nos livrar de uma vez deste torvelinho de maldades e misérias, e nos guiará à herança bendita de Sua vida e glória. Ver 2Cor. 5.4; Tit. 2.13; Luc. 21.28.
VI. O senhor virá em Sua glória: Maranata
1.Sem nenhuma dúvida, afirmamos que os crentes que vivem sobre esta terra, devem compreender-se “como ovelhas de matadouro”, para serem assim mais semelhantes a Cristo, o Cabeça da Igreja.
Se não fosse pela bênção de poder elevar seus pensamentos até o céu e olhar mais além do horizonte deste mundo, a condição dos cristãos seria extremamente deplorável.
Deixemos que os ímpios sigam florescendo em suas riquezas e honras e desfrutem do que eles chamam paz mental.
Permitamos que se orgulhem de seu esplendor e luxo e desfrutem de toda sua alegria mundana.
Deixemos que prejudiquem os filhos da luz com sua maldade, que lhes insultem com seu orgulho, que lhes roubem com sua avareza e lhes provoquem com suas vidas sem lei.
Quando nós crentes virmos estas coisas, levantemos nossos olhos por cima deste mundo, e então poderemos manter uma autêntica paz de coração em meio a todas as calamidades.
Olhemos para o futuro; para aquele dia quando o Senhor receberá Seus fiéis servos em Seu reino de paz.
Então Ele enxugará todas as lágrimas de seus olhos, lhes vestirá com vestimentas de alegria, lhes adornará com coroas de vitória, lhes agradará com infinitos deleites, lhes exaltará à Sua glória e lhes fará participantes de Sua própria felicidade.
2.Em troca, os fazedores de maldade, que têm sido grandes neste mundo, serão lançados ao abismo da vergonha.
Ele transformará seus deleites em tormentos, e suas risadas e hilaridades em prantos e ranger de dentes.
Ele fará com que submerjam junto com seus adultérios, no fogo que nunca se apaga, e os porá em sujeição aos fiéis, de cuja paciência têm abusado.
De acordo com o que disse Paulo, quando o Senhor Jesus descer dos céus, Deus castigará àqueles que perturbaram aos santos, e dará descanso a todos os que estão atribulados.
3.Esta é nossa única consolação.
Se fôssemos privados deste consolo, cairíamos e nos submergiríamos no desespero, ou nos confortaríamos com os vãos prazeres deste mundo.
Até o salmista confessa estar confundido ao se perguntar sobre o motivo da prosperidade presente dos malvados; e não pôde entender cabalmente todas as coisas até que, entrando no santuário, compreendeu o fim dos justos e dos injustos.
Umas breves palavras para concluir: A cruz de Cristo triunfa sobre o diabo, a carne, o pecado e a maldade nos corações dos crentes, somente quando estes elevam seus olhos para contemplar o poder de sua ressurreição. VerRom. 8.36; ICor. 15.19; Is. 25.8; Ap. 7.17; 2Tes. 1.6 e 7; Sal. 73.2 e ss.
_______________
3. A versão em francês contém: “passar de lado”; o original latim diz: “descuidar”.
4. A versão em latim tem o primeiro; em francês encontramos a segunda cláusula principal.
5. Esta inserido na versão francesa.

Fonte: livro, A Verdadeira Vida Cristã, Editora Novo Século. Disponível para download
Por: João Calvino
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