sábado, 8 de agosto de 2015

Por que Deus não elimina o mal?

Os ateístas, agnósticos e céticos quando falam sobre o problema do mal, eles afirmam que se, de fato, existisse um Deus, Ele deveria eliminar o mal. Ele deveria livrar-se de todo o mal agora — na verdade, Ele já deveria ter feito.

Annie Besant (1847-1933), que representa esse ponto de vista, argumenta que se, de fato, existe um Deus, Ele deveria envolver-se nos negócios da terra. Ele deveria se envolver no agora, assegurando que coisas ruins não aconteçam a pessoas boas. Ao mesmo tempo, Ele deveria se assegurar de que as pessoas más experimentassem dor e sofrimento. Ela argumenta que o fato de pessoas boas sofrerem e pessoas más prosperarem mina a crença no Deus do cristianismo.

O argumento de Besant é típico dos incrédulos, mas não é infundado. Para começar, apenas uma falsa dicotomia divide o ser humano em dois grupos: "pessoas boas" que não deveriam sofrer mal, e "pessoas más" que deveriam receber sua parcela de mal.

A realidade bíblica é que todo ser humano é "mal" uma vez que todos pecaram. Com certeza, alguns são mais íntegros e virtuosos que outros, mas todos estão profundamente infectados pelo pecado — tão profundamente que nenhum de nós pode fazer nada para ser aprovado por Deus. O pecado humano sempre aparece de modo claro diante da santidade de Deus. À luz da santidade dEle, a "sujeira" do pecado aparece como um claro cristal. Lembra-se do que aconteceu ao profeta Isaías? Ele era um homem íntegro. No entanto, quando observou Deus em sua infinita santidade, o pecado pessoal de Isaías foi focado de maneira clara, e ele apenas pode dizer:
"Ai de mim, que vou perecendo! Porque eu sou um homem de lábios impuros e habito no meio de um povo de impuros lábios" (Isaías 6.5).
Em comparação a outro ser humano, podemos nos sair relativamente bem. Na verdade, a comparação com outro ser humano pode nos induzir a acreditar que nossa integridade é satisfatória e a pensar que merecemos que nos aconteçam coisas boas. No entanto, nosso padrão moral não deve basear-se em nenhum outro ser humano, mas em Deus. E quando nos comparamos a Deus, com sua infinita santidade e retidão, nosso pecado aparece em toda sua feiura, e começamos a duvidar se, de alguma forma, merecemos algo de bom.

Billy Graham, certa vez, contou uma história que mostra como o pecado humano é aumentado à luz da santidade de Deus. Considere suas palavras:
"Muitos anos atrás, eu estava para ser entrevistado, em casa, por um afamado programa de televisão, e, sabendo que a entrevista poderia ser transmitida em cadeia nacional, minha esposa tomou grande cuidado em verificar que tudo estivesse bonito. Ela havia passado o aspirador de pó, e espanado, e pôs em ordem toda a casa, e revisou a sala de estar, limpando-a com um pano fino, uma vez que era o lugar em que a entrevista seria filmada.Quando o pessoal da filmagem chegou, com todas as câmeras e luzes, ela sentiu que tudo na sala encontrava-se como se fosse novinho em folha. Estávamos junto com o entrevistador no lugar certo, quando, de repente, as luzes do equipamento televisivo foram acesas e vimos teias de aranha e poeira onde nunca as havíamos visto antes. De acordo com as palavras de minha esposa: "Aquela sala estava coberta de teias de aranha e poeira, algo que simplesmente não apareceu com a iluminação comum".O ponto, obviamente, é que não importa quão bem limpemos nossa vida e pensemos que a temos toda em ordem, quando nos vemos à luz da Palavra de Deus, à luz da santidade de Deus, todas as teias de aranhas e toda a poeira aparecem".
A passagem de Romanos 3.23 é bastante clara quando afirma:
"Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus".
A palavra destituídos em grego, é uma palavra que indica uma ação contínua. Os seres humanos estão perpetuamente destituídos da glória de Deus. Aqui, a palavra glória refere-se não apenas ao esplendor de Deus, como também à manifestação visível de seus atributos, incluindo sua integridade, justiça e santidade. Os seres humanos são destituídos de Deus nessas e em outras áreas.

Depois, Paulo explicou:
"Como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, por isso que todos pecaram" (Romanos 5.12).
Mesmo quando achamos que não estamos pecando, apenas enganamos a nós mesmos.

Em Jeremias 17.9 lemos:
"Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?"
Aos olhos de Deus, até mesmo as ações de "justiça" dos homens estão contaminadas com imundice (Isaías 64.6). É compreensível que 1 João 1.8 afirme:
"Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós".
- O pecado é uma condição universal.

O pecado era universal até mesmo entre os santos bíblicos. Noé embebedou-se (Gênesis 9.21). Abraão mentiu a respeito de sua esposa (Gn 20.2). Pedro, por três vezes, negou o Senhor (Lc 22.61). E o grande apóstolo Paulo lamentou:
"Miserável homem que eu sou! Quem me livrarádo corpo desta morte?" (Romanos 7.24)
Portanto, obviamente a divisão dos seres humanos em dois grupos — os bons e os maus — não tem fundamento bíblico.

Em vista de que todos somos pecadores (e fomos todos contaminados pelo pecado), seria sábio repensar a idéia de que Deus deve livrar-se imediatamente do pecado.Todos poderíamos morrer. Paul Little, apologista cristão, expõe:
"Se hoje Deus erradicasse todo o mal, poderia fazer o serviço completo. Sua ação poderia incluir nossas mentiras e impurezas pessoais, nossa deficiência em amar e nosso malogro em fazer o bem. Suponha que Deus decrete que hoje, à meia-noite, todo mal será removido do universo — quem de nós ainda restaria aqui depois da meia-noite?"
- Constatação da realidade: nenhum de nós estaria aqui!

Sejamos claros a respeito disso: criar um universo no qual Deus praticasse a justiça iminente e total teria um aspecto adverso, pois, dessa forma, não haveria nenhum ser humano que pudesse habitar o universo. Se não fosse pela cruz, você e eu seríamos casos perdidos e desapareceríamos. Fim do espetáculo! Deus seria o único que restaria! Afinal, cada umde nós cometeu alguma maldade, quer por permissão quer por omissão, seja por palavra, seja por obras, seja por pensamentos. Então é por isso que Deus não elimina, de imediato, todo o mal!

Talvez pudesse haver outra alternativa

O que aconteceria se Deus lidasse com o mal de outra forma: não extinguindo, de maneira instantânea, todos os seres humanos, mas apenas impedindo-os de pecar um momento antes que assim fizessem? Tal cenário seria possível?

Isso significaria que Deus, no momento exato, poderia parar o carro do motorista bêbado, evitando, desse modo, que ele batesse no ônibus cheio crianças em idade escolar. Até mesmo antes disso, Deus poderia ter evitado que o homem ficasse bêbado ou tê-lo em seu caminho para a loja de bebida, a fim de que ele nem mesmo fosse tentado a embebedar-se mais tarde.

No momento exato, Deus poderia desviar a bala do futuro assassino para que a mulher, que estava sendo atacada, sobrevivesse ilesa, ou quem sabe até de maneira providencial ter operado na mente desse homem para que ele nem sequer cogitasse em comprar uma arma. E mais, alguém pode argumentar que antes de tudo, Deus poderia ter interferido em seu coração a fim de exterminar alguma hostilidade subjacente que o faria querer atirar em alguém. Até mesmo, pouco antes de o marido abusivo ofender com palavras a esposa, Deus poderia entorpecer sua boca, garganta e língua para que não pudesse dizer uma palavra sequer (pelo menos, até que se acalmasse). Ele retiraria o impedimento apenas quando o homem estivesse em um estado mental saudável. Alguém poderia também argumentar que Deus, de maneira providencial, poderia operar na vida do homem para que tivesse pais amorosos que lhe dessem uma educação saudável e que lhe fornecessem bons exemplos de relacionamento interpessoal. E essas possibilidades são intermináveis.

Você consegue perceber onde quero chegar? Enfim, esse cenário significaria que o ser humano não seria livre para fazer escolhas de longo alcance, e, se Deus impedisse todo mal antes que ele se manifestasse, nossa responsabilidade pessoal desapareceria. Até mesmo o mundo seria mais imprevisível, pois nunca saberíamos quando Deus se manifestaria inesperadamente, sem que pudéssemos prever, a fim de intervir nos negócios humanos. Tal mundo seria um caos.

Deus ainda não Terminou Sua Obra

A Escritura deixa bem claro que Deus ainda não terminou sua obra. É um erro comum concluir que Deus não está lidando com o problema do mal, pois, definitivamente, Ele, no momento presente, ainda não tratou de uma vez por todas desse assunto. A conduta definitiva de Deus em relação ao mal ainda está no futuro.Peter Kreeft, filósofo cristão, sugere que:
"desde que a solução é futura, ela é ainda não está definida. Estamos na história, porém apenas o fim da história esclarecerá o resto dela; da mesma maneira como apenas a conclusão de um argumento esclarece por que aquelas premissas foram escolhidas".
Quando lemos um bom romance, muitas vezes não entendemos tudo o que está acontecendo na história até o fim do livro. Esse é o momento em que nossa perspectiva da história fica completa. É quando dizemos: "Ah, agora eu entendi!" Da mesma maneira, um dia no futuro, chegaremos ao último capítulo da história da humanidade e tudo ficará claro para nós. Kreeft explica:
"Nesse dia, o mistério do sofrimento e o mais profundo mistério em relação ao pecado e sua origem, como também da morte, serão esclarecidos, não apenas em teoria, mas na prática;não apenas explicados, mas removidos. Deus juntará os pontos soltos da dilacerada tapeçaria da história, e essa trama, que hoje parece ser um entrelaçamento desvirtuado, surgirá como uma obra-prima de sabedoria e beleza."
Robert Morey, da mesma maneira, sugere que Deus lida com o problema do mal de modo progressivo e que sua obra não estará concluída até o futuro Dia do Julgamento. Morey, ao dirigir-se a um ateísta, argumenta:
"Você presume que Deus pode resolver o problema em apenas um único ato. Mas por que Ele não pode tratar do assunto do mal de uma maneira progressiva? Por que Ele tem a obrigação de tratar desse assunto de uma vez por todas? Será que Ele não pode lidar com isso do começo ao fim dos tempos, como nós conhecemos o tempo, e depois atingir o ápice no Dia do Julgamento? Você assume que a única maneira de Deus lidar com esse problema é por meio de em um único ato. Essa é uma suposição errônea de sua parte. Não estou dizendo que o mal não existe mais. Digo que Deus resolverá o problema, em estágios."
Tudo isso, é claro, fala da necessidade de haver fé agora. Visto que o crente sente-se confortável no corpo e afastado do Senhor (2 Coríntios 5.8), ele deve viver neste mundo caído, pecaminoso e temporal pela fé, não pela vista (5.7). Focar apenas no que é visível leva a uma compreensão distorcida da dor e do sofrimento do ser humano. Tal perspectiva, conforme Salomão descreve em Eclesiastes, é uma reminiscência da existência humana "debaixo do sol", que resulta em falta de significação e em desespero (Eclesiastes 1.2,14; 2.1,11,15,17,19,21,23,26; 3.19; 4.4,7).Apenas ao focar nas realidades não-visíveis do reino espiritual e da glória futura estaremos aptos para colocarmos a dor e o sofrimento na perspectiva apropriada.

Até que tudo termine, Deus Impõe Limites ao Mal

Embora a última solução de Deus para o problema do mal esteja reservada para o futuro, Ele toma desde já, medidas para assegurar que o mal não fique totalmente desenfreado. Considere:
•Deus nos deu autoridades humanas para que possamos resistir à ilegalidade (Romanos 13.1-7); 
•Deus fundou a igreja para que seja uma luz em meio à escuridão, para fortalecer o povo de Deus e para, por meio do poder do Espírito Santo, ajudar a impedir o crescimento da perversidade no mundo (1 Timóteo 3.15; At 16.5); 
•Deus nos deu a unidade familiar para estabilizar a sociedade (Provérbios 22.15; 23.13); 
•Deus, por meio de sua Palavra, deu-nos um padrão moral para nos guiar e nos manter no caminho da retidão (Salmos 119); 
•Deus prometeu um dia futuro de prestação de contas em que toda a humanidade enfrentará o Juiz divino (Hebreus 9.27). Para os cristãos, esse dia futuro funciona como um impedimento à prática de atos maus.
Conclusão:

Esse pode ser um bom momento para que todos nós, por alguns minutos, meditemos sobre a maravilhosa paciência de Deus. Afinal, se não fosse por sua grande paciência, nenhum de nós estaríamos aqui. Todos já teríamos sido julgados e executados. Além de não nos julgar instantaneamente, Deus, de maneira paciente e misericordiosa, nos dá a oportunidade de receber o dom gratuito da salvação para que possamos viver para sempre com Ele no céu.A paciência de Deus fica óbvia em muitas passagens bíblicas. É útil meditar sobre esses versículos, pelo fato de que eles não apenas nos ajudam a ver por que Deus não faz julgamento imediato de todo mal em nosso mundo, como também nos auxiliam a ser gratos por Deus não julgar sem demora nossas maldades. Eis aqui alguns versículos favoritos:
•O Senhor é tardio em irar-se, mas grande em força (Números 1.3a); 
•Convertei-vos ao Senhor, vosso Deus; porque ele é misericordioso, e compassivo, e tardio em irar-se, e grande em beneficência e se arrepende do mal (Jeremias 2.13); 
•Mas tu, Senhor, és um Deus cheio de compaixão, e piedoso, e sofredor, e grande em benignidade e em verdade (Salmos 86.15); 
•Passando, pois, o Senhor perante a sua face, clamou: Jeová, o Senhor, Deus misericordioso e piedoso, tardio em iras e grande em beneficência e verdade (Êxodos 34.6); 
•O Senhor é longânimo e grande em beneficência, que perdoa a iniqüidade e a transgressão (Números 14.18a); 
•Por amor do meu nome, retardarei a minha ira e, por amor do meu louvor, me conterei para contigo, para que te não venha a cortar (Isaías 48.9); 
•O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; mas é longânimo para convosco, não querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se (2 Pedro 3.9).
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Por Ron Rhodes,  preside o Reasoning from the Scriptures Ministries (Ministério de Fundamentação das Escrituras), é Mestre e Doutor em Teologia pelo Seminário Dallas Theological. Rhodes é conferencista, palestrante e também autor de vários livros editados pela CPAD.
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