domingo, 13 de setembro de 2015

A Parábola do Joio

Propôs-lhes outra parábola, dizendo: O reino dos céus é semelhante ao homem que semeia a boa semente no seu campo; mas, dormindo os homens, veio o seu inimigo, e semeou joio no meio do trigo, e retirou-se. E, quando a erva cresceu e frutificou, apareceu também o joio. E os servos do pai de família, indo ter com ele, disseram-lhe: Senhor, não semeaste tu, no teu campo, boa semente? Por que tem, então, joio? E ele lhes disse: Um inimigo é quem fez isso. E os servos lhe disseram: Queres pois que vamos arrancá-lo? Ele, porém, lhes disse: Não; para que, ao colher o joio, não arranqueis também o trigo com ele. Deixai crescer ambos juntos até à ceifa; e, por ocasião da ceifa, direi aos ceifeiros: Colhei primeiro o joio, e atai-o em molhos para o queimar; mas, o trigo, ajuntai-o no meu celeiro. (Mateus 13:24-30, ACF)
1. O próprio Salvador explicou essa parábola no mesmo capítulo, mediante solicitação de seus discípulos, e disse: O que semeia a boa semente, é o Filho do homem; e o campo é o mundo; e a boa semente são os filhos do reino; e o joio são os filhos do maligno; o inimigo, que o semeou, é o diabo; e a ceifa é o fim do mundo; e os ceifeiros são os anjos. Esses sete pontos de explicação compreendem e claramente apresentam o que Cristo quis dizer com essa parábola. Mas quem poderia ter descoberto tal interpretação, visto que nessa parábola ele chama as pessoas de semente e o mundo de campo, embora tenha, na parábola anterior a essa, definido a semente como sendo a Palavra de Deus e o campo as pessoas ou o coração das mesmas? Se Cristo mesmo não tivesse interpretado essa parábola, todo o mundo teria imitado a Sua explicação da parábola precedente, e considerado a semente como sendo a Palavra de Deus, e assim, o objeto e o significado pretendido pelo Salvador teria sido perdido.

2. Permita-me fazer uma observação aqui, para o benefício do sábio e erudito que estuda as Escrituras. Imitação ou suposição não são permitidas na explicação da Escritura; mas a pessoa deveria e deve estar certa e firme. Assim como José em Gênesis 40:12s interpretou os dois sonhos do copeiro e do padeiro tão diferentemente, embora se assemelhassem, e não fez de um a cópia do outro. É verdade, o perigo não teria sido grande se a semente fosse interpretada como a Palavra de Deus; mesmo assim, tivesse esse sido o caso, a parábola não teria sido entendida corretamente.

3. Ora, esse Evangelho nos ensina como o reino de Deus ou o Cristianismo acontece no mundo, especialmente por causa do seu ensino, a saber, que não devemos pensar que somente os cristãos verdadeiros e a pura doutrina de Deus habitarão sobre a terra; mas que deve haver também cristãos falsos e hereges, para que os cristãos verdadeiros possam ser aprovados, como S. Paulo diz em 1Co. 11:19. Pois essa parábola não trata de falsos cristãos, que são tão artificiais em suas vidas, mas daqueles que são anticristãos em sua doutrina e fé sob o nome de cristão, que belamente desempenham o papel de hipócrita e causam danos. É uma questão da consciência, e não da mão. E eles devem ser servos muito espirituais para serem capazes de identificar o joio entre o trigo. E a suma de tudo é que não deveríamos nos maravilhar nem ficarmos aterrorizados, se entre nós se espalham muito falso ensino e falsa fé. Satanás está constantemente entre os filhos de Deus (Jó 1:6).

4. Novamente esse Evangelho ensina como deveríamos nos conduzir para com esses hereges e falsos mestres. Não devemos extirpar, nem destruí- los. Aqui ele diz publicamente para deixar que cresçam juntamente com o trigo. Temos a ver aqui apenas com a Palavra de Deus; pois nessa questão, aquele que erra hoje pode encontrar a verdade amanhã. Quem sabe quando a Palavra de Deus pode tocar o seu coração? Mas se ele fosse queimado na estaca, ou destruído de outra forma, poderíamos nos assegurar que nunca descobriria a verdade; e dessa forma, a Palavra de Deus é arrebatada dele, e se perde aquele que poderia ter sido salvo. Daí, o Senhor diz aqui, que o trigo também seria arrancado se fôssemos tirar o joio. Isso é algo terrível aos olhos de Deus, e nunca pode ser justificado.

5. Disso observemos quão extremos e furiosos temos sido esses muitos anos, ao desejar forçar outros a crer; recebendo turcos com espada, hereges com fogo, judeus com morte, e erradicando assim o joio com o nosso próprio poder, como se fôssemos aqueles que podem reinar sobre os corações e espíritos, e fazê-los piedosos e justos, algo que somente a Palavra de Deus pode e deve fazer. Mas com assassinatos separamos o povo da Palavra, de forma que não possa operar sobre eles; e trazemos assim sobre nós mesmos um duplo assassinato, até onde reside em nosso poder, a saber, em que matamos o corpo no tempo e a alma na eternidade, e com isso dizemos que fizemos um serviço a Deus pelas nossas ações, e desejamos merecer algo especial no céu.

6. Portanto, essa passagem deveria com toda razão aterrorizar os grandes inquisidores e assassinos de pessoas, mesmo que tivessem que lidar com verdadeiros hereges. Mas no presente eles queimam os verdadeiros santos e são eles mesmos os hereges. O que é isso senão arrancar o trigo, pretendendo estarem exterminando o joio, como pessoas loucas?

7. O Evangelho que lemos hoje também ensina com essa parábola que nosso livre-arbítrio equivale a nada, visto que a boa semente é semeada apenas por Cristo, e Satanás pode semear apenas a semente do mal; como vimos também que o campo de si mesmo produz somente joio, que o gado come, embora o campo os receba e fique verde, como se fossem trigo. Da mesma forma, os falsos cristãos entre os verdadeiros não são de nenhuma utilidade, senão para alimentar o mundo e ser comida para Satanás, e são tão belamente verdes e hipócritas, como se fossem apenas os santos, e mantém o lugar na Cristandade que pertence a eles; e por nenhuma outra razão senão esta: eles se gloriam de ser cristãos e estar entre os cristãos na igreja de Cristo, embora vejam e confessem que vivem vidas ímpias.

8. Nisso o Salvador retrata aqui também o espalhamento que Satanás faz de sua semente, enquanto o povo dorme, e ninguém vê que o fez, e mostra como Satanás se adorna e se disfarça para que não seja tomado como Satanás. Como experimentamos quando o Cristianismo foi plantado no mundo, Satanás colocou no meu meio falsos mestres. As pessoas pensam aqui com segurança que Deus está entronizado sem um rival, e que Satanás está à milhas de distância, e ninguém vê nada exceto como eles ostentam a Palavra, o nome e a obra de Deus. Esse curso se prova belamente eficaz. Mas quando o trigo cresce, então vemos o joio, isto é, se formos cuidadosos com a Palavra de Deus e ensinarmos a fé; vemos que ele produz fruto, então vagueia e o antagoniza, e deseja se assenhorear do campo, e teme que somente trigo cresça no campo, e seus interesses sejam ignorados.

9. Então a igreja e o pastor se assombram; mas não lhes é permitido fazer julgamento, e avidamente desejam interpretar tudo como bom, visto que tais pessoas portam o nome de cristãos. Mas é evidente que elas são joio e semente perversa, se extraviaram da fé e caíram, confiando nas obras. Os santos lamentam por causa disso diante do Senhor, orando com sinceridade de espírito. Pois o semeador da boa semente diz novamente, eles não devem arrancar o joio pela raiz, isto é, devem ter paciência, e suportar tal blasfêmia, e encomendar tudo a Deus; pois embora o joio estorve o trigo, todavia, o primeiro torna o último mais belo de se contemplar, comparado com o joio, como S. Paulo também diz em 1Co. 11:19: “E até importa que haja entre vós heresias, para que os que são sinceros se manifestem entre vós”. Isso é suficiente sobre o texto de hoje.
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Por Marinho Lutero
Fonte: Complete Sermons of Martin Luther, Volume 1, p. 100-104
Tradução: Felipe Sabino
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